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Nenhures

Nenhures

Botar Abaixo o Hemingway?

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

RGI (Reunião Geral Infarmed)

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[Fotografia de Horácio Villalobos (Corbis via Getty Images)]

 

Interessante relato na Visão da RGI (Reunião Geral Infarmed) de ontem: a "narrativa" levou um tiro no porta-aviões. Clama Costa que a ministra Temido afinal não é o máximo, que a dra. Freitas ("ide visitar os idosos, sede solidários") só atrapalha com a sua atrapalhação, que os sacanas dos doutores esparvoam quando se atrevem a que a culpa disto tudo afinal não é dos putos que festejam. E pontapeia os gajos dos hoteis e dos restaurantes para que se amanhem com a falta de clientela - que ele já fez o que tinha a fazer, até trouxe a Champions. Ainda por cima o mascarado Rodrigues fala-lhe em "segunda vaga" do covídio, sem o avisar antes, qual Centeno, num "ninguém me diz nada"? Barafusta que a "culpa não é minha", levanta-se, num adeusinho "que já se faz tarde", segue à sua vida e dá as costas àquela malta, ali deixada a entreolhar-se até um bocado aflita com a zanga do Chefe. Até o Sousa, que ainda julgava ser o presidente.

Crise no PAN?

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Parece que o líder do aparente ecologista PAN está a ser contestado pelas suas hostes. Não será particularmente surpreendente. O partido cresceu imenso nas últimas eleições, a reboque da vaga internacional de preocupações ecológicas. Mas logo desapareceu da agenda mediática e mesmo da política, e não só pelo seu real vazio substantivo - que melhor contexto para afirmação poderia pedir um partido ecologista do que uma pandemia com estas características de emergência e difusão?, e o qual desaproveitou completamente dada a sua efectiva inexistência. Pois também se tratou de um eclipse comunicacional devido ao carinho da imprensa pelo "boi de piranha" espicaçado pelo PS, esse composto de histriónicos racistas e de assessores de saias, e o jeito que dão às audiências publicitárias as atoardas desventuradas. 

Mas as causas fundamentais deste triste espectáculo - um partido ecologista a desagregar-se devido a questiúnculas  em plena pandemia é verdadeiro manancial para um "estudo de caso" de ciência política - são mesmo internas.  Há algum tempo aqui deixei mostra de que André Silva, o inopinado líder de partido parlamentar, não aparentava possuir nem pinga de elegância devido a completa ausência de clarividência de atitudes, face à sua boçal pose em reunião de deputados com o presidente Sousa. Um rústico, por assim dizer ... E ao saber-se hoje, na sequência do abandono do deputado europeu e de outros eleitos autárquicos, que também sai a deputada por Setúbal, Cristina Figueiredo, lembro a patética figura que a pobre fez quando se candidatou, uma coisa mesmo inenarrável, uma mulher ignorante e desnorteada, adornando-se com todos os tiques do aldrabismo. 

Enfim, a renovação do sistema política é mesmo necessária. Mas, como é mais do que evidente, não é com gente desta. E com este impensamento.

Dia da independência em Moçambique

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Hoje é o dia da independência em Moçambique. Na alvorada folheio alguns livros. O Eduardo White é sempre dito como figura-mor na literatura desde os 1980s, libertando-a da obrigação dos temas sociopolíticos, da agenda mobilizadora. Divergindo sobre o seu "eu", dores, amores e desamores. Mas ainda assim em 1987 ele escreveu Homoíne e leio-o hoje, no dia da efeméride. Depois do meio-dia beberei um uísque com ele, e resmungaremos, cada um à sua maneira, invectivando os vermes necrófagos:

"Os nossos mortos são muitos / são muitos os nossos mortos / dentro das valas comuns / e a terra está sangrando de repente, / tem sede e sangra lentamente / e tem espadas vivas e silvando como o vento / e muros altos estancando cada minuto do tempo, / os nossos mortos são muitos, / são muitos os nossos mortos / dentros das valas comuns / e há um enorme pássaro que se encanta, é o pássaro lento do esquecimento, pássaro de sangue, pássaro que se levanta / dos vermes que estão comendo os nossos mortos por dentro ..."

