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Nenhures

grenfell-tower-fire-1704-hero

(Este postal refere o artigo do The Guardian “Teresa May was to scared to meet the Greenfeld survivors“).

X é um jornalista que foi muito animador do bloguismo (e logo no tempo em que a sua corporação ainda bramava contra a nova era da palavra pública) e, depois, de outras formas de expressão na internet. Nisso foi, durante anos, um tipo simpaticíssimo comigo, acolhendo e ajudando. Estou muito grato. Fui agora ver o seu mural de FB e descubro que já não estamos ligados (se calhar, surpreendo-me, terei sido eu a cortar, em dia de mau-humor. Se calhar foi ele, por desinteresse). E é por isso que não o nomeio, pois este postal não é ad hominem, não é mesmo ad hominem. Fui lê-lo porque o vejo (é a minha interpretação) como exemplo da palavra internética atreita ao PS, mas sem a pompa do académico-político ou a verve dos assessores, e tive a curiosidade de lhe ver a linha de recepção do acontecido em Pedrógão Grande e arredores. Talvez porque jornalista, concedo, centra-se na crítica (visceral) ao trabalho da imprensa. Mas imediatamente antes do incêndio reproduzira um postal de um prestigiado vulto da academia portuguesa, partilhando o artigo cuja ligação encima este texto, ambos realçando uma mesma parcela do texto. Vou ver a origem da sua partilha, o mural da intelectual portuguesa, e comparo, em ambos os casos, com a forma como analisam o que aqui aconteceu. É a minha, amadora e atomística, forma de procurar o ambiente geral à “esquerda”.

Vejamos: no dia 14 a torre Greenfell arde em Londres, uma tragédia horrível, potenciada pela incúria das instituições estatais e a ganância dos empresários construtores. No dia 16, dois dias depois, o Guardian (o “meu” jornal britânico, como o Mail & Guardian é o meu sul-africano) publica este artigo. Duríssima análise, imputando responsabilidades por aquela centena de mortos aos governos conservadores. Cito o que os dois compatriotas entenderam realçar “That tower is austerity in ruins. Symbolism is everything in politics and nothing better signifies the May-Cameron-Osborne era that stripped bare the state and its social and physical protection of citizens. The horror of poor people burned alive within feet of the country’s grandest mansions, many of them empty, moth-balled investments, perfectly captures the politics of the last seven years.” O “meu” Guardian não deu tréguas, o seu luto não é o silêncio. É o escrutínio, no momento, com os dados disponíveis. A exigência, ao poder político e à administração pública. Uma análise dos processos sociais e políticos que conduzem às catástrofes. E isso é, por ambos, realçado, partilhado, assim explicitamente louvado.

Mas, no mesmo fim-de-semana, logo de seguida às suas partilhas, acontece a desgraça em Portugal. O que leio naquele mural? O lamento pela fúria dos elementos; o elogio do recolhimento, a correlação entre respeito pelas vítimas e contenção, a qual é apresentada explicitamente como exigência do silêncio; a partilha do texto de F. Câncio no DN que logo se apressou a reduzir o acontecido a uma inevitabilidade climática; uma crónica própria dita na imprensa radiofónica 2 dias depois do acontecido consagrando a tese de que as causas da catástrofe foram apenas naturais e aludindo ao aquecimento global. A crítica à imprensa – com o espantoso momento em que vitupera a falta de deontologia dos profissionais porque continuaram a filmar mortos apesar das “ordens da GNR” que os queriam proibir disso (é preciso repetir? uma crítica, vinda da intelectualidade de esquerda, aos jornalistas porque não acatam ordens da polícia para parar de filmar uma catástrofe!) (é preciso que eu repita outra vez?). E, exactamente dois dias depois das mortes, a elogiosa partilha de quem escreve (no DN, de novo) “é o momento de ajudar, não de criticar“. Culminando, insisto, 2 dias depois das mortes (exactamente os 2 dias que dista o artigo do Guardian do incêndio londrino, friso), com a recusa do “aproveitamento político” da situação, considerando-o “nojento“. Ou seja, dizendo nojenta a análise política do acontecido. Quanto ao meu (ex)blogoamigo-FB continuou, por seu turno, batendo forte e feio na Judite de Sousa e similares. Ao resto dizendo nada.

O tão louvado espírito do Guardian? Deve ser só para acima do canal da Mancha. Ou, vá lá, da velha Vilar Formoso. E é este o ambiente geral, abaixo de Vilar Formoso. Os laicadores, no FB (alguns, lamento dizê-lo, meus conhecidos) e fora dele, ululam e laicam. E vão impantes, eles e os laicados.

