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Nenhures

Nenhures

Jorge Jesus no Benfica

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(Postal no És a Nossa Fé)

Como com quase todos acontecerá, sigo com vários familiares e amigos, além de inúmeros conhecidos, que são adeptos do Benfica. Têm eles agora, no âmbito destas nossas paixões clubísticas, toda a minha solidariedade e carinho. Bem lembro a raiva com que vituperaram o treinador de futebol, sentindo-o e sabendo-o desonrado traidor dos seus elevados sentimentos, no desprezo pelo Benfica que adoram, mas também como incompetente, incapaz de valorizar os recursos do clube, decerto também porque até homem e profissional de comportamentos desviantes, bem como imoral agente  ... Bem lembro a ânsia, ao que me diziam totalmente justificada, de ver o tribunal fazê-lo pagar bem caro as aleivosias que praticara contra o popular clube do qual são adeptos.

E agora, passado nem tanto tempo assim, encontram tal homem a regressar ao clube que é deles, a que tanto se dedicam e amam. E regressa pela "porta grande", como que se em triunfo. O futebol é assunto de rivalidades mas não pode ser estufa de inimizades. Por isso neste estranho e injusto momento os benfiquistas, meus amigos reais, meus familiares, meus conhecidos, e todos os outros, têm a minha sentida, profunda, humanitária, solidariedade ...

Ordem Moral

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Obtido o visto de entrada, o comboio levou-me além-fronteiras, até ao planalto de Saldanha, que não atingia desde o advento do Covidoceno. Cotovelo amigo acolheu-me e ombreou-me no Nimas a ver em plena manhã o "Ordem Moral", um belo filme de Mário Barroso. Depois cruzámos a 5 de Outubro, zona de serviços em teletrabalho, com escassas máscaras ambulantes por ali vagueando. Trocámos meia dúzia de novidades, mortos e desgraças, da terra índica que nos acalenta. Acabamos o mata-saudades em tasca operária já no morro dos Olivais, dados à meia dose e imperial. O companheiro avança à sua vida, eu agito o chiripiti, como se esconjurando os maus espíritos. Faltam acácias, rubras. Mas não se está mal ...

A vénia de Costa na Holanda

Marcelo_Rebelo_de_Sousa_e_Papa_Francisco.png

Eu não gosto de António Costa, menos ainda gosto do PS. E, ainda que fumador, detecto o fedor que este poder actual exala. Mas há que calibrar a discussão.

Corre por aí uma invectiva generalizada a Costa, pois ao visitar o PM holandês ter-lhe-á feito uma vénia. Deixemo-nos de coisas, a imagem que os irados criticam ou é qual fotograma de um movimento, em si insignificante, ou retratará uma saudação bem-disposta.

E se as pessoas querem criticar as atitudes corporais, e seus significados, dos políticos bem que poderiam abrir os olhos e ter um mínimo de decência (aliás, inteligência). Querem criticar uma aparente vénia de Costa? Será então de começar por aqui, pois o Presidente Sousa (e não o cidadão Professor Comentador Marcelo) é useiro e vezeiro nisto de saudar o Papa beijando-lhe o anel. O que significa "submissão" (para quem não percebe a palavra dou sinónimo, "islão"). E o Presidente nessa condição não pode sinalizar a sua (do país, pois nessa condição presidencial) submissão.

Este atrevimento de Sousa deveria ser suficiente para o demitir (aquilo do "impeachment", termo muito na moda). Porque de facto viola a constituição e seu espírito. Mas as pessoas gostam do homem, do seu "gozo fininho", da pax jurídica que patrocinou, de o ver mudar de fato de banho em público, de o ver a "abraçar os corpinhos". Se gostam disto, se aceitam esta inaceitável desfaçatez, bem que se poderiam calar com a "vénia do Costa na Holanda".

Raduan Nassar e o bloguismo

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"Três rapazolas turbulentos entram no bar trazendo Zé-das-palhas, que vive fazendo discursos contra o governo. Coitado do seu Zé, ele pensa que o rádio que toca-e-fala serve também pra levar de volta a voz da gente. No fim, todo mundo dá risada. (...)

