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Nenhures

Nenhures

Capicua

eu

Em dois dias cumprirei a quinta capicua. Época para pensar no antes e em quem o fez. Nisso tenho saudades deste meu grande e querido amigo, aqui fotografado no Cabo Delgado há umas décadas já. Perdi o contacto com ele, conhecimento de antes do email, e depois nestas coisas de passarmos do hotmail ao yahoo e depois ao gmail. E também nisto de terem aparecido os telemóveis e de os perder e assim aos contactos tidos. Procurei-o, imaginando-o lá para Angoche, Unango ou até mesmo Namuno. Mas nada, nenhuma notícia! Agora aqui, até pela piada do reencontro, de esguelha indaguei-o em Anvers, Liège e até o perguntei, como quem não quer a coisa, em Scharbeek. Mas ninguém o conhece. Estranho, pois é, hoje em dia, era das redes sociais, difícil perder o contacto com um patrício que tenha tido caminhos e parceiros comuns. Talvez tenha já partido, sem me ter chegado a notícia. É uma pena, eu gostei dele - não no sentido erótico, que não era a nossa onda, que éramos e somos (se ele ainda cá estiver) daqueles "tóxicos", como agora gostam de dizer. Com ele, junto a ele, ombreando abraçando-o, por vezes mesmo beijando-o, as coisas, e até os outros, luziam. Agora é só assim.

Fazes-me falta, meu querido.

Ricardo Rangel

RR

Noto, agora mesmo, que há alguns dias (11.6) se cumpriu uma década que o Ricardo Rangel morreu. Já?! Está cá ainda, claro. Pelas fotografias, frutos da sua "lente pertinente". E pelas saudades que dele se têm. Eu, e decerto que muitos outros.

O seu trabalho é visitável aqui (a sua galeria digital). Na fotografia, com a sua mulher Beatrice, na varanda da sua casa, face à baía.

A morte do jornalismo desportivo

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Escolho o "Record" porque é o jornal desportivo que mais frequento. Pois este jornal não monopoliza a deriva - ainda que seja o que mais nela se embrenha, comparativamente ao "O Jogo" ou mesmo ao "A Bola".

Escrevo às 17.34 de hoje, 15 de Junho. O sítio do "Record" apresenta-se neste estado (tudo notícias com fotos chamativas): 2ª notícia: as vestes do casamento do capitão do Real Madrid, Sérgio Ramos; 4ª notícia: declarações do pai da mulher que acusou Neymar de violação; 5ª notícia: férias do jogador do Benfica Ruben Dias, foto da namorada anunciando que ela "mostra tudo" (um tópico nos títulos do jornal); 6ª notícia: o estado de espírito de uma adepta fervorosa (e com generoso colo, como antes se dizia, bem iconografado) dos Golden State Warriors, clube de basquetebol americano; 7ª notícia: um jogador da Juventus mostrou uma mulher na sua cama; 8ª notícia: as regras para o vestuário e comportamento no casamento do capitão do Real Madrid; 10ª notícia: sobre a divulgação de imagens da mulher que acusa Neymar de violação; 11ª notícia: a reacção da namorada de Ruben Dias a uma partida que ele lhe fez; 16ª notícia: as imagens do casamento de Sérgio Oliveira, jogador do F.C. Porto; 19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana; 20ª notícia: a lista de convidados do casamento do capitão do Real Madrid; 21ª notícia: o advogado da mulher que acusa Neymar de a ter violado; 22ª notícia: uma rapariga muito magra mas com par de mamas bem constituído, dita Júlia Palha, num barco de recreio em bikini; 23ª notícia: fotogaleria dos convidados ao casamento do capitão do Real Madrid; 24ª notícia: uma rapariga voluptuosa em lingerie provocatória sob o título "Bastou alguém chamar-lhe Barbie e o nome pegou"; 25ª notícia: bis, fotogaleria em que a namorada do benfiquista Ruben Dias "mostra tudo"; 27ª notícia: namorada do futebolista Cédric, voluptuosa na piscina, mostra como foi a sua despedida de solteiro; 28ª notícia: as imagens do casamento de Simeone, treinador do Atlético de Madrid; 29ª notícia: fotos das férias dos craques, anunciada com um tipo debruçado sobre uma tipa, em trajes menores; ...

