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Nenhures

Nenhures

Os moralistas da gripe

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Sobre isto da gripe também aparecem os moralistas, a criticarem(-nos) porque só nos preocupamos quando as coisas (o vírus) nos bate à porta, assim imorais vamos, pois desvalorizando o prévio sofrimento dos pobres chineses, o dos refugiados em Itália, até mesmo o dos próprios italianos. Somos uns egoístas, só pensamos em nós, desprezando os "outros" (sejam lá quem estes forem).

Impaciento-me sempre com moralistas, ainda mais com estes, óbvios sucedâneos intelectualóides e burguesotes do velho internacionalismo proletário. E diante destes choradismos sempre resmungo com isto da humorística ("g'anda") "melga", que tantos usam para risotas. Pois a malária mata imenso, outros pobres "outros". E não vejo quem verdadeiramente se preocupe com isso, a dita malária. Ou mesmo depure o linguajar, abdique da piadola com o maldito mosquito. Pois não lhes bate em casa, a tal melga assassina.

Não que eu seja purista, gozo com o bicho apesar de já quase ter morrido (por incúria minha) com a doença. E por isso digo que estes apatetados moralistas são uma G'anda Melga. Pois fazem e sentem exactamente o que tão ufanos vêm criticar. Calai-vos. Parvos.

A gripe

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A gripe está aí, a doença e seus efeitos. Haverá o eterno "Que Fazer?", em termos pessoais (mais ou menos $ no Lidl?) e familiares. Não é assunto para blog. E há o "Que Fazer?" em termos institucionais, estatais. E nisso são tão vastas e complexas as tarefas que me parece um bocado desavisado cada um de nós estar ao teclado a botar faladura, crítica no registo do "dizer-mal". Pode servir de catarse, individual. Mas para mais nada servirá. Confiar nas instituições, por mais que democraticamente as resmunguemos, é o caminho.Mas, neste começo da epidemia, duas coisas se podem já retirar sobre outra questão, a do "Como Pensar?".

A primeira é sobre esses que andam há semanas a sarcasmar "é só mais uma gripe, que exagero". A esse estilo, tão visível em Portugal sobre tantos assuntos, digo-o blaseísmo, muito lisboeta (e também portuense). Constante pose, muito da reclamada "direita". Arrivista, pois encena posição social, quer-se sinal de distinção, que "acha" tudo, esses problemas do mundo, "uma canseira", um "exagero". Esses blasés sempre me lembram a velha série britânica de TV "Upstairs, Downstairs". É gente que imagina que upstairs reina a fleuma, e que esta é o tornar irrisórias quaisquer preocupações, as coisas de downstairs, o frenesim popular por assim dizer. Não percebem que nem à copa chegam, já agora. E, mais do que tudo, incompreendem o que é a fleuma.

Não venho com "contributos para a história intelectual do país", mas esta pose, este flanar sobre as coisas do mundo, este esgar diante do "sal da terra", como se coisa "bem", é muito de época. É a geração "Independente", a minha, e suas sequelas. Em termos sociológicos, não é na igreja católica que está o cerne do conservadorismo reaccionário, é nestes blasés, "tão maçados" (naquele sotaque arrastado lisboeta classe-média) com as mudanças sociais pós-74. Das quais são frutos, pobres tontos. E nisso tão ridicularizando as preocupações da gentinha. Vê-se isso "post" (como, ignorantes, tantos dizem) a postal. Sobre quase tudo.

Lembro-me, na década passada, daquilo da "gripe das aves". Da minha preocupação, pois se a epidemia fosse o que se temia, e se chegasse a Moçambique não era crível que as instituições estatais conseguissem minorar uma rápida expansão (aos amigos moçambicanos: eu não estou a dizer que o país é um Estado falhado, isso é coisa do ex-embaixador americano). O que fazer?, perguntei-me, para onde escapar? E não estive sozinho nessa angústia, própria a quem tem família. E ao mesmo tempo ia lendo, aqui em Portugal no espectro blogs-redes sociais, o tão estuporado blaseísmo. De facto, os blasés, estes direitolas apatetados, que se encenam cosmopolitas, não compreendem quão paroquiais são nesse aparente flanar. Sobre tudo.

