Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

16
Abr24

Cobrir os cabelos?

jpt

sic.jpeg

Há um punhado de anos o Sporting foi jogar ao Restelo. Às tantas o Rui Patrício chutou a bola, esta embateu num jogador do Belenenses e entrou na baliza. Pouco depois a publicidade da SAGRES - talvez patrocinadora do Belenenses - gozava um "Frango à Belém". Entre a massa adepta do SCP foi um frenesim de protestos e logo o anúncio - incompetente, pois ferindo a sensibilidade de largo espectro de consumidores - foi retirado. Passados todos estes anos continuo a não comprar SAGRES - bebo-a, decerto, em formato "imperial", mas nunca mais a comprei em lojas ou a pedi em restaurantes. É uma sorridente birra minha, diante de uma minudência irrelevante - o Rui Patrício continuou a sua extraordinária carreira, as agruras e sucessos do SCP independe(ra)m daquilo. Mas é a única reacção que podemos ter como consumidores diante de algo (não ilegal) que as empresas fazem e que nos agride ou desagrada. É pouco, claro, mas é a única arma possível. A outras marcas fiz o mesmo: as batatas fritas Lay's patrocinavam a Liga dos Campeões quando um árbitro russo roubou tanto o Sporting que até o director do clube alemão beneficiado lamentou a situação. Nunca mais comprei. E nunca na vida me passaria pela cabeça comprar azulejos Revigrés - que durante décadas financiou a clique de Pintos portistas cujo imensas aldrabices (e violências) faziam as delícias deste falso liberal Mayan Gonçalves - que anda para aí em bicos dos pés - ou do autarca Rui Moreira.
 
Vejo agora que ontem uma jornalista ("jornalista", note-se) da SIC foi entrevistar o embaixador do Irão em Lisboa e cobriu os cabelos. Desconheço o seu nome, não posso assim dedicar-lhe o insulto mais do que devido. Isto não é uma minudência da bola, não convoca uma "birra sorridente". É até mais do que um acto político, é uma questão de valores. Como é possível que uma mulher, profissional de comunicação em Lisboa, seja tão indigna? Já vi, há pouco tempo, aquela ordinária Catela a esfregar-se (literalmente falando) no então deputado socialista-maçónico José Magalhães, defendendo a lei censora (que veio a ser revogada) de que ele fora autor. E durante anos vi a inominável Câncio defender até à exaustão a tropa socratista. Mas nunca vira uma abjecção desta dimensão.
 
Compro uma Sagres, petisco umas Lay's. E prometo a mim mesmo que aos produtos (falidos, ao que consta) do doutor Pinto Balsemão não mais consumirei. É a minha única arma. Pois não tenho paciência para este tipo de mulheres ordinárias (eufemismo, devido à autocensura que a minha família me impõe). Nem para os seus proxenetas

15
Abr24

Beleza Feminina

jpt

kh.jpg

Uma jovem senhora - diante da qual eu procuro (muito provavelmente falhando) manter algum garbo - entra no meu escritório e avança para junto de mim, assim enfrentando o meu computador. Eu estou a percorrer, em modo célere, um rol de mensagens recebidas via Whatsapp. E assim ela depara-se com uma fotografia que consta de uma mulher, daquele tipo basto bojudo, nua, deitada de costas dentro da água do mar, para cá da zona de rebentação, esmiúço, numa posição que a tradicional ideologia machista denomina "oferecida" e a novel ideologia feminista presumo que denominará "agressiva"... A jovem senhora - que conhece e respeita o remetente - resmunga o seu desagrado. E a mim ocorre-me meter-me debaixo da minha secretária - se nela coubesse -, ainda que inocente e ali apanhado prestes a premir a tecla do "delir" ("deletar", dizem os grunhos).
 
Depois, muito pouco depois, já só, para mim murmuro um palavrão, daqueles peludos, invectivando os alguns amigos que me enviam estas tralhas, usualmente uma mescla saudosista ("ah, se fosse no meu tempo") humorística. Resmungo por duas razões:
 
uma universal - pois qualquer indivíduo que tenha acesso à internet pode consultar um ror quase infinito de imagens com mulheres de diferentes "raças, credos", formatos e poses. E até - sei-o de fonte segura - imagens de homens, que há quem as prefira. Ou seja, não é necessária a "partilha"...
 
a outra é particular. Tenho poucos livros sobre cinema, uns 20 ou 30 (sobre Clint, Fellini, Ford, alguns temáticos, outros históricos). E um deles é este, comprado em Joanesburgo nos anos 1990s. E a razão da compra foi simples: é Katherine Hepburn o meu ideal de beleza (e quantas vezes revi o Philadelphia Story!!!...) e não uma qualquer "Samantha Fox". E, já agora (apupem-me de machista, se quiserem, e talvez também de "sacristão"), não há nada tão bonito como uma mulher vestida...
 
Ou seja, queridos amigos, não me mandem estas tralhas, raisparta isto.

15
Abr24

Nas falésias

jpt

em inverness.jpg

 
No sentido "romântico" - como nos ensinam a sentir - na minha vida amei três mulheres. Por último, vera última vez, a mãe da minha filha, um amor perene, imorredoiro, não tendo eu sabido blindá-lo aos terramotos da vida. E demonstrá-lo...
 
E antes, anos antes, naquela nossa longa tardia adolescência, dedicando-me a duas vizinhas. Em confuso, pois alternado, monopólio de sentimentos. Nesse tempo seguia eu todo inepto por uma dupla razão: pois apenas uma década depois os Radiohead cantariam a "Creep" que talvez então, se nesse antes tão jovem, me tivesse sossegado, dado a conhecer-me, porventura libertando-me... E, muito pior, pois nesses anos havia eu encarnado uma tétrica mescla de Jack Barnes, de Hemingway, e do Fowler de Greene, um irremediável rumo à trôpega e atemorizada solidão.
 
E foi sob esses miasmas "literários", esse real temor da vida, que aos 21 anos segui em viagem com ambas, juntos ao querido amigo Luís (então sempre dito Ambrósio). Avançámos para um trabalho no norte da Escócia, ao que se seguiria uma incursão festiva a Barcelona.
 
