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Nenhures

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Boris para o fim-de-semana

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Não tenho grandes vínculos com o John Bull. Algum, broken, conhecimento da sua língua. E poucos britânicos contemporâneos realmente me marcaram - Berlin, Leach, Naipaul, Page, Popper, Richards, nenhum deles, e por diferentes razões, um verdadeiro arquétipo appointed by Her Majesty, com a óbvia excepção de Sir Edmund (esta agora foi à João Carlos Espada ...). Mas atrevo-me a opinar, e justifico-o: há mais de uma década que lá tenho família mui próxima queridos amigos, daqui a semanas a minha adolescente filha ali irá cursar a universidade.
 
O que se passará não será uma desgraça para a Grã-Bretanha, e daqui a uns tempos nem se lembrarão das angústias havidas. Mas esta finta ao parlamentarismo é politicamente significante, demonstrativo do processo europeu actual, sinal que vivemos "tempos interessantes". E é ainda mais significante que tal não aconteça na Grécia, Espanha ou Portugal, recentes democracias, ou nas ainda mais recentes das ex-(quase)colónias do Urso Soviético, algumas um bocado trapalhonas. Brota exactamente no cerne histórico da democracia parlamentar. Sinto que isto terá muito mais impacto do que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. "Tempos (ainda mais) interessantes" aí vêm.
 
Para enfrentar esta aparente futuro muito haverá para pensar, e definir. Primeiro do que tudo, perceber quais são os problemas. Entre estes estão as formas de recrutamento dos colectivos das lideranças políticas. Num momento em que as capacidades de influenciar o rumo das sociedades se esvaem, em que a soberania efectiva se esgarça, devido à economia mundial e não aos projectos políticos agregadores, quem surge na política? Para simplicar, o problema não é Boris Johnson, nem o "mágico" Steve Bannon. O problema é o tipo David Cameron (quem?). Estes pequenos projectistas de cabotagem  que são recrutados, ascendem, influenciam, e se impõem, gente às vezes sans foi ni loi (como diriam os normandos) mas sempre sem rumo. Grassam, por todo o lado. E não por uma qualquer "crise" de valores, mas devido ao funcionamento do espaço político.
 
Por cá leio vários a defender o gambito de Boris Johnson. Dizem, pressurosos, que é uma acção positiva, tendente ao respeito pelo voto, o resultado do referendo. Correcto. Mas o parlamento também foi votado, donde este argumento é uma óbvia contradição, um pensamento a la carte. É legal, aplaudem. É. Mas não parece nada legítimo. E os ilustres doutos deveriam saber a diferença nada ténue entre os termos. Não haja dúvidas, o encanto com que esta medida de Boris Johnson é acolhida mostra, grita, uma coisa: os seus apoiantes (lusos e não só) não gostam de parlamentos.
 
E o júbilo diante desta versão boreal da Jangada de Pedra do comunista Saramago mostra bem que os seus apoiantes não gostam da União Europeia, querem-lhe a pele. Não a querem melhorar (intensificar ou aligeirar, redireccionar ou estancar), querem-na finda. Nunca percebi qual a razão de portugueses defensores da economia de mercado e da democracia parlamentar tanto detestarem a União Europeia. Talvez tenha sido aquela legislação adversa aos galheteiros públicos. Ou talvez seja a questão da (i)migração. É sempre interessante, no sentido de espantoso, ver doutos portugueses insurgirem-se contra os direitos dos emigrantes. Pois mostra bem que não vêm para além da ponta da respectiva pilinha, perorando que vão num país de emigrantes. Mas não deve ser por causa desta temática da (i)migração. Pois se o fosse discutir-se-iam mudanças nas regulamentações europeias: o livre-trânsito interno, a apetência por mão-de-obra exógena, etc. Mas esse não é o motivo, é apenas o pretexto. 
 
