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Nenhures

Nenhures

14
Out19

Postal ilustrado para a Vera (1): o corredor

jpt

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Passou já um quarto de século! Em 1994 trabalhei uns meses na preparação das eleições na África do Sul, aquelas nas quais Mandela e o ANC ascenderam ao poder. Foi o histórico e esfuziante fim do apartheid. E para nós, estrangeiros, também sublinhava a época, essa da crença num futuro ainda assim melhor, o da imperfeição democrática, derrubados que haviam sido os fascismos sul-americanos e os comunismos europeus, chegados os "tigres asiáticos" mais desempoeirados e abanadas as ditaduras africanas, naquilo do "ajustamento estrutural", não tão santo assim, mas isso só o viríamos a perceber depois ...

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Integrei um pequeno grupo de observadores colocado no Cabo Oriental, num corredor a que então chamavam "Border", encastrado entre os bantustões Ciskei e Transkei, nominalmente independentes, um naco de terra fértil, coroado com a maravilhosa Hogsback, da qual se diz ter Tolkien retirado inspiração para criar o seu universo ficcional, e culminado com East London, rica cidade pois melhor porto índico do país. Entre o pequeno grupo de colegas logo a maioria se acomodou naquele plácido burgo, congregando-se numa até modorrenta sucessão de visitas às actividades pré-eleitorais decorridas nas suas imediatas ... imediações. E, sendo franco, pois tanto tempo já passado, na fruição das aprazíveis instalações de veraneio que East London tinha.

Nestas missões trabalha-se em pares. Tive a sorte de me ter calhado como parceiro um enérgico francês, vindo de uma missão de dois anos na guerra na Jugoslávia, na qual trabalhara para a Cruz Vermelha. D. e eu logo fizemos para nos baldarmos a esse remanso, tão desejado pelos tais colegas. Assim, e para contentamento de todos, ficámos encarregues de acompanhar o que se passava nas "townships" circundantes, e também no Ciskei e no sul do Transkei. As distâncias eram grandes, as jornadas decorriam em ritmo frenético. A experiência foi fabulosa.

Éramos jovens, bebíamos muito, dormíamos quase nada.  Deitávamo-nos tardíssimo, madrugávamos de noite, mata-bichávamos bifes tártaros, com o ovo cru, e partíamos no nosso pequeno VW Citi 1800, voando até, pois isentos de limites de velocidade por sermos observadores eleitorais. Lembro-me de dizer a D. ser ele o homem em quem mais confiava no mundo, pois adormecia no "lugar do morto" a mais de 180 kms/h naquele carrito. Pois se eu guiava depressa, ele fazia-o ainda mais. Assim, e sem exagero, "íamos a todas".

Assistíamos a reuniões políticas, era essa a nossa função, o de "mostrar a bandeira", a da U.E., nisso a todos confirmando estar a "comunidade internacional" presente, para assegurar uma eleição "livre e justa", sem incidentes nem violências. Foram centenas naqueles trepidantes três meses: vi Mandela no Ciskei, um dia maravilhoso, Mbeki e Ramaphosa, os dois anunciados vices, FW, Winnie - que mulher!, que carisma ... Holomisa, o homem do Transkei, e a queda de Gkozo, o homem do Ciskei (bloguei pequenas memórias disso aqui). E imensas outras, pequenas, de cariz local. A logística era sempre igual: na véspera sabíamos as reuniões (comícios ou afins - ninguém dizia "arruada" naquele tempo) previstas e seguíamos desde a madrugada. À chegada éramos aguardados por "comités locais de paz", gente de organizações não-governamentais que nos enquadravam, tanto para questões da nossa segurança como para nos servirem de intérpretes. Claro, nem sempre existiam esses "comités", mas sempre alguém nos acolhia.