A segunda coisa do "Como Pensar?" é sobre políticos. Não podem controlar acontecimentos destes, não os podemos tornar "bodes expiatórios" das preocupações ou desgraças. Terão que ser avaliados pela sua capacidade de planificar e executar em situações destas. E, acima de tudo, da sua capacidade (pretérita) para contribuir para um bom sistema de instituições e (presente) para não as atrapalhar. Mas ainda assim podemos avaliá-los pela forma como olharam a chegada desta possível calamidade sanitária. Não é agora avaliar as instituições, o seu funcionamento, é ver da capacidade intelectual que os políticos vêm mostrando: ontem surgiu esta monumental quebra bolsista. Há alguns dias a ministra da Agricultura aventava que a crise da gripe abriria possibilidades para as exportações portuguesas. É este tipo de intelectos que queremos no nosso topo? E, mais do que tudo, diante do que vem fazendo o histriónico PR que decidimos ter. É isto um Presidente da República? É mesmo este tipo de quem precisamos? Isto está para além das simpatias políticas, é mesmo uma avaliação pessoal, necessária. São estes indivíduos aqueles de quem necessitamos? Não são óbvios os seus desajustes, intelectuais e, até, psicológicos?

Trato de uma insónia. Agora vou pensar se vou ao Lidl buscar umas conservas e reforçar a massa e o arroz, e uns congelados. Quanto aos frescos, vegetais e frutas, é na mercearia dos chineses. Apesar da gripe.

Ricardo Araújo Pereira

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Muitos continuam a apartar-nos entre os de "direita" e os de "esquerda", a dividirem-nos entre "populistas" e "democratas" ou outras oposições similares. Falsárias.

Pois, de facto, o mundo divide-se entre os que gostam de Lenny Bruce. E os que gostam de Ricardo Araújo Pereira (o "extraordinário escritor", o "grande humorista", "o acerado comentador político").

Jorge de Sena louvou Araújo Pereira, em prol "dos feios e dos tímidos". Eu serei feio e fui tímido. Mas hoje, ao ver o "extraordinário escritor" fazer o serviço à ministra da Justiça, até gelei. Antes a disfunção que tal gente.

 

Deixo anúncio do filme "Lenny" de Bob Fosse, com Dustin Hofmann, que foi como nós portugueses o conhecemos. 

E abaixo algo sobre o real Lenny Bruce, até para os mais jovens (ou distraídos) que o desconhecem: um documentário da BBC, não encomiástico, "The Life and Crimes of Lenny Bruce", e um outro "Why Did Lenny Bruce Die?", para além da gravação de uma actuação - The Performance Film (Complete Live Act, Rare, 1965). É uma opção, para poderem desligar a televisão aquando do próximo servicinho de Araújo Pereira ...).

LENNY BRUCE: "Why Did Lenny Bruce Die?" 1967 audio documentary [full album]

Lenny Bruce - The Performance Film (Complete Live Act, Rare, 1965)

Lamego

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Nos anos 1930s o meu avô paterno foi juiz em Lamego. O meu pai falava disso, pois terá lá vivido e/ou veraneado. E também pela história (lenda?) familiar, dado que o (vetusto) revólver que há, algures, cá em casa foi comprado nessa época, devido a quaisquer ameaças que o sô dôtor juiz terá recebido.

Esta semana, aos 55 anos, fui lá, a Lamego, pela primeira vez. O tal vale, abrupto e rugoso, que imaginara sede dessa gente rija. A rudeza esventrada, como em todo o Portugal, pelos prédios de marquise de 1960s e 1970s, a afrontar a nossa sensibilidade urbana, que tanto preferimos casebres e mansardas, isso do pitoresco.

Procurei ecos do avô Flávio e do pai António. Nada, nem rumores, nem pegadas, nem vislumbres, 90 anos é muito tempo passado. Apenas muito diferentes ecos do antes, mas do meu, pois encontrei a pastelaria Scala, ali ao centro, uma delícia de sítio, mobiliário, sala e produtos - vindos de "Lourenço Marques"?, logo perguntei, devido ao nome. Mas não, afinal beirenses, o fundador fora dono da "Lamecense" índica.

Conheci uma magnífica família, daquelas que os nossos tempos fizeram escassear, congregada em dor, na despedida homenagem a um verdadeiro patriarca que imenso lamento nunca ter conhecido. Homem público, pois cidadão de serviço, assim patriota. Muitos o disseram, muito se viu agora, na sua morte.

Durante isso encontrei um companheiro aqui dos Olivais, também ali deslocado para esta derradeira homenagem. Fez-me o favor de me fixar assim. No tal vale, rugoso, onde viveu o meu avô.

