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Nenhures

Nenhures

30
Jul17

Os pirosos

jpt

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Talvez nada mostre tanto a abjecção intelectual da classe média portuguesa do que esta já tradição: a cada eleição autárquica surgem colecções partilhadas na internet do “ridículo” captado nas campanhas em contextos rurais ou periurbanos. Sim, o poder local tem muito que se lhe diga (mas não será isto). E sim, o seu seguidismo, mimetismo até, ao estilo propagandístico “nacional” é pobre.

Mas este humorzito de merda, este chalacismo com a ruralidade ou, melhor dizendo, com a localidade, com os recursos, características e preocupações muito situados, “territoriais”, é mesmo o espelho da patetice urbana, essa que se julga cosmopolita. A deste netos de migrantes, malteses, chapeleiros, pastores ou seminaristas armados em finórios, envergonhados ou meramente deslembrados das famílias de onde vêm. Para esta gente Portugal é Lisboa (e o Porto) e o resto é bom para ir à praia, para o turismo rural. E como não há taco para grandes coisas então fica-se em casa na internet a gozar com esse resto, a dizê-lo piroso.

São os trocadilhos de merda (Coina é uma constante, e gente que acha de mau tom escrever no FB ou em blog cona ou caralho, não se exime ao ademane paneleiro de brincar com o nome daquela terrra). É o gozo com as características físicas dos candidatos, porque carecas, feios, gordos, velhos ou seja lá o que for, feito por patetas que votam em candidatos urbanos que surgem retocados (e muito) nos materiais propagandísticos, pois apoiados por enxames de assessores, cabeleireiros, massagistas e photoshopeiros. É o abandalhar com os nomes das terras, feito por imbecis que dizem “shopping”, “paper”, “abstract”, “header” e têm as ruas citadinas cheias de lojas com nomes em inglês, e que acham “cool”, um “must” até, ajavardar com a toponímia portuguesa. É o avacalhar das causas e preocupações locais, feito por morcões que depois nem sequer percebem exactamente porque votam nos candidatos para as suas grandes câmaras, a não ser que “este é a favor da/contra a” geringonça.

Talvez o mais significativo que já vi foi este: numa localidade há um cemitério que se tornou insuficiente. Provavelmente é difícil aumentá-lo. O candidato (desconheço por completo os seus hipotéticos méritos, bem como a situação da localidade em causa) escolhe a questão como fundamental, decerto que dialogando com os fregueses/munícipes. Os palhaços das cidades (que as tratam a tratos de polé, já agora) riem-se, basbaques.

Lembro-me de Maputo, onde o cemitério de Lhanguene estava cheio, “sobrepovoado”, o quão até dramático era irmos enterrar os nossos, tão apinhado estava o terreno. Lembro-me do meu bom amigo, que foi excelente vereador, e que tinha esse pelouro. Das dificuldades que teve, e mas contou. Lembro-me do júbilo (sim, júbilo) sentido quando o novo cemitério de Maputo foi inaugurado. Porque era uma tremenda necessidade.

E olho para esta gente aqui, para estes filhos e netos de ratinhos a julgarem-se burgueses, a largarem risos sobre os seus, sobre o “piroso” que julgam reconhecer. Pirosos.

30
Jul17

A revolução bolivariana

jpt

ven

Boaventura Sousa Santos escreve sobre a Venezuela. O texto é uma tal trapalhada que até confunde quem o queira criticar. Mas está lá toda uma mundividência, num autor celebrizado mundo fora, assente numa retórica que é pujante, assim divulgando um pensamento utópico, até onírico, que ficará na histórica intelectual portuguesa (que fique explícito que não lhe encontro méritos frutificadores, mas há muitos que nele se alimentam). Grosso modo, as massas estão alienadas: a) as venezuelanas, pois parecem não estar firmes em torno da sua “revolução bolivariana” apesar das suas condições de vida serem melhores – é o velho argumento que defendia o mundo comunista, sem tirar nem por; b) nós também, vítimas da imprensa mercenária e parcial (essa mesma que também, por ímpios interesses, até chega a criticar a frente popular portuguesa, aka geringonça). O motor fundamental do processo histórico são os EUA, incarnando o “inimigo externo” – independentemente da realidade da pressão norte-americana, isto é o perdurante “anti-americanismo”, velho reaccionarismo oitocentista.

