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Nenhures

Nenhures

Nem uma lágrima pelo Cabo Delgado

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Nem um suspiro pelo Cabo Delgado, quanto mais uma lágrima ...

No sábado um amigo em Maputo, lusomoçambicano que durante anos foi jornalista em importantes jornais em Portugal e, depois, em Moçambique, partilhou no seu mural de facebook a notícia de mais uma emboscada nas estradas de Cabo Delgado, a qual causou dez mortos, com três sobreviventes que conseguiram fugir para o mato. Um dos mortos era irmão de um seu conhecido. Ao seu postal, que publicou "para ver se o mundo acorda um bocadinho para esta inexplicável guerra que está a decorrer na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, desde Outubro de 2017", juntou várias fotografias dos túmulos dos assassinados pelos guerrilheiros. No meu mural de FB partilhei o seu postal e fotos, tal como várias outras pessoas o fizeram, exactamente com o mesmo objectivo, dar visibilidade a esta desgraça crescente. Nessa mesma semana as notícias mostraram efeitos de mais um ataque guerrilheiro a Mocimboa da Praia, com relatos de inúmeros militares mortos - até de um oficial superior - e da população em fuga. Desta ouvem-se, em registos áudio,  relatos de sevícias praticadas por guerrilheiros e de desmandos por parte da tropa regular. Uma refugiada de Mocimboa descreve com detalhe a situação, explicitando que os guerrilheiros "vêm para matar, nem avisam" e que os soldados pilham, dizendo-os, em frase extraordinária, "os novos insurgentes".

Quase todos os dias vejo no FB, em páginas individuais ou colectivas de moçambicanos, notícias e filmes sobre as atrocidades que vão decorrendo no Cabo Delgado. E muitas outras me chegam via Whatsapp. Na última semana chegaram-me, por esta via, filmes de inúmeros cadáveres dos chamados "insurgentes". A lógica, explícita nas palavras de um soldado audível num desses filmes, é mostrar aos revoltosos, e à população, que eles são abatíveis, que nem as notícias das suas baixas são mera propaganda estatal nem eles são invulneráveis - e mesmo que não tenha ainda ouvido falar da crença entre estes insurgentes da sua invulnerabilidade convém lembrar que essa é uma hipótese, dado que a crença na imortalidade mágica dos combatentes grassou no norte de Moçambique nos últimos anos da guerra civil, há trinta anos. 

Mais uma vez partilhei - via Whatsapp - com alguns amigos que têm ligações a Moçambique (ou nacionais ou portugueses que lá viveram) as notícias que recebera explicitando que não reenviava os filmes por serem excessivos, macabros. Dois desses amigos, mais vividos, pediram-mos e assim lhos reenviei. A resposta de ambos foi imediata e coincidente: "não os partilharei", tamanha a comoção que haviam tido. Mas, de facto, logo encontrei essas imagens no facebook na página Pineapple News, animada por um conjunto de jornalistas e amadores moçambicanos, vários dos quais estão nas províncias do norte do país.

Em 29 de Janeiro de 2018 eu, já cansado de notícias sobre a eclosão deste movimento, aqui publiquei este postal Guerrilha Islâmica em Moçambique - reproduzindo um filme entretanto desaparecido que continha declarações pró-sharia de guerrilheiros encapuçados. Eu conheço o país, nele vivi, conheço aquele norte. E muito fui resmungando desde a década passada, em privado pois isto é matéria sobre a qual não se especula em espaço público, sobre as possibilidades da eclosão deste tipo de conflito. Mas não tinha, nem tenho, quaisquer fontes privilegiadas. Ou seja, não era preciso ser nem druida nem agente de informações para prever coisas destas, nem o é para acompanhar, desde há dois anos e meio, este processo.

Ontem, numa magnífica noite de verão, jantei com amigos aqui ao ar livre, no retiro bucólico em que venho envelhecendo. No final debatia-se, com veemência, as questões da arte e da (im)pertinência filosófica da chamada "arte contemporânea". Nesse entretanto recebi mais uma mensagem via Whatsapp, enviada por outro amigo de Maputo: uma ligação para um filme colocado naquela página de FB. Para não incomodar os convivas vi-o silencioso. Durante 2 minutos e 53 segundos um (presumível) guerrilheiro é linchado por um grupo de soldados. Aparentemente morre. Eu levantei-me fui ao interior da casa, servi-me de um uísque, liguei o som do telemóvel, comprovei que se tratava de  Moçambique, pelo português falado e seu sotaque. Bebi um seco. Servi-me de um outro, com gelo. E regressei à douta conversa. Ainda que pouco loquaz. Mesmo muito pouco.

