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Nenhures

Nenhures

Pluto e o racismo

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Nas últimas eleições legislativas foram eleitas as duas primeiras deputadas negras em Portugal – o caso muito propalado de uma deputada negra “assimilada” nomeada durante o Estado Novo tardio, o do lusotropicalismo nas “províncias ultramarinas”, não tem nada a ver com isto, como qualquer pessoa com um pingo de intelecto pode entender.

Entretanto na última legislatura (e nesta também) foi escolhida uma mulher negra para o importantíssimo ministério da Justiça. Uso o superlativo pois a relevância do cargo foi potenciada – para a opinião pública – dado o caso “Sócrates”. Relevância que convocou a polémica, pois foi essa ministra (mulher negra, repito-o) a primeira locutora da substituição da Procuradora-Geral da República, por muitos vista (se bem ou se mal, é outra conversa) como um passo para o controlo das investigações judiciais sobre casos de corrupção no sistema político. E que, como tal, provocou acalorado debate no país. E, nesse, múltiplas invectivas à ministra.

Acontece que as críticas – o tal “escrutínio” –, seus conteúdos ou particulares intensidades, à ministra Francisca Van Dunem e os olhares sobre as recentes duas primeiras deputadas negras do país, Beatriz Gomes Dias e Romualda Fernandes, não têm convocado particulares indícios de racismo, nem a elas dirigidos nem aos partidos que as integraram.

Entretanto foi também eleita outra deputada negra, a terceira na história da Assembleia da República. A sua postura, pessoal e política, convocou atenções. Bem como a da sua “entourage”. Antes e em especial após as eleições. Por essa postura, pessoal e política, vem sendo bastante criticada.

Leio agora no Facebook duas pessoas, que normalmente botam com tino, reclamar com o racismo português, a este atribuindo o exarcebado “escrutínio” sofrido pela deputada Katar Moreira. Não reparam, pelos vistos. São imunes, talvez, ao comparativismo. Ou, se calhar, apenas ao que não lhes dá jeito aos pressupostos arreigados. São mesmo epígonas do deus Pluto, o cego e coxo bem-intencionado. Entenda-se, são manipuláveis.

Goebbels e o meu facebook

Após a segunda vaga de incêndios florestais de 2017 o governo PS ficou algo agastado com o morticínio, o óbvio desnorte da tutela, os efeitos da sua "reestruturação" dos serviços e, também, com o miserável "não me faça rir" de António Costa diante das seis dezenas de mortos iniciais. E para a isso obstar logo algum "fazedor de opinião" avençado lançou o isco: "a culpa é da lei Cristas". Isso teve impacto no meu Facebook: por via dos blogs eu tinha imensas ligações com gente que desconhecia, e de diferentes posicionamentos. E tamanho o asco que senti diante daquela atoarda que expurguei, cuidadosa e militantemente, todas as ligações-FB com a escória que andava a perorar esse argumento, partilhá-lo ou apenas "laicá-lo". Gente desconhecida, conhecida, amiga e até parentes. Foram dezenas, ou mesmo mais.

Vem isto a propósito do que agora sinto nas minhas "rações-FB" (feeds), qu'isto sobre Portugal me ficou bastante enviesado. Escassas são as loas à maioria ("ele" há-as ...), mas tenho aquilo pululando de venturistas. E ainda mais de quases ... E muito o noto nesta última semana. Pois, no meio do fervilhante "partilhismo" facebuquesco ("partilho"/"laico" logo existo, é o princípio racional actual), nem vi referências a este episódio brasileiro. O Secretário da Cultura brasileiro cita Goebbels, em encenação wagneriana. Ao sururu que isso provocou reclama que naquela visão se revê e como fundamento para a política cultural estatal do país (e lá é posto fora, tamanho o despautério). Veio ele incluído num manancial de nomeações culturalmente trogloditas daquele governo.

E os meus "amigos-FB", tantos deles tanto gritando loas ao Bolsonaro, guerrilhando nos ecrãs contra o "marxismo cultural" - que é tudo o que não venha recenseado na velha Selecções (aka Reader's Digest), ou perguntado no "Joker" do Palmeirim -, e vendo alguma iluminação para o futuro no tal comentador Ventura? Nada! Nem repararam, nem reparam. Nem tugem nem mugem. Dos doutores refinados aos iletrados que escrevem em maiúsculas e abreviaturas, num um pio. Pois que lhes interessa isso?, Goebbels a mais ou a menos, há que marchar contra a "ideologia do género" ou quejandos. Fascistas escondidos com a ténia de fora ... Meras bostas, entenda-se.