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No final dos anos 1980s foi o “surto” das celuloses. Eram mecenas apetecidos, patrocinavam actividades. Era um maná, dizia-se. De facto não precisavam de publicidade para nada, era mesmo a criação da boa imagem, da naturalização da eucaliptização. Os da minha geração lembrar-se-ão disso. Para mim foi também foi esclarecimento político radical: era o tempo em que se vendia a ideia de que Portugal não tinha dimensão para ser agrícola, devendo ser silvícola e “de serviços”, e depois aquilo do Sillicon Valley da europa. Eu, tal como algumas pequenas franjas urbanas, ouvira o excelente Ribeiro Telles do PPM, a única voz pública ecologista, e que algo colheu do impacto dos movimentos ecologistas europeus daquela década, apesar do seu perfil diferenciado face a esses. Depois surgira o governante Carlos Pimenta, enérgico. E que veio a ser, convenientemente, enviado para Bruxelas. Nisso eu deixara-me de quaisquer dúvidas sobre o quão abominável era o poder de Cavaco – que viria a acabar anos depois entre Duartes Limas, Nunos Delerues e ainda da missa não sabíamos quase nada, das trocas da “Mariani” ao conselheiro Dias Loureiro passando por aquela cloaca toda – quando o ministro Mira Amaral declarou que os eucaliptos eram o nosso “petróleo verde”. E passara a votar PS.

Uma década depois, já o PCP havia criado a fraude “verdes”, usurpando um importante espaço simbólico (e roubando, via parlamento, o erário público e abastardando o sistema político, expressando o seu escarro ditatorial pela democracia parlamentar), o jotinha Sousa Pinto, durante andanças do parlamento europeu, seduziu Mário Soares para a sua léria “causas fracturantes”. O velho sábio percebeu o filão político que ali estava, e patrocinou-o no já pântano de Guterres, o que implicou a adopção de algumas causas urbanas apetecíveis ao agit-prop e ao colher de simpatias nas novas gerações. Estratégia cuja refracção promoveu a coligação dos grupelhos de inspiração estalinista, maoísta e trotskista, que desse momento se alimentou. Os núcleos da pequena-burguesia urbana, funcionalizada ou a isso almejando, aderiram a esse feixe de causas, muito derivadas da importação da agenda identitarista americana – algo interrompida quando a causa da legalização do cannabis não ascendeu devido ao surgimento da crise mas é óbvio que vem aí a da racialização da sociedade -, apetecível aos quadros universitários que a compunham (e compõem). E também valorizadas porque apreensíveis pela corporação jornalística, oriunda dos mesmos estratos sociais e, sendo generalista e menos dotada de capital cultural, consumidora e reprodutora de questões de aparente simplicidade pois sempre traduzíveis em termos “morais” e apelando à simplificação topológica “direita-esquerda”.

Refiro isto pois significou a absorção de energias políticas num “nicho ecológico” social português do qual se poderia esperar a emergência de sensibilidades e até movimentos ecologistas. Que alertassem, debatessem e colocassem no centro da agenda política a questão da flora nacional, do ordenamento territorial. Houve e há associações e sensibilidades ecologistas, há discurso, há até imprensa (e houve bloguismo…), mas têm pouca repercussão. Entretanto o país organizou a Europália, comemorou os “descobrimentos”, propagandeou a lusofonia e a CPLP, fez a EXPO-98, entrou no euro, Timorou, avançou para o Euro-2004, acreditou-se enriquecido, e depois rebentou-lhe a crise, distraído que vinha. Retraiu-se. Agora até avançou para tentar prender uma ligeira franja da oligarquia que tem predominado.

Mas não olha para a grande revolução que lhe acontece há décadas, a silvícola – ululamos que somos campeões de futebol mas ninguém se interroga, ou apenas refere, que somos campeões do eucalipto, o país do mundo com maior percentagem de território em eucaliptal! Tem especialistas, tem testemunhas. Mas não os ouve. Aos que falam da dramática involução da flora, do apego ao produtivismo silvícola. São questões complexas e dolorosas, e não reduzíveis em simplicíssimos termos de “moral” ou de “esquerda/direita”. Terá muito de conhecimento científico mas tem também muito de decisão sobre modelos de desenvolvimento do país, que naquele não se esgotam.