Voltaire & Lowry

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Leio que neste cerimonial contestatário também a estátua de Voltaire foi atacada, devido a que o filósofo investiu, in illo tempore, na Companhia das Índias francesa e até aceitou que baptizassem um navio com o seu nome. Encolhi os ombros mas, de facto, fiquei a remoer o assunto.  E noto-o pois no dia seguinte a ter sabido do acontecido de súbito lembrei-me que Lowry escreveu sobre um navio chamado Diderot. "Onde?", resmunguei ... Não me pareceu que fosse no Vulcão, e ainda por cima não o tenho comigo, pois levei-o para o confinamento para releitura - houve um tempo, não tão benfazejo assim, em que ele me foi Bíblia, felizmente amadureci e nisso tornou-se-me um Livro de São Cipriano - e por lá ficou neste meu interregno lisboeta.

Vasculhei as estantes e encontro-a, a tal navegação no Diderot "foi" naquele naco Através do Canal do Panamá (tradução da excelsa Ana Hatherly). E é extraordinário o início, logo na terceira página um monumento de profecia, tudo resumindo de tudo isto, tudo demonstrando sobre toda esta gente: 

" ... as fúrias em mercês. A sensação inenarrável inconcebivelmente desolada de não ter o direito de estar onde se está; as vagas da inesgotável angústia perseguidas pelo insaciável albatroz do eu. Há um albatroz, de facto."

Moles perseguidas pelo insaciável albatroz do ... nós. Do seu "nós", apenas isso, que julgam injustificado. Acima de tudo cada um incapaz de encarar o seu próprio albatroz, assim querendo exorcizá-lo nesta pantomina. Histriónica, que todos julgam poder sossegar-lhes esta desolação. Pobre crendice.

Mil Desculpas (sobre o racismo)

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Na primeira semana de Setembro de 2001 realizou-se em Durban a 3ª Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e a Intolerância Correlata, uma organização das Nações Unidas comissariada pela muitíssimo respeitável Mary Robinson, então Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. As duas conferências anteriores haviam acontecido em Genève, em 1978 e 1983. Tinham decorrido  - para além da conflitualidade internacional típica daquele final da Guerra Fria - num ambiente intelectual dinamizado pela Década Internacional contra o Racismo e a Discriminação Racial (1973-1982), avesso à continuidade da noção de "raça" como mecanismo classificatório e enquadrador de políticas públicas e indutor de práticas individuais e colectivas, no intuito de "isolar e expurgar as crenças erradas e míticas" em que ela assenta e, por sua vez, dinamiza.

A conferência de 2001 integrava-se no "espírito" de proclamações simbólicas e acções articuladas que a ONU perseguia então: 2000 como Ano da Cultura da Paz, e a Década pela Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças do Mundo (2001 – 2010), entre outras. Podemos agora sorrir, com tristeza, sabendo o que foi a história do início de XXI mas nisso não desprezando os esforços institucionais para a promoção de melhores rumos.

Alojar a conferência em Durban, descentrá-la das sedes dos serviços da ONU, só por si era significante. Esta opção pela África do Sul, bem como quando no ano seguinte se alojou em Jhb a Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, uma década passada desde o fim do vicioso apartheid que a tornara um país pária no contexto internacional - tal como Portugal o fora nos últimos tempos do Estado Novo -, era uma vénia ao esforço do ANC, do seu ícone Mandela mas também do então líder Mbeki, para suster a conflitualidade interna enquadrada por classificações raciais e também étnicas.   

