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Nenhures

Nenhures

A censura nas escolas do Brasil

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O naco é tétrico. O governo estadual da Rondónia faz uma lista dos livros que devem ser retirados das escolas por terem "conteúdos inadequados". E dá instruções para maior vigilância docente, para futuro alargamento deste index.

Quanto Bolsonaro apareceu por cá inúmeros o acolheram com satisfação, pois adverso ao PT (partido corrompido, o que muito nos incomodava, dado que portugueses). E por se opor ao "marxismo cultural", esse veneno, de composição alquímica. Aqui no FB esses simpáticos a Bolsonaro continuam a perorar sobre política: dizem mal de Rio, gostam mais ou menos daquele neo-Chicão, (semi)simpatizam com o comentador Ventura, desprezam Cristas, um ou outro simpatiza(ou) com o IL. Lá fora abominam o Macron e aquele inglês perdedor, resmungam Merkel, e o pior de tudo é a "Greta do Ano", Cintra Torres dixit, e cá na terra "a Greta da Guiné", como bolsou uma miserável militante PSD entre as loas a Passos Coelho (pobre homem, com tais valquírias imundas). Para o bem geral, mundial? Trump é que os tem no sítio, Erdogan é um islâmico mas ao mesmo tempo, sabe o que faz ... E Putin, eslavo que seja, é um Estadista. A "Europa" é que nada vale, pois não corresponde ... (a quê não explicam, mas isto do FB não dará para tudo). E no meio disto, de vez em quando, olham ao Brasil: para continuar naquilo do malvado PT, o Bolsonaro é que sim! Até, repito, por causa da luta contra aquilo do "marxismo cultural".

Ora aqui está como agora esta tropa, alguns até "liberais", é recompensada. A lista dos livros a retirar, o index dos marxistas culturais. Entre outros, só conhecidos desses "intelectuais", há gente algo conhecida: Nelson Rodrigues Kafka, Machado de Assis. Até, em delírio radical, Edgar Allan Poe. Isto é só princípio, que outros se seguirão.

E decerto que com estas belas novas muito se humificam as lascivas gretas, fronteiras e traseiras, desta tropa lusa. Nos anseios de que mais dia menos dia ...

 

Os decoloniais e os nomes

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O meu nome? José Flávio. "Flávio" por nome de avô paterno. Para meu desgosto juvenil. E fui "Flávio" até à universidade, só já doutor disso me libertei. Para os amigos? "Zezé". Não "Zezé" porque "bem", "queque" ou "beto" (na velha tipologia que o MEC celebrizou). Mas "Zezé" porque Zés muitos havia e fiquei, aos 10 anos, no Maracangalha dos Olivais, "Zezé Moreira", então célebre treinador brasileiro em breve comissão no Boavista ... E, muito raramente, ainda há quem, olivalense está claro, me chame "Zezé Moreira", assim logo a desfazer-me em serôdio carinho.

O meu nome? Taveira (amputado do seguinte Pereira, por motivos de espúria economia no registo), o lado matrilinear transmontano. Trisavô capitão-mor de Mogadouro, ao que consta, bisavô "centurião de África", morto em Angola pelas sezões na ocupação de um qualquer Uíge, avô oficial do 28 de Maio. E o devido, pois patrilinear, Pimentel Teixeira, também apelido compósito. Origem? Maçãs de Dona Maria, ali para o centro do país, concelho de Alvaiázere. Nome de séculos, parece que um qualquer rústico daquela colina comprou uma carta de armas em meados de XVIII - cacique local, está visto, acontece nas melhores famílias.

O meu nome? Tal como o meu avô o fora Pimentel foi o meu pai, "engenheiro Pimentel" nos serviços, "camarada Pimentel" em tanto do resto. Porque mais raro do que Teixeira, e porque não fez a tropa naqueles seus anos 40s. Mas eu? Teixeira, desde a primeira tarde no Calhau, o alferes de Mafra a vociferar um "Sô Teixeira" isto ou aquilo, pois até aí fora o tal "Flávio" para os que não me "Zezéavam". E desde aí o meu nome? Zé Teixeira, em quase todo o lado.