Numa quinta perto de Inverness acampámos um mês, destinados à colheita de framboesa. Logo à chegada o capataz, um anglo-mexicano que agora imagino à imagem de um Santana já quase calvo, se apiedou das belas meninas e do meu delicado amigo, remetendo-nos para o mais suave trabalho fabril. Deixando-nos também escolher as tarefas diárias, eles assim sempre na algo repousada passadeira de selecção dos frutos, eu - evidentemente mais rude - quantas vezes remetido para serviços de carga no armazém frigorífico. O acampamento de trabalhadores sazonais era cosmopolita: os magrebinos tinham sido excluídos desde o ano transacto, dado a sua tendência para perseguir e violar as mulheres europeias. Abundavam os polacos, que os do Jaruzelski deixavam sair no Verão, nos seu Lada em busca de libras... E os cockney, de inglês incompreensível. Para além de norte mediterrânicos de diversos passaportes.
 
Elas, as minhas amadas, eram - deliciosamente - implacáveis: tive de me banhar todos os dias, mudar de roupa (e lavá-la), apesar da chuva constante todos os dias se cozinhava, e para suporte disso tínhamos uma tenda despensa (espanto de toda a comunidade residente). Ao fim do dia, quase sempre, saíamos da herdade, cruzávamos a estrada rumo ao "pub", onde eles os três arejavam e eu bebia "Cutty Sark" (recomendado pelos velhos locais) em doses algo imoderadas.
 
Aos sábados, única folga, íamos a Inverness. Um desses dias, e por mais apaixonado que estivesse - pelos três, elas e ele, de facto -, escapei-me deles, daquela pressão ordeira. E deparei com um alfarrabista. Um mundo - para um lisboeta daquela era - de livros, de viagens e de antropologia. A história foi recontada durante décadas, pois encontraram-me horas depois rua afora carregando uma pilha de "hardcovers". Escrevo ainda agora a uma braçada do que então trouxe, do Max Muller, de sei lá mais o quê, e mesmo à vista, dos de Margaret Mead ("New Lives for Old", "The Golden Age of American Anthropology" e, notem bem, e percebam porque tanto me rio destes de agora que descobriram o "género", do "Male and Female"). É desse dia esta fotografia, tirada pela Inês, eu, a Cristina, o Luís à nossa frente. E, na minha esquerda, um bocado da pilha de livros, a qual sempre desconfiei ser o motivo da fotografia (rara, como o eram então todas).
 
Depois o trabalho acabou, chegara o momento de partir para Barcelona. Ganhara-se pouco, e eu gastara demasiado, entre o referido Cutty Sark e os hardcovers. E não tinha dinheiro para os acompanhar. As meninas tinham algum extra, insistiram em partilhá-lo comigo e que seguissemos juntos. Eu sou um jovem, um miúdo ainda, mas já sei que um homem não aceita tal coisa. Pego na mochila, carrego os tais hardcovers, mais a pesada tenda checa que comprara a outro vizinho e sigo, ajoujado, à boleia em busca de trabalho nas quintas do Sul...
 
Estou hoje numas falésias atlânticas, onde tantos nos congregámos para celebrar a Cristina, que agora morreu, para mim inesperadamente, pois estava eu desavisado. Não choro, um homem não deve chorar em demasia. Distancio-me, estou a lamentar não ter ido a Barcelona naquele Verão, ter fruído mais uns dias daquele sorriso sagaz, do carinhoso bisturi que ela brandia. Minto, lamento não ter fruído mais dias do meu tamanho encanto. Entoo a "Creep", apenas para mim claro. O Zé G., sempre atento no seu jeito, chama-me lá de longe e diz-me, em falso sarcasmo, "não saltes". Eu não salto, claro, para quê?, se sinto já tanto de mim ter morrido...

13
Abr24

Rumo a Gáfete

jpt

1000064851.jpg

A um homem dizem-lhe estar com bom aspecto - "estás na mesma", jurou, palavra de honra, sinceramente, o Zé Maria, bom amigo moçambicano agora reencontrado e que não me via há anos - o médico deu-lhe o selo na revisão anual, sente-se em forma, animado - apesar das agruras -, até jovem nos alguns disparates que vai fazendo,...

e nisso aligeiro-me na alvorada, acorro ao casamento de queridos amigos (sim, um casamento de gente da nossa jovem idade), vou "rebel, rebel", eternos "sapatos de vela" nem bem engraxados, noto, e deixo a gravata em casa, e já antevejo a diversão, aquela do rejuvenescimento que sempre ocorre quando com os de Maputo,

e é com este sorriso mariola que aporto a Sete Rios, à camioneta que me transportará a Gáfete, ao Alto Alentejo, aos festejos do amor feliz, da vida, do futuro ambicioso. Na bilheteira a mulher pergunta-me "tem desconto?", despercebo-a sem me fazer despercebido, insiste "tem 65 anos?"...

Lá se me acaba o sorriso. Os planos de fim-de-semana. E o ânimo

11
Abr24

Passos Perdidos

jpt

1024.jpg

1. Não li nem lerei o livro que Passos Coelho apresentou, o colectivo "Identidade e Família – Entre a Consistência da Tradição e as Exigências da Modernidade". E como tal não o posso comentar. Nem quero. A minha indisponibilidade para a leitura tem uma razão simples: família, parentesco e identidade são temas centrais na antropologia. Sei que mesmo se estudando a disciplina há quarenta anos me falta ler muitos textos relevantes sobre os assuntos. Mas também sei, e exactamente pelo ror de leituras havidas, que não mais me iluminarei lendo autores como César das Neves ou Portocarrero de Almada - cujas mundividências desde há muito vêm apresentando na imprensa. Ou Guilherme de Oliveira Martins, já agora - cuja indigna defesa da censura, após o atentado à Charlie Hebdo e que aqui abordei, me cerceia qualquer curiosidade sobre o seu pensamento. Ou seja, não é com este rol pensante, mesmo que algo plural, que melhor pensarei sobre estes tópicos.