Desengonçado, o seu Zé sobe na cadeira com os bolsos estufados de palha, ficando de costas pra rua e o nariz no Philips, instalado ali na prateleira num nicho grande entre as bebidas. (...)

Zé-das-palhas gira para trás o botão da rádio, apaga o bolero mexicano que tocava, arruma o brim do terno e a palheta na cabeça, e fica c'um jeito de quem faz pose enquanto se concentra. (...) Não se ouve um pio, até que o seu Zé sapeca a voz rachada no rário, como se falasse num microfone, martelando ao mesmo tempo o dedo no ar, como se passasse um pito: 

"Doutor Getúlio Vargas, o povo brasileiro tá cansado, cansado, cansado: não aguenta mais apertar o cinto, não aguenta mais passar com farinha de mandioca, não aguenta mais o senhor mandar as pessoas pra cadeia ..."

(Raduan Nassar, Menina a Caminho, Companhia das Letras, 1994, pp. 37-39)

Sabena

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Há anos que tenho uma conta na rede Pinterest. Foi-me óptima quando cheguei à meia-idade. Um tipo dorme cada vez menos, não percebe porquê, julga que está com insónias, prolonga as noites. Levou-me um bom tempo a perceber que era só questão de ... dormir menos. Como tal passei uma boa temporada em noites longas, insone, cansado demais para ler ou escrever. A ouvir, realmente, música real: as reconstruções de Savall, as caixas com Wagner, Coltrane, Mingus, Zorn, coisas dessas, não a banda sonora da vida corrida. Enquanto, mecanicamente, fazia colecções de cromos na Pinterest. Álbuns de propaganda soviética, maoista, nazi-fascista, I e II GM, publicidade portuguesa, retratos de actores, escritores, cartazes de corridas motorizadas. E, com profusão, de publicidade, ferroviária, naútica, de aviação. Deliciosos álbuns. Sei perfeitamente que é o primado, uma verdadeira orgia, do gosto pequenino-burguês, o "vintage". Mas não me lixem, não me venham com filtros, estou insone, a ouvir música enquanto envelheço e colecciono imagens que não reverei e não tenho que reflectir sobre isso.

Já é raro lá ir, à Pinterest, pois fui aprendendo a estar mais-velho e a dormir de maneira diferente. Mas vasculhei a minha conta, agora mesmo, em busca de um dos vários cromos desta Sabena. Da qual muito gosto, pois ela da Bélgica que tanto aprendi a gostar, onde foi púbere e adolescente a minha filha, onde vivi, terra não só de Brel e Hergé - que a evocou - mas de tantos outros, e de um convívio articulação tão complexo, o reino da negociação.

Mas lembro-me hoje da Sabena muito mais por causa do que vou lendo nestes dias sobre a TAP, estas declarações de gosto, até amor, verdadeiramente patriótico, pois essencialista, toda esta conversa da "bandeira". Não falo dos que lá trabalham, isso é diferente. Mas dos intelectuais, "gauchistes" (expressão francesa ambivalente, pois traduzível em português pelos sinónimos "socialistas" e "bloquistas"). Escrevem loas à TAP e ao seu papel, até identitário. Constitutivo da nação, pois é isso que dizem mas em linguagem depurada, de hoje em dia.

Apupam, apeiam, as estátuas dos malvados quinhentistas e seiscentistas mas tremem em frémitos orgásticos com a TAP, com a "ideia TAP". Pagam-lhes para pensar. E eles estão convictos que pensam, e até analiticamente. Criticamente. Muito à esquerda, clamam em falsete - "não sejas homofóbico", interrompe-me o Grilo Falante. E por isso vou buscar mais gelo para refrescar o uísque. Reanimando-me, pois nesta vizinhança. Ainda assim, e mesmo que de copo cheio, resmungo "mas que gente ....".

