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Nenhures

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A geração esvai-se, e tão depressa ... Deste jantar já partira o Sandro, o sempre Driol. Agora foi o Miguel Rodrigues, o nosso querido "ilustre causídico". Anos a tomarem-nos como irmãos, pela nossa proximidade de então - o convívio quotidiano, tanta bancada de Alvalade comungada, gargalhadas e devaneios partilhados. E decerto que por alguma semelhança física, aparente às (aos?) distraídas(os?). "Ele é o mano mais bonito", rematava eu no final dos risos que sempre nos causavam essas confusões alheias. Ele não me desdizia. Vaidoso ...

Entretanto veio o resto da vida, décadas da minha emigração, também alguns descuidos meus, decerto, e a confluência de dois tipos algo ciosos de si mesmos. A gente esfriou-se. Não tanto no último quinquénio, este do meu torna-viagem, não tanto. Ainda rimos juntos e até resmungámos quaisquer coisas.

Estou aqui em nenhures, longe e ensimesmado, e sei da morte, do fim do "mano mais bonito". E Nenhures é isto, aqui, onde os nossos morrem, demasiado. E não nos fruímos o tanto quanto teria sido bom. É o nosso tempo disto. E é duro.

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Vivemos uma época de combate aos preconceitos apoucadores. Alguns movimentos sociais, e nisso também alguns intelectuais, têm vindo a traçar rumos, tentando expurgar as culturas dominantes de estereótipos discriminatórios e nisso transformar as práticas sociais com estes articuladas. Mas há sempre quem resista, constituindo aquilo a que em tempos de chamou "forças de bloqueio". Muitas destas surgem sonoras no campo da comunicação social e seus adjacentes. Mas talvez as mais empedernidas habitem no mundo económico, controladas por um empresariado voraz na busca de lucros, suportado por esse meio letrado, semi-intelectual, constituído por profissionais da comercialização (dita "marketing", em estrangeiro para adquirir prestígio) e da publicidade. 

Deparei-me agora com este ataque aos homossexuais masculinos. É certo que na actualidade já alguns dos mais prestigiados intelectuais portugueses os defendem, lutando contra preconceitos que ainda os desvalorizam, até compondo e aderindo a uma muito justa teoria antropológica que - finalmente - estipula os quatro grupos existentes na História da Humanidade. De facto, sabe-se agora que existem três grupos vítimas da violência radical, devastadora, escravizadora e assassina: Crianças, Mulheres, "Gays, Queers e Outros Assim" (sigo a conceptualização do consagrado Frederico Lourenço). E um grupo agente da tal malevolência, assassina, escravizadora, estupradora: os Outros. Estes são os Homens Heterossexuais, cujas malevolências contínuas são puro reflexo da sua  masculinidade tóxica, da qual seguem escravos militantes. 

Mas ainda assim é nesta actualidade, na qual o conhecimento histórico e antropológico já nos permite assumir esta compreensão da evolução humana, que uma empresa, na sua insana demanda de lucro fácil, continua a produzir este tipo de insultos, jocosos e ridicularizadores, àquela parte boa da Humanidade.

Mas não vai sozinha neste cruel e alienante rumo. Ao lado daquele insensível produtor alcoólico encontro este outro, desrespeitando os cidadãos séniores, tanto na imagem decadente que deles apresenta, como utilizando epítetos apoucadores, até vis, como se lhes retirando a integridade - no sentido amplo e assim ainda mais perverso, o da redução da sua totalidade e da sua dignidade. 

Urge olhar para estas práticas e alterá-las. O caminho será difícil e longo. Mas necessário.

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Demons and damned in hell, detail from Coronation of Virgin Altarpiece, 1454, by Enguerrand Quarton (1410-1466 ca), tempera on panel, 183x220 cm

Texto antigo como se escrito hoje:

Tomás de Aquino foi clarividente no seu século XIII, quando decidiu denunciá-la como um dos sete pecados capitais, assim pérfida fonte de um sortido de vícios. Falo da acedia, aquela “certa tristeza”, o torpor acabrunhante que algema os seus padecentes à inactividade, a uma estupefacção constante, no limite até à autofagia. Dela brotam os tais vícios, seus efeitos, entre alguns outros o rancor, a amargura, a timidez, e aquele que mais temo, o da divagação da mente, essa que se traduz na inconstância, na verborreia, na mera curiosidade, na instabilidade. Sistematizo, a improdutividade. Diletante.