Serei eu assim tão igual à "jornalista" que há um mês chorava pela morte de um cidadão norte-americano, esganado por um polícia? Tão igual aos seus colegas que não enchem primeiras páginas e aberturas televisivas com este assunto? Tão igual às turbas de manifestantes que então saíram às ruas clamando que as "vidas dos negros contam"? Tão igual aos pobres opinadores que "contextualizam" este silêncio - que é mediático, político e, acima de tudo, cultural - porque não há imagens das violências enquanto o cidadão Floyd foi assassinado diante de um telemóvel?

Pois se a profusão de notícias, o relevo que lhes é dado, e as "indignações" que causam, dependem das imagens dos morticínios então entenda-se bem: sobre o Cabo Delgado há imensas imagens, imensos filmes, e há mortes em directo. Tudo disponível, em canal aberto. A jornalista "afrodescendente" não se comove com estas imagens? Nem os seus colegas? Nem os indignistas burguesotes? Nenhum cidadão português pergunta "o que fazer"? Para que serve a "relação privilegiada", a extraordinária diplomacia portuguesa - afadigada na preparação da "presidência"? Onde está a tão propalada "costela" moçambicana do PR? O legado anticolonialista oriundo de Moçambique patentado pelo nosso PM? E, já agora, para que serve a CPLP? Pois o silêncio, tonitruante, não é apenas dos "indignistas" profissionais ou dos jornalistas, preguiçando nas redacções. É também das elites políticas. Essas que andam há décadas a papaguearem "lusofonices".

As causas do conflito no Cabo Delgado serão várias e foram sendo caladas. Há três meses ainda se podia ler intelectuais moçambicanos dizerem que se tudo se resumia a actos de "mercenários ocidentais desempregados" ou dos "interesses americanos". O mesmo tipo de intelectuais que insultavam o meu colega moçambicano que, primeiro do que todos, ainda em 2017, aludiu a tensões étnicas na região. Diziam-mo a mim, não o esqueço, para minha contida repulsa. 

Causas várias haverá, internas, externas, no âmbito da consabida "maldição dos recursos naturais". E essa pluralidade das causas impede aquilo que a pobre jornalista chorona e os seus similares gostam: apontar o dedo aos americanos ("yankees", dizia-se), ou, vá lá, aos "ocidentais", e resolver-se o assunto, construir-se a narrativa. Que sirva de catapulta para o protesto "as usual". Não veste bem, esta narrativa? Então nem se enfatizam as notícias nem se protesta. Pois para quê? São só pretos, e coisas entre eles ...

E aqui sim, vejo o tal "racismo estrutural".

Seninho

Flashback Video: Johan Cruyff Assist for Seninho goal vs. World All-Stars

As décadas passam e vamos esquecendo. Seninho foi um magnífico extremo, rapidissimo e codicioso, com o grande defeito de jogar no F.C. Porto, quando este começou a ganhar títulos no final dos anos 1970. Foi um dos primeiros grandes emigrantes do futebol português, directo ao topo mundial de então - o milionário New York Cosmos, quando se começou a disseminar o futebol nos EUA. Era uma colecção de estrelas, na maioria já veteranas mas ele ainda no apogeu. Aqui está Seninho a marcar um grande golo após um toque genial do monumento Cruyff, num jogo contra uma selecção mundial.

Seninho morreu hoje. As minhas condolências a todos que, como eu, dele foram admiradores. E, claro, de modo especial, à sua família e amigos.

O manuseamento da História e o Racismo (2)

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Antes: O manuseamento da História e o Racismo (1)

4. Nesta matéria é interessante a superstição dos crentes. É como se as representações pictóricas do passado, monumentais ou não, tenham a capacidade mágica de transformar os passantes, aspergindo-os e assim impregnando-os com as malevolências em tempos desejadas (ou aceites) por aqueles que elas evocam. Cruzamos a estátua de um marinheiro de mentalidade medieval, de um cronista humanista, de um funcionário já renascentista? E logo nos tornaremos, de modo sonâmbulo que seja, epígonos das suas vontades e crueldades, mesmo daquelas que aquele nunca terá imaginado - mas nunca das suas qualidades, claro ... Isto nem é uma espécie de "totemismo d'hoje", é mesmo uma simplória redução do simbólico ao linear, a mero reflector de uma qualquer essência pré-determinada. 