Contrata-se "colaborador" (breve ensaio sobre a esquerda lisboeta)

(The Clash, Revolution Rock)

Postal, também autobiográfico, muitíssimo antipático, sobre o linguajar. E sobre a "direita"/"esquerda". E as auto-representações corporativas. Um postal "punk", se o quiserem assim chamar ...

1. Há dias uma queridíssima amiga, que também colega, dizia-me ao jantar, que eu, para além de "direita" por vezes escrevo coisas de "extrema-direita". Pedi-lhe exemplos, não lhe ocorreram ali de imediato, o jantar estava muito agradável e a conversa derivou para outros assuntos.

2. Há anos voltei de Moçambique. No primeiro seminário profissional a que fui uma colega, nitidamente viçosa lisboeta revolucionária, utilizou o termo "empoderamento". Sorri e indaguei sobre a necessidade de usar o termo: é um anglicismo, e feio que se farta. Respondeu irritada, fulminando-me qual patrioteiro hiper-reaccionário, dizendo-me, com notório desprezo, “purista”. Não pode ocorrer a um espécime daquela pobre raça que temos "potenciação". E que, muito mais importante, os termos assentam em diferentes concepções do social e do político, e exsudam-nas: “empoderar” implicita a noção de que se está a dotar algo de “poder” (como se este fosse algo, e como se haja núcleos societais que o distribuam) e “potenciar” deixa entender que se estão as criar condições para a sua produção e/ou aquisição, nos processos conflituais que são a sociedade. Repito, são bem duas concepções de processo político que ali estavam: a da (ignara) revolucionária e a do vetusto (patrioteiro), não haja dúvida. Para além de outra coisa, também cómica: a quase-certa bloquista meneando o jargão do Banco Mundial e do FMI, o “quase-fascista” torcendo o nariz a esse linguajar. Enfim, aprendi-o logo ali, naquele meu período de recente “torna-viagem”, o que nesta terra e meio o que importa são as auto-representações, o quão belo o revolucionário se vê no espelho …

3. Quando voltei integrei uma instituição de pesquisa, agregadora de pólos articulados com várias universidades públicas e de centenas de investigadores, grande parte deles sem vínculos laborais com essas universidades e/ou com o Estado. O ambiente cultural (a “episteme”, se lhe quiserem chamar assim) é algo enviesado, o que é normal entre as ciências sociais (desde que não sejam os engravatados – e endinheirados - Direito ou a Economia), assim um pouco “gauchiste” ainda que heterogéneo. Nesse âmbito e nesta época muitos, ainda que não todos, pavoneiam muito atenção à forma de falar (e escrever). Assim recebia ou lia mensagens destinadas aos “Car@s”/”Prezad@s”, “etc@”. Na época eu tentava fazer um doutoramento e constatei até a existência de um grupo de “doutorand@s”. Ou seja, há uma atenção máxima aos mecanismos de poder que estão implícitos (e até explícitos) na fala, e a aversão ao masculino genérico (o universal masculino) é particularmente vigente, pois entendido como denotando e reproduzindo as relações de espoliação e opressão das mulheres.

“Em Roma sê romano”, dizia-se antes da era multiculturalista, e por isso lá fui sendo @. Mas entretanto recebi várias “convocatórias” para actividades de uma das universidades públicas para as actividades que nela decorriam. Um dia, dado o ambiente de atenção às formas de falar e às relações de poder que transpiram e reproduzem, e dado o meu pendor pouco estatista (aquilo da “extrema-direita”) resmunguei que os funcionários públicos académicos, que haviam sido eleitos entre os seus pares para um breve período de gestão da sua universidade pública, não tinham qualquer prerrogativa para me “convocarem” – termo cuja semântica, explícita e implicitamente, demonstra uma relação hierárquica e uma obrigatoriedade. Nem a mim nem a qualquer dos meus colegas, alguns dos quais também colegas (“pares”) desses funcionários públicos académicos. Fui mal acolhido na minha oposição, porventura considerado indivídu@ descabid@ devido à minha atenção às coisas da cidadania, e da república. E à minha aversão aos mecanismos de “empoderamento”, da aquisição e apropriação de poderes. Ou, de forma chã, que um tipo lá porque foi eleito para um conselho de reitoria de uma universidade pública não tem qualquer poder sobre os seus colegas e, muito menos, sobre investigadores de outras universidades ou de nenhuma universidade.