A época continha grandes mudanças e também esperanças. Democratizações políticas haviam-se generalizado e o modelo económico liberal estrito era posto em causa, intentando-se o molde de "desenvolvimento sustentável". Nas últimas décadas o crescimento económico e o desenvolvimento correlato mundializara-se, com os "(novos) tigres asiáticos" (Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietname, Tailândia) a juntarem-se aos "tigres" iniciais (Coreia do Sul, Taiwan e as cidades-Estado asiáticas), processo globalizador que depois viria ter efeito geoestratégicos sinalizáveis no epíteto "Brics" - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assumindo-se como potências mundiais - e na afirmação das "relações Sul-Sul". Gigantescas mudanças que levantavam também conflitualidades (intra-estatais e internacionais) agregáveis na temática daquela conferência.

Mas mais explicitamente alguns cenários eram matéria óbvia: em vários continentes populações florestais, sempre desprovidas de meios militares suficientes, continuavam (e continuam) a ver os seus territórios devastados por entidades cleptocráticas; na Índia refulgia o fundamentalismo hindu; a explosão do capitalismo chinês incrementara a colonização han do Tibete (país que Robinson visitara 3 anos antes); no nosso "próximo e médio oriente" minorias religiosas e linguístico-culturais eram (e são) perseguidas e ocupadas. Na Europa vivia-se o rescaldo da guerra "étnica" dos Balcãs. E em África pouco tempo passara sobre o inenarrável genocídio ruandês, que tivera ondas de choque no então Zaire, promovendo a tétrica guerra congolesa que estava em curso, e assim continuou. Como estava a longa guerra sudanesa, que veio a provocar a cisão do país, processo insuficiente para a paz. E um gigantesco etc. de conflitos agitando as antinomias raciais, étnicas, nacionais ou como se lhe quiser chamar. Identitárias.

Em 2001 a internet era muito pequena e os motores de busca bem diversos. A comunicação não fluía como agora, e os mais novos nem imaginam isso. Em Maputo, via tv por satélite, segui o que me foi possível a conferência na vizinha Durban. É agora interessante recordar que organizações da "sociedade civil" americana levantaram a problemática da discriminação racializada na justiça dos EUA. Mas, de facto, duas problemáticas dominaram, em termos de eco público e de dinâmica interna à conferência. Uma foi a questão palestiana, uma pressão de países árabes que levou ao abandono de Israel e dos EUA - e, assim, a um real enfraquecimento dos resultados possíveis da reunião. 

A outra questão mais sonante foi a reclamação de várias delegações governamentais africanas - e é interessante recordar, sem ser economicista, que isto se passou na era em que o Clube de Paris promoveu um gigantesco perdão de dívida em África -, que exigiam o pagamento de indemnizações aos países "ocidentais" por causa da escravatura. 

Neste ambiente de conflitualidade, sufragando o afunilamento das questões, a higienização de inúmeros processos mundiais, a mistificação da história (num efectivo processo de "imaginação do continente" africano), a reunião teve os seus efeitos por muitos desejados. Ou seja, poucos ou mesmo nenhuns. Ainda por cima, 4 dias depois do seu final aconteceu o atentado em Nova Iorque e as atenções muito se desviaram. Mas mesmo naquele momento fui sensível àquela efectiva pantomina, no sentido de oportunidade propositadamente deitada fora.

Naquele tempo eu não conhecia o bloguismo, escrevia textos e enviava-os a alguns amigos por e-mail, alguns deles até caridosos o suficiente para me lerem. Assim, e logo em Setembro de 2001, escrevi este texto "Mil Desculpas". E um mês depois de começar a blogar coloquei-o no ma-schamba, em Janeiro de 2004. Agora torno a colocá-lo, apesar de ter 19 anos. É um texto sarcástico, e sei bem que o sarcasmo não funciona, não tem efeitos produtivos em quem o lê (ou ouve). Mas eu não escrevo (não blogo) para ter efeitos produtivos. Faço-o como catarse. Às vezes, como neste caso, como catarse do desprezo. Que me é tão necessário que também integrei este texto, mesmo que excêntrico, numa colecção a que chamei "Ao Balcão da Cantina", 50 crónicas da minha vivência de 18 anos em Moçambique (quem se interesse bastar-lhe-á "clicar" e gravar):

*****

Mil Desculpas

Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso?, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.

Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.

[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]

A selecção nacional (III República)

Alguns dos que têm conta no facebook já terão reparado na simpática corrente que ali decorre, com os utentes convidando os seus amigos para apresentarem os 10 (ou 15, depende) jogadores que influenciaram o seu gosto pelo futebol. Durante o confinamento, antes da festa do 25 de Abril e do festival do 1º de Maio em Lisboa, eu respondera a esse desafio. Agora fui de novo convidado para apresentar esse rol. Mas estando ele feito lembrei-me de um velho postal que aqui havia deixado em 2012 (o tempo voa, dizem os velhos quando já não batem as asas). E por  isso repito o postal, pois estes jogadores nacionais muito marcaram o meu gosto pelo futebol (a corrente no FB serve para inserir os jogadores estrangeiros, e isso é outra conversa). Ao rever isto acho piada ao extremo saudosismo que comandou a minha selecção: há 8 anos, tinha ele 27 anos, ainda eu metia o monumento Cristiano Ronaldo no banco ... Favorecendo, sem qualquer pudor, os que vira jogar quando eu  mais novo, mais apaixonável

*****

Estava ao sol na praia e lembrei-me disto - uma inutilidade bem digna da inutilidade veraneante -, como se o tempo fosse homogéneo. Não é uma declaração política. Mas o primeiro jogo que vi ao vivo foi em 1975, o meu pai levou-me à central de "Alvalade" e ainda nos estávamos a sentar e já era "golo!!" e ainda me lembro do sorriso dele (afutebolístico que é) com a minha alegria, foi um glorioso Sporting-Olhanense (7-0), marcava muito o Chirola. E a primeira equipa de que me lembro é a que foi campeã em 1973-1974 [ainda a sei de cor: Damas, Manaca, Bastos, Alhinho, Carlos Pereira, Vagner, Nelson, Baltazar, Marinho, Yazalde, Dinis]. E o primeiro Mundial de que lembro é o de 1974 [vi a final, lembro-me do golo a seco, logo no início, da Alemanha; e lembro-me do sururu provocado por Luís Pereira, defesa do Brasil expulso num jogo anterior]. Daí que a minha selecção nacional só pode mesmo ser a da III República, pós-1974. Aqui ficam os 23, seleccionados para o campeonato do mundo do apocalipse. À antiga, os números das camisolas indicam a titularidade, claro, que é como deve ser.

A grande questão continua a ser a mesma, problemática que não angustiará os mais-novos, ainda imberbes nas coisas do futebol: o Oliveira e o Alves cabem na mesma equipa? Na minha opinião, de treinador de sofá, tenho que meter o Sousa para segurar aquilo. 

1.

Vítor Damas (guardião)

2.

Artur Correia (lateral-direito)

3.

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Humberto Coelho (defesa-central)

4.

Ricardo Carvalho (defesa-central)

5.

Fábio Coentrão (lateral-esquerdo)

6.

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Paulo Sousa (trinco)

7.

Luís Figo (médio direito)

8.

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António Oliveira (médio ofensivo)

9.

Rui Manuel Trindade Jordão (ponta-de-lança)

10.

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António Sousa (médio central)

11.

Paulo Futre (extremo-esquerdo)

12.

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Vítor Baía (guarda-redes)

13.

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António Veloso (lateral-direito)

14.

Jorge Andrade (defesa-central)

15.

Fernando Couto (defesa-central)

16.

Alberto (defesa-esquerdo)

17.

Sheu Han (trinco)

18.

Rui Costa (médio ofensivo)

19.

Cristiano Ronaldo (extremo-direito)

20.

João Alves (médio ofensivo)

21.

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Fernando Gomes (ponta-de-lança)

22.

Fernando Chalana (extremo-esquerdo)

23.

