Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

21
Jul16

O império colonial e os da Câmara de Lisboa

jpt

Lisboa Olivais 30Jun2011 (44)

Um dos locais mais relevantes de Lisboa, com importância paisagística, cultural, simbólica, chama-se Praça do Império. Foi nela, no interior do Mosteiro dos Jerónimos ao qual ela foi aposta, que o Portugal democrático simbolizou o seu passo político mais importante, a assinatura do tratado de adesão à União Europeia (então Comissão Económica Europeia). Foi nela que o Portugal democrático estabeleceu a sua primeira grande “obra de regime”, a construção do, então tão polémico mas agora pacífico, Centro Cultural de Belém.

cimeira cplp

Depois foi nesta Praça do Império, nas instalações do recente Centro Cultural de Belém, que em 1996 decorreu a cimeira constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em nenhuma dessas ocasiões, estruturantes da concepção política e da perspectiva histórica dominantes na sociedade portuguesa, se levantaram questões sobre a adequação daquele simbólico na toponímia e na iconografia lisboeta. Nem sobre a pertinência de a associar a tão relevantes momentos da vida política de um país que se quer, e imagina, distante do passado de explorador colonial.  Nem nesses momentos extraordinários nem no nosso quotidiano de cidadãos, na forma como vivemos o país, os nossos marcos patrimoniais e como assim nos impregnamos, até inconscientemente, das construções mais ou menos oficiais da história nacional.

Há muito para fazer no ensino e na reflexão sobre a história portuguesa, na transmissão de uma consciência das dimensões brutalmente exploratórias da expansão e do posterior colonialismo – algo que deveria ter impedido a socialista/lusófona decisão de extinguir a iluminista Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Essas foram, ao contrário do que vigora no nosso senso comum, dimensões nada articuláveis com “os brandos costumes” “civilizatórios”. Há muito para saber e disseminar, como o carácter estruturante do tráfico escravista na industrialização e desenvolvimento da monarquia constitucional de XIX. Como o belicismo colonialista da I República, que nos arrastou para I Guerra Mundial (algo vilmente sufragado em recente discurso pelo nº 2 do estado, o presidente da assembleia da república, o socialista Ferro Rodrigues) e para as crises político-económicas que desembocaram na ditadura. Ou como a base colonialista da industrialização da metrópole no Estado Novo (e no imediato pós-25 de Abril), assente na exploração dos povos africanos através da corveia generalizada. Esta necessidade da consciência da história não precisa de ser auto-culpabilizadora. Precisa apenas de ser consciente, da história, das nossas constituintes estruturais, económicas e culturais, para melhor analisarmos o presente e projectarmos o futuro, tanto do país como de nós próprios, portugueses. Longe dos mitos da versão que o Estado Novo pós-II Guerra Mundial construiu do “lusotropicalismo” e que o republicanismo (renascido sob o nome de Partido Socialista) actualizou com o nome de “lusofonia”.

Diante disto, da necessidade de tomar consciência da história, muito para além do patrioteirismo ou de um pateta auto-revanchismo, podemos olhar as formulações do que consideramos património. O monumental e o intelectual. O património, as classificações dos monumentos, das configurações urbanas, a toponímia, a iconografia, nada disso é eterno ou sagrado, intocável. Pode ser mudado, claro. Mas não é apagando-o que se refaz a história ou se constrói uma visão do presente virada para o futuro. A história não se purifica, interpreta-se, compreende-se. E essa transformação do que se considera património tem que ser consciente, racionalmente sistémica, não por decisões avulsas de gente impreparada. E apenas eleita.

Na Praça do Império, uma das zonas “orgulháveis” da capital, foram estabelecidos arranjos florais em formas de “brasões” municipais das localidades das então “províncias ultramarinas”, uma acção integrante do esforço ideológico do Estado Novo tardio em promover a crença no carácter imorredoiro do império colonial, estando já em curso as guerras de independência e terminados os outros impérios coloniais europeus. Isto é significante, historicamente significante.

Agora o gosto estético dos vereadores socialistas da câmara municipal ofende-se com os tais brasões. E o frenesim demagógico da “obra feita” (olhe-se como está Lisboa …) reforça a necessidade de os arrasar definitivamente, arruinados por abandono que já estão, sob a ideologia da “intervenção”. Descobre-se que há um vice-presidente, um Duarte Cordeiro. Que nos diz que “os símbolos são datados e podem ser ofensivos“. Isto é significativo de uma monumental ignorância, rasteira. Como se houvesse património não datado. E como se um país que se simboliza e se comemora numa “Praça do Império” devesse arrancar umas flores em forma de símbolos municipais das antigas … possessões imperiais. Como se fossem esses, secundários ainda que significantes, símbolos que pudessem ofender. Este tipo de discursos é patético, e até desesperante se o percebermos como denotativo da incultura daqueles que são eleitos para administrar o nosso presente, gizar o nosso futuro.