E a questão não se alimenta dos partidos nem os alimenta. É certo que o PCP (ainda que abastardando a questão pela sua canibalização simbólica do movimento ecologista) sempre tem combatido este movimento do “eucaliptal”, ainda que não lhe dando o relevo político que a sua centralidade nacional exige. O PS e o PSD estão colonizados por interesses económicos. E estão esvaziados de verdadeiros núcleos de debate ideológico (entenda-se, sobre estratégias desenvolvimentistas), são botes de cabotagem, nada mais. O CDS esvaziou-se após décadas de solavancos de Paulo Portas (alguém ouve falar em democracia-cristã? há alguma reclamação de uma via conservadora?) e enreda-se no oxímoro do sex-appeal ponderado, maculado pelo abate de sobreiros. O PPM morreu, andando por aí uma apropriação tão básica que indigna, o Partido dos Animais (no qual votei) é, afinal, um ruminante, o Partido da Terra é mera areia. A ecologia, ou seja, o ordenamento do país, a preservação/desenvolvimento da flora e do país não é assunto dominante. E não colhe votos. Porque nós, eleitores, não votamos segundo esse tipo de considerações, escolhemos pelas promessas de redistribuição dos fundos estatais e pela aparência e retórica dos cabecilhas.

E o “petróleo verde”, ele-próprio e todo o abandono e inquestionamento do interior que ele simboliza, continua a espalhar-se. E a ser, até, usado como símbolo do benfazejo. Neste país, no qual a produção das celuloses poderá ter lugar, a simples ideia de que este epíteto é valorizador, ainda utilizável, significa o vazio da discussão, da desistência da população e da conivência e incapacidade dos políticos. 30 anos depois de Mira Amaral ainda se ouve Paulo Fernandes, responsável da Altri, receber António Costa, fazer-lhe exigências, ainda que sendo financiado, e brandir, melífluo, o “Petróleo Verde”. Diante do silêncio, incapaz, do primeiro-ministro. Este apenas mais um na fileira dos abstencionistas. Políticos de cabotagem. Que governam, com nosso acordo, esta República dos Eucaliptos, tal como outros títeres o fizeram nas repúblicas das bananas.

Deixo breves programas da RTP, 5 minutos, para que não se diga que há radicalismos políticos envolvidos:

Compreender os incêndios florestais de 2013. A eucaliptização do país.

Associações ambientalistas acusam o Governo de querer destruir a floresta com nova lei

(Postal no "O Flávio")

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(ao correr das teclas):

1. Grande fotografia na capa do Público (de Paulo Pimenta): o horror, cru, sem ser preciso violentar sensibilidades e intimidades. E a mostrar também que, mesmo nesta era de superavit de imagens, nada substitui a imagem que é fotografia, a profissão do fotorepórter.

 

2. Uma coisa desta magnitude foi uma catástrofe. Há imensos fogos todos os anos, mas nunca como este, com esta desgraça. Uma conjugação de factores climáticos única, maldita, a provocar algo extraordinário. Assacar as culpas ao governo é um pensamento pobre, qual uma acusação de feitiçaria. Nisso de encontrar causas humanas, dolosas, para todos os fenómenos malévolos. De aplacar deuses e espíritos (e as nossas consciências) com um sacrifício, imolar um bode expiatório feito gente. E há já muita gente nisso … Houve erros? (sobreviventes dizem que foram enviados pela GNR para a estrada assassina), descoordenação, falta de meios ou de informação, alguma incapacidade face ao descalabro? Talvez sim, talvez não. Mas não foi isso que causou algo tão assim.

3. Uma desgraça destas exige pensar. Pensar “fora da placa” – ou seja, pensar fora do “consenso”, esse também maldito mito que entorpece. Ontem dois bons textos de Henrique Pereira dos Santos, digo eu que sou totalmente leigo na matéria: no Corta-Fitas; e no Público.

4. Causas sociais? Ângelo Ferreira (que foi bloguista) escreve hoje o seu espanto/desagrado, relatando que ontem numa freguesia de Aveiro, apesar da desgraça e do luto nacional decretado, passaram a tarde a lançar foguetes dadas as festas tradicionais (algum santo, decerto). Melhor imagem para o desprezo insensível do litoral urbano para com o mundo do interior, ainda ruralizado? Capeado pelo interesse muito actual, até folclórico, pelas feirinhas nos xópingues do queijo curado, do fumeiro, e do turismo rural de alguma burguesia. A queimada que Portugal é desde há algumas décadas vem muito disso, do olhar para o Atlântico virando costas para o interior: com raiva, aqueles que vieram pobres, “filhos” dos das courelas ou de malteses ou ratinhos. Com o desprezo de sempre, dos “filhos” de lavradores ou morgados, e dos arrivistas.