Valerá a pena a continuar? É necessário armar um texto com laivos de semiólogo? Ou basta este rol para provar que aquilo morreu? E fede? (Ainda que as garotas que costumam aparecer tenham, sempre, fartas mamas - lembro que não é ordinarice, é assim que se diz correctamente - e curvas apreciáveis).

 

O Discurso do 10 de Junho (3)

jmt

Discurso de João Miguel Tavares em Cabo Verde.

Para um tipo como eu, português que passou duas décadas numa antiga colónia portuguesa, e que sonha com a hipótese de um dia (algo distante, se possível) lá ir morrer , e que ainda para mais por lá leccionou durante 15 anos, ler um texto destes, proferido num discurso comemorativo do dia nacional português, é momento de júbilo. O que Tavares diz sobre o colonialismo (português) mas não só, o que desmonta da perene ficção da "excepcionalidade portuguesa", o que se afasta explicitamente da loa "lusotropicalista", o que diz sobre "responsabilidades históricas" nacionais, o que diz sobre a reprodução das desigualdades no nosso território nacional, a perenidade da estratificação social que se alimenta dos fenómenos migratórios oriundos do anterior contexto colonial, o que diz sobre a necessidade de as combater, entendendo-as como fenómenos de "classe" ainda que sem descurar as suas componentes culturais e linguísticas, e, fundamentalmente (porque intelectual português), o que diz sobre o ensino multilinguístico, e a necessidade de fixar, preservar as línguas africanas e introduzi-las no ensino, em particular considerando a responsabilidade histórica de Portugal de nisso contribuir e de a isso proceder no próprio ensino oficial português, é um inusitado acto de civilização. Totalmente ao invés do pensamento dominante português, seja no espectro dos intelectuais profissionais, seja, e principalmente, no mundo das organizações estatais e para-estatais e seus funcionários.

Será talvez mais fácil perceber que Tavares aqui repudia a reemergência da ideologia racialista, actualmente conduzida pelos movimentos da esquerda neo-marxista, identitarista. Mas o que é importante perceber, que será talvez mais difícil de atingir às pessoas distantes destes contextos laborais, é que Tavares, em plena comemoração do dia de Portugal decorrida numa ex-colónia, clama pelo abandono - quem me dera que fosse definitivamente - da  noção de lusofonia, e todos os seus implícitos efectivos. Uma noção que é a cristalização dos pressupostos coloniais - não digo colonialistas, nem mesmo neo-colonialistas mas coloniais. Uma noção que foi desenvolvida pelos intelectuais socialistas no após-descolonização, e foi-o porque eles eram culturalmente herdeiros do Partido Republicano, o grande partido colonialista português (e convirá lembrar a tardia recusa do colonialismo pela oposição portuguesa: os comunistas, grosso modo, somente a partir de meados de 1950s, a "oposição democrática" de facto apenas desde finais de 1960s por Mário Soares, mas mesmo assim com  pouca adesão de outros, como se vê mesmo durante o início de 1970s). E que de imediato colheu agrado junto de outros núcleos intelectuais, desde os mais ligados ao antigo regime aos então oposicionistas brasileiros, que sonhavam um Brasil potência - algo que veio a encetar-se durante a presidência Lula.

É um grande texto, é uma grande reflexão, é uma grande visão. Vénia, caramba, vénia a João Miguel Tavares. O que está aqui é um verdadeiro discurso de "esquerda", naquele velho sentido que se lhe deu, "progressista", "crítico", "iluminador". Confesso que não esperava que surgisse em tamanho contexto, ainda para mais vindo de um tipo que conheço de nacos do "Governo Sombra" - programa que não sigo - e de textos de opinião no Público, de que às vezes gosto outras não tanto.