A tal acedia é pecaminosa, disse o filósofo, porque infundamentada, porque brotada da aversão por pequenos males, relativos. Que a tristeza é justa, e até necessária, mas se defrontada com o verdadeiro mal. Na linguagem de hoje dir-se-á que a acedia nasce de uma incompetência na hierarquização do mal, dos males. Talvez até da “banalização do mal”. Em assim sendo o acedioso é alguém que padece, também, de um défice intelectual, de perspicácia. Do desentender o real.

O mundo de Tomás era diferente do actual. E nisto do necessário para se ser pessoa também. Que hoje para que a tal cheguemos, mais do que ser visto como um mero “tipo” que “para aí anda”, temos que ter um rumo, algo a perseguir, um refúgio a alcançar, uma montanha a escalar, um naco de felicidade ou orgulho luzidio, um qualquer sucesso que desfraldemos aos olhos alheios, em público às vezes, no privado da casa-própria, ou, vá lá, pelo menos diante do espelho na hora de sacudir as remelas. Assim, acredito que os céus são agora mais inclementes para os acediosos do que o eram naqueles tempos de Tomás. Quando apenas a expectativa de um Além infernal os consumiria, vis pecadores. Sendo que no hoje em dia, de menos aléns, o pecador se vai consumindo num aquém modorrento, culpabilizado, angustiado. Incompleto. Incompetente.

Tomás de Aquino foi um companheiro da alquimia, aquela incessante procura da criação do ouro, dos robôts, da abundância social. E, mais do que tudo, da panaceia, o remédio que tudo cura, o elixir da longa vida. Daquilo que cria a harmonia, esta um bem. Por isso estou certo que acolheria como santificados estas novas mezinhas industriais, os medicamentos que rearrumam a bioquímica dos neurotransmissores, como explicam as vulgatas da coisa. Que harmonizam as cabeças pensantes, ainda que trôpegas.

Pílulas que curam a acedia, por assim dizer, ou, pelo menos, que a disfarçam. Alisando estas cabeças que da maleita sofrem, da depressão como lhe chamamos neste século. Já não a dizemos pecado, que nos é termo mais difícil de usar. Mas dela fazemos aquele mal escondido, o “pequeno mal” actual, como antes se chamava, em surdina, à epilepsia quando se acreditava ser esta coisa de possessão por espíritos malignos ou meia-demência. Exactamente como agora se emudece a tal depressão, vista como se possessão por defeitos-malignos ou meia-demência.

Leio que muita há, por aí fora. Talvez sim, talvez que muitos a vivam, a essa incompletude quotidiana. Porventura acompanhados, talvez apenas sozinhos. Se alguém, aqui por Maputo ou arredores, está assim no seu caminho pode-me acenar. Pois estou aqui a sair do armário, deixei-me, sei lá desde quando, assediar pela acedia. Incompleto-me dia após dia. Afogo-me em rancor, por mim mesmo.

Entretanto vão-se-me morrendo os familiares. Amigos queridos. Conhecidos simpáticos. Gente que me cruzou. E tantos que é absurdo continuar assim. Para disto fugir há por aí os medicamentos, os novos elixires da harmonia. Quem com eles vai vai bem, com toda a certeza. Eu, atrevido, vou tentar ir pelo outro lado. Se isto é, disse Tomás de Aquino, efeito de um defeito intelectual, da falta de uma correcta ponderação dos males do mundo, vou-me safar disto calibrando o meu olhar, e nisso o meu sentir. Não mais atentando na espuma dos dias.

E acabar todas as coisas que intento. Botando. Nem que seja um simples ponto parágrafo. Por ausência de bens do mundo de que falar.

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