Mas tudo isso é o normal, nada de novo pois está patente no discurso global de BSS (ser-lhe-á até o cerne). O que é interessante é a atrapalhação deste texto, a querer defender o desnorteado regime de Maduro, expressando, de facto, a sua repulsa pela democracia. Ou seja, a sua repulsa pela democracia formal (sublinhe-se o “formal”), velha terminologia antidemocrática que BSS utiliza em textos mesmo de XXI. Pois, de facto, que interessa que as massas votem contra a “revolução bolivariana”? Esta é “virtuosa”, apesar dos “erros”, das más formas de “selecção de candidatos”, do “presidente impreparado”, como o próprio autor afirma. E com tal tem que continuar, apesar dos pesares. Já agora, apesar da repressão sanguinolenta.

24
Jul17

O Incêndio dos Intelectuais

jpt

Telegraph and Texas Register

(Lista dos mortos americanos na batalha do Alamo, publicado no jornal Telegraph and Texas Register , 1836)

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(Lista diária de baixas, I Guerra Mundial, jornal americano de Portland)

Por razões outras fui às estantes, ao nicho “E”, naco “Eco”. Deste, entre outros, caiu o livrinho “Cinco Escritos Morais” (Difel, 1998). No primeiro desses escritos, “Pensar a Guerra“, escreveu ele: “Os intelectuais como categoria são uma coisa muito esfumada … Diferente é porém definir a “função intelectual”. Esta consiste em identificar criticamente o que se considera uma satisfatória aproximação ao seu conceito de verdade – e pode ser feita por qualquer pessoa, até por um marginal que reflicta sobre a sua própria condição e que de qualquer modo a exprima, enquanto pode ser traída por um escritor que reaja aos acontecimentos de modo passional, sem se impor a decantação da reflexão.

Por isso … o intelectual não deve tocar o pífaro à revolução. Não para escapar às responsabilidades de uma opção (que pode fazer como indivíduo), mas porque o momento da acção exige que se eliminem as cambiantes e as ambiguidades (e esta é a função insubstituível do decision maker em todas as instituições), enquanto a função intelectual consiste em escavar as ambiguidades e trazê-las à luz do dia. O primeiro dever do intelectual é criticar os seus próprios companheiros de viagem (“pensar” significa desempenhar o papel do Grilo Falante). Pode acontecer que o intelectual opte pelo silêncio por temer trair aqueles com que se identifica, pensando que, para lá dos seus erros contingentes, eles afinal de contas procuram o maior bem para todos. Trágica opção, de que as histórias estão cheias … por [se] pensar que não se podia trocar a lealdade pela verdade. Mas a lealdade é categoria moral e a verdade é categoria teorética. 

Não é que a função intelectual esteja separada da moral. É opção moral decidir exercê-la …. A função intelectual até pode levar a resultados emotivamente insuportáveis … É opção moral exprimir a sua conclusão – ou calá-la (se calhar com a esperança de que seja errada). Tal é o drama de quem, nem que seja por um único momento, se incumbe da tarefa da “funcionário da humanidade”.

Sobre a catástrofe de Pedrógão Grande e áreas vizinhas muito se escreveu. Aqui também, e referi a elisão estatal das estatísticas reais, expressando o desrespeito pelas vítimas. Isso associado à tentativa do estado, desde o dia da catástrofe, em tornear qualquer indagação sobre o funcionamento das estruturas de protecção civil e em impor uma narrativa naturalizadora sobre o acontecido, em tudo reduzir a uma intempérie – pois é óbvio  o incómodo de Costa, político com grande papel nessa estruturação, e de alguns dos seus mais-próximos, agora com funções executivas ou assessoriais. Nisso teve a colaboração de sectores do jornalismo e da academia (aqui mostrei como um jornalista próximo do PS e uma académica de “esquerda” se contradiziam radicalmente, na ânsia de salvaguardar o governo).

