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Gavetas e Prateleiras

Gavetas e Prateleiras

O deus que tresanda ...

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Dieu qui pue, dieu qui pète et autres petites histoires africaines, de Fabien Vehlmann (argumento) e Frantz Duchazeau (desenho), publicado por Milan em 2006. Uma verdadeira pérola, apanhada por acaso. Vehlman - que desconhecia - é um argumentista em crescendo (tem continuado Spirou e Fantasio). As pequenas histórias deste livro são uma delícia, ficções inspiradas em contos africanos, com uma poética irónica mas felizmente desprovidas de explícitos intuitos morais, aquela redutora "moral da história" ou a apoucar a ficção ou a empobrecer o conto recolhido e assim castrado. Os desenhos de Duchazeau são lindíssimos, escapando ao molde "infantil", ainda que com ele namorando, e foram soberbamente coloridos por Brigitte Findakly. Fica assim um livro imperdível:

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São 9 pequenos contos, cada qual mais encantador. "O jovem egoísta", uma magnífica e ternurenta narrativa sobre o envelhecimento; o "a pequena viagem" sobre o poder - dois irmãos são mandados viajar pelo seu pai, o chefe, usando o primeiro animal que virem: um sai no cavalo e percorre o mundo, o outro fica ali, em cima da tartaruga, e a conclusão é magnífica; "algumas palavras no deserto" é uma narrativa linda, muito bem resolvida graficamente, etc. E o magnífico "o deus que tresanda e se peida", sobre um deus que tresandava e se peidava e que aportou a uma aldeia, obrigada a recebê-lo dados os deveres de hospitalidade e temor de castigo divino, um verdadeiro ensaio sobre a acção humana.

Em apanhando esta pérola é de agarrá-la.

 

Edelweiss, de Mayen e Mazel

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Edelweiss, de Cédric Mayen (argumento) e Lucy Mazel (desenho), publicado por Vents D'Ouest.

 

Comprei o livro devido ao título, que me convocou a canção de Rodgers e Hammerstein do "Música no Coração". Acertei, ao encontrar um belo romance.

 

É a história de amor de Edmond e Olympia, operário e filha burguesa, que percorre a segunda metade de XX francesa, desde o imediato pós-II Guerra Mundial. Sobre esse idílio se aborda, com sobriedade temática e sensibilidade melodramática, a ascensão estatutária do operariado no novo contrato social sob o Estado-Providência, nunca aludido, a causa feminista (Simone de Beauvoir tem um "cameo"), no trajecto autonomizador de Olympia, exigindo uma carreira profissional e a liberdade de praticar desporto de alta competição - o montanhismo, a ascensão do Monte Branco, que é o objectivo da sua vida, da trama do livro. E, ainda, o papel algo homogeneizador, assim construtor da cidadania moderna, do serviço militar obrigatório - é através dele que Edmond ganha estatuto de montanhista, equiparando-se à namorada, para a qual se tratava de uma tradição de família. Como também surgem as questões do regresso da frente de batalha (quando nem se falava nem havia sensibilidade para o stress pós-traumático). Tudo isto apresentado sem panfletarismo, como condimento da vida do casal. E há ainda as difíceis questões da maternidade, deixando antever formas de isolamento familiar (individualismo). Tudo isto caldeando uma belíssima história de paixão, décadas narradas com grande fluidez: um belo argumento de Mayen. Cruzado por um encantador desenho de Mazel, a excelente na reconstrução histórica, com subtis modificações para acompanhar as décadas decorridos, e a bem suceder nas paisagens de montanha. E a encontrar um tom exacto para a coloração, adequando-se ao ambiente sentimental que a história propõe. Ou permite, sendo alcançado exactamente através do acertado binómio desenho-cor.


O final, melodramático, é o da felicidade possível. Não o final feliz. Mas do sucesso apesar dos imponderáveis, o relativo. Da edelweiss, a flor da montanha, entrevista.