Mas depois, já em Maputo, tive um chefe, delicioso, que me chamou, quando colérico ou entusiasmado, "jpt". Assim bloguei anos, o Zé Teixeira em Maputo a blogar "jpt". Um dia apareceu-me o facebook, em 2008/9. Criei uma conta para divulgar o blog em nome de "José Pimentel Teixeira" (o FB não aceita iniciais). Pouco se lembrarão disso, mas houve então uma polémica lisboeta, uns ciosos (até bloguistas, e gauchistes, claro está ...) a vociferarem contra os nomes compósitos, "cagança" ululavam ... E eu deixei cair o Pimentel, pois de facto não o uso na vida, só no tal blogal "jpt". E nos seus sucedâneos, nas coisas de teclas. Porquê? Pela tal coisa blogal, um tipo habitua-se a assinar assim ... Mas, aqui entre nós, que ninguém me ouve, também um pouco por cagança, pois de facto o uso da maioria dos compósitos é mesmo isso. Não sempre, mas muitas vezes ...

 

Porquê este longo arrazoado, quase intimista? Li ontem este artigo, "O Padre António Vieira no país dos cordiais", publicado no "Público", vero manifesto da esquerda actual. Contra muita coisa e, nisso, contra a recente estátua lisboeta do Padre António Vieira, coisa do presidente Medina, ao que julgo entender. E concordo, aquela estátua -se fosse importante - não tem ponta por onde se lhe pegue, estetica e conceptualmente, bloguei-o aquando da festarola inaugural.

Mas o artigo tem muito mais coisas, as atoardas contra o nosso passado malvado, como se esse estivesse a acontecer e fosse necessário sustê-lo. Os apelos à destruição das tralhas a que chamamos monumentos, pois demoniacamente colonialistas, como se tudo fosse Palmira, a Idolátrica. E os tão necessários elogios a Katar Moreira e a Ba, como se estes arautos do vento que passa. Opiniões, a cada um as suas ...

Mas o que adorei foi o ditirambo contra uma gente que é o "comentariado tradicional, grisalho e conservador - predominantemente masculino, branco, lisboeta e de uma certa classe social". Depreendo que falem de gente que vai à TV e aos jornais e que não aprecia o dr. Ba e a dra. Katar Moreira. E que não pugna por derrubar estátuas, bustos, igrejas, menires e sucedâneos que por aí abundam, pais afora.

O douto artigo é escrito a oito mãos. Googlei-os, aos donos das mãos: 2 brancos de sexo masculino, 2 brancas de sexo feminino (quanto ao género só eles poderão responder, julgo que esse é o paradigma agora respeitável). Ainda não grisalhos, ao que surgem. Tratam-se de quatro pessoas daqui idas para universidades americanas, nas áreas de ciências sociais e humanas [vamos ser "neo-liberais" e crer naquele vil mito liberal da "meritocracia"?]. E os quatro assinando com ... nomes compósitos.

Mas muito indignados com .... "uma certa classe social".

Isto é patético.

O "caso Mila" e a blasfémia em França

(Nicolle Belloubet, ministra francesa da Justiça, "L’insulte à la religion est une atteinte à la liberté de conscience", 29.1.2020)

No mural-FB de uma boa amiga francesa conheço o "caso Mila", a francesa (16 anos) que está ameaçada de morte por ter invectivado o Islão nas redes sociais. Googlo para saber da coisa. E vejo isto: a ministra da Justiça de França a por em causa o direito à blasfémia! O recuo civilizacional já chegou até aqui. Em França! Insultar a religião é um atentado à liberdade de consciência, diz esta mulher (que ainda para mais é jurista).