Sporting 2021

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Resmunguei qualquer coisa no postal do Pedro Correia, no qual ele profetiza os desenhos e desígnios do futuro da bola sportinguista. E o camarada coordenador "propôs" (uma proposta superior é uma ordem, como é consabido nas organizações democráticas) que eu evoluísse o comentário/resmungo para postal próprio. Então, e como sou muito bem mandado, esventro as minhas aves e pronuncio os meus augúrios.  Que são mesmo oriundos dos dizeres daquelas entranhas, pois de bola pouco percebo e, ainda por cima, não tenho tido paciência (nem assinatura televisiva) para ver os jogos. Talvez por isso mesmo sejam mais significativos, verdadeiros dizeres do Além-da-bola.

1. O melhor reforço será o calibrar dos objectivos e expectativas. O Sporting não ganha há 20 anos e depois das últimas demenciais épocas o fundamental será contratar o genial "jogo a jogo". Pois objectivos exarcebados para a próxima época serão algo exagerados, e não só pelos traumas e défices herdados. Para além dessa canga teremos que enfrentar um poderoso F. C. Porto campeão, o qual manterá a sua até lendária "estrutura", comandada pelo excelente treinador Sérgio Conceição, e no qual pontificam excepcionais jogadores como Marega, Uribe e o eterno jovem Pepe. E o clube, ainda que espartilhado pelas regras do fair-play financeiro (uma delícia semântica) e uma dívida de alguma monta, verá o seu orçamento reforçado pelos ganhos advindos do título nacional, ao que dizem os jornais. Portanto reforçar-se-á com o habitual olhar clínico, quase sempre certeiro, que o caracteriza desde há décadas. E quaisquer sonhos de campeonice terão também de enfrentar o Benfica, alentado pela renovação do contrato com o play-maker Proença e, ainda mais, pelo regresso do Grande Jorge Jesus, desde há muito esperado pela enorme massa adepta sebastianista, a qual sempre, e sem excepção, nele reconheceu grande competência técnica e vínculo moral exaltador do clube. Regresso que será também acompanhado de gigantesco investimento para reforçar o plantel, mais de 100 milhões de euros, garantem as notícias, num magnífico esforço para afirmar que dura lex, sed lex, sob tutela da agremiação nossa vizinha.

Assim sendo, entre velhas mazelas e a extrema grandeza dos nossos rivais que poderemos ambicionar? O tal "jogo a jogo". Para quem não saiba o que isso  significa, e fugindo à sempre cansativa configuração conceptual, ilustro essa estratégia de comando, qual Maquiavel actual: há anos o Sporting teve um fugaz treinador que propalou esse modelo táctico. As coisas iram correndo muito bem. Um dia o seu trinco que muita influência tinha, Carvalho, teve o seu 4º cartão amarelo. Dois jogos depois o clube iria jogar a Carnide, cujo Sport local ombreava connosco na classificação. A lógica da campeonice mandava que o tal Carvalho fosse "poupado" no jogo intermédio, para não ser admoestado com o cartão que o impediria de jogar com o tal rival. Mas o referido treinador, fiel aos objectivos e desígnios, não o poupou, fê-lo jogar, o homem foi punido e, claro, impedido de jogar no "clássico" alfacinha. "Esse é o espírito" ..." (como se diz na língua inglesa). Precisamos mesmo disto. Esta é a única forma de um clube macerado como o Sporting vir a crescer na área do futebol. A única.