Jaime Pacheco (médio central)

+1

Manuel Fernandes (avançado)

Treinador

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Eriksson (treinador)

Adepto

Arquétipo

A Sair do Armário

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[Sigo ensimesmado. Notei-o anteontem, na morte de um homem que foi personalidade pública, e decerto que muito simpática dado o impacto que tem na imprensa e nas redes sociais. Pois desconhecia-o. Afinal familiar muito querido de meu bom amigo (Paulo, um grande abraço com condolências), amigo de outros amigos meus, e antigo atleta, até olímpico, do meu Sporting (o clube e o nosso És a Nossa Fé já fizeram sentir o nosso sentimento de perda comunitária).

Confunde-me um pouco o facto de tantos associarem o lamento a elaborações sobre as causas da morte. Estarei velho, sigo noções antiquadas de reserva, daquilo a que se chamava decoro? Os meus pêsames aos queridos de quem morre, as minhas condolências àqueles desses que conheço pessoalmente. É a minha norma, são os meus limites.

Recentemente no tão signicativo obituário do grande José Cutileiro o seu autor culminou (mais-ou-menos) assim: a viúva não divulgou a causa da morte e como tal isso não é assunto. Que suprema, de tão linear, elegância.

Mas talvez, apesar disso, haja momentos em que seja preciso abordar os temas, ainda que nisso talvez magoando os já muito magoados. Li ontem muitos elaborando sobre "depressão". Esse mal escondido, qual maleita vergonhosa, pois como se sendo défice próprio. E o que me espantou, e me desagradou, é ver tanta gente valorizar a depressão e os deprimidos. A estes atribuir uma especificidade intelectual, uma densidade sentimental. Ou seja, como se os deprimidos o sejam porque são especiais, mais sensitivos, mais inteligentes. Mais lúcidos, e assim sentindo-se diante dos males do mundo, os próprios e os alheios. E essa ideia tem até um corolário implícito, o de que julga os aparentes antónimos "felizes" como menos inteligentes e menos sensitivos. Alienados, até. E contesto essa ideia. Um deprimido não é melhor do que os outros, mais lúcido ou mais sensitivo. Está doente, apenas.

É difícil viver com essa doença. E das piores coisas que se pode fazer a um desses (tantos) doentes é dizer-lhe "estás deprimido porque és especial, melhor do que nós". E eles não podem, nem o querem, ser Prometeus da lucidez, da intensidade, seria mais um dos insuportáveis fardos, e estes já lhes são tantos. Há deprimidos extraordinários, há deprimidos muito básicos e a maioria são medianos.

Conheço essa depressão por via da "observação participante". Há 8 anos escrevi um texto sobre isso. Era para a minha coluna no jornal "Canal de Moçambique". Por coincidência (ou mão divina) a edição dessa semana foi cancelada - julgo recordar que devido a uma crise no fornecimento de papel. Ainda bem, talvez fosse inapropriado para aquele contexto. Ficou no blog ma-schamba. Partilho-o agora:]

A Sair do Armário

Tomás de Aquino foi clarividente no seu século XIII quando decidiu denunciá-la como um dos sete pecados capitais, assim pérfida fonte de um sortido de vícios. Falo da acedia, aquela “certa tristeza”, o torpor acabrunhante que algema os seus padecentes à inactividade, a uma estupefacção constante, no limite até à autofagia. Dela brotam os tais vícios, seus efeitos, entre alguns outros o rancor, a amargura, a timidez e aquele que mais temo, o da divagação da mente, essa que se traduz na inconstância, na verborreia, na mera curiosidade, na instabilidade. Sistematizo, a improdutividade. Diletante.

A tal acedia é pecaminosa, disse o filósofo, porque infundamentada, pois brotada da aversão por pequenos males, relativos. Que a tristeza é justa, e até necessária, mas se defrontada com o verdadeiro mal. Na linguagem de hoje dir-se-á que a acedia nasce de uma incompetência na hierarquização do mal, dos males. Talvez até da “banalização do mal”. Em assim sendo o acedioso é alguém que padece, também, de um défice intelectual, de perspicácia. Do desentender o real.