Assim, e como sou de “(extrema-)direita”, e mesmo alérgico a essas mentalidadezinhas estatistas, abandonei a instituição que me transmitia as convocatórias dos funcionários públicos eleitos.

4. Os anos passam, a luta contra o masculino genérico e outras formas de exploração da mulher e d@ transsexual pelo homem (tóxico, pois pérfido heterossexual aprisionado - como diziam mas deixaram de dizer - pela "sexualidade reprodutiva"), e d@ negr@ pelo branco, reproduzidas no linguajar continua, e tem tido vários sucessos e etapas discursivas. A esquerda intelectual, orgânica, um dia vilmente insultada pelo reaccionário Bourdieu, ideólogo da direita francesa, como “radicais de campus”, tem sido fundamental neste campo de batalha.

Vejo agora mesmo, aqui no FB, um anúncio de emprego para funções de secretariado, no qual se explicita que se esperam candidatos ou candidatas (contra o tal “universal masculino” "marchar, marchar ..."). Colocado por uma associação profissional (uma "ordem", se assim tivesse sido instituída), dessas que congrega muitos desses praticantes desta luta de libertação vocabular. Que nisso se revêm como de “esquerda”, mais ou menos libertária, mais ou menos “socialista”, depende dos casos. Ainda que sempre, ou quase, com um sorriso de mesura face aos poderes fácticos, se estes do PS.

Tenho uma particular apreço pelos trabalhos de secretariado (hoje em dia muito ditos de “assistência de direcção”). A minha mãe foi secretária, professora e coordenadora de pioneiros cursos de secretariado durante décadas. Por isso digo “àquel@s e àquel@s” que se candidatem a esse posto de trabalho: tenham cuidado com os esquerdistas, tão puristas da língua opressora, mas que chamam “colaboradores” aos trabalhadores. Ou seja, cuidem-se com os esquerdistas que papagueiam jargões. Pois esses, sempre, tendem a tiranetes. Ou, de outro modo, caros candidatos, boa sorte. E potenciem-se, nunca esperem que vos “empoderem”

Diz-vos este gajo da “(extrema-)direita”.

À bolina

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(Postal que publiquei no És a Nossa Fé, antes da azáfama no Sporting acontecida esta semana, sobre a qual publiquei outros cinco postais que aqui não replico pois muito mais específicos das "coisas da bola", mas para os quais deixo ligações: The Next Big Thing, All In, Obviamente, Demite-se, Sem Ponta por Onde se lhe Pegue, e o mais jogoso Força, Rúben Amorim. A este replico-o, porque de âmbito mais geral do que as aventuras e desventuras da contratação pelo clube de um novo treinador. E, acima de tudo, porque me diverti a escrevê-lo.)

Jogar à bolina é uma verdadeira arte. Não será para todas as equipas, pois o célebre "triângulo latino" é uma  táctica  - uma espécie de 5x3x2 muito plástico - que exige uma grande disponibilidade física. E, sempre, um bom timoneiro, um 10 quase "box-to-box" arguto e eficaz, daqueles "à antiga". Mas em havendo isso pode-se jogar olhos nos olhos, e em qualquer campo, contra ventos e até marés. Dias, grande jogador que injustamente nunca ganhou a "Bola de Ouro", foi nisso perito, e como poucos. O  que o levou a ter sido o primeiro a apurar-se para o Cabo. Razão pela qual depois, já veterano, fez a campanha de apuramento na selecção de 98, com Gama. E ainda foi fundamental no campeonato seguinte,  com Cabral, durante o qual se lesionou gravemente, tendo ali terminado a carreira sem jogar a final. Para os mais novos, que não o viram jogar, Dias foi uma espécie do que será Ruben Neves (se o Grande Engenheiro abrir os olhos e se deixe de Adamastores ...) nas armadas de João Félix e Diogo Jota, almirantadas pelo Cristão Ronaldo.

Lembro agora esse grande capitão de equipa, figura até lendária do nosso clube, por causa do que aconteceu nas meias-finais de 88, o célebre jogo de Port Elizabeth (no estádio que hoje leva o belo nome "Nelson Mandela", então chamado "Lagoa"). Como se sabe a campanha estava a ser um sucesso mas o plantel, já exausto devido ao terrível calendário, pois a selecção caíra num verdadeiro "grupo da morte", exigiu mudanças. E Dias, um grande líder, percebeu a situação, soube recuar, mudou a táctica e os objectivos mas mantendo os princípios de jogo, assim salvaguardando a equipa num necessário "que se lixe a taça". E uma década depois o clube foi campeão. E voltou a sê-lo pouco depois, numa senda de sucessos até Queirós e Santos. Sempre, repito, com esta filosofia de jogo, neste ideal da bolina.