O direito ao desprezo pela religião, à blasfémia, é estruturante. É a base deste nosso isto! Custou séculos, guerras. Temos a liberdade de cultuar. Só porque temos a liberdade de desprezar toda a imbecilidade metafísica alheia, as patetices e crendices. Podemos ter o "bom senso", o charme discreto da burguesia, de conviver com a superstição alheia sem a invectivar. Mas não é uma obrigação, é mera educação. Ou, meu caso, falta de paciência para discutir com os patetas. Essa é a base de tudo o que há por aqui, nesta "pérfida (e colonialista) Europa".

E de súbito (ou quase) até em França se recua diante da barbárie culturalista. A propósito do Islão. Não por causa do Islão. Até em França. Isto vai mal.

Elísio Macamo sobre Portugal

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(À esquerda Joacine Katar Moreira, então deputada do partido Livre; ao centro de óculos e calças o seu assessor; à direita, com identificação ao peito, o GNR que a escoltou na Assembleia da República, a primeira vez que um deputado português requereu protecção policial nas instalações do parlamento)

O sociólogo moçambicano publicou um texto sobre Portugal, "Ser apenas negra, feminista radical e gaga", incidindo sobre a questão do racismo, seu legado e presente. Isto a propósito do "caso Livre". Infelizmente Macamo escolhe uma via mais fácil (bem diversa daquela que usa habitualmente para analisar com rara profundidade a situação moçambicana - será algo normal, pois a atenção sobre o nosso país ser-lhe-á um pouco secundária). A via fácil? Pega num texto de Sousa Tavares e zurze-o. E daí conclui sobre algumas características do presente português e, acima de tudo, sobre as potencialidades meritórias do movimento agora ex-Livre. Alguns dirão que MST é criticável pois exemplar, por representativo de um pulsar luso agora acometido por Katar Moreira ("Eu sou o incómodo", exclamou ela, biblicamente, há algum tempo). E nisso não deixarão de ter razão, o "Miguel" (MST é um dos "miguéis" que alguma classe média urbana portuguesa da minha geração reclamava como "seus" locutores naqueles 80/90s da CEE) fala e escreve há tantos anos que acaba por representar um médio denominador comum. Mesmo que sinuoso, aparentemente a la carte consoante a semana. Ou melhor, talvez por isso mesmo.

Mas o pontapear, ainda que com a sua usual elegância, do luso-articulista tem alguns custos, por mais abrangente que seja a finta com que Macamo antecede o remate. Assim de repente custa-lhe dois desperdícios, inabituais nas suas reflexões: em primeiro lugar, desconsidera dinâmicas da sociedade portuguesa. Ou, como diziam os antigos (desculpar-me-ão o eurocentrismo etnocêntrico desta in/evocação), arrisca-se a "tomar a nuvem por Juno". E, o que é muito pior, quer inibir o debate, ao reificar os agentes. Que mais pode significar uma tirada destas: "... aquele fosso pós-colonial entre ideias e a prática, um fosso que leva o articulista a esperar que uma deputada afro-descendente tenha que ser perfeita em tudo para ter legitimidade para se fazer ouvir."? Ou seja, porque Portugal foi um país colono, porque vivemos uma situação pós-colonial, estamos vedados a criticar uma política negra pelas suas propostas, seus diagnósticos ou metodologias? A negar a sua demagogia? A assobiar para o lado diante dos dislates? Porque é mulher, negra e gaga (características que ela própria invoca como capital político) as críticas que lhe são feitas derivam de uma exigência à perfeição da "afrodescendente" (parece que agora nós, "latinos", temos que falar e escrever à americana, por isso uso o termo)?

É certo que o texto de Macamo é basto saudado, por intelectuais lusos ou residentes. Pelos que se consideram lúcidos resistentes. É, para eles, um texto bem-vindo a este país, ditatorial. Pois, como dizem, reproduzem ou, pelo menos, anuem, Portugal vive num apartheid. Que nós, portugueses, brancos, pelos vistos cultivamos, reproduzimos, defendemos. Cônscia e/ou inconscientemente.