O mundo de Tomás era diferente do actual. E nisto do necessário para se ser pessoa também. Que hoje para que a tal cheguemos, mais do que ser visto como um mero “tipo” que “para aí anda”, temos que ter um rumo, algo a perseguir, um refúgio a alcançar, uma montanha a escalar, um naco de felicidade ou orgulho luzidio, um qualquer sucesso que desfraldemos aos olhos alheios, em público às vezes, no privado da casa-própria ou, vá lá, pelo menos diante do espelho na hora de sacudir as remelas. Assim acredito que os céus são agora mais inclementes para os acediosos do que o eram naqueles tempos de Tomás. Quando apenas a expectativa de um Além infernal os consumiria, vis pecadores. Sendo que no hoje em dia, de menos aléns, o pecador se vai consumindo num aquém modorrento, culpabilizado, angustiado. Incompleto. Incompetente.

Tomás de Aquino foi um companheiro da alquimia, aquela incessante procura da criação do ouro, dos robôts, da abundância social. E, mais do que tudo, da panaceia, o remédio que tudo cura, o elixir da longa vida. Daquilo que cria a harmonia, esta um bem. Por isso estou certo que acolheria como santificados estas novas mezinhas industriais, os medicamentos que rearrumam a bioquímica dos neurotransmissores, como explicam as vulgatas da coisa. Que harmonizam as cabeças pensantes, ainda que trôpegas.

Pílulas que curam a acedia, por assim dizer, ou, pelo menos, que a disfarçam. Alisando estas cabeças que da maleita sofrem, da depressão como lhe chamamos neste século. Já não a dizemos pecado, que nos é termo mais difícil de usar. Mas dela fazemos aquele mal escondido, o “pequeno mal” actual, como antes se chamava, em surdina, à epilepsia quando se acreditava ser esta coisa de possessão por espíritos malignos ou meia-demência. Exactamente como agora se emudece a tal depressão, vista como se possessão por defeitos malignos ou meia-demência.

Leio que muita há, por aí afora. Talvez sim, talvez que muitos a vivam, a essa incompletude quotidiana. Porventura acompanhados, talvez apenas sozinhos. Se alguém, aqui por Maputo ou arredores, está assim no seu caminho pode-me acenar. Pois estou aqui a sair do armário, deixei-me, sei lá desde quando, assediar pela acedia. Incompleto-me dia após dia. Afogo-me em rancor, por mim mesmo.

Entretanto vão-se-me morrendo os familiares. Amigos queridos. Conhecidos simpáticos. Gente que me cruzou. E tantos que é absurdo continuar assim. Para disto fugir há por aí os medicamentos, os novos elixires da harmonia. Quem com eles vai vai bem, com toda a certeza. Eu, atrevido, vou tentar ir pelo outro lado. Se isto é, disse Tomás de Aquino, efeito de um defeito intelectual, da falta de uma correcta ponderação dos males do mundo, vou-me safar disto calibrando o meu olhar, e nisso o meu sentir. Não mais atentando na espuma dos dias.

E acabar todas as coisas que intento. Botando. Nem que seja um simples ponto parágrafo. Por ausência de bens do mundo de que falar.

Os jovens e o Covid-19

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Sendo de 64 a grande crise, pois o verdadeiro incómodo, da minha adolescência foi a da greve da Tabaqueira, uma infame agressão da classe operária que nos obrigou, durante meses que pareceram anos, a fumar "Fortuna", o veneno espanhol com que a família Borbón entendeu retribuir o asilo que o país lhe concedera em tempos que lhes haviam sido menos faustosos. Nunca Esquecer! tamanha vilania da vizinhança ...