E lendo este “vice”, que ecoa decerto o “presidente” (por ora em férias), percebemos o quão avulsas, ignaras, são estas medidas. Exactamente na mesma época da construção dos arranjos florais em causa, o Estado Novo construiu o lisboeta bairro dos Olivais, junto ao aeroporto, muito significante da visão urbanística e sociológica então ascendente no país. Hoje central na capital, entre o aeroporto, as Avenidas Novas (a concepção urbanística predominante no período anterior do Estado Novo), e a Expo-98 (a concepção urbanística glorificada no período democrático imediatamente posterior). Integra uma freguesia com 32 mil eleitores, muito maior do que imensas câmaras no país. É um bairro colonial. O mais pequeno Olivais-Norte teve a sua toponímia dedicada aos militares portugueses mortos na guerra colonial. O maior Olivais-Sul tem a sua toponímia dedicada ao império colonial, os seus arruamentos foram nomeados com localidades (cidades, vilas) do império africano e asiático, e com alguns lideres locais aliados dos portugueses.

Ao longo de décadas de autarquia socialista em Lisboa nenhum projecto surgiu sobre esta característica, nem mesmo se aludiu à hipótese de uma reforma toponómica nos Olivais-Sul. Apenas agora uma rasteira, ignorante, demagógica alusão à putativa ofensa que uns brasões em flores, lá na zona ribeirinha, poderiam causar alhures. O que também demonstra uma visão “turística” da cidade, um centramento do olhar no “centro  histórico”, ou seja, do que se considera “histórico” e do que se considera “centro”.

Deixem-se lá ficar os brasões municipais. E as avenidas Lourenço Marques, as ruas Vila Pery, João Belo, Vila Cabral, António Enes, Cidade de Salazar, etc, aqui nos Olivais. E explique-se, enquadre-se (até com informação actualizada, como juntando-lhes, mas sem os substituir, os novos nomes, mapas, histórias locais, etc) essas realidades. Saiba-se a história. Não apenas a gesta dos “egrégios avós”. Mas também a destas reformulações feitas pelos nossos “tios” embrenhados em manter algo que, de tão serôdio, não tinha já razão de ser. Saibamos como foi.

E para isso, se for possível, e tão necessário o é, mudemos esta gente aboletada no poder.

(Postal no "Courelas")

 

04
Jul16

Clint Eastwood

jpt

clint e

Se na actualidade há algum bardo por aí é este e há muito que o encontrei, a fazer-me a vida. De todos os vivos é o meu cineasta preferido e, também, o meu pensador preferido. E compreendo que nos filmes dele, até nos falhados, fico feliz, suspendo todo o juízo crítico. Ora, não é isso o amor? Segue ele pensando o mundo com uma intensidade e uma densidade ímpares, incompreensíveis para os “bem-pensantes” das ideologias lites e muito para além dos pobres boçais que dele retiram o culto de colts, magnums ou drones. Julgo que a paupérrima apreensão da obra de Clint é mesmo o espelho do superficialismo militante do hoje em dia.

clint

Talvez ele nunca se tenha tão condensado como aqui. Em “Unforgiven” – naquele seu final avassalador – Clint, malvado, álcoolico, desesperançado, esmagado pela culpa, destino e responsabilidade, ali postado por mero interesse interesseiro, em busca de uma quantia prometida por um assassinato vingativo, e por tudo isso o único capaz de restaurar uma qualquer justiça e alguma moral, grita “é melhor que enterrem Ned [Morgan Freeman] decentemente … que não mutilem as putas“, e volta-se para trás – para a mole, a “demos”, escondida na noite chuvosa, tal como vive escondida na timorata cumplicidade com o mal dominante, e à qual acabara de ameaçar de matar as famílias e queimar as propriedades. E culmina “ou eu regresso e mato-vos a todos, seus filhos da puta“, e é aí que a bandeira americana, semi-obscurecida pela intempérie noctívaga, qual dantesca, surge, ela sempre ícone do eastwoodianismo, e não só dele – signo ali para a desinterpretação dos militantes profissionais.

Clint está a abandonar a cidade, acabou de matar seis homens, um desarmado a sangue-frio (o dono do bar), outros cinco em duelo. No rescaldo matou Gene Hackmann a total sangue-frio, em tiro queima-roupa de sem-misericórdia  – e mesmo que em filme já de 1992 isto de uma estrela como Eastwood abater deste modo uma outra estrela cinéfila magna como Hackmann é uma ruptura com o cânone, que um filme de Eastwood não é uma inútil pantomina tarantiniana, tem a grandeza de moldar, é produção de mundivisões.

É um momento único, uma síntese antropológica crucial: não só o trivial (aqui na gasta pátria desconhecido e desensinado) de que o real não é bi-cromático, pobre. Mas sim da complexa ética fundamental, de que o mal é constitutivo, essencial, um valor, plástico, melhor, úbere. Bem. E isso confunde. Não  a esta gente, a assertiva, vã. Mas o mundo, lá fora.

Em “Grand Torino” destrói o politicamente correcto, afirmando o quão o verdadeiramente importante está para além da verbalização, o como nada lisa é a realidade. Um filme que é uma lição, reflexão, sobre o que somos mudamos, sobre o rugoso do que expressamos.