Mas esse garimpo dos defeitos desses egrégios avós é selectivo pois o critério único, a pobre peneira, é mesmo uma desbragada orgia de um putativo "hoje em dia", nada mais do que uma redução das diversidades do passado e da actualidade aos trinados deste "festival da canção" contestatário. Desafinados coros trauteando a nossa maldade não só como excruciante como até ab ovo, como se genética e assim apenas minorável por quaisquer mesclas. De facto, torpes discursos racistas, de fedor "moçarabista", que saúdam o Bem sinalizando-o como de "cor" diferente, mais tisnada.

D. Henrique, o tal infante que o Estado Novo redescobriu e até retabulizou, é um verme escravista. Mas, por exemplo, Pedro, o 1º? A esse podemos visitar sem temores, a proximidade física não nos fará, subrepticiamente, adeptos daquela união que aquela disposição de mosteiro tanto alardeia, entre Estado e Igreja - ainda que não seja de bom tom aludirmos com menosprezo às vivências teocráticas de alguns dos nossos vizinhos, pois a única igreja verdadeiramente criticável é, como se sabe, a católica, dado que qualquer outra laicidade, iconoclasta ou não, é doutamente entendida como "racismo cultural". Nem a sua visão nos fará abjurar da república, desfraldando-nos Paivas Couceiros.  Olho o monumento a Pedro I, que por ciúmes mandou castrar o amante e por vingança matou com as próprias mãos o assassino da mulher - pobre agente que cumpria ordens régias - e lhe terá trincado o coração, dizia na colecção de cromos, porventura tendo-o degustado? Ficarei nessa visão qual Ventura a querer castrar, quimicamente que seja, os pedófilos e alongar indefinidamente as penas actuais, ou até mesmo - lá lhe chegará o dia, ao mariola -, a clamar pela cadeira eléctrica? Não, neste caso o monumento não é eficiente. Pois não me retira da república, nem me faz reclamar o vínculo homossexual como fidelizador, nem mesmo a pena de morte e o canibalismo. Mas folheio um livro de Pessoa, que terá alguns escritos menos actuais sobre negros? E logo em mim brotará uma volúpia agressiva, perseguirei com denodo os "afrodescendentes" que, assim vistos como malvados e impuros, me circundam.

Neste olhar sobre os monumentos é também interessante a união desta crença na eficácia mágica com a Física. Pois são condenáveis e injuriáveis aqueles itens que tenham proximidade física, quase palpáveis, estátuas de pequeno porte e curto pedestal, imagens impressas, livros ou mesmo filmes - pois ainda não chegámos às "intervenções" nos quadros expostos, reclamando o estatuto de sujeito político dos tais interventores, como dizem os desvairados Doutores desta gente, mas lá chegaremos, lá chegaremos ... Mas está o figurado algo apartado?, altaneiro ou ermo? Pois se assim, e devido a essa distância, as gentes não serão transfiguradas pelos  miasmas da peçonha maldosa, e ficam os monumentos, mesmo que gigantescos, resguardados deste afã purificador.

Ao de facto quase esquecido seiscentista levanta-se uma recôndita estátua à escala humana? Ergue-se a escritora - essa "democrata" que fotografa imigrantes acicatando as fúrias xenófobas da "esquerda" que apelam à expulsão dos brasileiros -, ululam académicos do eixo Forças Armadas/Berna, berram os da imprensa, chegam delegações de homens bons da província para apoiar a insurgência contra o malvado conivente com a escravização dos negros. (Infelizmente) Quase todos os anos juntam-se hordas do povo da Grande Lisboa, em delírios festivos, místicos até, no sopé do Protector Marquês? Esse que foi o grande planificador, o do grande fomento do comércio de escravaturas, e que serve ainda de argumento até ao patusco presidente Sousa para aldrabar a história do país? Nesse caso não há problema, pois a estátua é tão alta que não nos transforma em negreiros, nem os milhares de "afrodescendentes" guinchando enrouquecidos o estribilho "SLB" se reverão como os seus "afroantepassados", esses que incessantemente cruzaram o gigantesco continente raptando, pilhando, massacrando, transportando, vendendo no litoral a tipos de peles algo mais claras as suas "alteridades" (e tantas vezes as próprias "identidades") que gulosamente haviam transformado em objectos escravos. Ou seja, António Vieira não foi suficientemente original na luta contra a escravatura, condenam-no os Doutores de agora enquanto reclamam o bota-abaixo da estatueta que nos mantém quase negreiros e que tanto fere as sensibilidades dos "afrodescendentes" por cá residentes. Mas o malvado SLB é (mais uma vez) campeão? A malta toda, preta, branca, mulata, vai para o "Marquês" comemorar e ninguém dali sai transformado em negreiro pós-colonial ou em comovido, ferido, até choroso e acima de tudo explorado tetraneto de escravo.