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O Retorno

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Já alguns amigos me haviam aconselhado este "O Retorno", publicado em 2011. Fui adiando, algo desconfiado. Cada vez leio menos ficção - e cheguei à idade das releituras - e nesta ainda menos vou lendo a portuguesa. Fiz mal. Pois trata-se de um belo livro. A trama é conhecida, uma família de colonos pobres que se atrasam na partida de Angola, com o pai crente que seria possível ali continuar após a independência. O pai será preso, a mãe e os filhos adolescentes, Milucha e Rui, ele o protagonista, pelo menos sujeito da narrativa, partem na ponte área, serão acolhidos num hotel perto de Lisboa (e do mar), enquadrados pelo IARN, onde ficarão um ano. Depois, a vida continuar-lhes-á noutros moldes.

 

Belo ritmo, belíssima prosadora, excelente recriação dos últimos dias de Angola. E bastante ilustrada a descrição, raríssima, do mundo do "retorno", da acomodação dos colonos pobres, esses que vinham sem propriedades na metrópole ou famílias prontas a acolhê-los, ficando acantonados nos hotéis. A narrativa mostra ainda o acinte com que os "metropolitanos" receberam os colonos, inculpados de "exploradores de pretos" no processo de higienização da auto-representação da sociedade portuguesa: os colonos malvados vs os metropolitanos vítimas do fascismo e colonialismo.

 

O livro terá coisas a mais, a homossexualidade avuncular é não só desnecessária à economia do texto- e muito assunto de "moda" actual. Mas, pior do que isso, ao associar a adesão do jovem tio à revolução angolana a uma deriva sexual - de facto, nesta ancorando a adesão -, uma espécie de exotização, a autora perde a oportunidade de aludir à muito mais interessante questão (naquela época) da adesão militante de alguns extractos da sociedade colona, em particular os jovens, aos movimentos independentistas. Também a questão da doença "nervosa" da mãe do protagonista, ainda que sirva para delimitar alguma especificidade daquela família no seu contexto vicinal - e assim permitindo um olhar sobre os processos de sociabilidade entre aqueles núcleos -, parece-me mal resolvida, algo que paira e deixa de pairar, numa abrupta "cura" final que não esconde a inutilidade do detalhe dramático.

 

Finalmente, as personagens do hotel, os retornados acolhidos pelo IARN, o Pacaça e outros, são verdadeiras caricaturas. Cardoso é hábil ao fazê-las mas, de facto, não são mais do que isso. É defeito? A obra de Eça de Queirós é uma colecção de caricaturas ... Assim sendo, é característica. Mas talvez seja de lamentar que a autora não tenha aproveitado para criar mais algumas verdadeiras personagens, cruzando-as, menos tipificando o processo.

Tchítchikov

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A chegada de Tchitchikov à cidade N (Marc Chagall, 1923)

"Resumindo, eis o nosso herói [Tchítchíkov] em pessoa, tal como é! Mas talvez me exijam que o caracterize definitivamente com um único traço: quem é ele, em termos de moral? É claro que não é um herói cheio de perfeições e virtudes. Quem é então? Um canalha? Mas porquê canalha, logo assim de repente, por que teremos de ser tão severos para com o nosso próximo? Hoje em dia já não existem canalhas entre nós, há apenas pessoas bem-intencionadas, amáveis; talvez se encontrem só duas ou três susceptíveis de darem a cara ao opróbrio e à bofetada pública, e mesmo estas falam de virtude. A um homem assim seria mais justo dar-lhe outro nome: homem prático, homem granjeador. A aquisição é que tem culpa de tudo: por causa dela é que foram feitas as coisas que o mundo chama de pouco limpas. É verdade, há neste carácter qualquer coisa de repugnante, e ao mesmo leitor que, nos caminhos da sua vida, tem amizade com um homem assim, que come à mesma mesa com ele e partilha gostosamente com ele as suas horas de lazer, olhará para ele de esguelha se tal homem lhe aparecer na qualidade de herói de um drama ou de um poema. Ora sábio é aquele que não desdenha carácter nenhum, mas, fitando nele o olhar perscrutador, o investiga até às causas primeiras. São rápidas as metamorfoses do ser humano: de um momento para o outro cresce no seu íntimo um terrível verme que canaliza para si, arbitrariamente, todos os sucos vitais. Por mais de uma vez tem acontecido que não só uma forte paixão, mas mesmo uma minúscula paixoneta por uma insignificância qualquer cresça e invada todo o ser humano nascido para verdadeiras façanhas, fazendo com que esqueça as suas obrigações sagradas e veja em ninharias a sua grande e sagrada vocação. Não têm conta, como as areias do mar, as paixões humanas, e todas diferentes umas das outras; e todas elas, baixas ou nobres, no início obedecem ao homem e só depois se tornam os seus terríveis senhores. Bem-aventurado aquele que escolheu para si, de entre todas, a mais bela das paixões: a cada hora e a cada minuto que passa cresce e multiplica-se a sua desmedida bem-aventurança e cada vez ele entra mais fundo no infinito paraíso da sua alma. Há porém aquelas paixões que não são escolha do homem. Nasceram com ele e com ele hão-de morrer, o homem não tem forças para fugir delas. Guia-as uma vontade superior, existe nelas um princípio que perpetuamente nos chama, que não se cala em toda a nossa vida. São destinadas a cumprir uma grande missão na terra: seja na forma de uma imagem sombria, seja levantando voo como fenómeno radioso que alegrará o mundo - dos dois modos, foram chamadas à vida em prol de um bem que, para o homem, é incompreensível. Ora então, no nosso Tchítchikov a paixão que o move não depende dele e, na sua fria existência, talvez já durma aquilo que mais tarde ou mais cedo lança os homens de joelhos perante a sabedoria dos céus. E ainda é um segredo não desvendado a razão por que esta imagem surgiu no nosso Poema.