E será também um texto que poderemos confrontar com o que os "lusófonos" do Estado ou com o Estado,  esse núcleo cultural e profissional PS, esses que durante estas últimas décadas têm usado uma lente ignorante e ineficaz nas relações com África (não apenas a das ex-colónias portuguesas), pensam sobre o real. Ou, por outras palavras, para perguntarmos: afinal quem é que é de "direita"?

Em suma, até porque escrevo isto de rajada, repito-me: minha Vénia a João Miguel Tavares.

A capela manuelina na Ilha de Moçambique

capela.jpg

Este é o actual estado da Capela da Nossa Senhora do Baluarte na Ilha de Moçambique, devastada pelo ciclone que assolou a região no final de Abril. A capela é mais do que simbólica: está na extremidade da Ilha, é a primeira igreja cristã no Índico austral (construída cerca de 1522), é o único edifício manuelino em toda a região (e presumo que em toda a África austral).

Não creio que o Estado moçambicano possa, na actualidade, repará-la. Muitos (portugueses e até moçambicanos) dirão que por incúria. Não me parece: as urgências e as emergências são gigantescas e os recursos muito escassos. Muitos (portugueses) dirão que é abandono de agora. Falso: a história da Ilha, pelo menos de XVIII para a frente, é a das constantes reclamações do estado arruinado das edificações - crises económicas, abalos na administração, guerras. E, acima de tudo, as intempéries. Pois ali a manutenção dos edifícios é trabalhosa e custosa, tanto devido às razões climáticas como ao particular material utilizado nas construções - de facto, na Ilha a ideia de arquitectura perene tem que ser bem relativizada. Lembro os opinadores apressados que em finais de 1960s se procedia à "reabilitação da Ilha", dado o estado deficitário em que já se integrava, piorado com a crise económica devido à abertura do porto de Nacala na década anterior. 

Em 1996/1997 esta capela estava em muito mau estado, tal como toda a "cidade de pedra-e-cal". A Ilha havia sido proclamada Património Mundial pela UNESCO e houve alguma atenção sobre os edifícios. Em Portugal, a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses - então comissariada por António Manuel Hespanha, um grande intelectual e que fez um belíssimo trabalho, na sequência do que havia feito Vasco Graça Moura, ainda que com um perfil algo diferente de intervenção - promoveu a reabilitação desta capela, devido ao seu estatuto histórico e ao seu simbolismo. A intervenção não foi muito cara (o edifício é pequeno e, julgo, não particularmente complexo) e correu muito bem, sob direcção do arquitecto José Forjaz e com utilização suficiente de mão-de-obra local. Eu sei que os tempos são diferentes, que há menos disponibilidades financeiras no Estado português.

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E que nas instituições culturais não abundam homens da densidade de Graça Moura ou António Hespanha (ou, noutro plano, Lucas Pires ou Carrilho), que possam sensibilizar-se, de imediato, para os efeitos efectivamente culturais, e como tal socioeconómicos, de uma intervenção num edifício destes. Mas ainda assim espero que haja nas autoridades portuguesas pessoas com a suficiente atenção para Moçambique e para a questão do património cultural tangível para disponibilizar a ajuda necessária para uma intervenção nesta capela, de importância única. E que o Estado moçambicano possa e queira acolher esse contributo.

Digitalizado a partir do diapositivo original 6x6, cota AGU/DD2074

O Discurso do 10 de Junho (2)

antónio nóvoa 120610-PR-1174

(Sampaio da Nóvoa  discursando das comemorações do 10 de Junho de 2012)

