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Nenhures

Nenhures

28
Mai17

"A Bola"

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Jornal A Bola - Armazém Leonino

O meu pai António nunca leu um jornal desportivo – lá em casa lia-se o “Século” de manhã e o “Diário de Lisboa” à tarde, e as coisas da bola eram-lhe indiferentes, até incomodativas. Nas férias, em São Martinho do Porto, eu ia-lhe buscar os jornais à papelaria na “rua dos cafés” e ele dava-me dinheiro para que eu também comprasse “A Bola”, que saía 3 vezes por semana. Ele achava piada (ou seja, bem) que eu lesse jornais, eu queria-os pelos nomes do ciclismo, do “Tour” e também da “Vuelta”, com os quais decorávamos as caricas para os “grandes prémios” nas pistas de praia, e também pelas notícias de Deus Nosso Senhor Vítor Damas, do Yazalde, do Nelson, do Marinho e Manaca, do Dinis e Bastos e Alhinho, e depois do Fraguito (sempre) de meias-caídas, também do Carlos Lopes, Fernando Mamede, Aniceto Simões, Nelson Albuquerque, da belíssima Conceição Alves, Jorge Theriaga, Manuel Brito, Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento e tantos outros.

Assim cresci, desde a escola primária, a ler “A Bola” daquela ínclita geração de jornalistas, aqueles que também animavam a memorável coluna “hoje jogo eu”, em que botavam o olhar sobre o mundo, deriva então tão escassa: o director Carlos Miranda, das epopeias do ciclismo, o jovem Santos Neves dos automóveis, o entrevistador Rebelo Carvalheira que veio a morrer assassinado nuns quaisquer meandros, o intelectual da bola Victor Santos, o genial benfiquista-comunista irónico-mor Carlos Pinhão, o direitista estorilista Alfredo Farinha, o sisudo camarada Homero Serpa, o analista Aurélio Márcio, vários tantos outros, e punhados de correspondentes, locais ou de “lá fora”, como então se chamava ao estrangeiro (José Augusto na malvada URSS, Renato Caldeira no longínquo e inatingível Moçambique, Bruno Santos em Paris de França, Duda Guennes, que falava em Lisboa do Brasil, sei lá quantos mais). “A Bola” era um bocado, até bastante, vermelha (o que lhe dava bastante crédito junto do meu pai, comunista encartado) e imensamente encarnada. E era um belíssimo jornal.

As décadas passaram. Ali nos finais de 80s, já nas mudanças geracionais, para lá entraram camaradas olivalenses, o Afonso de Melo, que fora meu adversário de subbuteo, o João Matias, meu vizinho de rua, amigo e colega de turma de liceu e faculdade. O encanto desvanecera-se, talvez porque o jornal já diário, sem largar tinta nos dedos de quem o folheava, e nem aquele lençol sempre esvoaçante, ou até porque eu crescera. Mas era jornal. Ainda.

Depois foi decaindo. Imenso, imensamente. Há décadas que não o compro, apenas folheio, nos cafés. E nele clico, espreitando até com fastio, após ler o “Record”, jornal com o qual tenho relação utilitária. Mas com “A Bola” tenho esta relação, a da enorme primeira paixão feita amor desavindo. Mas ainda ciumento. E a sua degenerescência dói-me.

Nos últimos dias vem noticiando (sublinho, noticiando) a transferência de um treinador (Jesus) para o estrangeiro. Não aventa a hipótese. Não ecoa rumores. Não explicita vontades. Nem afirma cenários. Coisas que cabem no jornalismo. Mas não faz isso. Anuncia, ou seja, noticia o processo em curso. Um processo que, dizem de Paris de França, é “ridículo”, desadequado à realidade. Há quem diga que “não há fumo sem fogo”. Mas o certo é que há, e qualquer leitor o poderá dizer, quem ateie … fumos. O velho “A Bola” hoje em dia é isto, tipos a atearem fumos. Mentiras. E há muito tempo que o é. Ou seja, apenas um jornal que encena “factos” para se vender. A autoridade para a comunicação, a ordem dos jornalistas (ou sindicato ou lá o que é) nada dizem. Os tribunais também nada … Se algum jornal/jornalista mente sobre cultura (saiu um livro, um filme, abriu uma exposição, que, afinal, não existe) é rebaixado. Se sobre clima, falhando escandalosamente o boletim meteorológico, é gozado. Se sobre política é desacreditado. Se sobre economia pode até ser processado. Mas se mente sobre a bola, se “A Bola” mente sobre o futebol – e os clubes estão na bolsa, as mentiras sobre os plantéis têm influência na bolsa – isso passa incólume. Ninguém protesta. Nem, e isso é uma vergonha, os colegas da corporação. Nem o Estado que deveria ser regulador. Pois é só bola (mas depois vão-se abanicar nos triunfos patrióticos).