 

Ora o que é penoso não é a possibilidade de alguém ficar desagradado com o nosso herói, mas, pelo contrário, a insuperável certeza, bem enraizada na alma, de que, com este mesmo herói, com este Tchítchikov, os nosso leitores poderiam ficar agradados. Se o autor não tivesse espreitado tão fundo na alma dele, se não tivesse içado do seu íntimo aquilo que, fugaz, se esconde da luz, se não lhe tivesse desvendado aqueles seus mais secretos pensamentos que a ninguém se confiam, se apenas o tivesse mostrado tal como ele se apresentou na cidade, ao Manílov e aos outros, ah, então toda a gente ficaria contentíssima e tomá-lo-ia por pessoa interessante. (...) Sim, meus bons leitores, não vos apetece ver a miséria humana a descoberto. Para quê, dizem os senhores, será que vale a pena? Não saberemos já que existem muitas coisas estúpidas e desprezíveis nesta vida? Já sem isso nos acontece muitas vezes assistir àquilo que não agrada a ninguém. É melhor mostrar-nos o belo, o admirável. Faça, antes, com que esqueçamos! "Para que me dizes, meu amigo, que as coisas andam mal na minha herdade?", diz o proprietário rural ao seu feitor. "Sei tudo isso muito bem, meu amigo, será que não tens mais nada do que falar? Deixa-me na ignorância, deixa-me esquecer, e então serei feliz." Sendo assim, aquele dinheiro que serviria para, de algum modo, corrigir as coisas, é gasto nos vários meios de procurar o esquecimento. A mente, que talvez pudesse descobrir ainda alguma fonte de grandes recursos, adormece e não tarda, toda a herdade é vendida em leilão e o proprietário, na miséria, vai por esse mundo fora em busca de esquecimento, com a alma pronta a cometer baixezas que, outrora, até o assustariam.

 

O autor ouvirá também acusações da parte dos assim chamados patriotas, desses que, até agora sossegadinhos nos seus recantos, se dedicam a coisas de outro género, amealhando o dinheirinho, assegurando o seu bem-estar à conta dos outros; ora, mal acontece alguma coisa insultuosa para a pátria, na opinião deles, mal aparece algum livro que revele uma verdade amarga, saltam de todos os seus cantinhos (...) e soltam o grito: "Admite-se trazer estas coisas à luz do dia, gritá-las aos quatro ventos? É que tudo isto nos diz respeito, é nosso - e então será bom alardeá-lo? O que dirão os estrangeiros?" (...) uma modesta resposta às acusações de alguns patriotas ardentes que, até determinado momento, se dedicam sossegadamente a uma qualquer filosofia ou a fazerem crescer os seus capitais à custa da pátria ternamente amada e que, em vez de pensarem em não fazer o mal, pensam só em que ninguém diga o que fazem mal. Mas não, não é o patriotismo a causa das acusações, há outras coisas por trás. Por que querem esconder a palavra?"