Recentemente, em “Atirador americano”, o tão mais-velho vem majestoso. É o grande filme sobre a guerra desde que Kubrick se debruçara em “Full Metal Jacket”, refutando-a. Há aquela coisa da fantasia realista, que sobre o assunto Spielberg mimetizara nos frenéticos e abissais primeiros minutos do “Soldado Ryan” – mas que destroçara logo de seguida no patrioteirismo de rebuçado do resto do filme. Mas agora Clint, o maior de todos nós, humanos, ultrapassa os discursos alheios. Sim, a realização de cume, de um realismo ríspido, cruel, coloca-nos no palco da guerra, como se seus agentes e não meras vítimas. Mas muito, muitíssimo, mais do que isso, e muito mais ainda do que os filmes de mensagem, ali está uma reconstrução cultural fantástica, um etnógrafo assombroso, o cinema antropológico levado ao inultrapassável, um filme sobre “maiorias indígenas” exagero eu.

Diz o herói – e como podem os amantes da Ilíada e da Odisseia refutar os textos actuais sobre heróis, e sua ira até semi-divina? – que luta por “Deus, Pátria e Família” E nós sabemos, até porque os diálogos logo ali o negam, que o seu “deus” quase inexiste e também que a família se lhe desvanece. Fica, apenas, mas um Apenas maiusculizado, a “pátria”, essa que, afinal também canibal, o devasta na guerra, e tão mais aos seus circundantes, desde o irmão à última e esquiva, mas determinante, personagem do filme. É por isso que Clint é não só o Cineasta mas o grande intelectual deste virar de milénio, há décadas a afirmar a ambivalência, a rugosidade e, acima de tudo, as crostas e pústulas dos valores que perseguimos e afirmamos. Sem que isso tudo implique que os abandonemos. E é essa (sua) adesão consciente à ambivalência que se chama coragem. E é isso que o cada vez mais ancião nos lega, em formato de partilha, constante, filme a filme.

Quem me dera poder bradar “Clint rules”. Mas cada vez mais me parece que não, que neste mundo facetado, tantos o tresvêem, impercebendo-o como o verdadeiro iconoclasta de XXI.

whbh.jpeg

Veio-me tudo isto agora à cabeça. Porque é o 4 de Julho. Mas também porque num tão recente ontem, em dia de grande concílio, no meu aparente meio (profissional) alguém próximo se insurge com os meus ecos, coisas de mais de duas décadas a olhar os ademanes das gentes do meu país. De "tom colonial", dizem-me, num óbvio "neo-colono!", culminaram-me, exasperando-me. Tanto que nem respondi com substância mas apenas com as invectivas merecidas. Dias agora regresso, assim, de longe. Apelando ao Clint, claro, o Eastwood, o tal tipo de direita, fundindo velhos postais que lhe dedicara. Mais albergando-me neste “White Hunter, Black Heart”.

O filme é uma eulogia de John Huston, a propósito do seu “Rainha Africana” (com o herói Bogart e a deusa Hepburn). Para além das peripécias da realização daquele filme em África, do retrato do idiossincrático realizador e sua relação com o mundo de Hollywood, centra-se na sua paixão pela caça: a personagem hustoniana quer matar um elefante “porque é um pecado” e ele o pode fazer, tem para isso poder, uma cena liminar, excelente. A remeter-nos para o mundo, para o além dos valores.

Mas há muito mais, numa sublime aparente contradição, o húmus do filme. O avatar de Huston é um democrata, antifascista (retratam-se os anos 1940s). Insulta uma colona inglesa anti-semita, provoca uma desigual luta com um colono racista inglês, por isso sendo espancado – nisso explicitando a semelhança das atitudes, as do racismo nazi e do racismo colono. É, como os meus tão mais queridos agora, um democrata, de “esquerda” (“liberal”, dir-se-ia nos tempos lá na América), certo que em tom blasé mas basto empenhado. Depois vai à caça, cria uma ligação com o seu guia. Que conduz, patrão paternalista, e por mero egoísmo descuidado, desinteresse desinteressado, à morte. É no fim do filme que Eastwood explicita o título, os tamboristas tamborilando “caçador branco, coração preto“. Apesar das boas causas, daquilo de “esquerda”, da atitude (e do álcool), da aparente generosidade e solidariedade, da composição de fraternidade, igualdade e (desejada) liberdade.

É talvez por isso que nunca Clint entra nas notas de rodapé dos “papers” sobre a “colonialidade” ou sobre o “colonialismo”. E por isso que a “esquerda” sempre tão solidária o diz de “direita”. E, também, por isso que um tipo que lhe vê os filmes tem qualquer coisa de … “colonial” - como a mim, de mim, me dizem. “Neo” ou outra coisa qualquer.

Mas ao negrume no coração, e à bruma nas mentes, é alhures que a encontro.

Adenda: para quem tiver paciência deixo ligação a outro antigo postal, sobre um dos filmes da série "Dirty Harry": "Clint, o "Faxista".

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador

Em destaque no SAPO Blogs
pub