Acordo antes das 3 da manhã. Insone, mas estremunhado. Tanto que não consigo ler - nem o Integral 1 de Gil Jourdan com que me estou a deliciar. Coisas da idade, pois, como todas as manhãs, acordo de olhar embaciado, precisarei de trocar de óculos, está ... visto. E por isso, até porque a noite ainda será longa, trago o computador para a cama, coisa rara. E percorro o FB, passatempo que sonho soporífero. Nisso noto que lá longe, na Pátria Amada, imensa gente comenta o discurso de João Miguel Tavares nas cerimónias do 10 de Junho. Muitos encómios, dextros. E muitos apupos, canhotos. Tantos são estes que procuro o que também diz aquela gente que não está nas minhas ligações, os veros sinistros canhotos - os "conhecidos", administradores não executivos, bloguistas jugulares, deputados filósofos, esse malvado cerne nunca-ex-socratista. Estes pateiam, em uníssono e com vigor, o discurso do colega de Ricardo Araújo Pereira. Como tal vou ouvir o que o homem disse. E reconheço-lhe a argumentação, lembra-me outro discurso de 10 de Junho, um que fez época, e há bem pouco tempo.

Na alvorada blogo sobre o assunto, o postal O Discurso do 10 de Junho. Aludo ao discurso de João Miguel Tavares e ao repúdio socialista que gerou. Um discurso que foi muito lido: o "Observador" anuncia que foi um texto imensamente partilhado (a esta hora que escrevo o sítio desse jornal anuncia 41 mil partilhas do texto). No discurso de Tavares reconheço o que há poucos anos outro convidado disse. Quase sem tirar nem por. E cito-o, deixando ligação para o seu texto, identificado, mas deixando entender que se trata das palavras de João Miguel Tavares - de facto são ... quase. Trata-se do discurso de 2012, de António Sampaio da Nóvoa. Que então foi apupado pelos apoiantes do governo em exercício - diga-se, com honestidade, que Nóvoa fez uma crítica ao "estado da arte" mas elidiu o processo que conduziu à penosa situação de então, um caso típico do "com a verdade me enganas". E deu-lhe também um tom corporativo, defendendo a universidade, coisa legítima mas apoucando a abrangência da análise.

Mas o relevante é que então foi completamente sufragado, aplaudido, pela oposição, pelos socialistas em particular - tanto que o então reitor acabou por ser o efectivo candidato presidencial do Partido Socialista, aquele discurso foi-lhe trampolim para uma (efémera) participação política mais explícita. Vou aqui repetir o que hoje de manhã citei sem referir o autor, e deixando entender que eram as palavras de Tavares, mas deixando ligação para o texto original, que tem no cabeçalho a identificação do autor:

"Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (...) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (...) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.

Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (...) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (...)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (...)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (...) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( ...) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego."

Estas palavras, a reflexão sobre os problemas estruturais portugueses, são, de outra forma, com outra ênfase porventura, aquilo que agora Tavares anunciou. A parecença é tão grande que durante o dia - tendo eu publicado no meu blog "O Flávio" e no colectivo Delito de Opinião, assim abarcando cerca de 2000 visitas - ninguém apontou ou protestou a disparidade autoral. Mesmo tendo o texto de Tavares sido tão partilhado. Mesmo tendo eu posto adenda ao postal (e também no facebook), apelando a que se lesse o texto original - assim percebendo a diferença autoral. Só agora, já noite longa, um comentador anónimo surge, irónico, num "vai-se ver foi o do outro. Boa partida". Mas não é uma partida ...

Na época, há sete anos, no olho do furacão da crise, o diagnóstico de Sampaio da Nóvoa sobre a situação estrutural portuguesa foi  aplaudida pelos socialistas, com enorme empenho. E agora, declarações tão similares, tão confundíveis - prova-o o meu postal -, são vituperadas, pelos videirinhos e seus apoiantes. Isto apenas mostra uma coisa. Há gente, imensa gente, que só está interessada nos seus cromos, na sua colecção. Apoiar o "nosso" Sampaio da Nóvoa, apupar o Tavares "dele" (e também o contrário). O país?, a tal "Pátria Amada"? Que  se lixe.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=PvIefFlINZY&w=560&h=315]

É óbvio que temos que dançar, nus. Para crescermos. Para transitar de etapa. E mais óbvio ainda, os videirinhos não servem para essa dança.