(Nikolai Gógol, Almas Mortas, Assírio & Alvim, 2017, 284-288. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

Marjorie, o meu primeiro amor

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Marjorie foi o meu primeiro amor. Marjorie Hart de seu nome completo, uma jovem médica americana. Encontrei-a no emirado Sarrakat, onde ela era missionária adventista e prestava cuidados médicos gratuitos a uma população deles tão carente, isto apesar do tanto petróleo  que o país tinha, coisas típicas do atraso civilizacional. Mulher bondosa, corajosa, séria. E linda, loura de olhos azuis, bem torneada naquela magreza da vida frugal e dedicada que levava, deliciava no seu vestido azul de ganga com que a conheci - e pela sua memória ainda hoje me encanto ao ver uma mulher assim vestida.

 

Nunca lhe disse do meu amor. Um pouco por timidez, a princípio. Depois, uns meses após a ter conhecido, pois percebi-a apaixonada pelo Michel e preferi calar-me, compreendi o quão inútil seria declarar-me. Pois era óbvio que ela o preferiria. Lembro-me ainda, sempre a lembrarei, da angústia desiludida sentida ao entrevê-los beijando-se ...

 

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Ele era piloto de caças, bem apessoado, daquele tipo apreciado pelas mulheres, e ainda por cima célebre. Pois sobre as imensas aventuras do Michel (Tanguy) e do amigo, o Ernest (Laverdure), já havia vários livros e também uma série de tv, "Os Cavaleiros do Céu", muito popular. Enfim, eram umas verdadeiras estrelas, e com tudo isso as mulheres caíam-lhes nos braços. Que hipóteses teria eu? Para tudo piorar nessa época eu só tinha seis anos, como poderia cativar uma adulta? Decidi calar-me e esperar. Presumi que o Michel partiria, deixando-a. Ele era um tipo decente mas com a vida que levava não parecia possível que fosse manter um namoro ali.

 

Ele e o Ernest, tinham vindo de Mirage apoiar Azraf, instruendo deles em França. Sarrakat estava em guerra civil. O anterior emir, Muhammad, o pai de Azraf, fora assassinado pelo seu ignóbil irmão Mokhtar, desejoso de reinar. Para isso aliara-se aos americanos, os da petrolífera Middle East Petroleum, que tinham acorrido para ultrapassar a ELF francesa, a qual até então tinha explorado, de forma justa e respeitadora, o petróleo local. Então eram outros tempos, ainda estava fresca a crise do Suez, e De Gaulle opunha-se às injustas ambições dos americanos. Também por isso Tanguy e Laverdure ali estavam, ajudando o aliado e amigo Azraf, um tipo muito decente, dedicado ao seu povo, e cuja vitória final muito a eles se deveu.

 

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Mas antes disso aconteceu a desgraça. Kaleb, que os acompanhara, fora preso e torturado. A tudo resistiu, menos à malvadez de Ross, o perverso assessor americano de Mokthtar. Este ameaçou-o com aquilo que os yankees, ímpios, já haviam feito nas Filipinas (e os russos copiariam na Tchetchenia): enterrá-lo embrulhado em pele de porco, condenando-o à maldição eterna. A isso o pobre Kaleb não resistiu, e denunciou o refúgio das tropas de Azraf. Então, enquanto estas conquistavam a capital, a aviação de Mokhtar arrasou o esconderijo, apesar deste sinalizado com o Crescente Vermelho, onde Marjorie tratava dos feridos.

 

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A notícia da morte de Marjorie devastou-me. A mágoa durou-me anos, feita desilusão com a vida. E andei cego e surdo ao amor. Há pouco todos festejaram as bodas de ouro do namoro do Ric Hochet com a Nadine, coisa bonita, claro. Mas, e tantos anos decorridos já não parece mal dizê-lo, naquela altura ela muito se me insinuou, dengosa, e eu fiz-me desentendido, desinteressado, pois ainda tão incapaz de esquecer a Marjorie. A Nadine acabou por desistir, ficou com o Ric Hochet, o qual de nada desconfiou, ao que eu saiba, e pelos vistos têm sido felizes. Ou fazem por isso, nunca se sabe. E o pai dela também tanto queria aquele casamento, julgo mesmo ter sido para se rebelar contra ele, coisas da juventude, que ela começou a meter-se comigo.