É certo que as ameaças maiores eram outras, naquele tempo pós-punk mas pré-grunge, pois se rockando ele "Rust Never Sleeps" ninguém lhe atentava na "needle and damage done", e muito se seguia o outro na ânsia de ser herói por um dia, nadando (ou dançando ...) como um golfinho, ouvindo-o como se aquilo fosse um ... seja lá como for. E logo depois veio a maldita peste sexual, que tanto amarfanhou a geração. Mas essas eram coisas de cada um por si mesmo. Pois ainda que pragas contagiosas - e eu nunca vi algo que se pegasse mais do que a heroína - era cada um como cada qual, a decidir do risco que queria agarrar, não havia isto do agora, a imunização em manada.

Com amigos da minha idade - será mesmo melhor dizer "com sobreviventes da minha idade" - tenho ironizado com o que teria acontecido se nos dissessem no início dos 80s "agora é para se fecharem em casa [e com os vossos pais!!!!] durante meses". Teria havido escapadelas em massa, fugas, motins, "revolution rock", suores, lágrimas imensas, até sangue, comunas estabelecidas, perseguições ...

35/40 anos depois os mais-novos fecharam-se em casa durante três meses. Aturaram os pais, ouviram o Rodrigo Guedes de Carvalho (e a Clara de Sousa, que nariz!, que belo nariz ...!) no dia-a-dia, confinados sem piarem. Haviam lido o PR e o MNE dizerem que não se podiam fechar fronteiras. E foram fechadas. Haviam ouvido a dra. Freitas dizer-lhes para visitarem os avós. E não visitaram. Haviam visto o PR a cirandar entre escolas e teatros cheios, ainda que já avisado do que se passava. E ficaram em casa. Viram a festividade do 25 de Abril e o nº 2 do internato a dizer que não andaria "mascarado". E ficaram em casa e depois, quando foi para pouco-sair, sairam mascarados. Viram os camaradas do PCP fazer a festa do 1º de Maio e ficaram em casa. Um mês mais tarde viram os camaradas do BE fazer a festa, a pintarem a manta e as estátuas, e ficaram em casa. E haviam sabido que era para ficar em casa para que não houvesse "ruptura" de ventiladores nos hospitais, mas já sabem que o governo comprou os tais ventiladores necessários (chegaram?, com instruções em cirílico, árabe ou em que alfabeto?). Depois viram o PM e a ministra do Género no teatro a ver o cómico do regime. E ficaram em casa. E foram saindo mascarados, nas poucas-coisas necessárias. E viram o Presidente Professor a beber uma jolas com os motoqueiros. E ficaram em casa. E souberam do orgulho pátrio porque vem aí a Xampions Ligue. E também ouvem há meses que Portugal é um exemplo de contenção e que fomos campeões no Covid-19. E foram ficando em casa.

E, mais de três meses passados, agora que o Verão aportou e que os turistas já aterram, aleluia que é este o desígnio nacional, saem eles, vão beber uns copos, talvez alguns fumar uns charros (se é que ainda se fuma), conviver, ir à praia, dançar. E nisso contagiar-se um pouco, claro. Pois "namorar é preciso, viver não é preciso ...", já diziam os antigos.

E depois de tudo isto a manada mais-velha, sempre imune à inteligência, di-los irresponsáveis, infantis.

 

O Amor

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Lisa (Grace Kelly) é a dócil (e por isso perigosa) princesa de New York que quer domar Jeff (James Stewart), um caminhando-para-velho Lancelot, ambivalente pois renitente. Súbito, cúmplice, Lisa participa numa missão perigosa, indo a casa do vendedor Thorwald (Raymond Burr) provocar-lhe reacção denunciadora, momento de frisson para todos. Quando, afinal sã e salva, ofegante da emoção, Lisa regressa ao apartamento Jeff olha-a assim.

Há mais de vinte anos que esta imagem me persegue. Pois este nada-mais-que-sopro do "Rear Window" é a maior expressão do amor da história do cinema. Um prodígio de representação. Talvez Hitchcock. Mas creio que acima de tudo Jimmy Stewart.

(no ma-schamba em 2006)

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