O Discurso do 10 de Junho

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As comemorações oficiais do 10 de Junho não são um acontecimento popular - uma "festa popular". Mas são um ritual - e a palavra não é pejorativa, como muitos a utilizam - de reafirmação identitária. Vivido pela população na placidez do quotidiano. O fundamental da sua coreografia actual - uma cerimónia até simples, no país, acoplada a uma outra, a realizar onde haja uma comunidade de emigrantes portugueses - é o  modo como explicitamente denota a democracia como constitutiva do país, da sua identidade, assim afirmando-a. Pois o seu conteúdo central são os discursos: os presidenciais, que são esperados como relativamente protocolares, "cinzentos". E os de um convidado, oriundo da sociedade civil e assim algo autónomo, ao qual é entregue a responsabilidade de dizer algo relevante sobre o devir do país. 

É isto o actual 10 de Junho, dia do Portugal democrático. Não é o dia em que o Chefe de Estado fala ao país - e muito menos ao "seu" "povo" - reafirmando a sua visão e o seu programa. É o dia em que o Estado dá o palanque a alguém, assim ao país, para que este critique e desvende o presente e até, porventura, aponte alguns rumos. Que  alumie o que lhe for possível. Na sua relativa autonomia de intelectual.  Ao longo dos anos alguns dos convidados têm sido mais interessantes, outros menos, mas isso é normal - e julgo que muitos não se vêm conseguindo libertar o suficiente do "peso do simbólico" do dia. Mas também isso é normal, humano. Mas o realmente fundamental é este molde cerimonial, assim significando e celebrando a democracia. (E seria bom que alguns "democratas" que menorizam o cerimonial, e a data, por não corresponder a ajuntamentos populares pudessem perceber algo do real antes de perorarem).

Ontem o convidado reclamou-se, explicitamente, filho da democracia. Do que disse algumas coisas não gosto - não se pede aos políticos "deem-nos alguma coisa em que acreditar". Esse é um assunto que nos compete a nós, cidadãos, disseminar entre os ... políticos. Mas, de facto, o convidado fez o que lhe incumbia: proferiu o que considera relevante sobre o país, criticamente. A reacção do poder foi imediata: membros do governo, actuais deputados, antigos membros do governo, jornalistas e opinadores, uniram-se em invectivas, considerando as palavras proferidas como de "extrema-direita", de arauto do populismo anti-democrático e, até, próprias de quem não gosta do país (ainda não li invectivas de "anti-patriotismo" mas lá chegarão). E colhem imenso apoio nessas proclamações - as quais procuram não só elidir o efeito do discurso como também demarcar o "quem" pode falar na data, estipular um perfil futuro. Entretanto os que não estão no poder celebram as suas palavras, anunciam-nas pertinentes.

Que disse o convidado que tanto abespinha o poder actual (PS)? E que tanto encanta o não-poder actual (à direita do PS)? Disse

"Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (...) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (...) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.

Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (...) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (...)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (...)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (...) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( ...) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego."

Grosso modo, é este o resumo do que João Miguel Tavares disse ontem. Na cerimónia que consagra a crítica democrática como constitutiva da identidade nacional. Ao ler as reacções dos agentes do poder (militantes, simpatizantes e os sempre avençados) não só percebo, mais uma vez, o quão distantes estão da mentalidade democrática que se quer celebrar. Mas, ainda mais, percebo o quão intelectualmente desonestos são, ao refutarem estas palavras. Que tão elogiáveis, e até candidatáveis, seriam. Se proferidas por outrem.

(Adenda: três horas depois de publicar este postal o sistema do blog informa-me que o texto foi visitado, directamente, por 52 pessoas. São muitas visitas para este blog. Mas o sistema informa-me também que apenas três dessas visitas "clicaram" no trecho que cito, que foram ver o texto completo, ao qual deixei ligação para que não se diga que o trunquei, adulterando-lhe o sentido. Convido os leitores a consultarem esse texto, a "clicarem" na citação - só assim perceberão mesmo o quão visceral é a desonestidade dos apparatchiki socialistas que se aprestaram a criticar o locutor de ontem).