Lamento (mais uma vez) que entre os muitos antropólogos portugueses não haja "intelectuais públicos". Que tenham agora - exactamente por esse estatuto e essa vocação - a disponibilidade (e a paciência) para dissecarem as argumentações que o livro traz. Esclarecendo-nos, com sinopses das teses apresentadas e articulando-as com as suas raízes intelectuais e políticas. E, comparativamente, inserindo-as em polémicas similares, em especial se decorridas em países algo congéneres. Seria precioso esse olhar especializado, em especial se imune a derivas polemistas, o "activismo" - tão demagógico - que subjaz o opinar dos poucos colegas que costumam assomar à praça pública. Presumo que historiadores ou sociólogos - oriundos de corporações mais activas no discurso público - o venham a fazer, mas sem exercerem a especificidade do olhar antropológico sobre tais questões.

2. A minha falta de curiosidade nada tem a ver com algo contra os quais alguns clamam: que as críticas ou insensibilidades (apriorísticas) face à publicação de teses conservadoras procuram a ilegitimação da liberdade de expressão - queixas reforçadas face a uma dúzia de pategos "activistas" manifestando-se contra a publicação de um livro durante a sua apresentação, coisas do habitual cretinismo esquerdista... Sempre o digo, o problema radica na (in)compreensão da língua portuguesa, mesmo entre os letrados: pois uma coisa é o "dever de respeitar a liberdade de opinião" (publicada, neste caso), algo estruturante na nossa sociedade. Outra coisa, completamente diferente, é o "dever de respeitar a opinião". Pois todos podem opinar e publicar - e é inqualificável uma manifestação contra um livro curial. Mas ninguém é obrigado a aturar (ler, bem considerar) o que outros opinam e publicam.

Apenas avanço uma citação (longa, avessa ao frenesim do "scroll down") para contextualização do debate que surgiu sobre este livro dedicado - como o disse, com temperança, o apresentador Pedro Passos Coelho - à "idealização da família". Escolho-o porque se trata de um trecho de livro publicado em Portugal: o "Sociologia da Família" (Terramar, 1999) da grande antropóloga francesa Martine Segalen. Diz ela, no começa da introdução (p.9) do seu livro, centrado na sociedade francesa (mas não a esta limitado): 

"Quando o presente vai mal, reinventa-se o passado. A inquietação suscitada pelas rápidas mudanças que têm vindo a afectar a instituição familiar desde há mais de vinte anos leva ao sonho de uma idade de ouro perdida da família. Assim , na década de 70, só se falava de "enfraquecimento da família", de "famílias desfeitas", de "famílias em crise", que contrastavam com as sólidas estruturas de outrora. Era então frequente afirmar-se que a família tinha passado a limitar-se ao casal e respectivos filhos, que tinha perdido as suas funções "tradicionais", que tinha deixado de manter relações com os outros membros da parentela. Dando os pormenores dos elementos da "crise" da família, todos estavam de acordo quanto ao facto de a família ser um lugar que proporciona apoio efectivo aos seus membros. Numa sociedade desumanizada, a família surgia como um "bastião", uma "fortaleza" contra o mundo exterior submetido às duras leis do mercado, do racionalismo, do progresso técnico, etc. (...)

Nos anos 90, depois de quinze anos de queda das taxas de nupcialidade e de fecundidade, de aumento de coabitação e do divórcio, o discurso sobre a crise da família desapareceu, dando lugar a uma redescoberta da importância dos laços familiares e do peso da instituição  na sociedade moderna. Os media celebram novamente a família, sem compreenderem que esta já nada tem a ver com a instituição dos anos 50 e, a fortiori, dos períodos anteriores e falam com saudade das estabilidades matrimoniais e das generosas taxas de fecundidade de um passado próximo. 

A nossa análise do contemporâneo não poderá pois deixar de fazer referência ao que era a família de outrora; observar-se-á assim que o discurso sobre a crise da família não é novo, tendo sido recorrente ao longo de todo o século XIX, quando a instabilidade familiar dos grupos operários proletarizados inquietava as famílias burguesas". Etc...

Ou seja, é totalmente legítimo que alguns defendam a disseminação de um modelo de família que privilegiam. Por mais "conservador" que seja apupado por outros. Mas querer fundamentar essa opção ("conservadora") numa avaliação ética (ou até moral), ancorada numa putativa "tradição" benevolente, nisso elidindo a multiplicidade histórica da nossa sociedade, a diversidade entre várias sociedades (esqueçamos a sacrossanta "cultura", sempre propagandeada como algo "visceral", qual "natural"), e a pluralidade das legítimas e ordeiras aspirações contemporâneas? Essa é uma argumentação deficiente - por ignorância ou por estratégia. Enfim, uma falsificação. E assim indigna de ascender ao debate político.

3. Dito isto, restrinjo-me a olhar o que disse Pedro Passos Coelho na apresentação do livro. E em algumas declarações à imprensa. Pois a sua participação tem impacto político, ultrapassando o conteúdo do livro, e é esse que me interessa.

Qual ressalva: tenho apreço por Passos Coelho. Nele votei - no partido a que ele presidia -, esperando que derrubasse o execrável socratismo. Assim aconteceu. Apreciei a forma como governou, sob aquele espartilho do colapso financeiro internacional exponenciado pela deriva socialista nacional. É certo que não repeti o voto - pois a poucos dias das eleições ele consagrou Dias Loureiro como figura recomendável aos (jovens) sociais-democratas. Resmunguei então "há limites" ("linhas vermelhas", como se diz agora), e a esse elogio entendi-o como o cruzar de um Rubicão, político.

Depois soube-o isento de cargos nas "administrações (não) executivas" e quejandas prebendas, típicas em alguns apparatchicos muito louvados. Recolhido à docência universitária - algo que lhe foi vilmente criticado (como aqui abordei) por um conjunto de académicos, alguns mesmo infrequentáveis (entre os quais membros da ralé de publicistas socratistas). Tal postura deixou-me antever que Passos Coelho regressaria à política. O que, até pela vigência do recente socratismo sem Sócrates, esperei. Nunca lhe entoarei o "tens aqui a tua gente". Mas estou disponível para nele votar, enfrentando o clientelismo estatista antidesenvolvimentista do PS. Mesmo que, se calhar, depois venha de novo a recusar-me a repetir o voto.