O "affaire Katar Moreira"

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"Grupelhos" é uma bela expressão, em desuso, em tempos utilizado dentro do "Partido" para descrever a tralha de múltiplos "m-l"s que por aí andavam. Os "radicais pequeno-burgueses de fachada identitarista", julgo que foi assim que Cunhal os intitulou. Nesse universo as pantominas de então foram muitas e devem ter sido "sanguinolentas". Mas não havia o mediatismo de agora, em que tudo é mostrado, sumarento ou bolorento que seja, e pouca memória ficou. [Estará quase tudo nos arquivos do geringôncico Pacheco Pereira, presumo].

As declarações de hoje de Katar Moreira são bem ilustrativas desse meio actual. Atacada no seu partido por aqueles a quem um deputado socratista, agora seu apoiante, reduz a "bovinos de ganadaria", defende-se dizendo que é vítima daqueles que usam "ódio". E avança que a candidataram por ser "negra" ["racializada", no castelhano actual] e "gaga", para ganhar votos por isso - ela é ainda mais radical na crítica, diz que queriam a "subvenção", o vil metal . Quando há meses os oponentes desta linha política racialista apontámos a demagogia de haver uma candidata obviamente por ser "negra" e "gaga", os adeptos do(s) grupelho(s) ofenderam-se. Afinal é a própria candidata-objecto que agora o afirma..

Mais do que o tétrico folclore das reuniões, escrutinado pelo feixe de "tv, rádio e cassete pirata", seria importante colocar um assunto à frente do "affaire Katar Moreira": na semana agora terminada uma série de acontecimentos, provocados pelo terrível assassinato de um estudante cabo-verdiano, mostrou à exaustão a total demagogia deste racialismo esquerdista, e a profunda desonestidade intelectual dos seus locutores "gramscianos". E isso é muito mais relevante do que se será o Ricardo Sá Fernandes ou a Joacine Katar Moreira a ter mais votos lá na reunião do grupelho.

Espero bem que alguns filhos de amigos e uma (ou outra) tão viçosa amiga possam compreender isto. Por outras palavras, a la western: que não se cavalga com bandoleiros sem se ser bandoleiro.

Racista eu? Dez vezes uma Katar ou um Ba do que a tropa toda dos Sá Fernandes e Tavares. E dos "gramscianos" socratistas.

Sporting-Benfica 2020

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Voltei a ir à bola, agora com familiares benfiquistas - um sobrinho cobrou-me uma promessa com 40 anos, alega ele, a de irmos juntos ao futebol. A terceira ou quarta vez dele num jogo, desportista nada dado a futebóis. Diverti-me. E muito com todo aquele ardor do petiz, sobrinho-neto lampião. Depois, lá pela segunda parte soltou-se a imunda ralé sportinguista, a turba das claques. Estava aquela gentalha algo perto, deu para lhes ver  as caras, notar os esgares irracionais, ouvir-lhes os urros. São compatriotas, inenarráveis e arrebanhaveis. No futebol ou alhures. Urge a repressão.

O resto são pormenores: o Benfica ganhou bem, tem melhor equipa, melhores jogadores. A nossa equipa é fraca, alguns jogadores nada por aí além, outros parecendo apardalados. Aquilo  não  vai bem, decerto. O treinador não sei, leio agora que quando entrou a equipa estava a 7 pontos da liderança. Já vai a 19. Deslizar que não lhe augura longo futuro no clube. A direcção falhou rotundamente, o presidente é voluntarioso mas é notória a sua incompetência e a incapacidade em se rodear de bons conselheiros. O clube - que é um clube movido a futebol - tem que escolher outra direcção, e o quanto antes. Já o disse aqui, seria o mais elementar sportinguismo ceder o lugar a quem possa fazer melhor.