A minha “A Bola”, o meu primeiro amor, tornou-se uma velha prostituta. De esquina, barata. E eu tenho imensa pena. E, envergonho-me até disso, nojo.

(Postal no "O Flávio")

26
Mai17

O Ensino do Latim

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Ontem foi o dia argentino. Acabei-o a refolhear Borges. E logo a lembrar-me porque foi tão pouco querido de alguns: “Cada dia que passa o nosso país é mais provinciano. Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia que o ensino do latim fosse abandonado pelo do guarani.” (no “O Livro de Areia”).

(Postal no "O Flávio")

26
Mai17

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antonio sergio

Já nem me lembrava que António Sérgio havia sido efígiezado nas notas, recorda-me o google. Vem a imagem a propósito disto: "…porque em questão de fé toda a discussão é vácua. Quando um dos interlocutores de uma palestra qualquer declara que para ele certo ponto é de fé – creio eu que o coloca, por esse simples ditame, fora de qualquer discussão; e se o outro, depois, quer discutir ainda, toma uma atitude francamente absurda. Não discutirei, por consequência, a fé de ninguém …".

(“Sobre o método mais próprio para converter o incréu”, Ensaios VI, Editorial Inquérito, 1946, p. 254)

(Postal no "O Flávio")

23
Mai17

Terrorismo

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Quando eu era miúdo havia os marxistas, nas suas diferenças: Zhivkov ordenou o assassinato do Papa; Brejnev gulaguizava os povos de leste; Mao havia massacrado o seu povo e Pol Pot fazia-o; os Baader-Meinhof aterrorizavam, tal como os etarras e as brigadas vermelhas; Neto era o que era. Mas também vinham Berlinguer, até talvez Marchais, Willy Brandt, Amílcar Cabral, Palme, Allende, Carrillo. Que pensavam coisas diferentes, entre si e daqueles outros. Que o diziam, propunham, clamavam. Até denunciavam. Ouviam-se (mesmo sem redes sociais e a infinita tv por satélite). A gente destrinçava. Percebia quem era o inimigo raivoso, furioso. E aquele que apenas tinha perspectivas diferentes. Mário Soares não era Arnaldo de Matos, o MES não era a LCI ou a UDP.

Agora, na sua pluralidade, a cosmologia política adversa é o islamismo. Tem imensas diferenças entre si. E integra algumas fracções vindas deste demónio da modernidade, o integrismo/fundamentalismo. Aquilo que agora é mesmo diferente é que não ouvimos os líderes das maiorias pacíficas que habitam aquela cosmologia a constantemente denunciarem, criticarem, perseguirem a matilha assassina. “Isto não é o islão”, balbuciam, por vezes, quase como se a pedido. A gente sabe que são direcções políticas (há quem lhes chame clero) mais descentralizadas do que os nossas. Mas o seu silêncio é ensurdecedor. E é também ele que alimenta as generalizações, o preconceito. Não é a “nossa” ôntica maldade ..

(Postal no "O Flávio")

23
Mai17

Acrescento Louro

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Volta e meia surge alguém a gozar com os nomes de moçambicanos. No rossio da actualidade, o facebook, o modo disso é sempre o mesmo, símbolos jocosos enquadrando fotos dos BIs, que algum engraçadinho disponibilizou. É uma cena triste (para além da apropriação da documentação alheia). Pois as origens dos nomes são várias e o gozo só mostra a ignorância dos candidatos a cómicos: desde a atribuição autoritária e desrespeitosa nos tempos da administração colonial (o que não incide sobre as novas gerações, claro) até à tradução para português dos nomes nas línguas moçambicanas. Mas o motivo do riso muitas vezes é apenas a incapacidade de sair do hábito, rir-se do que parece diferente mas não é: acabo de ler alguém a gozar com um nome que agrega raiz, espera e mandioca. Mas diante de alguém chamado Esperança Trigo Fonte, por exemplo, ninguém sorri.