São os jornais que avançam finalmente, neste fim-de-semana, números finais e nomes das vítimas. Mas algo contraditórios. As notícias referem ainda que o silêncio estatal demora as acções das seguradoras. Outros brandem hipotéticas questões ligadas a fundos de apoio. De facto, o rescaldo está por fazer. Ou seja, o luto, o luto da sociedade, está por fazer. E as ajudas ao local vão, também por isso, tardando, deixando correr o agora em que são mesmo urgentes. Em suma, o estado demora-se naquela célebre tarefa de “enterrar os mortos, cuidar dos vivos”. Fá-lo para se salvaguardar, e aos seus dirigentes. Nega-se.

mai

Sobre a questão das vítimas de imediato o “aparelho (ideológico, dizia-se) de estado” produz isto. Neste mês e meio as manobras da administração pública, do governo e dos seus apoiantes têm sido denotativas de uma concepção de exercício do poder. Mas esta ideia dos funcionários políticos de que há um “segredo de justiça” a cobrir as vítimas de um incêndio é um caso extremo, um extraordinário e liminar exemplo de uma ideologia estatista, de uma subalternização da sociedade, dos seus grupos e indivíduos. Acima ponho exemplos que julgo característicos: listas (quantas vezes diárias) de baixas militares publicadas na imprensa em XIX e XX, produzidas em sociedades democráticas. Sim, poderão referir que o episódio de Alamo se inscreve no expansionismo dos EUA, que a I Guerra Mundial foi uma guerra imperialista. Mas o relevante é que já então os mortos eram anunciados, ao ritmo do seu conhecimento e com as possibilidades tecnológicas de então. Em cenários de guerra, nos quais há sempre responsabilidade estatal.

O que vemos agora, em XXI, em Portugal, é exactamente o contrário, o elogio e a prática da opacidade estatal. E estamos a falar de mortos causados numa catástrofe natural, e sobre a qual a administração pública tudo insistiu para alijar responsabilidades próprias. E culminando com isto, com o Estado português, este governo e os seus membros, assessores e apoiantes, a defenderem o segredo de justiça para que os mortos não sejam conhecidos pelo “público”, pelos seus compatriotas. Isto é uma total involução, uma radical negação da democracia.

Tenho milhares de ligações no FB, e tenho-as arrumadas por “grupos” (exs. “Moçambique”, “Olivais”, “Blogs”). A uma dessas categorias chamei-lhe “Antropologia”, e nela conjuguei antropólogos, obviamente, e gente de outras áreas das “humanidades e ciências sociais”. São centenas de pessoas, alguns poucos brasileiros, muitos moçambicanos (tantos deles ex-alunos) e portugueses. É sobre estes últimos que recai agora a minha atenção. Percorri as suas actualizações destes últimos dias. Parte substancial deste universo é activa nas redes sociais, empenhadamente opinativa. Politicamente atenta.

Nenhum deles, repito, nenhum deles, insisto, nenhum deles, aludiu a isto! Sei que é um núcleo social, grosso modo, muito estatista. Por razões sociológicas, até de exercício corporativo. E também da história das ideias, no país e na Europa. Mas isto, este detalhe, é tão sintomático que monumento. Pois nenhum deles, e tão assertivos e opinativos tantos deles são, nenhum deles considerou isto como relevante de notar, partilhar, criticar.

Isto é, de facto, o incêndio dos intelectuais. E as baixas são monumentais. Avassaladoras.

(Postal no "O Flávio")

21
Jul17

O Mais Belo

jpt

Atravesso a ponte, a velha, a vermelha, entro em Lisboa, telefono-lhe para jantar, não atende, e assim eu vou sozinho para a Ferreira Durão, onde comecei em casal,  há mais de duas décadas. Agora deslastrei-me todo, torna-viagem demente crente nas virtudes da terra queimada. Sento-me na pequena esplanada como se que a sorver a felicidade que ali foi. Descomo e bebo. Ele telefona. (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje). E vai lá ter. Desjanta comigo. “Borrego …” (e é o único que me chama, ainda, borrego, quem mais me dirá assim, tão assim?) “… o que é que te deu?” pergunta-me, finalmente, que nada disse das últimas vezes que estivemos juntos, na sageza de deixar acalmar o negrume que me invadira.  Resmungo o meu queixume, tão óbvio desatino, e ele “pareces uma gaja a falar“, diz-me. Rio-me, é o meu amigo mais bonito, mais belo, são para aí 40 anos disto de o sermos assim (Não, soluço, é-me próximo demais, respondo, cabeceando já), e tenho que lhe aceitar o juízo. Que é certeiro. Avançamos, paramos na loja de conveniência a comprar uísques, coisa que aqui já não se bebe, só comigo que venho do sul, e vamos para o nosso prédio de sempre, de meninos. Onde o meu pai António já morreu e a minha mãe Marília já não vive. Invadimos a velha casa, agora minha. Andares abaixo dorme, repousada, sua mãe. Nós bebemos com a sede dos adolescentes que já cinquentões ainda somos. (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). Rimos na madrugada, lágrimas mesmo, da tanta alegria, por assim juntos, e ainda. Vasculha-me os vinis dos meus pais, “A Tebaldi!!, aprendi a ouvir ópera com a tua mãe …” mente-me descaradamente, e confrontamo-la com a Callas, altos berros, para espanto e horror dos octogenários sobreviventes da Bolama (haverão de o referir, semanas depois, os que ainda conseguem reter memórias). Como não?, se é ele o mais belo, o mais bonito, dos meus. Choramos com a Tebaldi, talvez do quanto já bebemos (Com quem mais chorarei árias?, teclo eu agora), decerto porque estamos aqui juntos. E eu porque ele é o mais bonito, o mais belo, dos meus. E ele, estou certo, porque eu sou o borrego dele, para ele (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje) (Não, respondo, é-me próximo demais). Ele, já manhã feita, navega elevador abaixo e eu cambaleio corredor afora até ao borco. Feliz, só agora e só assim, pois ele é mais bonito, o mais belo dos meus (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). (E choro-me. Imenso, pareces uma gaja, diria ele, naquela sua infinita doçura).