Mas isso são pormenores. O pormaior é fazer sobreviver o clube. Conheço sportinguistas medianamente inteligentes, até bloguistas, que julgam que todos os sportinguistas são o Sporting. Raciocinam como se isto fosse um partido político, a precisar de votos. Mas não é. Um clube é uma comunhão de princípios, algo fluidos, e de objectivos. Uma comunidade. Esta turba não tem objectivos, nem sequer consegue reflectir - e por isso não vale a pena tentar argumentar racionalmente, pois nada pode apreender. Apenas quer festa, poder urrar em vitórias. E clama a falta dessas vitórias-viagras de que precisa para julgar ser algo, sentir qualquer emoção. Haverá entre ela alguns mais mariolas que têm remunerações nessa "economia de claque". Mas a maioria não tem, apenas tem, deseja, necessita, a remuneração do êxtase colectivo que supra a merda de vida que tem.

Ou seja, sim, é absolutamente secundário que o Sporting tenha perdido com o Benfica, que esteja a não sei quantos pontos, que não vá ganhar qualquer título, que se calhar (pelo andar da carruagem) nem se apure para as competições europeias. O relevante é mesmo decidir o que se quer do clube. Se um patético conglomerado abarcando este lumpen imundo. Ou se uma associação desportiva congregando cidadãos. Esse será o primeiro passo para um dia, porventura longínquo, o Sporting nos dar a alegria de ser campeão. De futebol, que do resto se vai ganhando, e muito. E sabeis porque se ganha noutras modalidades o que não se ganha no futebol? Ok, por causa dos árbitros, do Vieira, do Papa, do não-sei-o-quê, da Cofina, do Jorge Mendes, etc. Mas, acima de tudo, ganha-se nas outras modalidades porque os seus plantéis e departamentos não foram devastados pelas claques e porque não são geridas directamente por Frederico Varandas.

Ou seja, ampute-se o clube deste lixo. E mude-se a direcção. E depois o caminho far-se-á caminhando ...

 

O camarada secretário-geral

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Quando eu era puto não fazia ideia disso. Depois cresci e tudo passava tão rápido, era tudo tão rico, tão cheio, que nem pensei no assunto. Entretanto fiquei quarentão e um dia o meu pai morreu. Talvez tenha sido um bocado antes que tomei consciência. E logo depois percebi-o mesmo, aquilo de que ele era a pessoa mais importante na minha vida. Já lá vai quase uma década e faz-me falta (quase) todos os dias.
 
Hoje chegaria a casa, sentar-me-ia, ufano, "então pai, o camarada secretário-geral foi ao "Cristina"!?", e ele abanaria a cabeça, semicerrando os olhos, eu iria ao bar, beberíamos um pequeno rum (o meu algo maior) ou uma genebra (a minha dupla), e elaboraríamos sobre o "ao que isto chegou!". Eu cheio de razões e verve. Ele cheio de razão. Já plácida. Depois ele iria deitar-se. E eu beberia um uísque.

.

 

O pigmalião estafado

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(25. 10.19) A rábula na Assembleia da República mostra mesmo o estado da criatura do eixo Barnabé/Jugular: está deslumbrada. Vai ser uma orgia demagoga. Ao princípio divertirá os beatos daquela sacristia. Depois até a esses cansará. Entretanto estes joanasamaraisdias distribuirão alguns financiamentos. E aparecerão na tv.

 

 

Leio que a direcção do Partido LIVRE (um partido da esquerda moderada, o primeiro partido da esquerda portuguesa que não vem do marxismo, nas nada dúbias palavras televisivas do seu dirigente Ricardo Sá Fernandes, candidato do MDP/CDE em 1975 ["ele" há cada coisa!]), leio que direcção do partido LIVRE, dizia eu, se quer desvincular desta parelha. Cansaram-se depressa ... seguem já estafados. O sonho, demagógico, de ser pigmalião custou-lhes caro: o ridículo.

Imigrantes

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Apesar da recente campanha - que uniu políticos, jornalistas, colunistas e escritores - apelando à expulsão dos imigrantes brasileiros, o fluxo transatlântico continua. Nunca houve tantos brasileiros em Portugal - e presumo que o número real de imigrados seja maior, se contabilizando os que têm a dupla nacionalidade.

Sede bem-vindos a esta terra de emigrantes. E singrai.

A ética

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Ser conservador é isto: perceber que há valores imorredouros, bem para além das notícias (e entrevistas) que fazem a "espuma dos dias" das modas e "boas causas". Há os predestinados, que logo o pressentem. E os outros, nós, o vulgo, que compreendemos isto com a chegada da idade. E depois há os outros, tantos - coitados de nós -, que nunca o entenderão.