5. Políticos? A população está chocada, e teme que coisas destas se repitam. E chora a terra queimada, sempre. Tem que ser sossegada e esclarecida. Ou seja, sem demagogia. Os políticos têm que esclarecer e ser escrutinados. O Presidente Rebelo de Sousa disse em 2016 que iria privilegiar o acompanhamento desta questão.  Não lhe compete legislar ou executar. Mas pode induzir, sensibilizar. E, politicamente, pressionar. Falou mal agora, quando no meio dos acontecimentos explicitou a desnecessidade de qualquer avaliação dos procedimentos havidos? Falou pessimamente. Mas acima de tudo, para que se possa escrutiná-lo, tem que nos dizer que acções tomou neste último ano, junto do governo, da assembleia, da administração pública, da sociedade civil, para cumprir a promessa que fez aquando dos incêndios do ano passado. Mesmo que tenha que violar o tal sigilo do Conselho de Estado. Mesmo que isso cutuque outras instituições e pessoas. Ele é o Presidente, tem que ser ouvido e escrutinado, para se salvaguardar. Não é preciso muito, duas páginas A4 chegam, explicitando acções e propostas feitas ou ouvidas, seus interlocutores, resultados esperados e havidos. Tem assessores para fazer isso, rapidamente (durante o luto, mesmo). Não se trata de diplomacia externa, de defesa nacional ou mesmo de política económico-financeira, questões em que o sigilo total ou relativo se impõe. É a administração do país, a política agrícola e silvícola, o ordenamento territorial. Fale. Fale-se.

6. O PM Costa foi ministro da administração, sabe da matéria, e quando chegou a PM prometeu combater (eliminar, quase) os fogos. Já circulam por aí as medidas tomadas dizendo-as responsáveis deste colapso, exactamente replicando o que Costa e o PS (e o BE) fizeram no governo anterior, ao qual diziam directamente responsável pelos fogos. O PM tem que ser escrutinado, não culpado. E neste caso não é no parlamento, é diante de todos para nosso sossego. Deveria explicitar concisamente (mesmo que o tenha vindo a fazer ao longo do tempo, recorde-nos agora) quais as medidas tomadas, as legisladas e executadas, quais os seus objectivos e os seus resultados até agora, um ano e meio depois de ter tomado o poder. A ministra da tutela disse, também há ano e meio, da extrema evolução da segurança e da capacidade organizacional devido às medidas que tomou. Esclareça isso, nas tais duas páginas A4 para nós-povo, e em detalhe para um alargado leque de agentes e estudiosos especialistas. Discutam isso. Mas antes de discutir informe-nos. E diga (digam) também que medidas falharam, ou não se conseguiram estabelecer, ou estão a meio – pois há uma desumanidade no discurso político, de anunciar completudes. Isso não existe. A mesma coisa para o secretário de estado, cujo perfil foi muito humanizado, pois chorou, pois soube-se que já passou por trauma semelhante. Diga, curto, conciso, franco, o que já fez, o que não conseguiu fazer, o que pretende fazer. E que dúvidas tem. Têm.

A culpa não é deles. Isto é uma questão de décadas, estrutural. Social, para dizer melhor. Como são presidente e governo têm, na crise, de nos dizer, verdadeiramente, sem abraços, beijos ou auto-retratos, falando de “pessoas para pessoas” o que fizeram, o que pensam fazer.

7. Como velho bloguista tenho um mural de FB muito diversificado. Inúmeros ex-bloguistas, jornalistas, académicos, profissionais da palavra. Talvez por indução do algoritmo-FB, que tende a esconder aqueles com quem não interagimos, mas talvez não, nessa mole de gente interessante aquela fracção mais ligada afectiva e ideologicamente ao poder actual foi pouco expressiva neste fim-de-semana. Surpreendi-me, até porque costumam aparecer na minha lista de actualizações (feeds) analisando e opinando sobre várias matérias. Não tanto nesta. Surgem-me hoje, criticando Judite de Sousa, uma qualquer pergunta que fez à ministra, e uma reportagem populista ao que parece. Encontraram nela a sua catarse. E o bode expiatório alternativo. É paupérrimo, intelectualmente paupérrimo. E é, até, moralmente abjecto.