4. Esta sua apresentação do livro "Identidade e Família" é uma actividade normal para um professor universitário. Mas, pelo conteúdo e pelo contexto, deixa entrever ser este o seu regresso à política. E parece óbvio que esta sua participação tem dois vectores: 1) o de mais curto prazo, procurando influenciar - o que explicitou - o actual governo minoritário para inflectir à direita as suas articulações políticas, assim mostrando-se Passos Coelho avesso ao cada vez mais evidente "bloco central" implícito em formação. Algo relevante, pois este poderá gerar um governo fraco, suportado num venenoso apoio avulso do PS, assim originando rápidas eleições, e nelas o crescimento do CHEGA e a recuperação do PS; 2) um outro, de mais longo prazo, o encetar da sua campanha presidencial, congregando as diferentes sensibilidades de centro e direita.

Neste (aparente) regresso à vida política activa, Passos Coelho associa-se a um conjunto de preocupações predominantes entre os sectores de maior conservadorismo cultural, patentes neste livro - ao que se depreende pelas breves sinopses propaladas e pelos perfis do rol de autores - e/ou explícitos na sua intervenção. E nisso aludindo a causas que têm sido agitadas pelo CHEGA. Já várias vezes referi (recentemente neste aqui) que é incompetente reduzir o voto nesse partido a "protesto" e a "fascismo/racismo". Mas aparecer agora a associar-se ao conservadorismo mais estrito levanta, relativamente a uma futura candidatura presidencial anti-PS, a dúvida sobre que efeitos isso terá entre o eleitorado urbano, e o de maior  formação escolar, e a juventude. Enfim, e uso a palavra, entre o eleitorado civilizado.

5. A apresentação de Passos Coelho não me choca, julguei-a ponderada. Tem razão quando afirma ser necessário o debate público entre perspectivas diferentes, sem estereótipos, achincalhantes. Mas o importante é perceber se é necessário discutir alguns temas cruciais, talvez até urgentes, da sociedade, com ponderação, ou se os devemos misturar com outros mais espúrios, apenas porque agitados em discursos políticos demagógicos ou em agendas intelectuais hiper-conservadoras - com os tais potenciais efeitos entre largos núcleos do eleitorado, já agora.

Ou seja, será que para debater um tema que começa a ser premente, como o é a preservação da extrema segurança pública - como o é a actual realidade portuguesa - temos de o associar a discursos que potenciam hipotéticas derivas xenófobas? Em vez de se optar por debater algumas alterações no funcionamento policial ou no controlo da imigração, este necessário e totalmente legítimo. Até para preservação dos imigrantes.

Pois tem razão quando alude à questão sobre as hipotéticas relações entre criminalidade e imigração, sem que isso implique criminalizar e repudiar os núcleos imigrados - e isso é uma problemática patente na Europa ocidental, e com actuais profundos efeitos políticos. Talvez em termos de efectiva criminalidade entre imigrantes e seus descendentes. Mas essa é argumentação que reclama verdadeira fundamentação sociológica - entenda-se, dados obtidos por investigações sedimentadas e não por impressões retiradas do frenesim mediático e da demagogia política. Mas acima de tudo, devido às representações (concepções, preocupações) dos cidadãos, incomodados face aos núcleos imigrados. E neste último aspecto, incluem-se as concepções e preocupações de vagas de imigrantes pretéritas e seus descendentes face às mais recentes, fenómeno que muitos se recusam a entender em nome da aversão ao que reduzem a "xenofobia". Ou seja, esta hipotética articulação de imigração e criminalidade, real ou imaginada, é uma realidade e deve ser discutida, assumida. Enfim, devemos "sair do armário" sobre o assunto, mesmo que ... "pareça mal".

Mas, e de outra forma, mais explícita, será possível congratular-se com a presença de Ventura, ombrear com seus apoiantes, e seus evidentes "compagnons de route" intelectuais, dissertar sobre as suas "causas", mantendo-se num registo de debate público sereno? Pois será possível debater a possível relação entre segurança, criminalidade e imigração quando Ventura tem o desplante aldrabão de confundir "refugiados" e "imigrantes" (exactamente como os "activistas" esquerdistas)? Quando Ventura tem o atrevimento de acusar directamente a política de imigração do governo de António Costa de responsabilidade directa no assassinato de duas trabalhadoras de um centro ismaelita por um refugiado afegão com transtornos psicológicos? É sob este magma de xenofobia desbragada que haverá um debate "sereno"? Será possível debater a imigração e o trânsito dentro da CPLP, quando Ventura propagandeia aldrabices - como quando "denunciou" o financiamento português de 32 milhões de euros para um museu angolano -, evidentemente indutoras de revanchismo pós-colonial, e de concomitante xenofobia? É com este líder, com os seus apoiantes, que se irá fazer um debate ponderado sobre a problemática da imigração? E da sua hipotética (hipotética, sublinho) relação com aumento e alteração da tipologia da criminalidade?

6. Neste seu deambular pela agenda hiper-conservadora, Passos Coelho tem algumas derivas escusáveis. Tem também toda a razão quando diz que é possível, e positivo, discutir a "família" enquanto instituição socializadora e sua relação com o Estado, e que isso pode ser feito, como frisa, no âmbito de um discurso de "idealização" dessa família - como reconhece no conjunto de textos -, mesmo que a realidade demonstre a pluralidade histórica, cultural e actual, dos formatos de "família". 

É é certo que é necessário debater o incremento do apoio social (estatal, organizacional, familiar) aos mais velhos, nesta sociedade tão envelhecida. Mas - mais uma vez - sem reificar a imagem idílica de uma "família tradicional idílica", sempre "cuidadora" dos anciãos. E acima de tudo - porque foi a isso que Passos Coelho aludiu, sem explicitar - é urgente regulamentar e normalizar a eutanásia. E tendo consciência da presença histórica, sob plurais formatos, da eutanásia na nossa sociedade - mais uma vez escapando-nos à tal visão "idealizadora" da família tradicional como "bastião" "cuidador" dos gerontes.