Nessas manifestações as únicas verdadeiramente difíceis eram as do Pan-African Congress. Histórico movimento de resistência anti-colonos e anti-apartheid, o partido estava então submerso à enorme vaga Mandela/ANC, como os resultados eleitorais vieram a mostrar. Tratava-se de um partido m-l radicalizadíssimo, profundamente racista e, ainda que na época isso não fosse assunto de agenda, visceralmente homofóbico  - sob a tese muito espalhada de que a homossexualidade é excêntrica aos africanos, entenda-se pretos, e uma maleita dos brancos, a extirpar. Os seus comícios, nos quais nunca havia qualquer "comité" de acompanhamento, decorriam nas paupérrimas "townships" e nos tétricos "informal settlements", tinham sempre escassos participantes, estes nada amistosos, para não dizer mais, com os brancos estrangeiros que ali apareciam. O partido tinha dois motes muito peculiares: mantinha o cântico/slogan "one settler, one bullet", a convocatória ao assassinato de todos os brancos no território, o que nos fazia algo desconfortáveis, e defendia a mudança do nome do país para Azânia. Enfim, se visitar sozinhos essas paupérrimas áreas residenciais era já bastante enervante, tanto nos avisavam dos perigos que corríamos e nos desaconselhavam a fazê-lo, entrar naqueles comícios e enfrentar a rudeza dos aglomerados era algo custoso. Íamos, dávamos uma volta, mostrávamos que ali estávamos, calculávamos os participantes e outros itens requeridos para os relatórios, e logo partíamos, sempre bastante desconfortados. Para não dizer outra coisa.

Os meses passaram, as eleições correram, o PAC teve um resultado ínfimo. Mandela chegou ao poder. Após a contagem dos votos parti dali, fiz a Garden Route pela minha primeira vez e cheguei ao Cabo ainda a tempo de acompanhar o seu empossamento como Presidente da África do Sul. Glorioso momento.

Logo voltei a Portugal. Dois dias depois de chegar fui à universidade, pois estava então a fazer um mestrado e a preparar a minha partida para Moçambique para trabalho de campo, o qual adiara exactamente por causa desta missão. Logo no corredor de entrada encontrei um professor, homem conhecido e cidadão activista. De modo simpático, até enfático, dirigiu-se-me e disse "Flávio (que era o meu nome de escola), soube que estiveste na Azânia!". E lembro-me exactamente do que pensei: "Fogo, branco e homossexual eras o primeiro" (a ser abatido, entenda-se). Mas é óbvio que não lhe disse isso, para quê? Apenas lhe respondi "Não, estive na África do Sul ...". E segui à minha vida.

***

Vera, minha querida amiga, e até co-bloguista, partilho contigo esta mera historieta, e já tão antiga, que me veio agora à memória. Decerto que pelos dias que correm e algumas pessoas que discorrem. Não tu, que assim fosse nunca o faria deste modo público e até enviesado. Esta história não me serve de trampolim para tentar compreender a tão complexa África do Sul, nem fenómenos como Malema, as lutas de poder no país, o historial da propriedade fundiária ali ou nos países vizinhos, ou tantos outros assuntos, e muito menos para a decalcar para o resto do mundo. É mesmo só uma memória pessoal, talvez pouco significante. Mas partilho-a contigo, agora, um quarto de século passado, porque me ocorre algo bem diverso: é óbvio que se podem tirar as pessoas do corredor. Mas a algumas pessoas não se lhes tira o corredor. Pois este é muito confortável.

Beijos, bom campo ...

13
Out19

A demagogia

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Leio num jornal que provavelmente a actual ministra da justiça sairá do governo e irá para o Tribunal Constitucional, sendo previsível que passará a presidi-lo daqui a algum tempo.

Entretanto, nestes últimos dias, continuo a ler um enorme chorrilho de patacoadas sobre o extraordinário significado da ascensão ao parlamento de gentes oriundas do bloguismo mais demagógico do início dos 2000s. Uma verdadeira orgia de jargão, um frenesim orgástico. E, espertalhões que são, as pessoas dão-lhes atenção. 

13
Out19

Efemérides de Monty Python e não só

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No momento em que se comemoram os 50 anos da primeira emissão dos Monty Python e os 40 do "A Vida de Brian" é muito engraçado ver isto (e o debate que reproduzo abaixo é uma verdadeira pérola) -. quando no rincão chovem elogios sem reservas a quem, em funções de Estado neste XXI, justificou ("compreendeu") a fúria assassina idólatra com a diferença entre "liberdade" e "licenciosidade", bem seguido pelos (ex)comunistas que no mesmo âmbito "justificaram" depois o ataque à Charlie Hebdo. Todos adversários do direito à blasfémia - mesmo que "esta" não o seja.

Em que estranho país vivemos ...

 

10
Out19

Handke

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Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios - e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.

Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este "A Hora da Sensação Verdadeira", uma das primeiras capas - e bem bonita - do meu amigo Emílio Vilar - mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção "Memória e Sociedade" também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o "Para Uma Abordagem da Fadiga" (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?). 

Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.

 

09
Out19

Amanhã o(s) Prémio(s) Nobel da Literatura

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Amanhã serão anunciados dois prémios Nobel da Literatura, dia muito raro, talvez mesmo original, coisas da confusão que houve na instituição que atribui os prémios. Na sequência da comunicação dos laureados muitos acorrerão às livrarias ou às estantes próprias. Eu farei o mesmo, claro, alegrando-me se o(s) vencedor(es) forem da minha preferência - como quando foram Naipaul, Coetzee e Vargas Llosa, notícias que recebi como se de troféus sportinguistas se tratassem.

Mas amanhã, e porque é por isto mesmo um dia de literatura, irei à estante e lerei, trecho longo que seja, este monumental "As Duas Sombras do Rio" de João Paulo Borges Coelho, o único livro que me "virou" desde os 40 anos. E como lamento que não o leiam. E que não o traduzam. Azar alheio, resmungo ...

07
Out19

O meu rescaldo das eleições

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1. Antes de tudo os dois vencedores: o PS; António Costa. A ordem é arbitrária. Os que, como eu, não gostam bem que podem botar o rol de coisas que consideram criticáveis: o controlo da justiça; e o da comunicação social, a estatal e a privada; a rede familiar no aparelho político; a (indi)gestão dos fogos rurais; a continuidade da austeridade; a perene inexistência de um verdadeiro desenvolvimento nacional; as constantes diatribes governamentais, a errática política africana, etc. Mas o que é certo é que a população votante aprecia. São as pessoas alienadas e ignorantes, ou vice-versa? Essa explicação pulidovalentesca, por mais que atractiva em dias de irritação, é vácua. A força sociológica do PS não é conjuntural e é fortíssima. E um "partido" não é uma "frente" ou um "movimento", é um "partido" mesmo que tenha uma retórica "nacional". O PS, tal como os outros, é um partido, portanto ligado a interesses preferenciais, e está imensamente ancorado no país. Lapaliçada? Talvez, mas há muitos que o esquecem. E Costa é muito hábil. Competente. Reproduz e engrandece essa base sociológica. Está para durar, excepto se houver um "arrefecimento global" económico-financeiro.

2. Foi um straight flush: PSD atarantado - já o estava e Rio sublinhou-o no penoso discurso final, exactamente igual ao de Jerónimo de Sousa, feito antes: disse ele que o PSD foi alvo de campanha da imprensa, de difamação até; que o PSD apresentou propostas detalhadas em todas as áreas temáticas (como se isso não fosse o trivial num partido daquela dimensão); que o PSD divulgou essas propostas em campanha; e que as profecias da hecatombe do PSD foram exageradas. A efectiva similitude com o discurso do secretário-geral do PCP foi mais que patética, pareceu mesmo plágio. CDS esmagado. PCP amarfanhado. BE reduzido - por mais que anunciem vitória os resultados não foram os que esperavam, e perderam 60 mil eleitores, uma boa quantidade desses para o rival mais próximo, agora neo-parlamentar. E nenhum dos pequenos partidos ficou imprescindível para futuras negociações.

Melhor para o PS/Costa seria mesmo muito difícil. E o óptimo é inimigo da ... maioria absoluta.

3.  A comunicação social trata o BE com cuidados inexcedíveis. Até quando? Vi a noite eleitoral na estatal RTP.  Ali José Rodrigues dos Santos, que tanta esquerda apoda de reaccionário (ou mesmo "fascista") várias vezes falou do resultado daquele partido, afirmando que não tinha crescido. Mas não foi capaz de dizer que o Bloco de Esquerda perdeu cerca de 60 mil votos. E na intervenção final do painel de comentadores Marisa Matias conseguiu dizer que "não há crescimento", sendo que o jornalista (do Estado) não a fez enfrentar os resultados. 