 

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Mas com o tempo tudo se vai esmoendo, ou pelo menos assim parece. Um dia, na vilória do Iorix, conheci a Ariel, uma francesa. E ficámos juntos por uns tempos. Mas foi difícil, ela seguia tristonha, desinteressada até, como se estivesse comigo por desfastio. Pois não tirava o Alix da cabeça, apaixonada desde que ele por lá passara, uns meses antes. Fui aguentando, na esperança de aquilo lhe passar, tentando verdadeiramente conquistá-la, sendo o compreensivo que consegui. Ela era tão bonita ... Mas a paciência foi-se-me esgotando, a enfrentar aquele seu alheamento mudo. Um dia, e arrependo-me disso, fui cruel, bebera demais, atirei-lhe à cara quem aquele Alix era, mais o seu Enak, qual o tipo daquela gente. Coitada, era uma campónia, jovenzinha naquele ermo, a mãe morrera, não tinha irmãs, o pai era um gaulês bêbedo e os irmãos uns imbecis, nada sabia da vida ou do mundo, sem ninguém que lho ensinasse. Poderia ter sido eu, se tivesse sido um pouco mais paciente. Mas como?, tudo acabou ali ... ficou chocada comigo, "miserável!", "mentiroso!", gritou-me em pranto, descrente e horrorizada. Comigo. Parti. 

 

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Uns anos depois, eu mais maduro, já nos meus dez, aboletei-me no "Triple-Six", o rancho da Comanche. E, claro, pouco depois de ali aportar estava de olho na dona, um naco de mulher, garanto, por máscula que pudesse parecer. Mas logo percebi o quanto seria difícil conquistar-lhe a atenção. Pois entre ela e o Red Dust havia qualquer coisa, ainda que eu julgue que nunca se tenham vindo a juntar. E também por causa do seu feitio, mandona, sempre patroa, agreste. Eu compreendi-a, e a toda aquela sua amargura disfarçada de comando. Mas os outros não a percebiam, e muito menos o Red Dust, que era um básico. Bom tipo, lá no fundo, muito bom vaqueiro, danado para o tiroteio, mas mesmo básico. E se eu abordasse o assunto todos se virariam contra mim. Agora não, posso falar, já todos terão  morrido, pelo menos do Dust tenho a certeza disso, velho e doente, nunca o imaginei tão assim demorado, mas da Comanche nada sei. Estou certo de que ela era assim, rude, seca, exigente, porque era estéril e geria mal isso. A mim não faria diferença. Tivesse-se ela juntado comigo e se quiséssemos filhos poderíamos ter comprado uns índios ou pretos, mulatos de preferência, como agora está na moda, mas então não era costume. Mas não poder parir tornava-a tão amarga, arisca, desiludindo-me de qualquer esperança. Além daquilo com o Dust, claro, mesmo sem andar nem deixar de andar. Mas como o assunto começava a não me sair da cabeça e se calhar já estava a transparecê-lo, pois apanhei o ruivo a dar-me uns olhares de soslaio nada amistosos, decidi avançar.

 

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Naquela altura havia poucas mulheres. E onde cheguei a seguir só havia a Chinook. Esta era uma beleza, e uma doçura. Ainda para mais depois de ter conhecido a Comanche, rude como essa era, fiquei logo encantado com a índia. Mas, caramba, ela e o Buddy tinham acabado de se casar, logo tiveram um filho, estavam felicíssimos. E o Longway era um tipo excelente, como há poucos, talvez o melhor que encontrei. E um homem não se mete com as mulheres dos amigos, isso é sagrado. E assim fiquei, visitava-os, gostava da família, do ambiente. Conversava-se, comia-se, às vezes com algum passante à mesa. De quando em vez perguntava-lhe se não tinha uma irmã parecida para se me juntar, e devia ter, pois ainda por cima os índios confundem as irmãs com as primas. O Buddy sorria, percebia o elogio que a pergunta trazia, mas ela negava, não me devia achar grande peça. Ou então não tinha mesmo. E eu segui sozinho.