Depois há o que devia ser óbvio, as coisas do real servem para darmos nomes às pessoas. A mim, quando nasci, os meus pais, decerto que esperançosos, deram-me este nome, José Flávio. Ou seja, Acrescento Louro (depois saí-lhes isto, azar o deles). Com os nomes de família que tenho (Taveira, Pimentel, Teixeira), se fosse moçambicano “originário”, nascido em 1964, poderia ter sido registado, em apropriação literal, qualquer coisa como Deusdeu Este Louro Tseke Piripiri Teixo.

Muitos se ririam. Mas não se riem do meu nome. Apenas porque não o percebem. Nem, e isso é bem mais triste, percebem os seus próprios nomes.

(Postal no "O Flávio").

13
Mai17

Que Sociedade Para Portugal?

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Cada um interpreta o que lê conforme quer e consoante pode. Para hoje, dia em que o poder político se congrega com as autoridades eclesiásticas para celebrar o processo de Fátima e a canonização de duas crianças portuguesas, recolho e partilho, consciente que assim dele me aproprio,  um excerto de um texto do jesuíta Manuel Antunes, durante quase duas décadas director da revista Brotéria. Alguns poderão dizer que o manipulo. Se assim for que fique explícito que o faço com boa-fé.

Que espécie de sociedade desejamos? ( …) Uma sociedade em que estejam definitivamente para trás de nós o liberalismo atomista e o colectivismo totalitarista. Uma sociedade em que não se maximize o lucro nem se sacralize o poder. Uma sociedade em que o Estado, em vez de fim em si mesmo e de fim dos grupos que o compõem, se encontre, de verdade, ao serviço da comunidade das pessoas que o excedem em toda a linha. (…) Uma sociedade em que o espectro da mentira generalizada pela propaganda, da mentira que gera a mentira, por omissão ou comissão, se encontre afastado para o mundo das trevas exteriores. Uma sociedade em que os messianismos secularizados não se apresentem como substituto fácil da fé na transcendência e em que esta não possa cobrir com o seu manto protector um mundo de superstição ou de interesses bem mesquinhos” [Manuel Antunes, Repensar Portugal, Multinova, 2005 (edição original de 1979), pp. 30-32]

(Postal no "O Flávio")

12
Mai17

Fátima, segundo Vasco Pulido Valente

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Começo por lembrar que em 2010, centenário da instauração de república em Portugal, o papa Bento XVI (para além de tudo o mais um intelectual muitíssimo respeitável) visitou Portugal e Fátima durante o 13 de Maio. Com óbvio, mas então “esquecido”, significado político. “Esquecido” pois se a infalibilidade dos Papas já não é dogma as questões da dimensão estritamente política da acção deles continua a ser capeada pela retórica metafísica.

Sobre este fenómeno de Fátima deixo excerto de um texto de 1992 da autoria de Vasco Pulido Valente (“A República Velha“), publicado em livro em 1997 pela Gradiva. Um excerto que dedico àqueles que pensam (e o têm dito) que não se deve questionar a “fé” nem cutucar este fenómeno fatiminiano. Quadro de pensamento que não utilizam para tudo o mais, nem mesmo para as outras as actividades e suposições dos crentes em outras fés.

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (Vasco Pulido Valente, A República Velha, Gradiva, 1997, pp. 115-117).

(Postal no "O Flávio")

05
Mai17

José Capela e a História de Moçambique

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José Soares Martins foi jornalista no Moçambique colonial e, depois, durante 19 anos conselheiro cultural de Portugal em Maputo. Foi como José Capela que assinou a sua vasta, seminal e até fundacional obra historiográfica dedicada a Moçambique (aqui elencada). Morreu em 2014, tendo a sua débil condição de saúde nos últimos meses de vida impedido a realização da cerimónia de atribuição do doutoramento honoris causa que a Universidade do Porto decidira outorgar-lhe.

Agora, daqui a três semanas, nessa mesma universidade decorrerá uma conferência internacional que se lhe dedica, ao conteúdo da sua obra e aos rumos analíticos que ela despertou. As sessões decorrerão no 29 e 30 de Maio e o seu programa é este. Seria bom, e bonito, que se pudessem congregar os interessados na história e sociedade moçambicana, na história colonial e portuguesa. Para convívio intelectual. E para a homenagem devida a alguém que foi verdadeiramente relevante. E um supremo cavalheiro, coisa nada despicienda.