Não se trata de pugnar pela "sovietização" da sociedade (para glosar o próprio Passos Coelho), de defender o extermínio dos mais-velhos (como na distopia de Bioy Casares). E isto não significa prosseguir sob uma "cultura da morte" - como diziam os fundamentalistas católicos quando se discutia a lei do aborto, essa que alguns da neo-AD parece quererem rever. Um miserável epíteto que a clique católica e seus sequazes continuam indignamente a utilizar no debate sobre a eutanásia. Mas sim para com humanitarismo ("humanismo", sói dizer-se) nos equipararmos a algumas das nossas sociedades congéneres, numa ascensão civilizacional. Expurgando-nos da vilania obscurantista dos radicais católicos. Essa que tem sido bandeira do actual presidente Sousa. E a qual se espera ausente no próximo presidente.

7. Mais ainda, alguns dos temas a que Passos Coelho aludiu - talvez por estarem integrados no conjunto textual que apresentou - são espúrios. Aquilo que refere como a "sovietização do ensino" prende-se com a polémica face à disciplina "Educação para a Cidadania". Esta tem (e assim daqui a anos será considerada) o mesmo valor que a ridícula reacção da hierarquia católica face à exibição do simplório filme "Pato com Laranja" na RTP em finais de 1980. Ou a disparatada reacção cardinalícia face às "entrevistas históricas" de Herman José nos anos 1990 - posição pateta e patética, intelectualmente abjecta, sufragadaa pelo então presidente do PSD, este Rebelo de Sousa que sofremos como presidente da república.

Já o disse aqui, o intuito da escola é formar cidadãos, e apenas alguém que padeça de cretinismo é que o incompreende. O currículo geral é escolhido em função daquilo que o Estado, em determinado momento histórico, entende necessário transmitir aos seus cidadãos (por isso se aprende história de Portugal com ênfase bem superior a qualquer outra, por isso se estuda Camões e não Cervantes, Eça e não Flaubert, por isso se privilegia a futebolada e se esquece o cricket, por isso se prescinde da obrigatoriedade do latim ou da matemática...).

A polémica, tão anacrónica que até aviltante neste 2024, sobre a educação para a cidadania assenta na falsificação dos âmbitos das chamadas "esferas de valores", a "privada" (familiar) e "pública" (escolar). E advém do catolicismo trôpego que sempre quis recusar a educação (de facto, informação) sexual escolar. Disse-o aqui, e agora sumarizo: o currículo diversificado da "Educação para a Cidadania" é muitíssimo menos demoníaco do que o que alardeiam os núcleos ignorantes do fundamentalismo católico. É criticável: em abstracto, na pluralidade dos seus temas tem dois pontos discutíveis, o propagandear de uma visão hiperliberal da sociedade, na apologia do mitológico "empreendedorismo"; e uma implícita ênfase na benevolência estruturante das relações homossexuais face à violência constante das relações heterossexuais. E (disse-o nesse postal de 2021) "é patente a ausência curricular da apresentação de dimensões virtuosas das formas socialmente dominantes de reprodução social e biológica, as famílias." Mas o que de facto choca os hiperconservadores, o que levanta toda esta polémica, não são estas questões, é apenas uma superficial análise e uma preconceituosa rejeição: afirma-se na escola a naturalidade da homossexualidade. O que "parece mal" aos fundamentalistas católicos, que preferem o silêncio sobre o assunto, mesmo que - como saibam e vivam - tal "acontece nas melhores famílias". É, insisto, ridículo.

8. Ha temas para enfrentar, perspectivas que urge combater? Claro que as haverá. Desde logo esta provinciana vaga dita "woke". Como aqui disse, quantos votos custa um disparate como o caso do teatro da Trindade, com aquele imigrante prostituto a exigir um lugar no teatro e a soi-disant intelligentsia portuguesa a apoiar? Pois é constante e loquaz esta "ideologia de género" incomodando a maioria. Essa ideologia de género de facto existe - apesar dos seus paladinos (oriundos do marxismo e reclamando-se pós-marxistas) refutarem a sua existência, como se naturalizando as suas perspectivas, numa verdadeira falsária contradição com as suas bases teóricas. Pois com eles vivemos a pressão discursiva de um radical neoliberalismo racialista. Pelo qual as sociedades são reduzidas a conglomerados de indivíduos, racionais, movimentando-se autónomos no mercado de género, adquirindo identidades no cardápio de categorias genderísticas existentes, ou a estes criando (numa "destruição criadora"). Algo depois crimado na patética sigla LGB..., consagrando uma aparente infinitude de (id)entidades discretas, o que é uma verdadeira refracção do velho racialismo (de teor efectivamente racista), que presumia que a cada grupo identitário ("raça", "tribo", "etnia") corresponderiam não só características, capacidades e tendências, mas também problemas sociais específicos e reclamando políticas (formas de administração e de apoio) peculiares.

E se esta trapalhada ideológica poderia ser apenas algo risível, a forma como alguns partidos de poder (no nosso caso em particular o PS da geringonça) cooptam estas minorias "activistas", vem influenciando de forma despropositada e desproporcional, as agendas públicas. E induzindo - até porque é esse o seu objectivo - alterações das práticas/opções individuais no interior das gerações mais novas. E isso é necessário combater, até reverter. Sem que implique qualquer aversão às liberdades individuais, à informação, à educação.

Mas também sem implicar a associação a agendas hiper-conservadoras cristocêntricas. E, muito menos, aos políticos demagogos aldrabões. A la Ventura... Assim evitando que sejam os apoiantes destes que se procuram para que ululem "tens aqui a tua gente!".

E como tal, julgo que esta saída do antigo primeiro-ministro consistiu em Passos Perdidos.

10
Abr24

O jornalismo "de referência"

jpt

mondlane.jpg

No decadente contexto da imprensa portuguesa o "Público" continua a receber o estatuto de "jornal de referência". Como seu antigo leitor dele tenho uma experiência que me leva ao sorriso. Durante as duas décadas que vivi em Moçambique no jornal fui vendo vasto rol de dislates sobre o país - muitos deles produzidos durante e após reportagens longas. Não se tratava apenas do efeito de um olhar enviesado (a patetice "lusófona", o paternalismo bacoco, o "póscolonial" de algibeira, o "exotismo" de pacotilha, etc...), mas também de apatetados erros factuais. Sobre algumas dessas asneiras fui escrevendo em blog. Entretanto, desde há largos anos que no jornal se sedimentou uma "célula" de "activistas" "decoloniais", que sobre África - a pouca "África" a que alude -, e a "afrodescendência", vai vertendo um "jornalismo" demagógico, para isso cooptando "colaboradores" entre os "activistas académicos", mais frenéticos das causas identitaristas, e ecoando os desbragados rugidos dos políticos esquerdistas que se alimentam dessa retórica. E recordo, como ilustração deste rumo, o desvelo com que no jornal foi tratada a deputada Moreira do partido LIVRE.