Mas isso são as coisas que todos viram. Deixo também os meus apontamentos pessoais, para quem tenha paciência/interesse:

4. Fui votar bem cedo, aqui na vizinhança onde cresci e agora vivo, na escola onde votavam os meus pais e eu sempre votei. Faltava gente nas mesas de voto - isto no centro de Lisboa, freguesia Olivais -, e vizinhos conhecidos convocaram-me para ajudar. Não tive "lata" para dizer que não - ainda para mais já tendo feito várias eleições no estrangeiro. E assim passei o dia numa mesa de voto, integrando uma simpática e funcional equipa de verdadeiros veteranos desta actividade - gente com 30 anos ou mais disto, entenda-se. Por eles vim a saber que este trabalho, afinal, é remunerado. Ou seja, ganh(ar)ei cerca de 50 euros pela missão cívica. E nisso percebi porque faltavam pessoas na alvorada eleitoral: pois a junta de freguesia pagara o trabalho feito nas eleições europeias apenas na sexta-feira anterior ... Cá se fazem, cá se pagam, diz o povo na sua infinita sageza.

Fiquei como escrutinador na mesa dos "Manuel" e das "Maria" - e saí impressionado com a dimensão do voto geronte. A freguesia é muito envelhecida, e isso nota-se à vista desarmada (Há quase uma década, quando vivia em Moçambique, cá viemos de férias e a minha filha, com cerca de 7/8 anos, perguntou-me, impressionada, "pai, porque é que há tantos velhos em Portugal?"). Entenda-se, saí do dia naquela mesa de "Manuel" e "Maria" (mas também de "Marco" abstencionistas) impressionado com a dignidade de tanta gente já tão frágil que não se dobra, e vai botar a sua opção. Numa taxa de abstenção bem abaixo da nacional, menos de 35% numa mesa de 940 eleitores. Impressionado também com a minha extrapolação, a do conservadorismo óbvio que um eleitorado assim composto transportará em termos nacionais, mas isso é outra conversa.

5. Eu anunciara em quem iria votar. Fi--lo no meu blog, sem o reproduzir aqui pois não me parece curial usar um blog colectivo para algo que poderia ser considerado como campanha política. No fim do dia eleitoral pude perguntar-me sobre se vale a pena que aqueles que não têm actividade política explícita escrevam sobre política. E confirmei que vale, mesmo: eu havia blogado que votaria no Aliança, pela chã razão de que tenho apreço pelo "panache" do Santana Lopes, na sua óbvia crónica de uma morte política. Fui assim até à mesa de voto, boletim já na mão. Hesitei. E mudei. Por influência do João Caetano Dias, o enorme bloguista do saudoso "Jaquinzinhos", em particular deste seu texto. Não sou grande fã dos hiper-liberais, nem nunca li com apreço os grandes blogs liberais, tamanho o desvario de muitos dos seus escribas - de facto reaccionários nada liberais. E a divertida campanha do Iniciativa Liberal fez-me desconfiar, pareceu-me uma espécie de Bloco de Direita, se nos lembrarmos dos tempos iniciais do BE.

Mas o país precisa de mudanças. Redução do estatismo, económico e cultural. Combate ao clientelismo. E à verdadeira criminalização do Estado, que o PS praticou neste XXI e procura apagar (e talvez reproduzir). A chegada de uma geração mais nova, apesar de tiques nada liberais ("aumento das penas de prisão" para quê, num país com a tipologia e a incidência de criminalidade que Portugal tem?), com ideias que afrontam o Bloco Central, herdeiro do corporativismo do Estado Novo, é salutar.

Ou seja, já com a sebenta Bic na mão desviei o voto. E no ínfimo do meu voto colaborei nesta inovação. Obrigado, grande jcd, desde sempre um dos meus dois bloguistas preferidos, pela provocação intelectual. Agora é ver o que esta nova via pode influenciar.

6. Chegado a casa, algo cansado, comi uma febra reaquecida (que viera na antevéspera num doggy bag). E vi o que todos já sabem: que os partidos racistas CHEGA e LIVRE elegeram cada um o seu deputado. O que anuncia que as suas pérfidas agendas virão a ser agregadas por outros partidos competidores: em particular o BE que já viu parte do eleitorado deslocar-se para esta eleição - algo decerto maquinado pelo PS, tal era a ironia de Costa saudando o novo partido parlamentar -, e o CDS, que procurará disputar a direita conservadora. A ascensão destes racismos à assembleia é a grande derrota da democracia portuguesa. E que cada um de nós, democratas, escreva o que puder, resmungue o que entender, contra essas excrecências. Pois, como digo acima, nem que seja apenas para "convencer" um compatriota justifica-se tomar posições.