 

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Algum tempo depois conheci a Pandora. Todos estavam apaixonados por ela. Ou, pelo menos, interessados. Não havia quem o negasse. Não eu, digo-o com franqueza. Claro, ela era uma beldade. Fina, elegante, bem cheirosa, um pano de seda pura. E insinuante, tanta promessa, sonhava-se ao olhar para ela. Mas era tão pedante ... Percebia-se, nos seus trejeitos e ênfases, ser ela uma daquelas mulheres que nos infernizam a vida, nas suas exigências, nos seus amuos, pois tanto sabendo o quanto nos atraía, amarrava. E seguia já assim sendo apenas uma miúda, então ainda só uma aranhiça a aprender a tecer teias.  O que viria a ser depois, quando já sabida? E também logo percebi não ser ela para mim, haveria sempre de preferir um qualquer tipo de boas famílias, daqueles de estudos em universidades finas, belos empregos, gente respeitável. Era a esses que ela, sedutora, dava esperanças, só por eles aparentava deixar-se perseguir,  fingindo-se presa. Deve ter conseguido.  Guardar um deles. Às vezes imagino-a agora, daquelas que envelheceu magra, seca, decerto. Deve andar por aí, impante camuflando as infelicidades causadas.

 

 

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Acabei por ficar com a Esmeraldita, foi o Hugo que nos apresentou, disse-lhe que tomasse conta de mim e ela assim o fez. Estivemos juntos uns anos, bastantes até. O mal foi nunca ter ela deixado aquela vida, dizia-me não querer depender de mim. Terá sido outra a razão era outra, ela fazia bom dinheiro, os clientes muito a procuravam, e eu nunca fui abonado o suficiente para cobrir tudo isso. E talvez ela não gostasse assim tanto de mim, eu servir-lhe-ia de amparo, e os homens mais a respeitavam por a saberem mulher de alguém, ainda por cima de um branco. E também não me quereria largar por respeito ao Hugo, de quem ela gostava como de um pai, e se calhar ele era-o, apesar de ela ser toda preta, há casos assim, e por isso para ela eu seria uma missão, por assim dizer. Um dia fartei-me daquilo, de estar apenas para os intervalos, deixei-lhe o que tinha, disse-lhe para montar a sua barraca, instalasse-se ela como patroa para aguentar a velhice que haveria de vir, mesmo que ela ainda estivesse muito bem, magnífica, malvada, apetecível, filhadamãe, pois ainda a recordo, dias há que me vem o seu cheiro, e tantos anos passaram. Nunca mais dela soube, espero que não tenha bebido tudo o que lhe dei, não tão pouco assim. E que não tenha apanhado a maldita doença, que a tantas levou.

 

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Passados anos, um dia perto do Alto Ligonha, parei numa cantina ao entardecer. A dona era uma mulata gorda, ainda em bom estado, do Chinde, vim a saber. Pedi algo rápido para comer e seguir viagem mas ela mandou matar galinha e decidiu que nessa noite eu dormiria num dos quartos que alugava nas barracas das traseiras. E foi acordar o marido, que estava na sesta, pois ele decerto que gostaria de falar com um patrício, afiançou. Passado um bocado apareceu-me o homem, estremunhado, um velhote tuga vestido à monhé com um ar já muito acabado. Olhei para ele e pareceu-me que já o vira algures, "você não é o Figueira?", perguntei-lhe. O que gostou de ser reconhecido!, até rejuvenesceu, não se lembrava de mim mas mentiu que sim, e logo nos foi buscar verdadeiro vinho, daquele mesmo de uva, que não vendia à clientela local, "habituados às zurrapas", e perdeu-se em recordações. Contou que a idade viera e se cansara, decidira parar a venda ambulante. Arranjara aquela mulher, "um aconchego" disse, e eu a pensar que sim, que o seria, tanto que me retivera nas paragens, mamana atrevida ... E tinha-se estabelecido por ali, a cantina dava para ir vivendo. Foi simpático, quando lhe disse que estava a pensar em largar África logo me avisou "se você vai para a Europa vá falar com o capitão, um homem muito bem-posto na vida, e boa pessoa, grande amigo meu, diga-lhe que vai da minha parte, vai ver que ele o encaminha". Bom tipo, o Figueira, nunca fez mal a alguém, um enganozito aqui ou acolá, mas nada mais do que isso. Estava já no final, via-se e mais mo disse a sua patroa, depois, já na noite longa, apoquentado por qualquer coisa nas entranhas. E que ficasse eu descansado, ela estaria ali, cuidaria do velho até se acabar, afiançou.