A organização da conferência está centralizada no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, onde Capela se sediou após o seu regresso a Portugal em 1996. No seu sítio electrónico poder-se-ão encontrar mais informações sobre as actividades.

(Postal no "O Flávio")

04
Mai17

Portugal e as Escravaturas

jpt

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Rebelo de Sousa foi ao Senegal e meteu-se a falar sobre Portugal e a escravatura. Falou mal, em modo anti-intelectual (e tendo ele  criado para si a figura do “professor Marcelo” obrigou-se a dar outro lustro às suas afirmações). E falou mal em termos políticos, abrindo um tema nas relações políticas com os países africanos que lhe virá, decerto, a ser cobrado.

As reacções logo vieram. Na esquerda radical, sempre prisioneira do catolicismo, do culto do cilício purificador, sequela da filiação iconófila (e talvez também sensual) a São Sebastião, afirmou-se a necessidade da expiação nacional. Nada de novo, pois, como se sabe, se a maldade do capitalismo (e da sua “acumulação primitiva”) é total, a deste rincão e suas gentes é supra-total. À direita surgiu a habitual flatulência adversa às reflexões das “ciências sociais” (assim mesmo, com as aspas) e à análise histórica que fuja à eulogia da gesta pátria. Exemplo até antológico desse “boçalismo a céu aberto” é este texto de Maria João Marques no Observador (um bom jornal, que foge ao paradigma “voz do dono” dos ex-ministros de José Sócrates, que agora recobre a generalidade da imprensa dita de referência no país).

A temática não é assim tão virgem e há uma boa tradição historiográfica nacional sobre o assunto – eu não sou historiador, vou lendo as coisas que encontro (mais do que tudo li Valentim Alexandre, José Capela e João Pedro Marques) e tiro a, minha, mediana.  Do que fui lendo retirei: o tráfico de escravos a partir de África para Portugal (e Europa) e, depois, para a América, foi condição fundamental da presença portuguesa em África desde meados de XV. A resistência portuguesa durante XIX em terminar o tráfico a partir das suas feitorias africanas para as ilhas do Índico e para a América, e em abolir a escravatura nas suas possessões, criaram uma imagem internacional (em particular na Grã-Bretanha) de que Portugal foi o iniciador (“descobridor”) do tráfico e da escravatura moderna, e seu furioso adepto. Durante XX a prática generalizada e intensiva do trabalho forçado nas colónias (uma corveia utilizada de modo discricionário e como tal bem mais violenta do que a tradicional portuguesa) foi associada à continuidade de uma mentalidade escravista, reforçando a imagem internacional de Portugal como cultor da escravatura. A reacção de inúmeros intelectuais e políticos nacionais, desde o início de XIX pelo menos, foi a de negar essa primazia, essa tendência e, até, de afirmar a benevolência da especificidade escravista portuguesa – não só afirmando um povo de “bons amos” como afirmando que a escravidão dos africanos os salvava de uma pior existência nas selvas africanas (pagãs, polvilhadas por antropófagos, subordinadas à radical violência das chefias sanguinárias e escravistas locais).

Nessa reacção nacionalista vingou, desde meados de XIX, o argumento do país como pioneiro da abolição da escravatura, dado ter o Marquês de Pombal abolido o tráfico para Portugal. Foi isso que, vergonhosamente, veio agora Rebelo de Sousa botar. Isto é, pura e simplesmente, uma aldrabice, um “com a verdade me enganas …” que é inadmissível num Presidente da República em democracia. Pode optar por não falar do assunto, seguindo a “política real”, uma ética de responsabilidade, e aceita-se. Mas se fala então tem que o fazer num compromisso com a análise histórica, o conhecimento.