E é a esta tralha de gente, e aos seus Doutores, que se dá atenção?

(cont.)

 

Rumo à sexta capicua

Neil Young & Crazy Horse - Hey Hey, My My ( Into the Black ) live 1991 HD

Lamento mas a minha quinta capicua acabou, resta-me a via para a sexta, se a Sorte me apoiar. Foi um "grand finale", nas belas primeiras sardinhas no Gafanhoto jagoz com a sunshine of my life, apple of my eye, como cantou o piroso Stevie, ela resguardada dos meus devaneios por trio de (nunca)tios da velha guarda olivalense, seguindo-se visita à minha mãe dela avó, encarcerada pela maldita gripe, meia hora mais bónus, e o retorno ao bairro matriz a acolher boa garrafa de vinho oriunda desse a quem comprei o meu VW nos anos 80s, além de uma antiguidade Chivas, advinda doutro desses vetustos, e mais seguimos a preencher a esplanada, já nossa desde os 70s, agregando parentela espiritual, conluiando-nos entre padrinhos e afilhados, terminando-nos em núcleo duro face ao frango take away regado de piripiri industrial e dos conteúdos das tais garrafas, e ainda de outras ....

Alguns deste nós já estavam na minha primeira capicua, todos na segunda. Nesta seguia eu ainda titubeante, mas já em alergia a tantos desses que então esvoaçavam alardeando "conceitos" de lavra própria, jargão da época, pateta gente que se queria iluminada pois pavoneando-se "dandy" julgando que para tal bastaria ser "blasé", e escorando-me eu nesta minha tribo, bem alheia a tais meneios. Depois as capicuas sucederam-se e a minha via seguiu por outros lados. Regresso agora a casa, à minha gente. Alguns vamos trôpegos, outros balançamos, até demais, caímos por vezes, até caídos seguimos. Há vezes em que nos morremos. Mas não nos meneávamos dantes. E não nos meneamos agora. É uma cultura, local, "tribal". Superior.

Sigo para a sexta capicua. Não com muita força. Mas sem meneios. E sem pinga de paciência para meneantes, aqueles dos ademanes. Os das culturas inferiores. E, mal de mim, também para aquelas dessas ....

 
 

O manuseamento da História e o Racismo (1)

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(Sé de Lisboa)

(para a CB, que com bonomia me diz avesso a consensos. Mas que está errada)

1. A Sé de Lisboa é um bom exemplo, o templo matriz, neste caso cristão, assente sobre o anterior templo, aqui islâmico. Sobreposições recorrentes por esse mundo afora. Mostrando como estamos assentes em memórias politicamente (re)construídas, mesclas históricas cuja depurações são (in)visíveis nos edifícios públicos, monumentos, na arte pública (no sentido de induzida por elites políticas), em marcos comemorativos, e na toponímia. Audíveis nas práticas advindas da ciclicidade imposta pelos calendários, nas expressões literárias e musicais privilegiadas, nas histórias de encantar (imaginar) que se contam aos mais-novos, ditas "educação". Mesmo a noção de "património" (cultural, histórico) preservável, até algo sacralizável, publicitável pois comemorativo e/ou armazenável, no âmbito da museologia, é ideia nova, oitocentista e muito discutida em XX e agora. Não apenas os itens mas mesmo os conjuntos. Parte da nossa Lisboa velha foi arrasada no terramoto. Mas a Paris que tanto se louva (e visita) foi arrasada em XIX para ser "alindada" e modernizada no molde que Bruxelas logo seguiu. Sob modalidades que arrepiariam as actuais sensibilidades "patrimoniais". Tal como a reforma da Alta coimbrã promovida pelo Estado Novo, já então assunto debatido. A "História", como matéria-prima de identidades próprias e por isso também das alteridades constitutivas, é sempre uma "amnésia organizada" e nisso um elencar do que deve ser preservado, celebrado, escondido ou arrasado. E o papel de uma historiografia autónoma e democrática, construída por historiadores e oriundos de outras humanidades, é o de complexificar essa "História", vasculhar e iluminar reminiscências, revivendo a miríade dos seus condimentos, assim temperando-a como forma de temperança nos seus usos, menos abrasivos, mais inclusivos. Ou seja, menos amnésias para mais justiças actuais e futuras.

