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Nenhures

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"Cartas do Meu Moinho" é um conjunto de 24 pequenos textos escritos por Alphonse Daudet nos anos 1860, com primeira edição em livro de 1869. O autor refugiava-se em Fontvieille, perto de Avignon, na Provence e simulou-se proprietário de um moinho, um pouco a la Montaigne e sua torre. A escrita é esplêndida e a pertinência inultrapassável. A um desses textos, "A Arlesiana", utilizou como base de uma peça - com música algo celebrizada de Bizet, a qual não me diz muito - e que nada tem a ver com a célebre série homónima de Van Gogh.

Nisto há um texto maravilhoso, sem que eu possa saber se o sub-texto é meu ou do autor. "O Farol dos Sanguinários" narra a sua estada no farol no arquipélago corso das Ilhas Sanguinárias. Daudet recorda a sua convivência com os três rudes veteranos faroleiros, dois corsos e um marselhês. E como esses todas as noites cumpriam os seus quartos de vigia ao farol lendo em voz alta, em luta contra o sono, esse perigo letal. E lendo o único livro disponível, "Vidas Paralelas" de Plutarco. Que melhor simbolização do humanismo iluminista?

(O meu exemplar é avoengo, de cerca de 1920, publicado pela Livraria Chardron, mas há edições portuguesas mais recentes).

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1. Hoje é 13 de Setembro. Há exactamente seis meses que a minha filha chegou do estrangeiro e nos confinámos a sul do Tejo, em casa de amigo, acolhidos por um grupo no qual vários são de "grupo de risco". A angústia era enorme, e muito porque não sabíamos ainda dos efeitos que a doença teria nos jovens.

Alguns dias depois um amigo pediu-me um texto sobre a minha experiência, destinado a um "observatório" que agregaria algo como "etnografias do Covid-19" em vários países. Eu sou muito mais "reactivo" do que "pro-activo" (aquela dicotomia de jargão que vingou há alguns anos). Logo li o primeiro texto português ali incluso, de um colega meu ex-professor. Que utilizava a epidemia para dizer horrores de Johnson, do Brexit e de Tatcher ("what"?). E juntava-lhe, em fruta cristalizada, que Portugal vivia a melhor situação económica desde ... Afonso Henriques ou coisa parecida. Fiquei desaustinado, passei horas, à noite, caminhando na quinta na qual me refugiara bramindo impropérios contra tamanha indignidade. Intelectual. Depois, porque sofro de verborreia aguda, escrevi um texto de 40 e tal páginas, sob o mote "para melhor está bem, para pior já basta assim ...". E vendo a predisposição geral para a redução das liberdades, individuais e colectivas, no que é sumarizável como o incremento da estatização cultural. O amigo que mo encomendara não terá gostado mas uma dúzia de outros amigos foram solidários e leram-no, e recebi até dois ou três telefonemas ("está porreiro"). Desse arrazoado algumas coisas recordo:

a) o elencar das incoerências iniciais e subsequentes do governo e Estado (as quais continuam) - talvez as duas maiores tivessem sido o PR e o MNE a afirmarem a impossibilidade/improdutividade do fecho das fronteiras, e a directora da DGS a apelar a que visitássemos os lares de terceira idade no exacto dia em que Espanha (talvez o país europeu com pior desempenho governamental nesta crise) os encerrava. Entenda-se, o funcionamento das instâncias estatais foi suficiente mas vivemos - e ainda vivemos - um festival de demagogia, naquilo do "o milagre é Portugal" do flaneur Sousa.

b) o relato de uma conversa com um familiar que é um médico excepcional, tida dois dias antes de me encerrar. O qual me disse que logo nas primeiras horas após o apelo da Ordem para os membros se voluntariassem para actuarem nos serviços contra a epidemia mais de 1000 o tinham feito (sobre o posterior lema da "cobardia" médica está tudo dito). E que o confinamento iria ter custos sanitários enormes, dada as delongas e interrupções nos tratamentos, o evitamento dos hospitais em situações de urgência e as doenças adquiridas e/ou potenciadas pelo confinamento dos mais frágeis (sobre o acréscimo de seis mil mortos está tudo aventado).

c) a insuficiência das leituras ideológicas a la carte. De imediato os furiosos "alterglobalistas" e o coro "idiotista" argumentou que os adversários das estratégias de confinamento eram os "liberais", aliás "neoliberais", o famigerado "liberalismo epidemiológico" que tantos Doutores e doutores acenaram. Mas, de facto, os poderes mais conhecidos que tentaram uma via sem confinamento foram o brejnevista bielorrusso, o (ícone) marxista nicaraguense, o mercantilista Trump (coarctado pela estrutura federal do seu país), o fascista brasileiro (também um pouco isso, ainda que não tanto) e o social-democrata sueco. Ainda assim, nem o meu ex-professor nem os outros doutos furiosos anti-liberais fizeram adendas às suas proclamações. Pois o real não lhes interessa, só mesmo as certezas próprias e os meneios com que as embrulham.