De facto Pombal proibiu o tráfico para Portugal porque escasseava mão-de-obra escrava no Brasil: “Fazendo nos meus domínios Ultramarinos uma sensível falta para a cultura das Terras e das Minas, só vêm a este continente [os escravos importados] ocupar os lugares dos moços de servir, que ficando sem cómodo, se entregam à ociosidade …” (cito o texto legal publicado em “O Escravismo Colonial em Moçambique” de José Capela, 1993, p. 194). E é também por essa necessidade de reforçar o tráfico para o Brasil, tanto para dinamizar as produções na colónia como para reforçar os rendimentos das alfândegas nas feitorias africanas, bem como para dinamizar o comércio escravista em Moçambique, onde os escravos eram muito mais baratos do que na África ocidental, que Pombal promove a reforma administrativa que desliga Moçambique de Goa, algo que terá impacto no estabelecimento da futura colónia (até na delimitação do seu território e, depois, da sua identidade) e do futuro país. Ou seja, a escravatura não é um assunto menor da história (até política) e tem sido sistematicamente silenciada no discurso público e na pedagogia histórica. Tanto que um presidente da república pode dizer, em pleno 2017, um dislate destes. Para os tontos da direita nacionalista a gente pode (e deve) tratar do património cultural (do tangível, de preferência), pode estudar e escrever sobre os Bartolomeus Perestrelo, Dias e Gusmão mas deve-se abster de coisas menos “nobres”. E deve deixar de entender como as velhas práticas moldaram as categorizações que de nós fazemos, dos outros fazemos e que os outros de nós vão fazendo.

Noutro eixo, gauchiste, sempre furibundo, apela-se ao auto-de-fé (fogueira sem torniquete prévio e com lenha molhada de antemão, de preferência, para que tudo demore …) da história nacional. Pois o âmago (do) luso foi, e é, o escravismo. Deste iniciador, na sua versão moderna. Deste único continuador, na versão contemporânea (no XX, para facilitar). E se um tipo torce o nariz a estas tendências (e a esta pobre visão não só da história como do que é o social) é-lhe dito que é um “lusotropicalista” – coisa que, neste contexto intelectual e ideológico, é entendido como um insulto, tipo “imbecil ignorante”. Algo que eu muito bem compreendo, porque é exactamente o que eu associo aos proponentes da “lusofonia”.

Para resolver estas tendências não há como ler. Há um pequeno livro de síntese, “Portugal e a Escravatura dos Africanos“, de João Pedro Marques, publicado em 2004 pela Imprensa de Ciências Sociais. São 140 páginas preciosas, e absolutamente legíveis. O ideal para qualquer leigo que tenha um interesse pela história do país – ainda para mais porque esta temática está sempre ausente do discurso público e dos programas de ensino da história. O problema é que a distribuição das publicações da ICS é muito fraca, e é possível que o acesso ao livro seja relativamente difícil. Mas, até aproveitando este reavivar da temática devido às declarações do PR, poderia o livro ser redifundido (ou reimpresso). Marques começa por apartar, conceptualmente, a escravatura das outras formas de trabalho forçado (dito chibalo em Moçambique ou corveia no Portugal antigo), sem que com isso recuse (bem pelo contrário) continuidades históricas nas formas de conceptualizar a apreensão da mão-de-obra africana. E depois explicita como a estrutura de plantação assente em mão-de-obra escrava, que foi a base do tráfico escravista, é uma herança do contexto mediterrânico pré-expansão (“Descobrimentos”). E refere a importância prévia do tráfico terrestre transahariano e índico, no contexto islâmico. E descreve a estrutura do sistema escravista (produção de escravos, comércio de escravos, consumo de escravos) entre XV e XIX, bem como os passos, titubeantes, da sua abolição em XIX. Explicitando como o tráfico se abasteceu em África em osmose com as estruturas políticas existentes, e dele alimentadas. Bem como as suas sequelas na codificação e prática do trabalho forçado em África por parte das potências coloniais. Nada, no seu discurso, quer culpabilizar ou desculpabilizar. Engrandecer (mitificar) ou denunciar (mitificar). Faz a sua análise. E demonstra-a. 

(Postal no "O Flávio")