2. É importante que o clube melhore a política de empréstimos e de rescisões. Fazendo-a com todo o respeito pelos indivíduos em causa, pelas suas expectativas futuras, pelo desenvolvimento das suas carreiras e, acima de tudo, pela sua maturação como Homens (no sentido de Pessoas, independentemente do género/sexo). É neste âmbito que tenho que referir os vários sportinguistas que vêm propondo a cedência da maioria da SAD futebolística a investidores privados. Em questões de paixão clubística não vale mentir. Temos que reconhecer que todos nós, sportinguistas, contestamos/detestamos/criticamos grupos de mariolas que nos rodeiam: os energúmenos brunistas, os malvados croquettes (com dois "t"s), os jogadores da bola, os das claques, os da bancada central, os jornalistas (em especial os da Cofina mas também os da "Travessa da Queimada" [ai, que saudades, ai, ai]), muito mais do que tudo os árbitros, o pérfido Pinto da Costa e seus sequazes, o Dura Lex Vieira e a malta da Outra Banda. Mas também outros, alheios ao mundo do futebol, os brancos (ex)colonialistas, os ciganos (em especial o Quaresma, que é do Porto), alguns negros (mas não os nossos bons jogadores), os do cavaco, os socialistas, que são todos o mesmo, os da descentralização, os da centralização, os banqueiros e bancários, os polícias, os ladrõeszecos, os mafiosos, os pedófilos, os comunistas (que são do Benfica), os do Chega (que também são do Benfica), as mulheres (raisparta que já não ficam nos carros a fazer tricot ou crochet), os maricas (que agora até há na bola), os "tóxicos" que só querem é gajas, os velhos que têm reformas, os putos que não querem sair de casa, os da meia-idade que só têm é direitos, os franceses que compram casas, os chineses que compram tudo, os bangladeshes que são bangladeshes, pior do que tudo os espanhóis, e nisto só se safam (ou safavam) as boas das suecas, que são boa gente ...

Ora se a gente não gosta nada destes mariolas todos ou de quase todos, vamos querer entregar o nosso amado Sporting a uns filhosdamãe mafiosos comerciantes tailandeses, cafres chineses, yankees refinadíssimos saídos dos filmes, russos "oligarcas", árabes pretos de petróleo, mariolas de carteira bojuda? Ou seja, quando ouvirmos ou lermos - como vamos sofrendo - alguns doutores sportinguistas no choradinho de que para ter sucesso é preciso entregar a SAD a "investidores" convém a gente reclamar a cada um deles "desnasce, pá!". E para quem  não perceba esta figura jurídica (entre o empréstimo e a rescisão) explicito que é dizer-lhes, a cada um e com a veemência do mais radical vernáculo, que devem regressar aos orgãos genitais dos respectivos progenitores. 

Estabelecido este modelo de jogo, o nosso tiki-taka ou lá como se diz, avanço para as minudências da constituição do plantel: 

3. Ou o puto Max chega ou não chega, nisto não há meias medidas. Ou, de outra forma, ou é a la Patrício ou nunca o será. Seja lá como for contratar um Conhé não me parece adequado. Ou vem o Beto como "mestre" ou então um guarda-redes titular, estrangeiro, que se imponha e ensine. O Porto resolveu muito bem o caso, na última época. É verdade, não vale a pena resmungar, os andrades acertaram.

4. À direita é a crise, tal como no país. Rosier é um flop anunciado - mas a quem é que lhe passou na cabeça contratá-lo por aquele dinheiro todo?, até eu logo percebi a asneira. Ristovski é esforçado e  chega como ... suplente. E por mais apreço que haja no seminário ainda não vi ninguém que gabasse Camacho como ... suficiente. Alguns propõem o resgate de Esgaio. Será um absurdo, o Braga do empresário Salvador receberá sempre um preço excessivo, que o homem, justiça lhe seja feita, não é parvo lisboeta nenhum. Mas urge um bom lateral-direito. Não é preciso um artista, basta um tipo que saiba defender e que tenha fôlego para ir lá à frente passar a bola. Se conseguir cruzar com alguma ponderação será melhor, mas isso custa dinheiro.

4. Sem Mathieu, mandar embora Ilori - mas quem se lembrou de ir buscar o rapaz? E logo quando finalmente tinha encontrado um sítio onde jogava, foi mesmo crueldade, uma vingança de clube ressentido pela malandragem que ele tinha feito ao forçar a saída. Não sei se Neto será suficiente como titular (veio com "planta" de tal). Eu continuo a pensar que Coates é insuficiente para uma equipa com aspirações grandes (ver ponto 1), para mim ele é o novo Polga, com o qual ainda tenho pesadelos. Para se perceber melhor, se Polga é meu inverso de Damas, Coates é o meu inverso de Jordão. Se àqueles amo a estes mais recentes ... (não digo porque o governo anda a perseguir a linguagem menor curial na internet). Ou seja, ou jogaremos sossegados a evoluir, e seja o que Deus Nosso Senhor quiser, e Coates fica ou queremos saltar para um patamar mais aprazível e será preciso trazer dois centrais de gabarito. E desejar felicidades ao estimável central na sua carreira na leste europeu ou na Ásia.