 

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Quando cheguei à Europa procurei o capitão, no pretexto de lhe dar novidades do Figueira. Como não lhe sabia o paradeiro disseram-me para tentar na casa do senhor Hergé, muito seu amigo, que decerto me orientaria. Lá segui até Etterbeek, à rua Philippe Baucq, 33. O morador surpreendeu-se com o meu engano, apenas sabia que o homem ali nascera e crescera pois a casa tem uma placa a anunciá-lo. Mas, fosse como fosse, já há muito que morrera. Expliquei-lhe que quem eu procurava era um amigo dele, o capitão Haddock, se me poderia dar alguma informação. "O senhor capitão também já faleceu, há alguns anos", com homenagens públicas e tudo, do  próprio rei, sublinhou, coisas que haviam sido noticiadas nos jornais, concluiu. 

 

 

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Fiquei abalado, estava a contar com alguma ajuda. Entrei no café da esquina, a precisar de algo para ganhar ânimo. E estanquei, sem querer crer no que via. Meio a dormitar ali estava, sentado numa mesa, o Professor. Como seria possível?, conhecera-o já velho, deveria agora ter para cima de cem anos ... Sentei-me à sua mesa e nem se surpreendeu, percebi que seria habitual os clientes juntarem-se-lhe. Ofereci-lhe uma bebida e aceitou. Pedi cachaça, brasileira, talvez isso lhe avivasse algumas memórias. Mas não havia, então mandei vir tequillas. Perguntei-lhe que fazia por ali, resmungou qualquer coisa, até alheado, e foi o dono, flamão, que se chegara à mesa como se que a proteger o velho, que explicou, "o professor fora um grande sábio", em Praga, na Suíça, noutros sítios. E por isso uma universidade católica dera-lhe uma pensão de velhice. E que agora vive naquela rua, num asilo de velhos, umas portas ao lado. Todos os dias vai àquele café, anima, convive e beberica. E depois, para que não se perca, ao anoitecer vão-no buscar ou algum cliente o vai entregar. Mas, avisou, que não lhe faz bem exagerar nas bebidas. E tequillas? É demais para ele, disse. Aí o velho irritou-se, como se lhe roubassem algo, e começou a falar, de quando andara no Golfo do México, Caraíbas, até Antilhas, mais da Amazónia. Nas terras das tequillas, por assim dizer. Inventou um bocado, mas quem não o faz?

 

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Posto ele a percorrer memórias também as minhas se soltaram. Estar com o Professor lembrara-me o Hugo, também já morto, e deste deixei-me ir à Esmeraldita. E por aí atrás, até, muito pelo desanimado que estava nesse dia, me assomar a Marjorie. Carpi-a ali, de novo, décadas passadas, já entre bebidas em demasia. Nisso o velho, que já cabeceava, despertou. "Marjorie? Hart?", "conheço-a bem ... mas que ideia é essa dela ter morrido? Está viva. Bem viva." Resmunguei, que estaria ele enganado, pensando-o até mais senil do que já vai. Insistiu, que estava certo, filha de um colega dele, Hart, renomado professor de estudos bíblicos da Andrews, uma universidade adventista do Michigan, muito conferenciara com ele ao longo de anos. O pai sim, morrera, quando ensinava no Peru ou na Bolívia, não se lembrava com exactidão, depois de o ter feito na Bahia e no Paraná, onde haviam convivido. Quis crê-lo, apesar de ser impossível, alvoraçado pedi-lhe que me dissesse onde a poderia encontrar. Chamou o flamão, afinal "não sou patrão, só trabalho aqui" respondera-me, e explicou-lhe como me levar até ela, depois de fechar a casa. Pois ele não me podia acompanhar, estava muito cansado e tinha que mudar a fralda, já empapada. Levei-o ao asilo, e regressei, nervoso, impaciente, mais curioso sobre o que o Professor quereria dizer, não podia acreditar que falasse verdade, alguma confusão teria feito.