 

Durante a "A Quinta Essência", de Agustina Bessa-Luís

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De Agustina Bessa-Luís o único livro que li foi Sebastião José. Teria mais ou menos vinte anos. Não gostei - pior, lembro ainda a edição feia e desconfortável da Imprensa Nacional mas nada do seu conteúdo. Na década seguinte, tão elogiada seguia a autora, tentei outros. A todos larguei, desinteressado. "Não é o meu mundo" resmungaria depois, quando dela, da sua obra, alguns me falavam. Mas sem com isso querer significar o que se diz dos seus livros, que ancorados num meio social lá nas cercanias da foz do Douro, pois sempre pouco relevante é o que o escritor ecoa, o interessante é o como refracta, rearranja. Ou seja, o tal cerca da foz do Douro é muito mais o meu mundo - literalmente falando - do que Saigão de Fowler, com o qual Greene me anunciara antes de calcorrear eu esse fastidioso Sebastião José e outros excertos abandonados. Nem o meu mundo era, foi ou é, os mares tempestuosos navegados por Macwhirr, esse com o qual Conrad profetizou como ninguém este XXI. Nem o cérebro de Borges, que chegou à verdade. Nem a Roma de Yourcenar ou o veld de Coetzee ou uma praia magrebina excessivamente soalheira ou o sopé de um vulcão mexicano ou a coragem infinda do tão frágil Jack London, ou um punhado de outros "mundos" que eu lera nesse quinquénio tardo-adolescente, fazendo-me, ou que viria ainda a ler, recebendo-o como se com aquela impressionável idade (Coetzee, claro). Pois esse "mundo" que não é o meu é o gosto - não gostei, não gostava.

As décadas passaram - há pelos menos 25 anos que não abria um livro de Agustina Bessa-Luís, e sei-o bem, que estou a menos de um mês de poder dizer que há vinte e cinco anos fiz trinta anos, e é assustador dizê-lo. Agora a escritora morreu. E acorrem elogios imensos, vindos de personalidades que respeito. "Genial", repetem, "a maior" completam. Frederico Lourenço escreve (no FB) que em jovem desgostava pois sentia falha a arquitectura literária mas que Bénard da Costa lhe ensinou que isso de nada interessa. Se dois vultos destes (e que vultos!) o dizem ... é tempo, passado tanto tempo, de voltar a tentar lê-la, talvez possa, agora mais maduro (?), apreendê-la.

Aqui há poucos livros em casa, três estantes, quase tudo entretanto comprado - pois na partida de Maputo  a tralha foi para Lisboa, por lá se acumula a livralhada, em quartos, corredor e cave. Ainda assim há cá um livro "da Agustina", como dizem os cultores, nisso significando a proximidade espiritual, o estatuto de leitor. É o A Quinta Essência, não muito falado - o que não surpreende, tamanha a produção da autora, uma coisa verdadeiramente hercúlea! Tomo alento através da contracapa, da badana, de uma recensão e até de um artigo académico (póscolonial). A trama promete, o desconforto com o 25 de Abril, a ida para Macau (pré-aeroporto) em vingança com o PREC, etc. Entretanto noto que no "Público" um dos autores mais consagrados da "nova geração" (os tipos que ainda não são velhos) a diz "a maior escritora de sempre de língua portuguesa" (o feminino excluirá os homens? ou não, como determina o "falar" actual?). E aduz que é ela, a autora, que escolhe os leitores, uma distinção intelectual (vedada aos mais simplórios, obviamente) para os que não procuram uma "história contadinha de forma certinha." No mesmo Público outro autor, "escritor, poeta" (que definição tão estranha, talvez mesmo falhada ...) e também humorista, diz que a leitura "exige um envolvimento", e nisso deixa implícito que isso não será para todos, percebo-o.