É certo que este modelo de jogo, ziguezagueante, por vezes até soluçante, é menos popular. As "molduras humanas" preferem o raçudo "armada invencível" castelhano, o rendilhado da táctica flamenga do tiqui-taca, o coriáceo "quadrado oco" transalpino (dito catenaccio). Ou mesmo o "sem quartel", a imperial razia do pontapé-e-correria britânica. As hostes animam-se vendo os jogos dessas equipas, dizem-nos "jogatanas". E nem pensam nos custos milionários das esquadras que os praticam, impraticáveis na nossa mareação. Por isso assomam aos promontórios, às Superiores e Centrais, ancoram nos areais, quais o Alcochete que não o de Caminha, e imprecam o bolinar, aos plantéis votam escorbutos e sífilis. E até lhes acenam sudários brancos, augurando-lhes a morte. Por vezes acorrem aos cais para os apedrejar, se e quando aportados sem troféus de saques. E aos capitães anseiam chicoteá-los, e apenas isso porque agora proibidas as fogueiras, por sábia e pia determinação da Santa Federação.

Lembro este bolinar por dois acontecimentos destes dias. Idos agora a terras do Mafoma, a dois minutos do final da peleja os nossos marcaram o golo necessário à glória. Nessa mesma noite logo os louvámos, em concorrida procissão entre o Cais da Portela e a Sé do Lumiar, tantos dos mais populares flagelando-se em agradecimentos. A Silas, vero general, outorgámos o devido cognome, Senhor da Selva. E içámos-lhe triunfo, pela boa táctica com que conduziu o combate, sobrevivendo até a erros dos nossos mais novos. Pela argúcia de ter colocado o núbio Doumbia para trancar o castelo de popa, pela coragem de ter resguardado o caboclo Plata, lançando-o aquando os infiéis já exaustos e assim tornando-o tão decisivo. E pela confiança que vem transmitindo à nossa grei, visível nestes recentes triunfos, sucessivos e esclarecedores de que algo vai melhorando, fruto também das nossas preces. 

(Hum, o Diabo desviou a bola para a barra? É tudo tão diferente ... Silas é afinal só selvagem, nem cristão-novo, pagão mesmo. O resto é miserável, gente pecaminosa assim desprovida de favores divinos.)

E consta também que não há dinheiro. Que os banqueiros da Flandres, e os venezianos e genoveses, e, piores do que todos, os malditos judeus, querem que se lhes pague os empréstimos, todo esse ouro e prata com que se armaram as equipagens dos anos anteriores, tantas delas naufragadas, outras regressadas com contas bem esconsas daquelas andanças pelas índias. "Aqui d'El-Rei!", grita-se, urra-se, e até aqui neste rossio blogal. Que se acorra ao paço, que se defenestre Varanda fora, clamam. Pois que venha mais ouro, que se largue a prata. Que se gaste! Que se gaste! Que se ganhe! Que se ganhe!

E aquilo da bolina? Do à bolina? Como, se nem para as galés esta gente serviria?

Um texto sobre o desenvolvimento

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(eu-mesmo, nesta década, durante uma consultoria, decerto que a norte do Save)

Vou com 55 anos. Fui ao médico. Não me deu más notícias (longe vá o [auto-]agoiro). Ainda assim cheguei à idade de olhar para  o retrovisor. Por isso deixei agora mesmo, na minha conta na rede academia.edu, um texto de memórias, sobre a minha formação intelectual, sobre a aprendizagem da antropologia, sobre o que penso da disciplina na qual me licenciei. E sobre o que retirei da minha experiência em trabalhos de antropologia do desenvolvimento. Não é uma coisa teórica, é mesmo uma memória de quase 40 anos de olhos entreabertos, a constituirem este meu "olhar embaciado".

O texto chama-se A Apneia Desengajada: Uma Experiência Desenvolvimentista. A quem tenha a gentileza do interesse, e a simpatia da paciência, bastará "clicar" neste título para aceder e, até, gravar.

 

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