E se não concordamos com esta aberração demagógica? Com este agit-prop? Com este "fraccionismo", o identitarismo comunitarista, o "velho" "tribalismo" se falando em terminologia mais usual na discussão política moçambicana? O qual é, a um nível mais imediato, apenas uma visão estratégica estadocentrada, sequiosa e mesmo esfaimada de subsídios, a serem geridos in vitro, nas modalidades patrimoniais típicas destes núcleos sociológicos, tão pejados de veterania socratista. E, num nível mais profundo, essencial mesmo, um aggionarmento maoísta e guevarista, na ânsia de produção de raças(e quejandas)-para-si, como se estas motores de uma história à medida dos anseios destes intelectuais oníricos, presos a pulsões de heroicidade.

Macamo, de longe e elegantemente, alheio à sociedade portuguesa, dir-nos-á oriundos de um magma "póscolonial", disso frutos. E, quiçá, vítimas, pois seguindo numa bruma, algemados ao "inconsciente histórico" colonial. E não perceberá, por desinteresse, porque está feito o seu ombrear, o seu "número" entre "pares", quão diferente é o seu rumo analítico sobre o seu país, provocatório pois complexificador, problematizador, inquietador, e verdadeiramente inquieto, do que estas simplificações a la carte, interesseiras e espaventosas, a que agora decidiu associar-se.

E não notará, porventura, que entre estes demagogos histriónicos alguns são mulheres mas outros não, quase nenhum é negro, pelo menos com visibilidade pública (há apenas um, Ba, que defende a instauração de "policiamento comunitário") e não se conhece outro gago para além de JKM (a qual defende a instauração de "comissários políticos" nos serviços do Estado). Ou seja, Macamo desencontrar-se-á com o facto de que aqui não se está a exigir perfeição à preta (e gaga) para que ela possa falar, como ele atrevidamente reduz. Onde "mulher, negra e gaga" são argumentos próprios desta tropa, e não invectivas alheias. Que o que se passou e passa com esta mulher é uma vilania rasteira. Por iniciativa própria. E que estamos num debate político onde Katar Moreira é a cara de perspectivas peculiares, anti-democráticas, secundada por um conjunto de "intelectuais orgânicos" radicalmente demagogos. E estamos num debate poluído pois quem grita demagogias colhe demagogias. E é esse lixo demagógico adverso que procuram incentivar, crendo-o estrume da sua luta.

De quando em vez, um determinado autor francês, veterano investigador sobre Moçambique, publica algo  na imprensa moçambicana. E é usual  Elísio Macamo surgir a refutá-lo. Assim como se lhe criticando um "atrevimento", ou um "simplismo", sorrio eu. É mesmo recorrente que entre nós, alguns leitores, comentemos "haverá algo de pessoal naquilo?", mas é provável que não haja, será mesmo apenas o crivo crítico particularmente acerado. Percebo-o agora melhor, a Macamo. Naquela sua irritação. Que agora é a minha. Nesta exigência, irritada, patriótica (coisa que Macamo compreende e respeita, mas que estes agit-propeiros  portugueses tanto desprezam, idólatras que são de todas as "identidades" excepto da nacional, da qual são iconoclastas), de que quem escreva sobre o meu país seja tão profundo e analítico como quando escreve sobre o seu próprio. Ou então que fale de pataniscas de bacalhau e de vinho verde. E do nosso Sporting.

 

Parabéns CR7

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(Postal para o És a Nossa Fé)

35 anos, é hoje o aniversário deste quase-velhote. E continua ... imparável. O nosso maior de sempre. Grande Sportinguista!