Mas para além desse viés ideológico continuam os mais simples e rasos disparates e desatenções. Ainda há pouco tempo o "Público" se "esqueceu" de noticiar o assassinato do jornalista moçambicano João Chamusse - e eu permito-me aventar o barulho que aquela redacção teria feito se um jornalista negro tivesse sido assassinado num qualquer país europeu ou um "pardo" no Brasil... E não só se esqueceu de o fazer como se atreveu a permitir que o seu "provedor de leitores", José Alberto Lemos, tivesse o desplante de vir mentir aos seus leitores - como aqui referi - fundamentando essa "falha" na ausência de informação proveniente da LUSA (uma falsidade, agredindo colegas de profissão) e no facto de apenas um jornalista do "Público" escrever sobre temas africanos, o reconhecimento da indigência vigente.

Mas nada disto obsta a que o jornal continue a receber o benevolente estatuto "de referência". Decerto porque mantém um leque de doutores, ali elevados a colunistas ou consentidos como meros colaboradores avulsos, que escrevem as suas "opiniões", ou seja, ali "produzem opinião pública" em função de agendas políticas. 

Cada vez que eu resmungo sobre mais um disparate profundo, um rumo mais demagógico, um olhar mais vácuo, seja sobre Moçambique ou sobre África em geral, logo alguém - usualmente jornalista, ex-jornalista, ou boa alma - socorre aquela indigência, fundamentando-a no estafado estado da imprensa escrita, carregada de profissionais subremunerados, estagiários sobreexplorados e de remanescentes veteranos supraexauridos. E assim assoma a piedade, esta feita factor de manutenção do tal epíteto "de referência" e, como tal, também da credibilidade dos disparates "decoloniais" do "Público".

Enfim, hoje de madrugada um amigo de Maputo envia-me por Whatsapp esta foto, reproduzindo um artigo de página inteira dedicado à actualidade política moçambicana, país no qual se debate sobre as personalidades que concorrerão à liderança dos grandes partidos e às eleições presidenciais deste ano.

O artigo estrutura-se sobre a ascensão dos filhos dos antigos presidentes da Frelimo à liderança dos dois grandes partidos moçambicanos - indiciando esse factor como situação denotativa. Por um lado Samora Machel Jr. (dito Samito), aventado como futuro presidente do Frelimo, filho de Samora Machel, primeiro presidente do país.

Por outro lado, Venâncio Mondlane, um já veterano político, deputado, antigo candidato ao conselho municipal (a nossa câmara) de Maputo. E no artigo publicado no jornal "de referência" dito filho de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da então Frelimo. 

Acontece que Pedro Nuno Santos não é filho de Almeida Santos, Sérgio Sousa Pinto não é filho de Mota Pinto, Jerónimo de Sousa não é irmão de Marcelo Rebelo de Sousa, nem Pedro Passos Coelho sobrinho de Jorge Coelho. Tal como Venâncio Mondlane não é filho de Eduardo Mondlane, e até nasceu 5 anos depois da morte deste... E não há piedade suficiente para aturar disparates destes. Principalmente num jornal "de referência" que depois nos quer "ensinar" a urgência de um olhar "póscolonial" sobre África. E sobre nós-mesmos. E se não há piedade suficiente para isto também não há paciência para os tontos que continuam a fazer as mesuras ao tal "jornal de referência".

10
Abr24

Eugénio Lisboa

jpt

eugénio

 
Morreu Eugénio Lisboa, relevante pensador de origem laurentina que - entre outros eixos da sua actividade - nos deixou notável monografia (em registo memorialista, integrando a sua vasta "Acta est Fabula") do ambiente intelectual da burguesia tardo-colonial portuguesa, um documento precioso para se entender o nosso ocaso colonial. Deixo aqui ligação a um bom obituário que o Pedro Correia lhe dedica no Delito de Opinião. E também a um interessante texto que o Nelson Saúte lhe dedicou por ocasião do seu nonagésimo aniversário .
 
"Tive o privilégio" (como sói dizer-se) de o conhecer. Após ter ido viver para Maputo, a primeira vez que vim a Portugal solicitei-lhe um encontro, uma "apresentação de cumprimentos", por assim dizer. O qual se me impunha por respeito intelectual e por considerar que ele poderia ser (e era-o) um agente fundamental para o conhecimento nacional da realidade intelectual e artística moçambicana, neste país cuja intelectualidade estava então alheada das realidades africanas. E isto bem antes da publicação da sua "Acta est Fabula", que acima refiro...
 
Recebeu-me na Comissão Nacional da UNESCO, a que presidia, foi simpático e também algo complacente - teria recolhido algumas informações (talvez pouco laudatórias) sobre mim, foi-me óbvio que me atribuiu alguma candura juvenil, naquela quase inconsciente displicência que agora também me acontece quando diante de qualquer tipo com cabelo ainda azeviche. Mas algo talvez também oriundo - pareceu-me - daquela mundividência dos agentes do "campo literário". Esses que - mesmo que tantas vezes simpáticos - tanto privilegiam os seus pares, como se membros de um panteão de demiurgos e semi-demiurgos, apenas entreaberto a alguns teólogos graduados. Enquanto nós - em particular se antropólogos, quero desejar - cremos mais em Xenófanes, naquilo que o grego disse de "se as cavalgaduras tivessem mãos... desenhariam os deuses como cavalgaduras"... Mas foi, insisto, muito simpático. No fim da pequena reunião perguntou-me "então em que lhe posso ser útil?", e pareceu-me surpreendido, até agradado, quando lhe disse o motivo do meu pedido de encontro, do aquilo "Em nada. Eu é que talvez lhe possa ser útil, vim aqui para me disponibilizar para algo que lhe possa ser interessante lá em Maputo"...
 