 

06
Out19

Dia de eleições

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No governo Sócrates o ministro Costa tomou decisões importantes no seu pelouro. Ele não as iniciou mas concluiu as opções, que influenciaram o combate ao fogo florestal. Quando foi a PM para ali nomeou gente que com trabalhara, em especial uma antiga assessora tornada ministra. Naquele primeiro ano muito se alteraram as várias cadeias de comando, colocando gente de confiança política. Quando aconteceu o primeiro fogo catastrófico logo o aparelho se defendeu: nesse mesmo dia a polícia judiciária apontou o culpado, uma qualquer árvore que cometera "downburst". A imprensa logo afiançou que tudo era natural. No mesmo dia uma conhecida jornalista/bloguista - mulher de particular estatuto pois me apontam ser ela apenas criticável por quem a conheça pessoalmente - publicou no DN o diagnóstico final: tudo se devia ao aquecimento global. Logo a seguir, após cerca de 65 mortos queimados no desnorte institucional (que teve um relatório escondido pelo Estado), alguém perguntou a Costa se o governo tinha responsabilidades. Ele respondeu, seco, sarcástico, "não me faça rir". Repito, "não me faça rir". E foi de férias. Depois houve mais desgraça, como bem se sabe.

A tudo isto disseste nada, pensaste nada. Ecoaste, aplaudiste, quando após mais uma desgraça, 40 mortos noutro fogo descontrolado, alguém do aparelho do PS lançou o chavão de que a culpa era da Lei Cristas. E agora? Falam a Costa no assunto, ele irrita-se, cansado ou stressado, perde um pouco do controlo, algo que nem sequer é muito grave - principalmente para quem diz "não me faça rir" em cima de 65 compatriotas queimados num incêndio descontrolado. E que dizes? Que o mal é um velho resmungão afinal ser do CDS.

Hoje vota-se. O importante, para ti, é que o resultado final não venha a mudar a Lei Orgânica lá do teu sector de actividade. E a "cadeia de comando", chefe de divisão, director de serviços, etc, até ministro. E que saia um pouco mais de OGE ou de subsídios para o teu sector ou departamento. Que não te estraguem o relativo conforto. Nada mais te move. Imaginas-te, até abespinhado, um cidadão. Mas de facto és um cliente, apenas um cliente. E "não me faça(m) rir" diz o beneficiado, nas tuas costas.

Quando a Rodnina e o Zaitsev dançavam no 2º canal, a gente pensava que ia ser diferente. Mas ficámos assim. Eu nesta merda. E tu nessa. Ainda assim eu prefiro a minha putrefacção. "Não me faças rir", prefiro mesmo. Deixo-te o "Kalinka", ainda assim. A ver se te lembras de algo. E se tens alguma amargura, com o que te aconteceu. Será sinal que ainda te resta alguma humanidade. Que "não te faço rir".

***

Deixo ligação a textos de então: "O governo não tem culpa"; "A república dos eucaliptos"; "O ambiente geral"; "Olhar os que morreram".

05
Out19

Violênciazinha na campanha eleitoral

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(Apanhado no Facebook)

Cristas algo penou, Costa cresceu para "popular", como sói dizer-se (como se não fossemos todos nós, em República, "populares"). O relevante disto é que os radicalizados e irados dínamos destas situações não foram operários da Marinha Grande, peixeiras de qualquer Bolhão, jovens saídos de "seminários de insurreição" bloquista, neovelhos-nazis, trabalhadores eventuais, lusoafrodescendentes, indocumentados magrebinos, investigadores supra-precarizados, enfim, alíneas mais ou menos clássicas do "De pé, ó vítimas da fome" ou seus intelectuais orgânicos. Foram velhos, seniores como se higienizam agora.

E isso mostraria algo, para não dizer muito, da nossa sociedade. E do nosso futuro. Mostraria se as pessoas (tantas delas) não votassem por clubismo.

Tende um bom dia, agora vou ao Lidl, reabastecer.

03
Out19

Cancro da Mama

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[Cartaz da exposição* que decorre desde anteontem, 1.10, no Instituto Português de Oncologia do Porto. Página no Facebook, com as fotografias e os textos da exposição, estes últimos da autoria de artistas musicais e escritores. Grupo no Facebook aberto a quem queira escrever sobre as fotografias, sob o mote "movimento de empatia"]

No átrio da ala do cancro da mama, no I.P.O. do Porto, estão expostas dúzia e meia de fotografias. Os modelos são homem e mulheres que disso padecem. Sem rebuços, surgem com as suas amputações, como agora vão, mostrando-se na sua beleza, a de cada um, o quinhão dela que a cada um de nós coube, maior ou menor consoante quem nos vê e como nos olha. E na formosura da imensidão da força que denotam e da esperança com que nos reconfortam.