Campeão europeu de selecções; Vencedor da Liga das Nações; 5 Ligas dos Campeões; 4 campeonatos mundiais de clubes; 2 Supertaças europeias; 6 campeonatos nacionais (Inglaterra, Itália e Espanha); 3 taças nacionais (Espanha, Inglaterra); 2 taças da liga; 5 supertaças nacionais (Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal). Mais de 700 golos de carreira, maior goleador da liga dos campeões; 2º melhor goleador nas selecções nacionais, 4º melhor marcador da história do futebol; mais internacional de sempre por Portugal (154)., Inúmeros troféus de melhor marcador, nacional e internacional. 5 vezes eleito melhor jogador do mundo.

Porreiro, pá!

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Há uma gripe lá na China, morrem uns chineses, preocupam-se uns chineses, andam aflitos os sacaninhas dos chineses? "Porreiro, pá", que ainda iremos fazer uns cobres, aumentar as exportações para lá ...  É isto a nossa ministra da agricultura. Onde vai o PS encontrar estes tipos? Sim, mesmo sendo eles, onde conseguem desencantar este tipo de gente?

Steiner e a barbárie

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(Ilustração de Pablo Garcia - que retirei do La Opinión de Málaga)

Sobre Steiner um belo texto de Thomas Meaney, nada encomiástico, no Times Literary Supplement. Aqui estão acessíveis vários dos seus livros.

Dele muito se dirá. Agora que morreu decerto que mais elogios. E se exagerarão as leituras próprias (cada um reclamando "o meu Steiner"). Li-o, acima de tudo, quando começou a ser muito publicado em Portugal, no final dos meus vintes. E continuei a lê-lo. Foi-me importante, um sinal de perenidade. Assim como que um elevada barricada. Daqui a umas décadas será lido, apreendido. Muitos outros, agora fervilhantes, não o serão.

Um dia escreveu sobre bárbaros e a barbárie. Li-o, há quase trinta anos. E logo guardei o trecho. Anda sempre comigo, é o tal "meu Steiner", aquele que me cabe:

A própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pós-voltairiano” (...) “Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa ou, no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde a um modelo spengleriano de um apocalipse racional -, ora que só poderá ressuscitar através da transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo.” (…) Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente…”

(George Steiner, No Castelo do Barba Azul: Algumas Notas Para a Definição da Cultura. Relógio d'Água: 73, 70).

George Steiner no "O Belo e a Consolação".

O que é necessário para o futuro

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(Postal para o És a Nossa Fé)

(Antes que os leitores disparem:)

1. Quando no imediato pós-Alcochete, Frederico Varandas avançou para a candidatura logo aqui resmunguei, várias vezes, que não era o homem certo. Nada me movia contra o arreigado sportinguista. Mas aquela insistência no "capitão do Afeganistão" que crê que "a cadeia de comando é sagrada" soou-me a vácuo.

2. Em 29.9.19 aqui escrevi: "E é notório que Varandas não se percebe a si próprio, devido às suas características. ... trata-se de alguém basto auto-convencido -. o que não é defeito, é característica. E que gere segundo intuições, crê na sua intuição, e em demasia. Isso dá azo a imprudências, e a opção Keizer disso foi exemplo. Letal. A ponderação, a prudência, apesar do tom repousado da sua expressão pública, é-lhe estranha. Varandas será um belo profissional da medicina. É com toda a certeza um grande sportinguista, dadivoso. A sua disponibilidade para liderar o clube após o descalabro do anterior presidente é mais do que elogiável. Tudo aponta para que seja um homem probo. Mas torna-se óbvio, e ontem a televisão mais uma vez o demonstrou, que não tem as capacidades intelectuais necessárias para administrar um clube como o Sporting. 

Como tal, mais do que discursos louvando a "estabilidade" ou sacralizando regulamentares prazos de mandatos, é importante que se perceba que vai haver eleições a curto ou médio prazo no clube. Pois após apenas um ano a direcção Varandas está esgotada, na trapalhada da gestão do futebol, nos tiques autoritários (o caso da elisão do campeão mundial de judo é totalmente inaceitável), na incapacidade de apreensão do real, na demagogia (o financista Salgado Zenha especulando sobre futebol), na desastrada comunicação com os associados e a massa adepta. Etc. Ou seja, estes corpos sociais ofertaram-se, generosamente, ao clube. E falharam. Urge compor  nova opção, e o quanto antes para evitar maiores maleitas."