 

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Fechada a casa o flamão levou-me até  Tanguy e Laverdure, L'Intégrale 6, Bároud sur le Désert.  Azraf leidt de aanval uit de strip Tangy en LaverdO Michel e o Laverdure lá estavam também, com os seus Mirage, febris e heróicos, a combater no deserto, entre a Síria e Sarrakat, nem percebi bem, que confusas são as fronteiras no deserto, contra estes daesh de agora. Azraf, como sempre, com eles ombreia, liderando o seu bravo e fiel povo, enfrentando no terreno as facções sediciosas, umas a soldo dos americanos e outras dos russos, todas apoiadas por mercenários bem armados.  Em torno dele, e com a protecção dos incansáveis pilotos, e através de incontáveis sacrifícios, a vitória está imanente, apesar da inferioridade de meios.

 

E, para meu encanto, maravilhado, extasiado, afinal Marjorie está entre eles, dedicada. Pouco consegui falar com ela, nem me reconheceu, pois tanto mudei, imersa no seu corropio, tão atarefada nos hospitais de campanha, cuidando dos feridos apesar da sua exaustão e da falta de recursos. Fico siderado, surge-me igual, igualzinha, o tempo não lhe deixou qualquer marca, nem uma pequena mácula. Até vestida da mesma forma - pois a ganga não passou de moda, concluo. Olho-a, entre lágrimas, ainda apaixonado e agora até mais, e percebo como tudo lembro das suas linhas, de todas as suas entoações e meneios, do seu olhar, o azul do mar ali no deserto. 

 

De imediato me ofereço para ir buscar medicamentos que tanto escasseiam. Diz-me que estão distantes, e alcançáveis por travessia perigosa, algumas horas através de caminhos de deserto fustigados pelos mercenários pró-russos e pelos últimos rebeldes dos daesh, temíveis. Partirei na alvorada, Kaleb, já recuperado das sevícias sofridas, acompanhar-me-á.

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E percebo o que acontecera naquela época. De facto, não a havíamos visto morta. Aproveitando o raid da aviação de Mokhtar, Marjorie simulara a sua morte. Temera que o Michel, honrado como é, após aquele beijo se sentisse na obrigação de ficar com ela. E não o quis reter, prender, pressentindo que no tempo isso o tornaria infeliz, homem de acção que é. Que abnegação dela! Que sacrifício pelo homem que amava, que despojamento. Que mulher maravilhosa, ainda mais do que eu a recordava.

 

Exulto com este reencontro. Não tenho esperanças. Sei que após esta guerra o Michel partirá, com o Laverdure, para onde a sua França o convocar. Mas também sei que se antes fui uma criança, para ela sou agora um velho. Nem 30 anos ainda tem, e após esta aventura, todo este deserto, regressará ao seu Michigan deixando de ser "Marjorie da Arábia", quererá ter uma família, criar filhos. Precisa de um bom homem para isso, talvez da sua igreja ou, pelo menos, um bom cristão. Para mim para tudo isso é tarde demais. Mas estou feliz, já nada lamento, é bom amar. E lembro-me do que alguém me disse em tempos, julgo que foi o Jonathan, um bom rapaz, um bocado hippie demais, mas bom rapaz mesmo assim, e muito dado a saídas dessas: mais vale amar do que ser amado. É isso mesmo ... 

 

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Kaleb chama-me, já está lá fora com os cavalos, o sol desponta. Bebo o resto do uísque que o flamão me deixou. E vou andando. Será apenas mais um deserto.

***

AdendaTanguy e Laverdure, L'Intégrale 6, Bároud sur le Désert (Dargaud, 2016). Inclui 3 pequenas histórias, e duas histórias editadas em álbum em 1970: "O alferes Bang-Bang" (Lieutenant Double-Bang!), de 1968, publicada no "Tintin" português (#13 a 35, do 3º ano, 1970), e "Luta no Deserto" (Baroud sur le Désert), de 1969, publicada no "Tintin" português (#29 a #51, do 4º ano, 1971)).

Desenho de Jijé, argumento de  Charlier. "Tanguy e Laverdure" surgiu no primeiro número da revista Pilote (1959), e o seu desenhador era Uderzo, que abandonou esta obra em 1966 por estar demais atarefado com Astérix. O livro integra um dossier sobre a série e sobre a folhetim televisivo "Os Cavaleiros do Céu", e uma bela entrevista com Benoît Gillain, filho de Jijé e também autor de BD, sobre a carreira do pai.

 

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