21
Jul17

Interdisciplinaridade

jpt

fac

António Cabrita escreve sobre o congresso lisboeta ocorrido na passada semana, dedicado a João Paulo Borges Coelho, escritor moçambicano. Com a sua costela de jornalista nota ele: “É uma vergonha haver um escritor do calibre de Borges Coelho (muito resolutamente um dos melhores no espaço da língua portuguesa) que é contemplado com um congresso internacional – com gente que vinha de Moçambique, Brasil e Estados Unidos [e também, pelo menos, da Alemanha, Angola, Espanha, Itália, Polónia, acrescento eu, jpt] –, e não haver espaço nos jornais para uma notícia, não se ter deslocado um único jornalista para cobrir e divulgar o acontecimento.”.

Eu, que não sou jornalista, noto isso mas noto mais. Borges Coelho é um excelente escritor mas é também um historiador emérito e um vulto fundamental na investigação sobre segurança marítima e as questões políticas do Índico actual. É, na velha acepção do termo, um grande intelectual. É um tétrico sinal de moribundismo local, nacional, muito pior do que mera “vergonha”, que não houvesse alguém presente, pois interessado, vindo das áreas da antropologia, da sociologia, da história (da história de África e não só), das relações internacionais, e etc “e tal”, nem mesmo desses híbridos “estudos africanos” (já para não falar do chamado Camões – Instituto de Cooperação, que desses pouco se pode esperar). E é certo que depois todas essas corporações enchem textos a que chamam papers com referências a algo que dizem “interdisciplinaridade”. Mas para irem ali ao Campo Grande, interdisciplinarem, já lhes falta o arreganho … Um tipo nota isso e há sempre um qualquer boçal, funcionário público da academia, que vem dizer que são afirmações de “ressabiado”, “invejoso” ou “ressentido” (o mais abjecto e básico dos psicologismos, pensamento de cloaca que estes graduados não têm vergonha de publicar, explicitando a indigência própria). Eu notei e referi esta absurda ausência e “explicaram-me” que “ah, sabes, esta altura é de férias, é natural que não apareçam“. Mas de facto as férias são 22 dias úteis, a maioria goza-as em Agosto. Quem está de férias são os alunos, as avaliações terão (na sua maioria) terminado. Deveria ser o melhor momento para fazer encontros, seminários, etc. Mas não é.

14
Jul17

O negacionismo e a paciência

jpt

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(Sofia, Bulgária, monumento antes colocado na sede do partido comunista)

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(Selo polaco)

checos

(Condecoração ordem Estrela Vermelha, Checoslováquia)

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(Emblema do Exército Vermelho, URSS)

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(Condecoração húngara)

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(Condecoração jugoslava)

china

(China)

cuba

(Cuba)

vietname

(Vietname)

Poderia continuar no google a sacar imagens do ícone comunista “estrela vermelha”, há uma infinidade. Mas não é preciso. Ontem, em conversa apolítica, aludi a um pequeno exemplo em que surgia um monumento com a estrela vermelha. Na pequena vila Mopeia, na Zambézia, terra plana, uma das vezes que por lá passei, o único sítio onde havia rede para telemóveis era em torno do monumento com a “estrela vermelha”, edificação recorrente do tempo revolucionário.