Algum tempo depois esteve em Maputo, integrando uma gigantesca comitiva cultural. Seria, entre os seus pares, o que mais conhecia o contexto, e perceberia aquele desajuste luso, verdadeiro disparate. Mas constatei então que a sua argúcia analítica, o seu consabido "avinagrado", estaria mais direccionado para os textos, e não tanto para a realidade "palpável". Ou, então, que o distribuía... estrategicamente. E que naquele momento não lhe interessaria vertê-lo, com ele aspergir os próceres culturais nacionais.
 
Anos passaram, eu já teria algumas cãs. Um dia, no primeiro intervalo de um congresso académico, fui esfumaçar até ao gélido pátio, no qual estava apenas um outro participante, com os mesmos propósitos. Emprestámo-nos um isqueiro e apresentámo-nos. E surgiu Eugénio Lisboa, sorriso aberto. Saudações cumpridas fez-me uma pergunta, algo indiscreta, sobre eu em Moçambique. Retorqui "quer uma resposta franca ou diplomática?", "franca, claro" e assim o fiz. Logo fez outra pergunta, também indiscreta, sobre o mesmo tema, eu em Moçambique, e de novo lhe perguntei "quer resposta franca ou diplomática?" e de novo convocou a minha franqueza. Após a qual fez mais uma pergunta indiscreta, ainda sobre eu em Moçambique, ao que, de imediato, o outro congressista exclamou, veemente, "uma resposta diplomática, por favor!". Rimo-nos, eu e ele, o grande, enorme, Ruy Duarte de Carvalho, e logo ali ficámos amigos para o resto da sua vida... E Lisboa nada mais perguntou.
 
Há cerca de 15 anos, já ancião, Lisboa esteve em Maputo - talvez tenha sido a sua última vez ali, pelo menos até 2015 não terá voltado. Logo acorri à Escola Portuguesa de Moçambique para o ouvir, no que foi uma preciosa abordagem/homenagem a José Régio, por quem tinha enorme admiração. Estava muito emocionado - tanto que, apenas por isso, me pareceu que estivesse doente, já em processo de despedidas. Felizmente não era o caso, e tivemo-lo mais 15 anos a exercer o seu vasto conhecimento. Num verdadeiro "magistério de influência", mesmo que algo recatado.
 
Por vezes implacável, naquilo que consideraria realmente relevante. Como neste magnífico texto "Elogio da Temperança", que publicou nos seus 90 anos, pontapeando o provincianismo luso demonstrado na mania dos elogios fúnebres hiperbólicos. Um texto que é agora, na sua morte, urgente recordar. Pois é evidente que o então nonagenário nele convocou o tino alheio para a hora da sua morte, que decerto previa relativamente próxima.
 
Eugénio Lisboa publicava no excelente blog colectivo De Rerum Natura. Os seus parceiros de blog deixaram-lhe uma homenagem, sentida, publicando-lhe este soneto. Tão denotativo do seu percurso:
 
Na minha outra pátria africana,
não trincávamos maçã nem morango.
O que trincávamos mesmo com gana,
manga verde, encarilado frango,
 
maçaroca e ácida tcintchiva,
ensinava-nos a descobrir mundo,
naquela terra quente e lasciva,
onde tudo ficava mais fecundo.
 
Com tostões, comprava-se um mata-fome
e o caju arrancava-se do ramo.
Os esfomeados unhas-de-fome
 
inebriavam-se, comendo cânhamo.
Era uma pátria cheia de mistério,
que foi pra mim fecundo magistério.

07
Abr24

Bayete Catamo

jpt

gc.jpeg

Em finais de 2021 eu - como se comprova, sendo um muito competente "olheiro" (os patetas ignorantes agora falam de "scouting") - aqui saudava a chegada do jovem moçambicano Catamo ao plantel do Sporting, augurando-lhe grande futuro. E ao assunto voltei no início desta época, exigindo também a sua manutenção no plantel.
 
Assim sendo, creio que vos será possível imaginar o sorriso gigantesco com que ontem me deitei. Um cúmulo: tal como aqui anunciara, estivera desde o fim da tarde no recomendável Roda Viva, restaurante moçambicano em Alfama. Ali organizara o "lançamento" do meu livro "Torna-Viagem" - que é louvado mas não tanto comprado... Apareceu um largo punhado de amigos - alguns vindos de bem longe, outros vindos de eras muito recuadas... E até família - a minha irmã, comparecida para evitar que eu dissesse palavrões, e cunhados, a apoiá-la na nobre e pedagógica missão.
 
Encheram-se as duas salas e a viela, enquanto se comiam as prometidas (e devidas) badjias e chamuças. Depois do cerimonial livresco - no qual falou o Fernando Florêncio e perorei eu - e do animado convívio avulso, umas quatro dezenas de presentes decidiram jantar ali mesmo, tendo tecido loas ao repasto. Enquanto eu cirandava de mesa em mesa foram-me informando da evolução do resultado. Houve júbilo no final do jogo, ali em Alfama.
 
Pela 1 da madrugada recolhi a casa, tão contente que quase feliz. E vi a gravação do jogo. Só então percebi que fora a noite de glória do Catamo! Neste meu dia não podia ter sido melhor!!! Bayete Catamo!!!,* disse ali no seu segundo golo, mesmo no final - na sequência de um inenarrável roubo do árbitro, a querer levar o Benfica ao título, uma escandaleira.
 
Ao acordar leio uma mensagem, amigo moçambicano desde Maputo, dizendo-me que ao ver o jogo do Geny se tinha lembrado daquele meu antigo postal sobre o rapaz. Profético, profético... Enfim, apenas posso dizer, modesto: "sublinhem as minhas palavras!"
 
* Bayete - saudação destinada a um Chefe relevante no universo linguístico tsonga.