Ou seja, se sabemos que a "História" é forjada isso não implica a miséria semântica de a pensar falsificada. Mesmo não reduzindo a historiografia a um instrumento político a "História" é-o, ainda que (desejavelmente) dotada daquela, em tempos célebre, "autonomia relativa". Dado que, como se diz, quem controla o passado controla o presente - que o futuro a todos escapa. Por isso quando surgem vozes convocando a revisão desses discursos sobre o passado convém não nos reduzirmos ao encanto com a redescoberta de hipotéticas novidades factuais, como se Schliemanns ou Champollions brotassem em cada mural de facebook. Pois trata-se de recalibrar ênfases, apurar cozinhados, assim religar grupos. Não estamos diante de um para sempre intangível passado mas sim do mais-que-tangível futuro. E assim o fundamental não são as boas causas propaladas, sempre infernais. Mas as lógicas discursivas, a sua coerência. E os objectivos dos locutores, única raiz no sentido de única razão de concordância. Enfim, o simples "quem fala?" e "para quê?".

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 2. Neste actual debate sobre o património histórico e simbólico, sobre a "História", logo se levantou a questão da devolução dos bens culturais (tangíveis). Em termos que demonstram a mera simplificação dos processos históricos. E, acima de tudo, o afã na diabolização de alguns agentes históricos e da demonização da sociedade portuguesa. A função é simples, a hiperbolização dos problemas sociais, a sobrevalorização da agit-prop. Que os políticos radicais que subsistem exactamente por esse vozear tonitruante, o populismo, a isso recorram é da "espuma dos dias". Mas que académicos, e renomados, se associem a isto? Em nome de uma qualquer causa? Isto não é uma minudência, é uma evidente exemplo da superficialidade, que não é histérica pois é, isso sim, interesseira.

Blogo há tanto tempo que até me surpreendo. Pois já tem 16 anos (!) este meu postal sobre a devolução à Etiópia do obelisco de Axum. Trata-se de algo normal, necessário, a ponderar de modo sistémico e com avaliação pontual. Mas o que a esta gente interessa não é temperar a História, com as ambivalências, contradições e complexidades de cada processo. É mesmo o estupor histérico de uma "nova História". E nesta, "higienizada", ser deles a "visão dos vencedores", pobre, complexada. Revanchista no caso de alguns locutores. Sãosebastianista no caso dos núcleos académicos, numa paupérrima, pois deveras masoquista, erotização do pensamento.

3. A polémica levantada pela estátua lisboeta de António Vieira, de 2017, colocada pela câmara e pela igreja católica, é bem denotativa da superficialidade das abordagens (sobre isso já botei este texto e este outro). Da simplificação da História, das suas personagens e contributos, e do que dela se pode fazer. Mas acima de tudo mostra a pobreza de reflexão, uma mimetização do estrangeiro, um frenesim de "estar na moda", de seguir o queiroziano "o que se passa em Paris" (agora nos EUA).

Mas mostra também uma monumental distracção sobre o processos de reconstrução da História através da manipulação estatal do espaço público. Académicos, jornalistas, escritores, activistas políticos eriçam-se com a pobre e esconsa estátua que glorifica o vulto das letras nacionais, porque, dizem, ela elide o Mal de que Vieira foi paladino ou, pelo menos, não-opositor. Há 400 anos Vieira não foi activista anti-escravização dos africanos e, em assim sendo, essa estátua é um objecto obscurantista e reprodutor da actual exploração dos "afrodescendentes".