MopeiaMonumento

(Mopeia, Moçambique, 2008)

Dizia eu, risonho, a interessante (paradoxal, se muito se quiser) confluência desta febre de consumo de “celular” à volta do símbolo comunista. De imediato, ainda eu falava, uma senhora moçambicana, sentada atrás de mim me disse, professoral, ciosa e até ríspida: “o monumento não era comunista!”. Eu, virei-me e sorri, e até perguntei, delicado, “ah sim? e era a quê?“.

E a gente tem que ter paciência. Porque senão o mal está em nós. Ou, como dizem os mais abjectos dos imbecis, somos ressentidos. E se um tipo diz que o negacionismo é imoral, intelectualmente desonesto, e recorda derivas democráticas da sua ilegalização, é dito maluquinho. Assim tudo vai bem, e um tipo tem que levar com as piadinhas alheias. De quem acha natural, honesto e até consequente intelectualmente este tipo de … nada.

09
Jul17

Brincar ao comunismo

jpt

bones

(ossos cambodjanos, memorial)

Quando fui em 1994 durante uns (gloriosos) meses para a África do Sul como observador eleitoral apanhei um punhado de gente que vinha das longas missões das Nações Unidas no Cambodja (o tão british tanzaniano Fidelis, um vero príncipe, o ruivo irlandês irlandês Brian, “já bebi o suficiente na vida”, tão assumido (des)acompanhava ele as nossas apneias naquela ambiente supra-aquecido, a maravilhosa francesa Marie-Vi, entre outros). As conversas sobre o Cambodja, seu processo, eram sempre e intensas (“levei ano e meio até voltar a pisar relva“, disse-me alguém que bem lembro, tamanha a angústia que lhe ficara com as minas), a demência polpotista, esse cúmulo da deriva marxista, constante assunto entre steaks, castles e famous grouses, gente marcada até à medula com o testemunho, refractado, da última diabólica comunistice de XX. Lembro-me disso quando vejo agora no facebook tanta gente (até velhos bloguistas de teclados habitualmente conscientes) a participar e partilhar desses “testes” (quizz, no português imbecil) “que comunista famoso você é?“, a brincaram ao comunismo, a abjecta “naturalização” do mal, a perversa banalização do mal de que a filósofa falou. “Eu sou o Lenine”, “eu sou o Estaline”, “eu sou o Che”, “eu sou o Pol Pot”, arrotam, peidam a la Sobral, os compatriotas … E acham que têm piada! Se eu pusesse aqui “eu sou o Heydrich” ou similar vil imbecilidade até eles me cairiam em cima. Estamos, nós portugueses, tramados no meio desta paisagem humana.

08
Jul17

Olhar os que Morreram

jpt

pedrogao.jpg

(Fotografia de Rui Duarte Silva, publicada no “Expresso”)

Tendo dedicado a sua recente medalha, obtida na Rússia, a um amigo de infância morto nos incêndios de Pedrógão Grande, e à sua mulher e duas crianças também ali mortos queimados, e acompanhando isso com um texto emotivo, o futebolista Ricardo Quaresma fez algo, e de modo muito genuíno, que está em voga: dar nome e cara às vítimas, sublinhar a individualidade dos perecidos e dos sofredores (algo que também a gente do bairro de origem do homenageado e do futebolista, no meu vizinho Sacavém, também faz, através de um mural, percebo-o nas notícias).

