Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

Jorge Jesus à Atalaia

IMG_3732.JPG

O empregado do restaurante era flamenguista (tal como eu, claro) e, até eufórico com a minha tão fonética portugalidade, ofereceu-nos, a mim e ao meu colega, uma Original Antárctica (é estritamente confidencial o número das que a essa antecederam) quando começou o jogo (Avaí, 6-1). A esplanada é grande,dilui os clientes, mas ainda assim logo fui basto saudado, até por corinthianos, bahianos e mesmo por crentes no Confiança local. Tudo isto, claro, devido ao nosso Jorge Jesus ...

No dia seguinte, postura de maior gravitas, seguindo o que dizia aquele poeta das vizinhanças: a partir dos 50 a gente relê.

Carta para a minha filha devido ao atentado de Londres

0_Incident-on-London-Bridge.jpg

Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto não estou a ser o tal pai apenas velho e reaccionário, que decerto pareço. E não, não estou a ser apenas o tal pai que despreza, visceralmente, a turba de demagogos - quantos deles meu colegas antropólogos ou similares - sequiosos dos financiamentos socratistas ou quejandos, viçosos na estufa do "Choupal até à Lapa", de Telheiras ao Bairro Alto, e tão loquazes na defesa da "tolerância" e no ataque a nós-todos, "brancos" "ocidentais" (excepto eles próprios, porque homossexuais aka gays, guevaristas, "genderistas" ou tralhas semelhantes).

Quando te digo para não cederes ao politicamente correcto é para que possas pensar o mundo, nele actuar ou apoiar. Com sentido crítico. O que implica tino, imenso tino. E independência dos financiadores, burocratas estatais quase sempre.
 
E digo-te isto, comovido e até um pouco aflito - apesar do mim-mesmo que se vê rude pois experimentado, nada atreito a histerismos, mas pai -, ao ler esta notícia, a mostrar como aí nas universidades onde andas também vigora esta mentalidade, do medíocre e torpe "correctismo":
 
 
Minha querida, o problema não é o "Boris", goste-se ou não dele. O verdadeiro problema, horrível, é esta gente, vizinha, colega (até amiga) que faz por incompreender e esconder - por interesse, para ter ganhos económicos e estatutários, nos meneios e trejeitos em que se anima - que "tolerância" é sinónimo de "segurança". Urge afastar-nos deles. Que as polícias, em democracia, cuidem dos escassos guerrilheiros terroristas. E que nós, cidadãos, nos afastemos, combatendo-os, destes colaboracionistas "intelectuais".
 
Um beijo, muitas saudades.

Eu Sou o Desconforto!

expresso.jpg

bdc.jpg

"Eu sou o desconforto" (falta ao título jornalístico do Expresso o óbvio ponto de exclamação) não é apenas o catasfioresco trinado "rio-me de me ver tão bela neste espelho". É mesmo uma proclamação bíblica, a sublinhar uma desmesurada autopercepção.

Desde Bruno de Carvalho que o país não tinha uma personagem destas. A imprensa delira, as redes sociais fervilham. Alguns demagogos (ainda) rejubilam. Vem aí o Natal. Depois o delírio continuará. Até (nos) cansar.

 

Por um referendo nos Olivais

IMG_3589.JPG

 

A história é simples: a Câmara de Lisboa decidiu instalar a EMEL na freguesia de Olivais. Escolhendo um modelo todo desatento às características urbanísticas (espaciais e sociológicas) do "bairro". A presidente da Junta (PS) desde há anos garantira que sob sua presidência a EMEL nunca seria instalada, e disso também fez argumento de campanha eleitoral. Tudo isso foi varrido, e aí já está o processo de instalação do parqueamento pago. Com efeitos brutais na mobilidade/sociabilidade dos habitantes de tão peculiar freguesia. Para se justificar diz a presidente Rute Lima (entrentanto candidata à AR por Lisboa) que os opositores à EMEL são "comunistas", e assim segue ufana no desdizer-se.
 
Não se trata apenas da rapina económica (impostos e taxas) estatal. Nem só do alijar das responsabilidades camarárias na situação automóvel - nas últimas três décadas a construção imobiliária, de estações de metro, e o crescimento do aeroporto, nunca foram conjugados com o do estacionamento (parques ou silos).
 