Ora em 2016 nesta mesma cidade o mesmo poder político mudou o nome do aeroporto, edificação pública com muitíssimo maior visibilidade do que a tal estatueta, numa das tais utilizações da toponímia para construir a "História". Resmunguei-a "homenagem folclórica", dada a tendência lisboeta de não abandonar os nomes antigos (a "Praça do Comércio" é um símbolo disso). E irritei-me contra essa abjecta celebração.  Pois trata-se de uma descarada reconstrução da história deste regime, do seu partido socialista, e da sua progressiva autonomização enquanto espectro republicano face ao partido comunista durante o Estado Novo até mesmo à sua formação. E com isso se glorifica um homem que em pleno 1941 escrevia sobre Hitler: “O ex-cabo, ex-pintor, o homem que não nasceu em leito de renda amolecedor, passará à História como uma revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar, quando à vontade de um ideal se junta a audácia, a valentia, a virilidade numa palavra.” (Revista AR, 44, p.2, Junho de 1941). E isto não se trata apenas de um homem nas suas circunstâncias. Mas sim de um já oficial superior no quadro de umas forças armadas cujos oficiais, mesmo os apoiantes do Estado Novo (a esmagadora maioria então), se dividiam fluida ou explicitamente - algo que veio a marcar as posteriores linhas de promoção, mais uma coisa indita - entre "germanófilos" e "anglófilos". E mesmo depois Delgado nunca foi um "democrata" mas sim um aspirante a caudillo. 

Mas para estes "intelectuais" e estes "activistas", que agora dissecam a ambivalência e insuficiência actual do pensamento do seiscentista Vieira esta invocação e evocação de Delgado é insignificante, ainda que se afadiguem a gritar "fascista" ao prof. Ventura, a mais as suas tropelias com os ciganos. Aqui há atrasado, no tempo dos meus pais, Hitler promoveu o holocausto cigano - tão defendidos por parte destes locutores, que até elidem as acusações de "racismo" se um cigano mata um negro, ao invés do que fazem se o assassino é ... até desconhecido -, massacrou homossexuais - causa querida de tantos destes militantes, que até chegam a fundamentar as suas opções político-filosóficas nas suas apetências sexuais -, exterminou os militantes marxistas, de que estes são herdeiros, invadiu mundo afora até o conseguirem parar, e Delgado aplaudia e glorificava? Não é importante. A estátua de Vieira, e mais o tipo dos escuteiros, e o infante D. Henrique, e quejandas? Essas sim, escondem a verdadeira história do sofrimento e da opressão, reproduzem mentalidades exploratórias, discriminações negativas ...

Isto seria pungente. Se não fosse nojento. E mostra, acima de tudo, duas coisas: a questão de que se fala não é a sociedade portuguesa, é apenas uma mimetização da discussão americana e, como tal, precisa de encontrar materiais análogos para debate, devido à ininteligência e superficialidade dos seus locutores  - sobre essa superficialidade histriónica, tão atrevida que até se permite convocar um "apartheid" no Portugal actual já botei aqui.

E a segunda coisa, mais profunda, é óbvia: que por mais que anunciem afrontar a "identidade nacional" fermentada numa História obscurantista, há algo que não enfrentam. É a mitografia do partido socialista, sufragada na apropriação do espaço público. E porquê? Porque, como tanto o vêm demonstrando há anos, são dependentes ... Entenda-se bem, são clientes. "It's the economy, stupid" como dizem os gringos.

 

 

 

 

 

 

Botar Abaixo o Hemingway?

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

RGI (Reunião Geral Infarmed)

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[Fotografia de Horácio Villalobos (Corbis via Getty Images)]

 

Interessante relato na Visão da RGI (Reunião Geral Infarmed) de ontem: a "narrativa" levou um tiro no porta-aviões. Clama Costa que a ministra Temido afinal não é o máximo, que a dra. Freitas ("ide visitar os idosos, sede solidários") só atrapalha com a sua atrapalhação, que os sacanas dos doutores esparvoam quando se atrevem a que a culpa disto tudo afinal não é dos putos que festejam. E pontapeia os gajos dos hoteis e dos restaurantes para que se amanhem com a falta de clientela - que ele já fez o que tinha a fazer, até trouxe a Champions. Ainda por cima o mascarado Rodrigues fala-lhe em "segunda vaga" do covídio, sem o avisar antes, qual Centeno, num "ninguém me diz nada"? Barafusta que a "culpa não é minha", levanta-se, num adeusinho "que já se faz tarde", segue à sua vida e dá as costas àquela malta, ali deixada a entreolhar-se até um bocado aflita com a zanga do Chefe. Até o Sousa, que ainda julgava ser o presidente.

Crise no PAN?