Desde o anúncio da trivela Johnsoniana li vários locutores lusos aplaudindo-a. Insisto, é gente que, de facto, não gosta do parlamentarismo e não gosta da União Europeia. Um destes dias estarão a perorar contra a NATO - de facto já o fizeram quando Trump chegou ao poder e polemizou sobre a organização. Pode-se sorrir e dizer que têm uma agenda política parecida com a do BE e a do PCP! Ou podemos ser um pouco mais analíticos, na senda das teorias da conspiração, e pensar que são teclados putinescos.
 
Mas de facto não são nada disso. São apenas uns ultramontanos "à antiga", uns reaccionários do piorio. Lendo-os - nas redes sociais - vê-se que muitos defendem novas alternativas políticas, como a Iniciativa Liberal, o partido do comentador Ventura, o Aliança (do agora desnorteado Santana Lopes, a fazer tristes figuras de "ocupa"). Eu não estou a dizer que o Iniciativa Liberal (no qual se calhar votarei) ou o Aliança (no qual teria votado se estivesse em Portugal nas últimas eleições) defendem estas posições. Estou a dizer que no seu interior têm estes núcleos, que poderão ser pequenos mas são audíveis - doutos num país de "doutores".
 
Assim, no registo de conversa que é o deste postal (e, a bem verdade, o de todos os postais), o que é necessário é recrutar boas lideranças políticas nos partidos democráticos, gente com algum tino e cuja ambição não seja apenas voluptuosa. E que tenham algum tipo de projecto, nacional e internacional. Um "desígnio", para usar um termo que os seguidores do pensamento de Inês Pedrosa abominam. Seja nos partidos democráticos tradicionais, seja nestes novos. Que não venham Camerons. E cameronzinhos. Que se defenda a democracia parlamentar dos gambitos, trivelas e fintas adversários. E que se defenda a União Europeia, modificando-a, intensificando-a, aligeirando-a, imigrando-a ou não.
 
O que significa, também, refutar, pontapear, o comunismo identitarista, sempre empenhado na demonização da tradição democrática europeia, invectivando o "ocidente", propondo-se a "rever conteúdos culturais", querendo traumatizar para, de facto, apoucar, nisso desfazendo.
 
No nosso país o primeiro passo para isto é simples: arranjar alguém para liderar o PSD, que anda aí aos caídos, decerto que muito devido à tralha militante. Já agora, convém que seja alguém que não surja, a um mês e picos das eleições, em abraços sorridentes ao sucessor de José Sócrates. E em começando por aí continue-se, despertando o CDS da sua condição hospitalar. Ou, porque não?, desliguem-no da máquina.
 
Pois o estertor dos partidos democráticos, que até pode ter piada para quem ande cansado dos tropeções e aleivosias correntes na política, só terá um desfecho. Piores partidos, piores gentes, piores soluções.
 
Vamos seguir o caso britânico. Ou, como já muitos anunciam, vamos ver o caso inglês. Wait and see ...

No Xigubo, de Craveirinha

xigubo

Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro "Maria", em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de "Manifesto", o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência ...

"Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção ... / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo."

É este um trecho do seu célebre - e ideologizado dirão os "estetas" de hoje - "África". Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que "mutovana" é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro - entre boreais e austrais - quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

A actualidade de José Craveirinha

contacto

Em 1999 o incansável António Sopa organizou este curioso pequeno livro duplo: "Contacto e Outras Crónicas" e, do outro lado em formato invertido, "A Seca e Outros Textos" de Rui Knopfli - uma glosa do "verso e anverso" que os dois autores seriam, mutuamente -, duas colecções de textos, textos de opinião de Craveirinha, idem e breves contos de Knopfli, publicados nas décadas de 50 e 60.

Releio bocados - francamente, pouco me diz este Knopfli, bem diferente de quando poeta. Mas Craveirinha? Ui, aguçado como lhe eram as unhas (alguém se lembrará das suas enormes e tratadas unhas?).

Deixo três breves citações, com dedicatórias. A primeira (de 1957) para todos. A segunda (também de 1957) para os sacralizadores lusos no "empreendedorismo" turístico - e lembrando-os que o texto é do poeta nacional moçambicano, que entre outras coisas esteve preso 4 anos por ser independentista; a terceira (de 1964) - que será necessário extrapolar - vai para os gauchistes multiculturalistas, mais ou menos pós-modernos pós-coloniais. E lembrando-lhes a mesma coisa. Se, claro, forem capazes de simples acto intelectual da extrapolação - coisa que, neste país carregadinho de académicos racialistas, muito duvido.