Os memoriais europeus estiveram muito ligados ao ideal nacionalista, como o comprovam nas nossas vilas e cidades (e de vários outros países) os monumentos aos mortos da “Grande Guerra” (a I GM) de cada local, incluindo os seus nomes, e também ao Soldado Desconhecido, ou, nosso caso português, com a toponímia habitada pelos mortos da guerra colonial (recomendo um passeio pelo lisboeta bairro dos Olivais-Norte). E alastrou-se, no seu âmbito, como o comprova o cuidado com a preservação da memória de todos os perecidos no Shoah (e não sei se houve meios de fazer o mesmo com o Porrajmos, o holocausto cigano) ou com os cuidados com o tétrico arquivo fotográfico polpotiano. Ou seja, para além da invocação dos tombados em nome do (pérfido) ideário nacionalista, evoluiu-se para a da memória daqueles feitos tombar em nome doutros ideários. O mote é que a morte causada pela afronta humana alheia é vitimizadora, e de que as vítimas nunca são incontáveis, que há o dever ético de as enumerar, de as individuar, reconhecer cada um dos nossos (humanos) como Alguém que partiu. Já com as vítimas das intempéries, da “fúria dos elementos”, é diferente, aqui e alhures não se sente o ideal da necessidade de a cada um salvaguardar “para todo o sempre”, de a cada um fazer húmus da nossa memória futura: estarão “monumentalizados” os mortos das cheias, da queda da ponte de Entre-os-Rios, do terramoto açoriano, dos incêndios? É possível que não, julgo mesmo que não. Uma diferente concepção antropológica, como se esses mortos sendo fruto do acaso não devam entrar na nossa “memorialização”, não apontem o nosso caminho destino. Mostra-nos o contrário Quaresma, na sua pungente evocação do amigo de infância, “Kostadinov” de alcunha de futebol de rua lá em Sacavém, mostram-nos o contrário os vizinhos que àquela família muralizam, em pintura até “naif”, avessos ao seu esquecimento, à redução do devir ao malvado acaso. Esta extensão da vontade social de memorializar os caídos, de alastrar a cada um vulgar, a cada um das “massas” se se quiser, o que antes se atribuía aos notáveis, a isto de das suas individualidades fazer material para construir o futuro, foi, e é hoje mesmo, projecto dos “progressistas”, daquilo que a topologia mental do nosso contexto social/nacional diz “esquerda”.

Cumprem-se hoje 3 semanas do tétrico incêndio. Ainda não se sabe, neste Estado moderno e “tecnologizado”, exactamente quantos e quais os desaparecidos. Nenhuma instituição estatal homenageou, afixando-os, nomes e caras, memorializando-os, os mortos, nossos compatriotas (ou hóspedes). Nem mesmo um mero rol ou, vá lá, um Número maiúsculo porque final. Nem tão pouco os feridos. Nem sequer é uma questão de discutir a trapalhada organizacional que se vai descobrindo em torno de tudo isto, e das manobras do poder em logo capear o que acontecera. Trata-se de dizer que não é apenas uma questão das intempéries, dos tais elementos “em fúria”. Pois, no mínimo, é uma questão de geografia humana. Ou seja, de uma afronta humana que não é alheia, que é nossa própria, em última análise (e o quão cruel é dizer isso) até dos próprios perecidos adultos, pois cidadãos. Os 64 (?) mortos e os (12?) desaparecidos, cujo nome não sabemos e cujas imagens em vida desconhecemos, mera gente vulgar que foi e partiu, morreu, em última análise, por causa daquilo que todos fizemos com aquela região. E, também, parece que devido à trapalhada que deixámos fazer com as instituições de protecção civil. Não serão esses nossos compatriotas gente para lembrar, cada um deles, para que não nos assombrem o futuro, para que nos construam o futuro, tal como todos os outros presentes em todos os outros memoriais? Ou é gente para esquecer, rápido, varrer para debaixo do sofá da memória, em nome da espuma dos dias dos interesses e paixões “políticas”, que de políticas têm tão pouco, e de interesses, interessados e interesseiros, tanto têm? Onde está agora o tão propalado, noutros momentos, com outros agentes, apreço pelos vulgares, pelas massas, pelas “vítimas”?

Passo para o registo pessoal: limpei agora destas minhas ligações-FB um pequeno punhado de gente, incluindo alguns confrades bloguistas dos velhos tempos do weblog.com.pt, pioneiros do bloguismo português, gente que-quase-que-conheço, que escreviam ontem (sexta-feira, vinte dias depois do massacre social acontecido) que quem falava disto o fazia apenas aproveitando-se para dizer mal do governo, instrumentalizando a desgraça, coisas da “direita”. Não o fiz por uma questão de higiene. Mas porque estou certo de quem consegue olhar para isto dessa forma é, pura e simplesmente, um malvado. Desnecessário à interlocução, desprezível na observação.