4. Borja já mostrou que não chega. Pode ser bom jogador, até. Mas não há história de um maduro que tenha sido suplente durante duas épocas e que depois tenha vindo a adquirir qualquer relevância. Assim, se Acuña sair (o que não seria mau), serão preciso dois jogadores para a ala esquerda que saibam defender. Caso Acuña fique (o que não seria mau) bastará um para concorrer com o puto Mendes.

5. Doumbia perdeu crédito. É uma pena, pareceu que iria crescer. Palhinha deve ficar, até porque o Covid lixou a artimanha do empresário Salvador que contratualizou que a venda de Palhinha até Setembro lhe iria dar benesses - mas quem é que assinou aquilo? Aliás, no próximo Europeu será o suplente de Ruben Neves se o engenheiro Santos se deixar de tradicionalismos - já agora, o engenheiro do Penta e do Euro deveria ser obrigado a assinar um contrato com o país, comprometendo-se a não entregar a titularidade de trinco ao jogador Danilo ou ao jogador Carvalho. Li aqui entendidos da bola bramirem que Battaglia deve sair. Um absurdo. Bom jogador, bom profissional, polivalente e generoso.

6. Adrien de novo? Mesmo que baixe o ordenado chegaria para pagar dois bons jogadores. Adrien é uma boa memória (mas, já agora, passou anos a tentar sair, não devemos ir em choradinhos sentimentais). Deve seguir para a Turquia ou mais a Oriente. E muito espero que aforre o suficiente para ter uma bela vida, que me parece ser um tipo decente. 

7. Geraldes e Pedro Mendes não são jogadores para o Sporting. É uma pena, mas é a realidade. Geraldes parece óbvio, ainda que me pareça um tipo interessante. Pedro Mendes nem vi jogar, para além de fugazes aparições, sprints de quem vem do banco de suplentes. Disse-me quem sabe muito de bola e acompanha o clube, profissionalmente: "grande atleta, grande profissional, um puto porreiro. Mas não chega para o Sporting". Deve o Sporting, em respeito pela sua Academia, vender o seu passe desportivo a um clube onde possa singrar. E quanto a Geraldes deve deixá-lo seguir uma boa carreira, consciente do que o prejudicou nos últimos anos de gestão apatetada do plantel.

8. André Martins, simpático e talentoso jogador que vestiu alguns anos a nossa camisola, acaba de se sagrar campeão polaco. Está a ter uma bela carreira, recompensada desportivamente. Espero que com acompanhada com felicidade e desafogo financeiro. O Sporting deve cuidar, sem prejuízo próprio mas também sem ganância, que jogadores como Miguel Luís tenham o mesmo rumo. 

9. Nem Sporar nem o rapaz brasileiro de nome estranho são pontas de lança para um equipa de topo. Vai ser caro mas terá que se contratar alguém para o lugar. Nunca Slimani, o passado não se revive. E pagar milhões por um Taremi ou lá como se chama? Deixá-lo ir para o banco do Porto. Dala seria bom, mas muito duvido que venha a pegar no clube. Insisto, não há história de jogadores que tenham chegado, depois passado anos de Herodes para Pilatos, e depois regressado para vingar. 

Enfim, um guarda-redes, dois laterais, dois centrais, um médio de ataque (com Palhinha de regresso) e pelo menos um avançado centro capaz. Muito dinheiro, muito dinheiro. Dinheiro limpo. Dinheiro limpo.

10. Uma contratação grátis seria a de melhores adeptos. Entenda-se, menos ansiosos. A ver se a Academia os consegue produzir.

Textos sobre o conflito no Cabo Delgado

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Desde há mais de dois anos que amigos, conhecidos e colegas em Moçambique me dizem do silêncio sobre o conflito que vem acontecendo no Cabo Delgado. Um silêncio estatal, mediático e mesmo conversacional. Esse silêncio esmoreceu nos últimos três meses, devido ao crescente impacto das acções dos chamados "insurgentes". 