(E agora o postal para hoje)

3. O Sporting é um enorme clube, carregado de títulos e de atletas magníficos. Mas não ganha no futebol sénior. Nos meus 55 anos só me lembro de 5 campeonatos nacionais ganhos. O clube está numa crise monumental: identitária, pois moral; organizativa, pois aos constantes solavancos; financeira, e porventura económica.

O que o clube precisa é de prudência, de ponderação prudente. O pior que pode acontecer não é Varandas continuar, é ser substituído por alguém que venha prometer títulos no imediato - vendendo a SAD, pressionando árbitros, batendo no peito, reclamando pergaminhos bancários, augurando investidores "chineses", toda essa demagogia avulsa. Comum.

O clube precisa de recomeçar. O futebol de se reorganizar. Só precisa disso. Há alguns dias aqui escrevi - com alguma ironia pois não devemos levar a bola demasiado a sério -, que "o futuro é radioso". E sê-lo-á se for ponderado. Sem gulodices. Preparando ano após ano um ressurgimento de grande clube de futebol.

Por isso ilustro este postal com a imagem de José Peseiro. Não que esteja a propor o seu regresso. Pois creio que o seu tempo no Sporting passou definitivamente. E porque não acredito - até por tudo o que disse acima - em "Salvadores do Clube". Mas porque me parece óbvio que, independentemente dos méritos e deméritos de José Peseiro, se Varandas tivesse tido a prudência de o manter na época transacta, num ano sem grandes expectativas, alguns frutos teriam surgido. Talvez não duas taças (que aqui já disse terem sido "vitórias de Pirro"). Mas estabilidade. E depois, com tempo, poderia até ter mudado de treinador, se assim o entendesse. 

Foi a imprudência, a gulodice, a "fezada", que conduziu Varandas a este angustiante e apressado final da sua presidência. Depois de tudo o que de irracional houve na presidência anterior, o que ainda torna mais imperdoável esta sua metodologia, esta administração por repentes.

Vamos ultrapassar este ciclo. Pensando ponderadamente, escolhendo ponderadamente. Seguindo prudentemente. Ou então continuaremos assim, mergulhados na internet a pedir cabeças cortadas após cada derrota. O que é uma grande seca, diga-se.

O politicamente correcto

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A aparente "esquerda" actual, o identitarismo escolar, vem convicta da sua superioridade moral. E quer ser pedagogicamente moralista. Isso crisp/ma-se no politicamente correcto. A correcção dos pequenos actos e, acima de tudo, do verbo é a garantia da justeza ideológica, da adesão às boas causas. Os exemplos são constantes, e fastidiosos. E alguns perniciosos. Mas é claro que este policiamento implica a sua negação. Para esses correctistas referir a existência de uma prática e de uma  mundivisão "politicamente correcta" é uma afirmação espúria, falsa. Coisa de "direita", ou seja, no linguajar de décadas, falar do "politicamente correcto" é coisa de "fascista". Para eles não há nada disso. E resmungam, até abespinhados, "o que é que não se pode dizer?".

O politicamente correcto não é apenas um policiamento verbal. É uma pantomina moralistóide, uma coerção sobre acções sociais, tantas delas desprovidas de efeitos prejudiciais ou de sentidos depreciativos. Apenas alheias ao rame-rame da agit-prop militante. O politicamente correcto é uma mundivisão, muito  new age, ainda que laica, na sua aparente placidez, irenismo. De facto, é uma "filosofia" (com aspas) totalitária, que tudo quer controlar.

O exemplo mais sonante dessa patética mundivisão aconteceu ontem, num campo de futebol: o futebolista Neymar fez uma estrondosa finta a um adversário. O árbitro acorreu e puniu-o com uma repreensão (cartão amarelo). Pois tamanho drible, tamanha demonstração de talento, lhe surge como uma humilhação do adversário.