- "Oh, missão ingrata esta, a de escrever verdades" (p. 19).

- "Todos nós sabemos que Lourenço Marques é das cidades mais visitadas por turistas sul-africanos ... Quando se faz turismo não se pretende encontrar fora da terra natal o que se nos tornou banal na nossa. Se não, qual o atractivo do turismo? ... Não se requer subserviência de idioma ... Os barbeiros, cabeleireiros, alfaiates, hoteleiros e outros que tais, estão menosprezando a esperteza do forasteiro, dando-lhe facilidades a mais na vida. Vamos puxar pelos seus reflexos, fazê-lo descobrir a bela língua portuguesa; língua bonita, língua com história ... Escrevendo os letreiros somente em português continuamos amigos à mesma; a diferença é que passamos a dar ao que é nosso o justo valor: o valor das coisas que nos pertencem e fazem parte cá da Casa. Casa esta que é nossa." (em "Barber's shop, boarding house, ice-cream today e outras barbaridades", pp. 21-22).

- "E é crença de muitos esclarecidos que uma temática estritamente enraízada no folclore de Moçambique só poderá ser interpretada por indivíduos de cor. Não." (em "Canção da Angónia", um elogio a Gouvêa Lemos, p. 25) - e, já agora, se me aparecer aqui algum intelectual a apoucar o uso da palavra "folclore" saiba de antemão que deve é ir estudar em vez de se "armar aos cucos".

 

Voltar a casa: Aníbal Aleluia

Laban

Voltar a casa, após um ano. É voltar às estantes, militantemente desarrumá-las, ler bocados, livros a reler, recomeçar os abandonados, reesquecer os esquecidos. Depois, uns dias depois do tal regresso, acampei aqui, esteira e tudo, debaixo das estantes moçambicanas. Reabri e releio, entre tanta outra coisa, dois livros de entrevistas a escritores moçambicanos (melhor dizer, de Moçambique), ambos publicados em 1998, este "Encontro com Escritores" de Michel Laban, 3 volumes, e o "Os Habitantes da Memória", de Nelson Saúte.

Ambos começam com Aníbal Aleluia, o qual infelizmente nunca conheci, falecido antes de eu chegar a Moçambique  pela primeira vez. Grande verve, excelente pensamento, e modo absolutamente excêntrico no país. Noto que perdi o seu MBelele e Outros Contos - e irrito-me comigo mesmo, pois é o tipo de livro que dificilmente reencontrarei, num mundo em que abunda tralha "autorada" por gente iletrada e Aleluia não é reeditado. Será lido? Mas vejo via motores de busca, e assim me "des-irrito", que o Nelson Saúte escreveu, e bem, há pouco um "Elogio a Aníbal Aleluia" - que assim recomendo.

aleluia gajo

Vou agora reler o seu curto "O Gajo e os Outros", o que dele me ficou. E deixo duas citações das suas entrevistas, que muito mostram o perfil: do intelectual e do cidadão. Decerto que foi daqueles homens, inquietos, com quem se aprende. Ao contrário de tantos simpáticos que para aí andam, perorando:

"Fui marcado por um tal de Romão Félix que, sob o pseudónimo de Parafuso, utilizou o método dos blackface minstrels usando um pseudo-linguajar de negro a que muito racicamente chamavam de "pretoguês" para fazer pouco, principalmente, do negro evoluído. Epígonos de Parafusos e macaqueadores de vária espécie recuperam esse linguajar que o nosso poeta nacional [Presumo que Aleluia se refira a Craveirinha] escalpelizou um dia. Na onda de desvios e anfibologias oraculizantes surgem os espíritos levianos e dão-se as mãos em elogios mútuos num cabotinismo concertado. E é assim que esses movimentos parecem vingar, até que um dia apareça um inocente a mostrar a nudez do rei. A tristeza é quando aqueles que de facto têm jeito e sabem distinguir os caminhos a percorrer batem palmadinhas nas costas dos imitadores desajeitados(em Nelson Saúte, Os Habitantes da Memória, p. 29).