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Parece que o líder do aparente ecologista PAN está a ser contestado pelas suas hostes. Não será particularmente surpreendente. O partido cresceu imenso nas últimas eleições, a reboque da vaga internacional de preocupações ecológicas. Mas logo desapareceu da agenda mediática e mesmo da política, e não só pelo seu real vazio substantivo - que melhor contexto para afirmação poderia pedir um partido ecologista do que uma pandemia com estas características de emergência e difusão?, e o qual desaproveitou completamente dada a sua efectiva inexistência. Pois também se tratou de um eclipse comunicacional devido ao carinho da imprensa pelo "boi de piranha" espicaçado pelo PS, esse composto de histriónicos racistas e de assessores de saias, e o jeito que dão às audiências publicitárias as atoardas desventuradas. 

Mas as causas fundamentais deste triste espectáculo - um partido ecologista a desagregar-se devido a questiúnculas  em plena pandemia é verdadeiro manancial para um "estudo de caso" de ciência política - são mesmo internas.  Há algum tempo aqui deixei mostra de que André Silva, o inopinado líder de partido parlamentar, não aparentava possuir nem pinga de elegância devido a completa ausência de clarividência de atitudes, face à sua boçal pose em reunião de deputados com o presidente Sousa. Um rústico, por assim dizer ... E ao saber-se hoje, na sequência do abandono do deputado europeu e de outros eleitos autárquicos, que também sai a deputada por Setúbal, Cristina Figueiredo, lembro a patética figura que a pobre fez quando se candidatou, uma coisa mesmo inenarrável, uma mulher ignorante e desnorteada, adornando-se com todos os tiques do aldrabismo. 

Enfim, a renovação do sistema política é mesmo necessária. Mas, como é mais do que evidente, não é com gente desta. E com este impensamento.

Dia da independência em Moçambique

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Hoje é o dia da independência em Moçambique. Na alvorada folheio alguns livros. O Eduardo White é sempre dito como figura-mor na literatura desde os 1980s, libertando-a da obrigação dos temas sociopolíticos, da agenda mobilizadora. Divergindo sobre o seu "eu", dores, amores e desamores. Mas ainda assim em 1987 ele escreveu Homoíne e leio-o hoje, no dia da efeméride. Depois do meio-dia beberei um uísque com ele, e resmungaremos, cada um à sua maneira, invectivando os vermes necrófagos:

"Os nossos mortos são muitos / são muitos os nossos mortos / dentro das valas comuns / e a terra está sangrando de repente, / tem sede e sangra lentamente / e tem espadas vivas e silvando como o vento / e muros altos estancando cada minuto do tempo, / os nossos mortos são muitos, / são muitos os nossos mortos / dentros das valas comuns / e há um enorme pássaro que se encanta, é o pássaro lento do esquecimento, pássaro de sangue, pássaro que se levanta / dos vermes que estão comendo os nossos mortos por dentro ..."

Voltaire & Lowry

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Leio que neste cerimonial contestatário também a estátua de Voltaire foi atacada, devido a que o filósofo investiu, in illo tempore, na Companhia das Índias francesa e até aceitou que baptizassem um navio com o seu nome. Encolhi os ombros mas, de facto, fiquei a remoer o assunto.  E noto-o pois no dia seguinte a ter sabido do acontecido de súbito lembrei-me que Lowry escreveu sobre um navio chamado Diderot. "Onde?", resmunguei ... Não me pareceu que fosse no Vulcão, e ainda por cima não o tenho comigo, pois levei-o para o confinamento para releitura - houve um tempo, não tão benfazejo assim, em que ele me foi Bíblia, felizmente amadureci e nisso tornou-se-me um Livro de São Cipriano - e por lá ficou neste meu interregno lisboeta.

Vasculhei as estantes e encontro-a, a tal navegação no Diderot "foi" naquele naco Através do Canal do Panamá (tradução da excelsa Ana Hatherly). E é extraordinário o início, logo na terceira página um monumento de profecia, tudo resumindo de tudo isto, tudo demonstrando sobre toda esta gente: 

" ... as fúrias em mercês. A sensação inenarrável inconcebivelmente desolada de não ter o direito de estar onde se está; as vagas da inesgotável angústia perseguidas pelo insaciável albatroz do eu. Há um albatroz, de facto."

Moles perseguidas pelo insaciável albatroz do ... nós. Do seu "nós", apenas isso, que julgam injustificado. Acima de tudo cada um incapaz de encarar o seu próprio albatroz, assim querendo exorcizá-lo nesta pantomina. Histriónica, que todos julgam poder sossegar-lhes esta desolação. Pobre crendice.

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