É pior ainda: pois as instâncias camarárias foram forçadas a aprovar a realização de um referendo aos fregueses para decisão sobre a instalação da EMEL. E estão a protelar a sua realização enquanto vão instalando o parqueamento pago. Ou seja, não é pura irresponsabilidade camarária, não é pura demagogia dos políticos. É mesmo violação dos procedimentos legais democráticos. O partido do poder, no centro de Lisboa, a comportar-se assim. E o (empobrecido) cidadão que pague, cada vez mais. Sem qualquer racionalidade, sem considerações do impacto social destas medidas punitivas, sem procurar desenhar modalidades menos agressivas.
 
Hoje, sexta-feira, depois do horário de trabalho, às 19 horas, é de ir até ali à Encarnação/Olivais Norte, diante da sede da Junta. Para exigir a realização do referendo. E depois que a população freguesa diga do seu entender: se sim, se não, e como. Mas, acima de tudo, para ecusar que o poder político continue a tentar fintar o povo. Demagogicamente.
 
Por isso clamo: "De pé, ó vítimas da fome"! E lá estarei, ombreando com o "sal da terra". Contra esta gente.

A subserviência do PS (e do BE) ao patronato

Anteontem o Flamengo ganhou. Creio que a esmagadora maioria dos portugueses que gostam de futebol, polémicas à parte, dichotes esquecidos, torceram pelo Jesus e festejaram os feitos do peculiar e brilhante treinador. Benfiquistas e sportinguistas em particular, unidos na bola pelo JJ. Essa comunhão nacional foi logo saudada pelos políticos, PR à frente - e bem.

Talvez isso sublinhe ainda mais este episódio, que o Pedro Correia muito bem titula de "inqualificável". Esta semana na AR foi proposto um voto solidário com Bernardo Silva, acusado de racismo e castigado pela corporação inglesa de futebol (Liga), o colégio do patronato. A acusação é vil, a sentença injusta e os danos morais (e reputacionais) grandes. A arrogância patronal óbvia. Fui ler o texto da moção solidária com o jogador internacional - é absolutamente liso, sem "sub-texto", como tantas vezes estas moções têm. Diz da necessidade de combater o racismo no desporto. E salvaguarda Silva, dizendo da incorrecta acusação e sua decente personalidade - e quem tem ligações ao mundo do futebol (e na AR há quem tenha) sabe que isso é bem verdade, Bernardo Silva é um campeão muito peculiar, na sua robusta personalidade, que o torna particularmente querido. E, de facto, socialmente exemplar.

Mas o voto de solidariedade com o futebolista e de crítica ao patronato do futebol inglês foi chumbado. Pelo BE e pelo PS. A propósito de quê?, com que fundamentos?

Hoje, com toda a certeza, o secretário-geral do PS e tantos dos seus militantes mais conhecidos, andarão a louvar o outro campeão da bola, Jesus, a associarem-se à alegria do povo. Amanhã, caso o Manchester City ganhe troféus relevantes (a Liga dos Campeões, por exemplo), lá virá Costa fazer o mesmo, saudar Silva. E lá aparecerão nos jardins de São Bento, a coordenadora Martins e o sec-geral Costa em particular, a receberem a selecção antes do próximo Europeu. E, nesse dia, com toda a certeza se o Diabo não vier a tecer lesões, recebendo então Bernardo Silva, o magnífico jogador.

A hipocrisia desta gente é enorme. Tanta que até funciona quando é desnecessária, mero reflexo. Da sua natureza. Vil.

A Oeste do Canal (de Moçambique)

1-07dd6a7174 (1).jpg

 

(A Oeste do Canal: Textos Sobre Moçambique)

Se eu pudesse publicar um livro seria mais ou menos este. Há vários anos colocara na minha conta na rede Academia.edu uma colecção de textos. Agora mantive-lhe o nome mas mudei o conteúdo:

"A Oeste do Canal" é uma colecção de 64 textos meus escritos entre 2003 e 2017: apresentações de livros, textos para catálogos de exposições, comemorações de efemérides, textos para premiações de júris aos quais pertencera, artigos de jornal, notas de leitura sobre livros menos conhecidos, algumas cenas da vida do país, entre as quais breve análise das manifestações em Maputo. E, mais do que tudo, sobre amigos, vários dos quais escritos aquando da sua morte, forma de os ir lembrando.

Aos que se possam interessar: basta pressionar a ligação que acima deixo e gravar o pdf. Se depois ainda tiverdes a gentileza de ler ficarei muito agradecido.

O Gesto

IMG_3505.JPG

Muito faço este gesto. Não, não sou um "supremacista branco", mesmo que deteste visceralmente aquele partido tribalista do doutor Tavares, tão do apreço de alguns antropólogos portugueses (e até, para minha dor, de amiga antropóloga). E de quejanda tralha socratista.