Algumas outras pessoas (entre as quais uma queridíssima amiga, lá em Maputo) partilham no FB também um texto do pateta Nicolau Santos (o tal especialista em economia que saudou aquele mitómano que se dizia especialista das Nações Unidas, perdendo nisso qualquer crédito que poderia ter tido). Apago-os também das minhas ligações por serem detentores de miserável ignorância, à excepção dessa minha amiga – a amizade consiste mesmo em amar os defeitos dos amigos. Coexistindo com o desprezo pelos dos conhecidos. O (desonesto) pateta do “Expresso” escreve um texto invectivando todos aqueles, digamos que de “direita”, que durante anos defenderam a redução do Estado e seus serviços e que agora aparecem criticando exactamente o facto do Estado ter menos serviços ou serviços menos eficazes (fala da segurança florestal e militar). A questão é muito simples, e está patente na tão comtiana bandeira do nosso “país irmão” Brasil. É o Estado factor de “ordem e progresso”? Desde XIX que a gente dita mais “progressista” acha que o Estado deve ser agente de “progresso”, directa ou indirectamente. E a gente mais “conservadora” acha que a sociedade promoverá o tal progresso e que o Estado deve ter um papel mais reduzido, sendo fundamentalmente um promotor da “ordem”, da segurança interna, contra as sublevações, o crime e as intempéries naturais. E da segurança externa, contra os inimigos estrangeiros – e daí os cuidados com as forças policiais e de protecção civil, e as forças armadas, respectivamente. E o que acontece agora é que aqueles mais conservadores (e não só eles, claro) dizem que o nosso Estado nem sequer (sublinhe-se o “nem sequer”) é capaz de cumprir as suas funções mais irredutíveis, mais básicas, e tão óbvio é isto. Ser incapaz de perceber isso, ser capaz de cair nas tropelias retóricas (e partilhá-las) dos mercenários das teclas é não só um enorme sintoma de ignorância, de ileitura do básico para quem anda para aí a botar sobre o real, sobre o político e o social, mas também de uma (talvez inconsciente) malvadez. Que me perdoe a minha amiga, que é uma jóia de pessoa. Mas é este o produto do véu da ignorância, como dirá qualquer “progressista” crente na metafísica “alienação”. Não passa do desprezo pela morte dos compatriotas, dos co-humanos, em nome da vil solidariedade com os “seus”. Ainda para mais sendo esses “seus” esta miseranda tribo “socialista”.

(Postal no "O Flávio")

05
Jul17

O Paiol

jpt

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(Explosões no paiol de Malhazine, Maputo, 2007; fotografia de Pedro Sa da Bandeira)

Não terá a ver mas esta história do assalto ao paiol (e não só, e não só …) tem-me recordado quando, há uma década, rebentou o paiol de Maputo. Eu chegara de Manica nesse dia, a São fora-me buscar a Mavalane, na saída ambos, distraídos, a achar estranho uma trovoada com céu tão limpo. Só em casa as empregadas me disseram o que era, angustiadissimas, a Inês a telefonar, o prédio onde estava em reunião, um qualquer ministério perto da Nyerere, até parecia abanar, e logo correu para casa, nós corações nas mãos até ela chegar, que aquilo foram horas de explosões, munições projectadas de modo totalmente errático. A causarem mais de cem mortos, se não erro (coisa devida ao calor, veio dizer o ministro, que nisto da desresponsabilização governamental há mesmo lusofonia). Numa casa grande mas toda envidraçada juntaram-se as empregadas, a Inês e a ainda filhota Carolina numa nesga, entre a copa e a cozinha, único recanto menos atreito a hipotéticos estilhaços. Os telefones não paravam, gente em cuidados, a falar para exorcizar, a dar conta dos locais atingidos, e tantos e tão díspares eram. Nós ali ao fundo da Zimbabwe, e ainda me lembro do esgar que fiz diante do olhar de interrogação da Inês com mais uns SMS que chegavam anunciando rebentamentos “na OMM“, “perto da casa do Mia“. É nestas alturas que um tipo percebe mesmo onde está o seu amor. Medo? Por elas sim, claro, não por mim, coirão resoluto. Nisso telefonou o meu irmão, oficial artilheiro, daqueles com espada, lá dos Açores, soubera da coisa, em cuidados e conselhos, que não fossemos para as vias de saída da cidade, decerto que congestionadas – e claro que não, sabido que era estarem as rotas da Matola, Marracuene e da Costa do Sol a serem fustigadas. E perguntou-me o mano-artilheiro que material estaria armazenado e eu num “sei lá, deve estar apinhado de material velho, no tempo da guerra os russos inundaram isto com os restos deles, dizem-me agora que por lá estão até Órgãos de Estaline“. Ao que o meu mano-velho, artilheiro de formação e profissão, exclamou “ai, meu filho!“. Então sim, com esse primeiro “filho” que ele me deu em 45 anos de vida, assomou-me o medo. Já bebemos uns uísques, os dois, com esta minha memória.

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