E depois (em Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, 37) ao apropriar-se de Guerra Junqueiro para referir a sua terra de então. Mas um dito que devemos reclamar de volta, pois radicalmente nosso, não sei dos outros: "Isso que para ai está é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”.

60 anos de Pedro Ayres de Magalhães

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Anteontem, quarta-feira 31 de Julho, Pedro Ayres de Magalhães fez sessenta anos. Um mero aniversário, uma alheia idade redonda, poder-se-ia dizer. Mas este tem um significado especial, anuncia que a minha geração passou assim, oficialmente, a sexagenária. Pois se Pedro Ayres nunca foi um "homem da frente" - o "front man" da mística rockeira - foi, de facto, o "homem do leme" da geração subsequente ao 25 de Abril. Não me vou por aqui a botar sobre ele: nem o conheço pessoalmente nem sou especialista em música. Mais vale escutá-lo (entrevista radiofónica) ou lê-lo (entrevista à revista Sábado; entrevista ao jornal i). Dizem-me que Edgar Pêra sobre ele fez um filme, mas ainda não vi.

Fico-me pelo registo: um tipo que andou na linha da frente do punk em Portugal (aqui deixo ligação para "Bastardos", um documentário sobre o punk português), desde os seus Faíscas, e seguindo para o grupo iconoclasta Corpo Diplomático. Eram tempos bem diversos (e aconselho mesmo as suas entrevistas, para se entender em particular o universo rural com que estes urbanos se deparavam, o tão diferente país de então, ainda espartilhado e sofrendo as mágoas das guerras coloniais recém-findas). Depois foi a alma-mãe dos Heróis do Mar, que tantos disseram (e continuariam a dizer, se se lembrassem de efemérides ou similares) como fascistas: quando de facto os Heróis anteciparam os anos 90s, esses que só terminaram em 2004, o reencontro do país Portugal consigo próprio, a celebração passada que fora a era do país pária. Uma nação, história e identidade, que comemoravam - mesmo que hoje o seu som surja imensamente datado, como "pop" que era -, enquanto também cantavam "este país é uma prisão", no afã de pontapear o provincianismo então hiper-dominante, sufocante mesmo. A polémica que surgiu há algum tempo, quando Manel Reis morreu, mostra bem o quão provinciano ainda vai o meio - mas também que os locutores actuais, que então se dividiram numa "esquerda" celebrando-o e numa "direita" invectivando-o, em termos até paradoxais, não percebem nada daquela era, esses anos 1980s em que os Heróis foram marcantes. É certo que os hinos que ficaram foram os dos Xutos mas a atitude que frutificou foi, em parte (bom seria que mais tivesse sido) foi a dos Heróis. Entenda-se, a de Pedro Ayres. 

Muito se celebra agora António Variações, feito ícone. Convirá então lembrar que foi Ayres (e o seu quase constante parceiro Carlos Maria Trindade) que lhe produziu o disco final. Como também foi ele que, através do Resistência, congregou repertórios e músicos - não só de diferentes estilos mas, algo tão difícil naquele tempo de cesuras constantes, também de diferentes aparências políticas. Assim concertando Portugal. Depois foi ele o verdadeiro Pigmalião do Madredeus, esculpindo não só a cantora mas também repertório e trajecto. E com este internacionalizando a música popular portuguesa, reabrindo caminhos (que décadas antes Amália havia percorrido sem deixar sucessores), os quais vieram depois a ser seguidos, ainda que sem o seu brilho, por artistas como Mariza ou Dulce Pontes. 

É um trajecto musical fantástico, feito sem cedências ao meios dominantes, muito radicado num individualismo - meritocrático, parece-me. É diante disto que continuo a repetir, Ayres de Magalhães é o homem da nossa geração que maior impacto cultural teve no país. Tem tido. A alumiar. Obrigado. Parabéns. Que venham mais anos, com saúde e sucessos.

 

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