03
Mai17

Centenário da Morte de Hermenegildo Capelo

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Há exactamente 140 anos, em 5 de Maio de 1877, o capitão-tenente Hermenegildo Capelo, e o major Serpa Pinto partiram de Lisboa para Luanda, onde se lhes juntou o primeiro-tenente Roberto Ivens. Cumpria-lhes a Expedição Portuguesa ao Interior da África Austral, de objectivos algo fluídos mas com particular incidência na recolha científica de dados geográficos (cartográficos e hidrográficos) do interior continental, aquela gigantesca área que os interesses portugueses vieram a intitular (e reclamar) Mapa Cor-de-Rosa. Divergências sobre o conteúdo da missão implicaram a sua divisão. Serpa Pinto, em viagem decorrida entre 1877-79, avançou da actual Angola até Pretória (relatando o feito em “Como Eu Atravessei África”). Os dois marinheiros percorreram, entre 1877 e 1878, uma vasta zona de Angola mas falhando a tentativa de penetrar a leste, viagem da qual produziram (Ivens escrevia, ambos assinavam) “De Benguela às Terras de Iáca”. Mas redimir-se-iam desse relativo fracasso, pois em 1884, por incumbência do então ministro da Marinha e do Ultramar, o célebre escritor e jornalista Pinheiro Chagas, partiriam em nova expedição, cruzando o continente de Moçâmedes a Quelimane, deixando o relato em “De Angola à Contracosta”.

exploradores portugueses5

Entretanto cumpre-se amanhã, 4 de Maio de 2017, o centenário da morte do vice-almirante Hermenegildo Capelo (n. 1841).  Tomei conhecimento disso ao notar numa modesta fotocópia de cartaz afixada na montra de uma pequena loja na sua terra natal, Palmela. O programa comemorativo é simpático mas algo modesto: um passeio pela cidade, a imposição de uma placa comemorativa, uma sessão solene na igreja. E um concerto da banda da marinha (forma da armada se fazer representar?). Certo, talvez as instituições palmelenses (escola, câmara, estado, “sociedade civil”) venham abordando esta personagem ao longo dos anos, não conheço a vida da vila para o negar ou confirmar.

Ainda assim parece-me que algo mais poderia ser feito. Exposições, debates, mostras de filmes, etc. Com pessoal local, convidando vizinhos (p.ex. de Setúbal, que é uma cidade universitária, se é que é preciso a universidade para isto), até da urbe Grande Lisboa, aqui tão perto. Até porque, ao ter conhecimento desta efeméride, procurei na internet outras actividades evocativas, a decorrerem no país. Nada encontrei.

É certo que estas expedições científicas tinham um carácter eminentemente político, de reclamação de direitos históricos e de capacidades coloniais, e que foram matéria-prima para exaltação nacionalista e colonialista. Um passado que é hoje vivido no país um pouco em surdina, num óbvio desconforto, vindo da ausência da percepção do “tom correcto”. Nada aplacada pelos dominantes discursos seguindo a ideologia da lusofonia, que vêm o “encontro colonial” (uma expressão que só por si é um “must”) entre Portugal e as ex-colónias como se fosse uma simpática turma da universidade da vida. Muito menos pelos discursos minoritários, em particular em termos de vozes estatutariamente reconhecidas, que ainda louvam a gesta civilizadora portuguesa, como se Portugal tivesse sido (e ainda devesse ser) um mui competente mestre-escola, protector ainda que algo pedagogicamente inflexível, em regime de bom paterfamilias. E também os arautos da necessidade de um calvário nacional, da necessidade da expiação do pecado colonial, como se fosse este país, e esta gente que por cá coabita, emanação de um degenerado, bullyesco e até pedófilo, agente.

Em tal cenário nacional será de aproveitar as efemérides para contar (analisar, e ajudar os outros a analisar) a história nacional, calibrando o olhar necessário, sem silêncios, sem eulogias, sem autoflagelações. Uma consciencialização da memória histórica. Uma das formas é a leitura, usar os momentos para o apelo à leitura. Acima deixei os títulos dos livros dos exploradores. E deixo aqui a referência ao Exploradores Portugueses e Reis Africanos: Viagens ao Coração de África no Século XIX, um interessante e muito legível livro (já agora, cheio de extractos escritos pelos exploradores e com alguma iconografia de então, algo sempre agradável) feito pelos antropólogos Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde (Esfera dos Livros, 2013). Certo, a obra foi pontapeada por Diogo Ramada Curto (o que não é caso único, conhecido que é o crivo acerado do prestigiado historiador), mas vale bem a sua leitura. Pelo prazer que traz, a qualquer interessado no assunto. E pelo hipotético contributo para uma reflexão sobre o passado.

E, em última análise, até porque não é totalmente excêntrica à tão simpática Palmela. Podendo até ser dita “coisa da terra”. Nisso sendo, mesmo, destinada a preencher as estantes locais. Num município desprovido de livrarias …

(Postal no "O Flávio")

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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