06
Abr24

Sobre o meu "Torna-Viagem"

jpt

tvrv.jpg

Hoje, sábado, entre as 17.30 e as 19.30, juntarei alguns amigos e amigos-digitais a propósito do meu "Torna-Viagem" no simpaticíssimo Restaurante Moçambicano Roda Viva - para os furiosos da bola (ainda piores do que eu), aviso que o restaurante é a cinco minutos pedonais da estação de Santa Apolónia, de onde através do metropolitano poderão acorrer ao sacro José de Alvalade para apoiar o Sporting (ou mesmo, vá lá, o Benfica).
 
Partilho aqui a nota de divulgação emitida pelo "Roda Viva". Acima de tudo para que não nos venham a sobrar badjias e chamuças... Para os que puderem aparecer fica um "até já". Para os outros deixo um "avante!".
 
***************
 
No próximo sábado, 6 de Abril de 2024, entre as 17:30 e as 19:30, junte-se a nós no Restaurante Moçambicano Roda Viva para um encontro especial em torno do livro "Torna-Viagem" de José Teixeira. Composto por uma centena de crónicas, a maioria centrada em Moçambique, o livro é uma viagem pelo país e suas transformações, repleto de memórias e relatos autênticos.
 
O antropólogo Fernando Florêncio fará uma breve introdução, seguido por José Teixeira, que nos brindará com suas reflexões sobre a escrita como testemunho. Todos são bem-vindos a compartilhar suas próprias experiências de forma espontânea. Enquanto isso, desfrutaremos de deliciosos canapés e bebidas leves. Venha se juntar a nós para uma tarde enriquecedora e cheia de boa companhia!

03
Abr24

Aderindo ao Estoicismo

jpt

sophia-loren-and-alec-guinness-in-the-fall-of-the-


Em miúdo eu gostava era de História. Enquanto os outros putos queriam ser astronautas (na época era sonho em voga) ou polícias sinaleiros (daria "pano para mangas" analisar as razões daqueles tão comuns anseios daquela época), eu fazia-me arqueólogo - e o meu herói de puberdade ficou o Thor Heyerdhal... Felizmente cresci e amadureci, tendo optado por uma carreira profissional de sucesso garantido, isto de antropólogo.
 
Esse amor pela História era alimentada pelas estantes domésticas. As quais, como era típico nas gerações antecessoras, se centravam no dueto greco-latino da antiguidade clássica (para além dos oitocentistas portugueses e do prolixos ensaístas de XX a discutirem quem "nós" "somos" ou "deveríamos ser").
 
Roma era mais atractiva - a razão é simples, tinha uma "flecha de tempo" (sem a qual não se aprende História) fácil de adquirir, com um império cronologicamente crescente e, acima de tudo, dinastias de imperadores que um miúdo podia decorar, assim organizar-se. O meu imperador preferido não era Júlio César (que, de facto, nunca o foi, já agora), apesar de celebrizado no Astérix. Nem Augusto, esse que só muito depois Pierre Grimal me ensinou a amar, interpretando-o eu como o primeiro europeu, o inventor do continente - talvez por serendipidade... Nem Cláudio, essa magnífica recriação de Derek Jacobi na série britânica, utilizando o delicioso livro (por anacrónico que seja) de Robert Graves - quarenta e tal anos depois ainda me lembro da sensação ao ler aquelas reflexões do imperador (tendencialmente) ateu ao saber que fora declarado deus vivo lá na longínqua Britânia...
 
Enfim, o meu imperador preferido era Marco Aurélio. E a razão foi simples, o impacto que teve o filme (um típico "pastelão" a la Hollywood "dos tempos") "A Queda do Império Romano". Vi-o no Monumental, com a minha mãe, petiz de oito anos. Marco Aurélio era interpretado por Alec Guiness - como é óbvio eu não fazia a mínima ideia de quem este era. Mas o filme impressionou-me imenso, numa estranheza atraída, exaltante até, que então incompreendi. Só anos depois, já na adolescência, ao rever o filme compreendi o que tanto me cativara. Pois fora no filme que eu subentendera o que eram as mulheres, tamanha a impressão, avassaladora, que me causara... Sofia Loren, ali representando Lucila, a filha do velho imperador...
 
Enfim, foram estas razões não propriamente intelectuais que me fizeram tender para Marco Aurélio. Só depois, adolescente, soube que ele tinha sido uma espécie de rei-filósofo, proeminente estóico. Mas apesar do meu apreço pela figura (e sua filha) nunca tive a têmpera suficiente para aderir ao estoicismo. Deixei-me degenerar reactivo, furibundo, dado à vã ira e, até, a espúrias ambições.
 
Chegando-me agora aos 60, ancião mas não senador, decidi hoje aderir a essa corrente estóica, fundando-me na temperança. A razão é simples: para celebrar a chegada a sexagenário atrevi-me a fazer uma "edição de autor" das minhas memórias (ainda não estóicas), o livro "Torna-Viagem". Fi-lo através da plataforma editorial Bookmundo. Logo vários amigos me convocaram para fazer um "lançamento" do livro. Decidi então organizar um "simpósio" a esse propósito, para divulgar o livro - que está a ser um sucesso comercial, tendo já vendido quase ... uma centena de exemplares.
 
E assim no próximo sábado à tarde, bem antes do "derby eterno" da bola, haverá o tal "simpósio" (aliás, "banquete") em torno do "Torna-Viagem", livro que apenas se adquire no "site" da Bookmundo. Os preparativos estão feitos, os comes e bebes encomendados, o tão simpático Restaurante Moçambicano Roda Viva a postos para nos receber. E nessa azáfama grassando a expectativa que mais alguns amigos e conhecidos comprem o livro, nem que seja para com ele comparecerem ao "abraço" coloquial.
 
Noto entretanto que o "site" da Bookmundo está "em baixo", inacessível desde ontem....! Arrepelo os cabelos, desfaço a barba, arranho o peito, clamo para mim mesmo "para que insistes, Zé? Para que te metes nestas coisas?". Nada disso, adiro ao estoicismo, com sageza modero-me, persigo (e prossigo?) a vida em harmonia. Faço um enorme sumo de laranja (de Palmela, e "bio"). Fumo um tão saboroso cigarro de Amber Leaf.
 
E sorrio um - algo exagerado, eu sei - "isto só a mim é que acontece"...

Quem somos

Livro Torna-Viagem

Torna-viagem

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador

Em destaque no SAPO Blogs
pub