Faço-o, ao gesto, expressando filosóficos "que pitéu!", "que belo uísque!!", "de chorar por mais ...". Ou coloquiais "na mouche", "óptimo!", "certo!", "impecável", "isso mesmo". Pois é esse o seu antigo significado, canónico, o tal galicismo "na mouche": "no alvo!, arqueiro". Ou seja, aquilo a que os que falam (e pensam) por onomatopeias clamam "OK".

Hoje há por aqui uns pândegos, senhoras finórias e rapazes de teclado espigadote, a interromperem as suas diárias loas a Passos Coelho, Portas, os liberais, e a alguns estrangeiros muito na berra, que me enchem o facebook mostrando-me gente conhecida e de várias cores a fazer o mesmo gesto. Meus colegas gestuais, por assim dizer.

psp.jpg

Querem, estes atrevidos, com isto convencer-me (e se calhar a outros) que os garbosos polícias foram em "arruada" a São Bento acompanhados do deputado André Ventura mostrar ao parlamento e respectivo governo que tudo está OK, que as suas políticas e atitudes são na mouche. De "chorar por mais".

A minha família proibiu-me de dizer palavrões no FB e no blog. Estou assim limitado. Ficam assim apenas subentendidas as práticas que recomendo às tais senhoras, tão passoscoelhistas, e aos (serôdios) rapazotes espigadotes. Quereis-me tomar como parvo? Ide ..

 

O "senhor doutor"

cgd.jpg

Um querido amigo, que no princípio de XXI brevemente me sofreu como professor e depois durante anos ombreou como colega, chega a Lisboa. Acorro, cruzo o Tejo, aos abraços saudosos (a gente não se beija, como os lisboetas "classe média" e [alguns] macuas rurais). Levo-o a almoçar a um bom restaurante no actual centro da capital, não muito caro mas daqueles de comida mui honesta (o bacalhau à Lagareiro estava decentíssimo e as iscas soberbas), e de serviço como "deve de ser", guardanapo de pano não puído, empregados sabedores e suavemente uniformizados, simpáticos sem intrusões. E, claro, sala de fumadores, para a "nipa" final. Sou ali, durante o almoço, e como sempre quando neste assim, o "mais-velho".

O empregado descobre-me "senhor doutor", a mim, ainda que cliente raro e não pródigo. E assim irei "senhor doutor" das azeitonas até à tal nipa escocesa, com simpatia. "Costumas vir aqui?", perguntam-me e pergunto-me, mas que "não", de facto há dois anos que ali não vou, e sempre fui com grandes amigos moçambicanos, nem tanto por coincidência, pois sítio, repito, "como deve de ser", assim refúgio para dias de cicerone.

Peço a conta. Faço questão disso, apesar do triste estado bancário, "noblesse oblige" diz o republicano. Trazem-me a máquina, entrego o simples cartão de débito. O qual ostenta o meu nome. O empregado, decentemente gorjetado, agradece e despede-se num "até à próxima". E acrescenta-lhe um "Senhor José ...".

Não há dúvida, um gajo da minha geração tem que deixar-se de coisas., republicanices ... E meter aquilo do "doutorzeco" no cartão bancário.

Do discurso correcto

thmann1900_braun.jpg

Releio-o mais ou menos uma vez por década. Cuidando de me depurar da versão de Visconti e da banda sonora que o filme lhe pregou. E também dos, tantos, textos que lhe são dedicados, agora inúmeros na internet, coisas desta época, mergulhados na (homos)sexualidade, louvando-a ou aludindo-a, e/ou na pedofilia, a esta vituperando ou dulcificando, neste caso classicizando-a. Enfim, canduras alheias, e a cada um a sua própria. Sob a minha a "coisa" do livro é-me outra, uma narrativa magnífica (que a velha tradução Europa-América não assassina, como tantas vezes aconteceu na história da editora). E esta temática:

"E ali estava ele sentado, o mestre, o artista que soubera ganhar a dignidade, o autor de O Abjecto, que de forma tão exemplarmente pura renegara a boémia e os recônditos turvos, denunciara qualquer simpatia pelo abismo e repudiara o repudiado, que subira tão alto que, cominando o seu reconhecimento e libertando-se de toda a ironia, se ajustara aos compromissos da fama, que desfrutrava de glória oficial, de um nome nobilitado, cujo estilo era modelo imposto às crianças na escola - ali estava ele sentado, de pálpebras caídas, só deixando de vez em quando escapar uma olhadela de viés, irónico e aflito, que depressa recolhia, e os lábios flácidos, desenhados a rouge, formulavam palavras soltas do discurso que o seu cérebro meio adormecido produzia pela lógica estranha do sonhos. 