2. Passaram seis meses. E quantos ziguezagues estatais face à crise, talvez impossíveis de evitar na totalidade mas decerto que muitos deles possíveis infundamentados. Mas todos os dias continuo a ler um punhado de patêgos, quais pobres fiéis dessas igrejas evangelistas, clamando contra tudo o que sejam cuidados com a epidemia. Estes sim "liberais", prosélitos disso. Não percebem, por crença e por aguda deficiência intelectual, que se trata de uma decisão moral. Em termos gerais, independentemente de maior ou menor rigidez nas práticas, não queremos (a sociedade não quer) correr riscos, não aceitamos a ideia de que não fizemos nem fazemos tudo para evitar que os nossos mais frágeis morram. Tem impactos económicos, tem dimensões políticas. Mas não é só isso. Ainda assim todos os dias os militantes evangélicos têm algo para bramir. O seu vácuo. Intelectual, a sua incapacidade de perceber o que está em causa.

3. Passaram seis meses. Os lares vão sendo contaminados, com maior ou menor gravidade. Há pouco falei com duas enfermeiras que assistem um lar, abordaram a meu pedido as extremas limitações com que vivem, na família, no trabalho complementar, no quotidiano, para reduzirem os riscos de contaminarem os seus pacientes idosos. Mas ainda assim a clausura completa é impossível, e os focos vão surgindo. Por exemplo este, na Ericeira próxima de Lisboa, fórum do surf juvenil, capital do peixe maturado, moradia de ex-primeiro-ministro. Septuagenários, octogenários, nonagenários, centenários, estão hiper-confinados, em extremo risco. Há meses sem contacto físico e, depois, extremamente mitigado com os seus familiares. Alguns já inconscientes desta situação nacional e internacional, outros pouco conscientes, até porque desprovidos da totalidade de informação pública. E metade dos residentes já infectados. Como estarão, com que angústia, desconforto? Que peso psicológico, que efeitos depressivos, degenerativos, os deste seu ensimesmamento?

E como estarão os familiares, até os (já poucos) amigos que lhes restam? Qual será o estado de espírito? E pergunto-me também, quanta paciência terão estes familiares, cidadãos informados e conscientes, para continuarem a aturar esta mole de taralhoucos que, todos os santos dias, continua a bramir contra os cuidados diante dos perigos de infecção, contra os cobardes que por aí andam, clamando "que já não há homens como antigamente", etc.?

A minha filha e a minha irmã não me deixam escrever palavrões nos blogs (e no FB). Mas a minha mãe não lê em computador. Por isso não me preocupo, ide bardamerda ó "ideólogos" da treta ...

Eu

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Faz hoje um ano que me morreu grande amigo de quem me distanciara. Há dias, poucos, morreu-se-me um belíssimo amigo ... de quem me distanciara. Ontem morreu uma linda amiga ... da qual mantive a distância. Um tipo romanceia-se, autoretrata-se, opina, propagandeia-se, às vezes qual sensível, outras cáustico como se lúcido, assim pertinente. Mas, bem no fundo, não passa de um traste. Pois desatento, inútil no egoísmo. Chega. Vou ali, algures, ver se dou algum préstimo a este. Desenvergonhar-me. (E desopinar, claro).

Fiquem bem, neste nenhures.

Anda muita gente entusiasmada com as presidenciais, nisto de ter chegado uma bloguista à lista de candidatas, mão na anca, tom denunciatório, apesar de tão PS e de tanto ter militado naquele blog Causa Nossa radical socratista, de onde brotavam membros do governo e cabeças de lista eleitorais (e "bocas" racistas, já agora) ... Deixemo-nos de coisas, e digo eu: onde é que estavas em 2005? E em 2009? ... Deixemo-nos de coisas, não presta, a tal bloguista. Mesmo!

Ou seja, tendeis à "esquerda"? Pois tendes a candidata Matias ("que nariz", proclama este eleitor indeciso). Ides mais dextros? Pois então está aí o Mayan Gonçalves - certo, apareceu paroquiano naquilo do "sou do Porto", mas que fazer?, apenas pontapear a pequenez bairrista? Não aparece este no "Público" e afins, esses que tudo reduzem ao Venturismo? Pois, esse viés faz parte do "número" da imprensa.

Nas eleições? Fugir dos "Professores" ... E do legado socratista também.

(Bianca Catasfiore - The Jewel Song)

"Ah je ris de me voir si belle en ce miroir..." [Ah, rio de me ver tão bela neste espelho] é o lendário refrão ... Desde 2015, feito torna-viagem, que quase todos os dias me lembro deste cume de Hergé. Pois um dos grandes problemas culturais de Portugal (o maior?) é mesmo o catasfiorismo dominante, a turba em ademanes, nos lavabos roncando trinados desafinados, cantarolando a perspicácia própria diante dos espelhos - em vez de retirarem os cabelos e pelos púbicos dos imundos ralos sobre os quais patinam.

Esta cena, minudência, da disciplina da Educação para a Cidadania e Desenvolvimento é mais um exemplo. Agora um coro de 500 cantores, mais a plebe ululante na plateia, vem guinchar que são belos nas suas doutas opiniões - entre os quais, no palco e em aplausos, um punhado de Catasfiores que eu conheço. Hoje mesmo, 7.9.2020, no final do telejornal da TVI (abençoado zapping) David Justino explicou pausada e competentemente tudo aquilo que é preciso pensar sobre o assunto - a reportagem sobre a matéria começa à 1.03.20 e a intervenção do antigo ministro da Educação começa à 1.05.40. E fê-lo apesar de repetidamente interrompido, em registo morcão, por Sousa Tavares.

De pouco servirá, as patetas e os patetas continuarão, em trinados, ciosos do que julgam sageza. Mas não é, é apenas o pouco que são.

Haddock, O Captain! My Captain ...

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