É diante desta triste gente que estamos.

 

Pós-Brexit

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Uma belíssima capa do Guardian, algo escatológica, típico lamento dos "remainers". Inclino-me para que daqui a poucos anos nem nos lembremos deste episódio. Ou seja, que a saída da G.-B. da UE não cause o fim do mundo tal como o conhecemos.

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Mas faz-me lembrar um pequeno episódio. No ano passado, nas estantes da casa de Bruxelas onde vivi, reencontrei este livro, institucional, "As Novas Fronteiras da Europa – o Alargamento da União: Desafios e Consequências”. Trata-se das actas de uma conferência organizada pela Gulbenkian, em Outubro de 2004. Dedicada à problemática do alargamento da União Europeia. Várias personalidades reconhecidas foram falar (Daniel Hamilton, Roxane Silberman, Michael Zuckert, Thérèse Delpech, Yegor Gaidar, Antoine Compagnon, Josef Jarab, Michael Emerson, Willem H. Buiter ou Jean-Claude Trichet). E também o presidente da república, Jorge Sampaio (discurso de Jorge Sampaio).

Li o livro na diagonal, mas com a suficiente atenção para ver que quase todos referiam os "problemas" e as "dificuldades" que o recente alargamento da UE impunha. Mas também se anunciava a necessidade de integrar a Turquia na UE. Uma necessidade apresentada como inevitabilidade, qual corolário quase tautológico da integração europeia. E também como evidência ética. Não houve naquela colecção de conferências um texto verdadeiramente crítico do conteúdo e das modalidades da União Europeia, nem das suas instituições. E muito menos uma voz dissonante relativamente à integração turca. Ou seja, na pluralidade de tons e sons normal numa série de potentados retóricos, assistiu-se ali a um pensamento único. E plácido, naquele estilo do reconhecer "problemas" de facto menores mas sem presumir "problemas" de facto maiores. Aqueles que atrapalham o tal pensamento único. Plácido. Assim inútil face à polvorosa que é sempre o mundo. E na história, europeia e não só, repetem-se as ultrapassagens sofridas por quem pensa politicamente assim.

Ok, a conferência foi em 2004. Não se pode exigir aos grandes académicos, aos políticos retirados ou aos políticos no activo (e aos assessores que escrevem os discursos) que sejam áugures. Que imaginem o imediato futuro ou o longínquo. Mas podemos exigir que não tenham um pensamento plácido. Muito feito de "deveres-seres". E muito feito na monotonia do exercício do poder, alimentado da bononia que isso traz.

Convirá lembrar o quanto todos os que se opuseram (opusemos) à entrada da Turquia foram "fascistados", "racistados". Entretanto a Erdoguização turca fez fenecer o projecto. E o mundo, europeu e alhures, tudo mudou. Agora veio o Brexitismo. Também ele "fascistado" (e um pouco "racistado").

Ficaria, num mundo melhor, para este pós-Brexit um desafio: o da exigência aos políticos e aos grandes académicos que saíssem do pensamento plácido, o dos "deveres-seres". Que saíssem do conforto das grandes conferências a repetirem-se, entoando coros. Missas laicas. Que tentassem antever o mundo, não à medida dos seus pontos de tomada de vista (dos seus horizontes), mas o mais panopticamente que pudessem. Ou seja, exercendo a verdadeira utopia intelectual e política, a inteligência abrangente.

Mas isso seria num mundo melhor. Neste mundo? Seria interessante ir perguntar aos turcófilos de então como avaliam o seu desempenho intelectual dessa altura. E sublinhar-lhes a extrema incompetência. Ou seja, apeá-los do estatuto de curandeiros que, injustificadamente, reclamam. O resto, a História. Essa segue, indomável aos fracos esforços destes sossegados intelectuais-políticos.

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