É certo que nos últimos anos algumas pesquisas têm sido feitas. O crivo de recepção a esses trabalhos tem dois problemas, excêntricos aos seus efectivos conteúdos, verbalizados por nacionais e por alguns residentes alhures (nacionais ou estrangeiros): por um lado, a crítica a priori, assim sui generis, àqueles que reflectem sobre aquela realidade sem estarem (ou terem estado) no "terreno". Vinda do senso comum, tendencialmente empiricista, essa crítica não espanta, mas oriunda de praticantes de qualquer ramo das ciências sociais/humanidades, essa crítica é pavorosa, de tamanha maneira que nem elaborarei sobre o assunto, pois tem que ser evidente. O trabalho de terreno é fundamental para quem utiliza determinados prismas analíticos mas não é fundamental nem mesmo necessário para quem utilize outros prismas. E um profissional que perora na imprensa e nas redes sociais invectivando investigadores porque "nem sequer foram lá" sem atentar nesta realidade laboral básica faz uma triste figura. Mesmo.

Por um outro lado, surge a crítica de que alguns dos trabalhos, e investigadores, obtêm "primazia" devido a serem mais visíveis, por estarem no "estrangeiro", por serem mais "mediáticos", etc. É evidente que as investigações em ciências sociais também estão num "mercado" (no académico, no desenvolvimentista, no organizacional, etc., e nas articulações de todos estes). Assim um mercado compósito que é concorrencial e não igualitário, pois há quem tenha mais "capital" - visibilidade própria, inserção nas esferas mediáticas e/ou políticas, capacidade institucional, país de acolhimento, língua de produção, etc., para além das melífluas e tão procuradas "redes" pessoais de contactos. Mas este tipo de jeremiada tem muito de anacrónico. Pois não só ecoa uma implícita patrimonialização dos "terrenos" ("isto é nosso, nós - nacionais ou estrangeiros "companheiros de estrada" - é que temos a "virtude" necessária para investigar", uma "virtude" moral e não a "aretê" qual potencialidade), que conduz à invectiva aos que estão num qualquer "lá fora", "cheios" de visibilidade. Mas também porque esquece que na actualidade é muito mais fácil divulgar textos, alcançar a tal "visibilidade" - ou, num sentido elevado, ser mais lido para participar no debate sobre o fenómeno em questão. Não que se tenha atingido a equidade nesses mercados textuais. Mas com o pdf (e similares), do email às redes comunicacionais - não falo das dengosas "redes" individuais mas sim das "redes (ditas) sociais" - informáticas, e da agora disseminada teleconferência, é muito mais fácil e democrática a disseminação da informação sobre os trabalhos realizados. Basta querermos.

Pronto, feito este desabafo, que é uma reacção irritada a alguns comentários recebidos ou lidos alhures, vou colocar aqui uma lista de textos analíticos sobre a situação no Cabo Delgado, a qual irei actualizando à medida que for conhecendo outros (e se algum visitante me puder ajudar muito agradecerei). Um elenco que é um modesto contributo.

1. Bernhard Weimer, 2018, "Vampires, Jihadists and Structural Violence in Mozambique. Reflections on Violent Manifestations of Local Discontentand their Implications for Peacebuilding: An Essay";

2. Liazzat Bonate, 2018, "Islamic Insurgency in Cabo Delgado: Extractive Industry, Youth Revolt and Global Terrorism in Northern Mozambique - A Hypothesis";

3. Liazzat Bonate, 2018, "The Islamic side of the Cabo Delgado crisis"; 

4. Africa Report, 2018, "Al-Shabaab Five Years after Westgate: Still a Menace in East Africa"; 

5. Hussein Mohammed Gari, 2018, "Al-Shabab Template Insurgence and the Expansion of the extremist-type Violence’s Parameters in northeastern Mozambique"; 

6. Saide Habibe, Salvador Forquilha e João Pereira, 2019, "Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: O Caso de Mocímboa da Praia"; 