(Esta imagem da ética foi realizada em 1951 nas filmagens do "African Queen", de John Huston: galeria de fotografias aqui).

Um pai como deve ser

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(Postal para o És a Nossa Fé)

A  notícia está no Record, e será já do conhecimento de muitos. Mas aqui fica: um miúdo de nove anos, adepto do Atlético de Madrid, chorou aquando da recente derrota diante do Real  Madrid, naquele torneio das arábias. O pai escreveu-lhe esta carta (que abaixo transcrevo, traduzida, retirada do jornal). Um pai como deve ser. E seria bom que muitos dissessem também: "um vizinho como deve ser". Pois de Espanha também vem bom vento e bom casamento ...

"Gonzalo, filho, ser do Atlético é duro, vais entender isso. Fácil é ser do Barça ou do Real Madrid. Dá os parabéns ao Adrian ou a outro qualquer porque um dia vamos vingar-nos. 
O futebol é um sentimento. É um orgulho para mim que sintas tanto o Atlético. Mas o importante é estudar, amar quem te é mais próximo, ser uma boa pessoa ...
Não discutas por causa do futebol, ao fim ao cabo é uma maneira de nos divertirmos, de fazer amigos, de ser uma boa pessoa, que é o que me interessa, é dar os parabéns ao rival.
Se não fosse pelo Courtois teriam perdido, estamos mais perto do que eles pensam. Vais sofrer muito com o Atlético, mas quando ganharmos algo, vais desfrutar o triplo.
Adoro-te" 

Rebelo de Sousa em Moçambique

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O nosso Presidente está em Moçambique. Desde o primeiro dia, via Whatsapp, troco fotografias das suas andanças entre um largo núcleo de amigos, portugueses que lá viveram durante as últimas décadas. Conhecemos o país, os sítios visitados, interpretamos melhor as interpretações locais. O nosso desconforto é generalizado, alguns mesmo seguindo irritados. O resmungo com o populismo é até explícito. Uma querida, e tão clarividente, amiga, minha vera mana, resumiu tudo, num desalentado e nada leninista "que fazer?". De facto, nada podemos fazer diante desta pantomina que o nosso povo elege e adora.

Entretanto, no seu mural de Facebook o ex-bloguista João Gonçalves - o qual, que eu saiba, nem sequer conhece aquele país - explicita tudo, explicando o nosso desconforto: "E em Moçambique, o chefe do Estado a que deixou tudo chegar engraxa sapatos, corta cabelo e comporta-se como o filho caprichoso do antigo governador geral da Colónia que ele nunca deixou de ser."

As pessoas aqui, na sua maioria, não compreendem. Mas é isso mesmo. O festivaleiro desta visita. E, muito mais importante, o vácuo desta presidência. 

Adenda: logo me dizem que MRS é folclórico. Mas não é apenas, ainda que o seja, "folclórico". Disse o célebre filósofo que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Para quem conheça a história tardo-colonial em Moçambique são notórias as semelhanças entre a postura do antigo governador-geral - que era um Senhor, note-se, e de verdadeira grandeza humana - durante a "primavera marcelista", intentando mostrar um "colonialismo de rosto humano" (passe a expressão, que é glosa), um poder entendido como "relações públicas" assente na linguagem dos "afectos", mas que terminou como terminou (tinha historicamente de terminar, anacrónica injustiça que era) e a postura do seu filho, actual PR. 

MRS tem assim, desde o início, o projecto mais reaccionário - na velha expressão - da história da democracia portuguesa, o da "apolitização" da sociedade através desta pantomina "afectuosa" [já ninguém fala de "coabitação", de "consenso", de "estabilidade", de "bipolarização", todo esse jargão político presente nas presidências anteriores, que servia para tentar consensualizar o país. Agora já nem há essa abordagem, resta apenas a "selfiezação", "o abracismo", o marketing da a-conflitualidade]. É isto uma farsa, uma triste - e sem a grandeza, a densidade católica, do protagonista anterior - derrapagem. Antes tudo decorreu durante a "tragédia" de um final de regime. Agora não sei que corolário será o desta farsa. Que nada tem de projecto a não ser este folclorismo.

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