(Postal no "O Flávio")

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Passo por Évora, levam-me a conhecer a célebre confeitaria do “Pão de Rala”, sento-me e olho as paredes da pequena sala pejadas de fotos de ilustres clientes, como se tornou costume. E noto, em destaque, a foto do Velho. Comovo-me, fotografo a foto, “conhecia-o?“, pergunta-me a dona, e conta, com simpatia feliz, que ele encomendava os seus doces, os quais lhes eram feitos chegar. E que quando foi a Évora receber o honoris causa logo que a cerimónia acabou para ali se dirigiu, “era um 22 de Fevereiro e chovia muito, mas ainda assim quis vir“, para conhecer a casa e a (magnífica) doceira que tão deliciosamente o abastecia. Sorrio, imaginando o quão Malangatana ali terá sido em tão especial dia. E notando a bela memória que ali deixou. Como sempre, como sempre …

(Postal no "O Flávio")

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Há alguns anos o tipo representado por esta estátua plantou-se num estreito, diante de um exército inimigo imensamente superior. A páginas tantas virou-se para as parcas centenas dos seus soldados, já exaustos por dois dias de combate desigual, e gritou-lhes, gutural, qualquer coisa como “No Pasarán!”, no seu grego clássico. Os homens –aqueles que ele guardara junto de si exactamente para aquilo – eram um bando de rudes, vindos de vários sítios daquela península, até inimigos entre si, decerto que desdentados, carregados de pústulas e furúnculos, alguns raquíticos, outros zarolhos, gagos, haveria até dementes. Todos seriam analfabetos, à excepção de um ou outro oficial, e todos crentes em estranhos deuses, adivinhas e feitiços e nem se teriam questionado se a terra era redonda. Não sabiam o que seria aquilo de “pátria”, estavam ali para lutar contra uns tipos que os queriam obrigar a pagar impostos extras e, quanto muito, a fazer uns casamentos entre gente nobre de ambos os exércitos. O seu comandante era um rei, de uma terra onde não florira qualquer aragem de “democracia”, “igualdade” ou “fraternidade”, nem tão pouco de filosofias benfazejas ou artes amenas. E todos terão urrado em uníssono “No Passarán!”, no grego rústico deles. E deram tudo por isso, fazendo-se massacrar.

As gerações anteriores liam esta história, alguns até aprendiam o grego de então – hoje não porque não dá emprego, pois não contribui para o desenvolvimento sustentável e a inovação tecnológica. A estes, os do estreito, ninguém chamava “alienados”, “loucos”, “irreligiosos”, “marginais”, “desvairados” ou vítimas de “lavagens cerebrais”. Deles se fizeram heróis, mito, quase fundacional, de uma área cultural, de uma sensibilidade, se assim se quiser pensar. Gente algo ignorante que combateu até à morte, antevendo-a, para defender algo fluido, complexo, mas sentido.

Hoje há muito desdentado, pustulento, furunculoso, que não conhece a história. Mas há os dos “simpósios”, dos convívios e banquetes, pele esfoliada, sovacos feitos axilas. Que a conhecem (ou deveriam conhecer). Que estes me venham dizer que os guerreiros suicidas são “alienados”, “loucos” ou “vítimas de lavagem cerebral”? Os guerreiros suicidas que nos acometem são soldados inimigos. Crentes no que fazem como os homens daquele estreito e os seus tantos sucessores. São racionais, estratégicos, actuando sob o seu livre-arbítrio, este algo limitado como o é sempre, para todos nós. Alienado é aquele que apõe alienação ao outro. Louco é aquele que aponta a loucura alheia. Aquela gente é inimiga, voraz, racional, corajosa. Combate-se, naquilo do “perseguir e abater”. A historieta do lamento pela pobre vítima da “lavagem cerebral” – e das “condições sociais” – é a negação da racionalidade alheia. De facto é o “orientalismo” preconceituoso ecoado pela soi-disant “esquerda” europeia.

São eles ignaros porque acreditam num paraíso futuro (cheio de virgens, consta que o mito lhes promete) após o sacrifício? Não acorreram os meus compatriotas em magotes, há quinze dias, para saudar um padre estrangeiro que lhes veio dizer que uma criança (raquítica, pustulenta, furunculosa, desdentada, gaga, demente?) brasileira foi curada por duas crianças portuguesas que morreram há 100 anos? Não acredita esta gente que há um qualquer céu após isto tudo onde está, pelo menos, uma virgem?

“Brainwashing”? “Alienação”? Um judeu alemão disse uma vez que a história não se repete, que o que da primeira vez é uma tragédia depois é uma farsa. Se Chamberlain foi uma tragédia, estes chamberlaines de trazer por casa (ou pelo bloco) são uns farsantes. E peroram.

(Postal no "O Flávio")

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