Propõe o projecto que cada um faça o seu "exercício de empatia" escrevendo algo - ou pensando algo, presumo eu. Hesito, procuro o tom, esse que poderá parecer adequado, o do sentimento, fraterno/amoroso, talvez aposto em vestes de requebros poéticos, abraçando com palavras o camarada homem, e sendo algo mais caloroso, até aprisionado pelo atrevimento próprio àquela toxicidade que agora vem sendo denunciável, com as camaradas mulheres. Assim louvando-lhes a coragem, celebrando-lhes a beleza, nada idealizada mas sim esta, óbvia, do tal qual estamos neste agora. Talvez até, distraindo-me, elevando uma ou outra, ou mesmo o conjunto, a arquétipo. Esse que falso, é óbvio, pois ali estão apenas indivíduos. Belos, corajosos. Desejáveis. Seguiria eu então para um ensaio (antropológico) sobre a constituição do desejo?, um poemaço romântico? uma narrativa erótica?, uma qualquer-coisa assim ficcionando sentimentos?

Mas eu não sou esse tipo. Pois vejo as fotografias e vivo outras histórias, menos poetizáveis, até menos narráveis. E é essa minha empatia, rude, descelebratória, que me ocorre. Pois surge-me Sousa, o cidadão presidente, no seu constante "somos os melhores do mundo". E concordo. Pois, dizem-me, somos nós, portugueses, os campeões europeus do divórcio com as mulheres com cancro da mama. Seguimos nº 1 do ranking,  mais de 60% ... Implacáveis seguimos, nisso competentes. Vem o cancro às nossas mulheres? Partimos para outras. Tratamentos? As unhas macilentas, quebradiços os dentes, corpos engordados com os químicos, ancas alargadas, nem um pêlo para amostra, da vagina à cabeça, que aos de abaixo pouco prezamos, olhos baços, e nem falo do medo, quantas vezes até desespero, dos padeceres que nem imagino, dos temores de desacompanhar os filhos, quando os há, tudo isso tão pouco apelativo? E ainda por cima cortam-lhes as nossas tão queridas mamas, a uma ou mesmo às duas? E ainda para mais arrancam-lhes o útero? Nisso tudo durante tempo mulheres sem desejos, vontades? Não foi isto que contratualizámos. Ficou danificada?, vamos para outras. Nisso, nessa mobilidade, nesse verdadeiro empreendedorismo, seguimos "Os melhores da Europa", competentes. E isto vai assim em todos os estratos, "acontece nas melhores famílias". E há bónus, não acaba aqui. Que há quem não se separe, que isto do divórcio empobrece - e de que maneira, como o afiançará quem por ele passa. E assim, conta quem sabe, tantas são as mulheres do cancro da mama, essas durante temporadas menos atreitas ao sexo, menos belas, e, se calhar pior do que tudo, menos airosas como fadas do lar, que às mágoas da doenças juntam as marcas das agressões, as dos "apenas" dichotes e as das verdadeiras pancadas dos extremosos maridos. E isto já não entra para o "ranking".

É esta a minha "empatia". Antipatizando, imenso, com o meu à volta. Compatriota.

*Fotografados / Textos: Telma Feio / Samuel Úria; Susana Neto / Fernando Ribeiro (Moonspell); Susana Cunha / The Legendary Tigerman; Sandra Gil / João Gil; Rute Vieira /  Rita Redshoes; Lourdes Pereira / Ricardo Ramos, Beatriz Rodrigues (The Dirty Coal Train); Paula Pereira / Jorge Benvinda, Nuno Figueiredo (Virgem Suta); Maria Maria / Olavo Bilac; Lucinda Maria Almeida / Jorge Palma; Ivete Oliveira / José Cid; Cristina Filipe Nogueira / António Bizarro; Carla Sofia Henriques / Alice Vieira; Ana Bee / Suzi Silva; Joana Barros / Ana Isabel Pereira; Agostinho Branco / Lena d'Água

 

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