7. Liazatt Bonate, 2019, "Why the alliance of Mozambique Government with the Islamic Council might not end insurgency in Cabo Delgado"; 

8. Rufino Sitoe, 2019, "Terrorismo em Moçambique? Que Soluções de Políticas? Um olhar aos ataques de Mocímboa da Praia"; 

9. David Matsinhe, Estacio Valoi, 2019, "The Genesis of Insurgency in Northern Mozambique";

10. Luca Bussotti, Charles Torres, 2020, "The risk  management of islamic terrorism in a fragile state: the case of Mozambique";

11. Eric Morier-Genoud, 2020, "The jihadi insurgency in Mozambique: origins, nature and beginning" (não tem acesso livre);

12. Nuno Rogeiro, 2020, "O Cabo do Medo - o Daesh em Moçambique" (livro, sem acesso livre - mas há um pdf a circular);

13. Francisco Almeida dos Santos, 2020, "Guerra no Norte de Moçambique, uma Região Rica em Recursos Naturais – Seis Cenários"; 

14. Bulama Bukarti, Sandun Munasinghe, 2020, "The Mozambique Conflict and Deteriorating Security Situation", Tony Blair Institute for Global Change;

15. Joan Swart, 2019, "Countering Ahlu Sunnah Wa-Jamo (Al -Shabaab) Insurgency in Mozambique";

 

A nova directora do Museu do Aljube (2)

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Na sequência da notícia da nomeação de Rita Rato Fonseca, antiga deputada comunista (PCP), para directora do Museu do Aljube, escolhida por um concurso, Alexandre Pomar deixou no seu mural de facebook um texto que diz tudo o que é necessário. Aqui o reproduzo:

"Esta é mesmo uma questão fracturante e há que ir ao âmago da questão. É mesmo por ser do PC e ter sido deputada desse partido durante 10 anos, até 2019, sem ter saído por dissidência, que a Rita Rato não tem idoneidade para dirigir o Museu do Aljube. Nem credibilidade, perfil, curriculum, como quiserem. Não se trata de exigir credenciais académicas ou museológicas, conforme algumas críticas de eficácia lateral, mais ou menos hipócritas, mas por fundamentação política.

Quem conhece a história da oposição ao Estado Novo e ao salazarismo (e a memória vai-se esbatendo para as gerações mais recentes que a não viveram), sabe que o PC foi vítima e algoz, censurado e censor, perseguido e perseguidor, tanto face a outras tendências e movimentos oposicionistas (anarquistas, trotskistas, sociais-democratas, marxistas-leninistas-maoistas, autogestionários, liberais, etc) como face a muitos dos seus próprios dirigentes e militantes (desviantes, fraccionistas, dissidentes, críticos, e ex-militantes em geral).


O PC propõe, pratica e defende uma versão partidária da história, a sua e a do país, que tanto inclui a sua dependência perante a União Soviética e a sua repressão política, interna e externa, perante as suas organizaçoes internacionais (Komintern, 1919-1943, e Kominform, 1947-1956) e os seus estados satélites, como a ocultação e manipulação da sua história própria, bem como dos seus arquivos e documentos. O PC impõe a sua história oficial, com uma prática militante e sectária continuada através das décadas, das mudanças do mundo e das suas sucessivas derrotas. Uma história que exclui, em especial, o reconhecimento da Oposição anti-comunista, que foi tendo dificilmente direito de existência.

Tudo isto desqualifica a sra para dirigir um museu dedicado à resistência anti-fascista, que deve ilustrar a sua diversidade e as suas tensões e contradições internas, a história controversa das Oposições, que serviu ela mesma a longevidade do regime, combatendo-o e combatendo-se.

Poderia ser vereadora se existisse um pacto político PS-PC publicamente validado em eleições, poderia dirigir uma galeria ou um parque da CML, uma cantina para sem abrigo. por exemplo. Mas não pode dirigir o Museu da Resistência."

Nota: entretanto Pomar colocou o texto no seu blog, com uma adenda signicativa.

Adenda: sobre este assunto é recomendável ler o devastador "Aqui há rato" de João Pedro George, na revista "Sábado".

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