Estou assim preparado e avanço, na sincera esperança de gostar, de me "envolver", de "ser escolhido". Leio o primeiro capítulo, "Um ladrão em casa", 48 páginas. Fico estupefacto. Melhor dizendo, vou ficando estupefacto ao longo das páginas - um estupor, dirão os "escolhidos". Pois é uma redacção. Nem é isso do narrador ser plural e individual, tropeção que será coisa de pouca monta, e ainda menos aquilo da mana Bete a tratar o protagonista na terceira pessoa (e por "menino") mas na segunda pessoa no período exactamente anterior, ou da mulher de um alto funcionário em Hong Kong (ela mesmo) correr o mundo mas nunca ter ido a Macau, e esta é ainda menos, pois coisas incongruentes que apenas beliscam aquele pacto do leitor, "não escolhível", de acreditar no que lê, até porque ela prefere o mano Tomás mas também o mano José Carlos, etc. e tal. Nem é o fazer resumos, "pontos de situação" melhor dizendo - "escrita selvagem a la Dostoiévski", sobre ela também acabo de ler. (E muito menos o "acessor" da página 26 que os revisores da Guimarães Editora deixaram passar apesar desta ser a 5ª edição do livro). Pois isso tudo nem é a tal "arquitectura", serão rodapés, ou mesmo meras rugas ou verrugas de um texto. O que desilude mesmo é aquilo da família apresentada, os Pessanha (ou Santos Pastor), mais o incongruente "ladrão em casa", serem estereótipos. Esboçados apenas, ali no descuido (apressado?, altaneiro?) de quem terá muito para dizer, e decerto que o tem (teve) a crer nos elogios que recebe(u).

Devo eu continuar a ler, passar ao segundo capítulo, quando José Carlos Pessanha, ou Fernandes, como se preferir, avança para Macau (o tal Macau pré-aeroporto)? Devo envolver-me, frisando pertencer aos "escolhidos" pela autora? Hesito, pois o livro tem 374 páginas. Devo continuar e blogar o elogio final, para me mostrar dentro dos tais "escolhidos"? Devo devolver o livro à estante e calar-me, tão mal, tão "baixa classe" parece não conseguir "o envolvimento"? Fecho o livro, passo à banda desenhada. Amanhã (hoje) será outro dia, como se disse no velho cinema.

Na manhã seguinte, o tal hoje, leio Alexandra Lucas Coelho, um bonito texto bastante elogioso sobre a autora. E que me acalma a dúvida. Pois dela diz "Os livros deixavam de lhe interessar no momento em que acabava de os manuscrever, sempre em pouco tempo. Raro emendava, não revia, não deixava marinar, seguia para o próximo." É isso mesmo, raiosparta, a tal sensação que tive, a de ler uma redacção - "blasfémia" dirão os fundamentalistas, "preterido" dirão os seleccionados - cheia de ideias para um livro mas carregadinha de desconseguimentos. Coisas bem mais do que meras imperfeições.

Decido continuar, a tentar aspergir-me, decido. Mas ao reabrir o livro atento na marca que nele deixara. Aqui: "Bete estava um pouco alegre, como se dizia em família, o que queria significar que se embriagara, bebericando whisky puro. Os amigos ingleses, ainda que raros, diziam "intoxicar-se" quando estavam simplesmente bêbedos. Bete tinha o snobismo de só privar com ingleses e adoptar os seus costumes, o chá com leite e a jardinagem [já agora, casara com um, podia vir a propósito referi-lo, digo eu, jpt]. Humilhava os criados diante de toda a gente, o que era possivelmente um traço colonialista. Depois compensava-os largamente." (50). Devo, pergunto-me afinal, deixar-me "intoxicar" com tamanho potlatch de advérbios de modo? Com esta escrita? Não, decido. Que José Carlos Fernandes, ou Pessanha, descendente do Santos Pastor bom, tenha tido o seu sucesso ou insucesso em Macau, e que com isso, nisso, a mundividência demiúrgica tenha soado. Mas não será meu assunto, não é a minha forma. E sigo para outro recanto da (pequena) estante.

Quanto voltar a Portugal lá irei às estantes, gavetas e prateleiras, à procura. Tentar, via Sibila ou similar, ascender aos "escolhidos". Mas, por enquanto, nem pensar. Ficarei neste pobre rebanho dos que querem "histórias contadinhas de forma bem certinha". Pastando, apartado dos seleccionados.

 

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