Porque a beleza, Fedro, repara bem, só a beleza é divina e simultaneamente visível, e por isso ela é também caminho do artista para o espírito. (...)

Vês agora que nós, os poetas, não podemos ser sábios nem dignos? Que embarcamos necessariamente no erro, permanecemos necessariamente devassos e aventureiros do sentimento? A mestria do nosso estilo é mentira e logro, a nossa fama e respeitabilidade uma farsa, a confiança da multidão em nós, altamente risível, a educação do povo e da juventude pela arte, um empreendimento ousado, a interditar. Pois como podia prestar para educador aquele que possui uma tendência inata, incorrigível e natural para o abismo? Nós bem gostaríamos de o renegar para ganharmos em dignidade, mas, sempre que queremos desviar-nos, ele aí está a atrair-nos. É por isso que renegamos o conhecimento desintegrador, porque o conhecimento, Fedro, não tem qualquer dignidade ou severidade; é sabedor, compreensivo, indulgente, não tem posição nem forma: tem simpatia pelo abismo, ele é o abismo."

Thomas Mann, Morte em Veneza (1912) (Europa-América, 124-125).

O novo hotel brasileiro da Vila Galé

vila gale.png

 

Quando surgiu esta "onda Bolsonaro" gerou-se, por influência dos discursos brasileiros de então, uma onda contrária, invectivando-o fundamentalmente por ser anti-negros e anti-mulheres. Logo me pareceu uma abordagem descabida: o homem não iria legislar contra "negros" (o espectro "pardos/negros") nem contra mulheres. O que era (e é) de esperar é que rompa com políticas de "discriminação positiva", o que é debatível.

Mas o que logo pareceu óbvio é que a grande questão, e a mais importante sob o ponto de vista internacional, seria a sua política amazónica, tanto por declarações explícitas sobre a matéria como pela sua adesão ao totem "mercado". E, acima de tudo, pela importância nos seus apoiantes dos sectores "ruralistas". Entenda-se bem, a depredação ecológica e a refutação dos direitos fundiários das populações ameríndias, na Amazónia e não só, não é uma consequência desta abordagem política, é um projecto político por si só. Claro que então, e depois, isso foi muito (muitíssimo) menos abordado, tanto pela inexistência de movimentos amerindófilos como pelo estado sub-intelectual dos movimentos ecologistas portugueses mais mediatizados, os inscritos no espectro partidário.

Temos agora esta notícia sobre um projecto de explícita rapina dos direitos fundiários de uma população ameríndia. É algo mais do que esperado. A particularidade é que é levada a cabo por uma empresa portuguesa, o segundo maior grupo hoteleiro nacional, Vila Galé Hotéis. A reacção da sua administração à denúncia desta inaceitável acção (que foi descrita pela antropóloga portuguesa Susana Matos Viegas, profunda conhecedora daquela área), não é boçal. É sim um negacionismo estratégico, indigno de tão imoral. A única dúvida que este projecto levanta é a do estatuto da Vila Galé: será pirata, actuando por conta própria? Ou será corsária, devastando com o apoio do Estado português? Assim de longe julgo que será mesmo uma empresa bucaneira. Mas a ver vamos, se haverá reacção governamental que nos demonstre não só a inexistência de "carta de corsário" emanada como também a oposição efectiva (ou seja, com punições legalmente aceitáveis e economicamente penosas) do governo português a práticas destas.

Como portugueses pouco temos a dizer sobre as políticas brasileiras. Mas muito podemos dizer à Vila Galé. Evitarmos os 23 hotéis em Portugal e dos 8 que já têm no Brasil. Neles não fazer turismo ou organizar congressos, nem neles nos acolhermos para viagens laborais. Inclusive repudiando reservas que outros (em contextos laborais) nos façam nessas instalações. Explicitando a causa. E, claro, exigirmos ao nosso governo o explicitar do repúdio por tais gentes, bem como que as instituições estatais e municipais nunca sejam clientes nem apoiantes desta empresa.

Contra este projecto, ainda em deliberação pelo governo brasileiro, foi lançada uma petição. Subscrevê-la será bonito, simpático, uma espécie de suave ombrear com os que defendem direitos justos e tão dificilmente adquiridos e de ainda mais difícil manutenção. Mas não suficiente. Pois diante disto urge mesmo, sensibilidades políticas à parte, bradar "Que se lixe* a Vila Galé". E exigir que o nosso poder ouça o urro.

*Texto censurado por instâncias familiares.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.