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Nenhures

Nenhures

Da candidata Gomes

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Morreu Sindika Dokolo, genro de Zedu, marido de Isabel dos Santos, ao que foi noticiado devido a um acidente de mergulho. Goste-se ou não da elite angolana esta reacção da candidata Gomes é vergonhosa. Pois de imediato alude a teorias conspiratórias, típicas não dos informados analíticos mas dos desinformadores e dos ignorantes. Mas muito pior é esta reprodução de uma mísera "boca", a de que o sinistrado "morreu offshore".

Breve momento a mostrar o carácter e a mundivisão desta candidata Gomes. 

"Se formos de Ferrari poderemos ir rezar pelos nossos mortos?"

(Mensagem do prior de S. Nicolau, 25.10.2020)

Sou ateu. Não anticlerical - um antropólogo anticlerical seria uma espécie de oxímoro carnal. Mas se há algo em que sou fundamentalista é na defesa do ilimitado direito à blasfémia. Porque é a questão fundamental da liberdade intelectual, fruto de imensas guerras. E é aquele traço ao qual os imigrantes têm que se assimilar e no qual os naturais têm de ser socializados. Ou seja, na nossa (pérfida, dizem os dos ademanes) sociedade ninguém tem o direito de não ser ofendido. E quanto mais idolátricos são os crentes maior a necessidade e legitimidade da iconoclastia, mesmo que eles sejam "minorias" muito pobrezinhas e discriminadozinhas, coitadinhas ... Avanço isto, incompreensível para gentes como Ana Gomes e seus apoiantes, mais a ganga de comunitaristas espontâneos que para aqui andam tão ciosos deles mesmos e das suas militâncias, e que não percebem o que é a laicidade do Estado e da sociedade, para lembrar que tudo isto é siamês de outro princípio fundamental desta nossa laicidade conquistada: a liberdade de culto.

Ora o que este governo tem andado a fazer, no seu ziguezaguear covídico, é, de facto, uma refracção preguiçosa do anticlericalismo republicano. Serôdio, inútil. É um quadro mental patético, porventura até vivido de modo inconsciente. E sinaliza o disparatado em que decorre a administração da saúde, como o resmungam os profissionais.

A excelente prédica deste padre, insurgindo-se contra a proibição do culto aos antepassados, diz tudo o que é preciso ouvir. Que o Deus dele o tenha na sua santa guarda.

Os Dois Corpos do Presidente (transcrição)

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Abaixo transcrevi um texto de Clara Ferreira Alves sobre o "estado da arte" da política portuguesa. E logo uma amiga me chamou a atenção para um texto de António Guerreiro - o qual, do que conheço na imprensa portuguesa, é o é o colunista que mais aprecio, na sua coluna semanal no "Público". É uma excelente análise da deriva do presidente Sousa, partindo do episódio noticioso que foi a sua recente vacinação. 

(O texto está reservado a assinantes mas eu transcrevo-o aqui. Crente que numa terça-feira ninguém compra um diário da sexta-feira transacta)

Os dois corpos do Presidente
(António Guerreiro, 23 de Outubro de 2020)

Para a história da iconografia política, em Portugal, é mais importante do que parece, à primeira vista, a fotografia do Presidente da República (de Daniel Rocha, no PÚBLICO de 19 de Outubro), de tronco nu, sentado num cadeirão azul, a ser vacinado contra a gripe por um enfermeiro. O tronco nu do presidente publicamente exibido não é uma novidade, vimo-lo já muitas vezes filmado e fotografado na praia. Mas aí, como acontece com todos os corpos na praia, ele quase se anula na sua corporalidade, é como se a pele fosse o fato do banhista e tivesse um efeito de ocultação (razão pela qual o nudismo é uma prática completamente anti-erótica); mas sentado no cadeirão, a ser picado no braço por um enfermeiro que ali ocupa o lugar do soberano, o Presidente de tronco nu apresenta-se sem dissimulações, sem filtros, e suscita um outro olhar. O que vemos, então? Um corpo naturalmente envelhecido e flácido (mas não exageradamente, para quem tem mais de 70 anos). Nada de obesidade, mas apenas um corpo em decadência, ainda que discreta, onde a carne e a pele estão sempre em excesso.

A foto mereceu um editorial no PÚBLICO, onde o seu director, Manuel Carvalho, classificou o gesto do Presidente como um atentado ao “bom gosto”. De um ponto de vista estético, isto é, da sensibilidade do espectador, compreende-se a classificação do desnudamento do Presidente como sendo de “mau gosto”. Mas para uma análise de iconologia política, essa questão estética não é pertinente e é a dimensão simbólica (o efeito de banalização, a que Manuel de Carvalho também se refere) que prevalece. Numa análise interpretativa dessa dimensão simbólica, impõe-se a evocação da metáfora dos “dois corpos do rei”, que o historiador alemão Ernst Kantorowicz (1895-1963) usou num estudo famoso da formação do Estado moderno. No centro do seu estudo histórico-genealógico, publicado em 1957, intitulado precisamente Os Dois Corpos do Rei, está a noção de corpo político e a ficção mística do duplo corpo do rei: o primeiro é o corpo natural e perecível, sujeito ao tempo e à fragilidade humana; o segundo é o corpo político, de carácter perpétuo, que ao ser transmitido (e o ritual da coroação é um acto da dramaturgia política dessa transmissão) escapa aos limites da finitude. Este corpo místico, ligado à sacralidade da política, não pode morrer, porque a dignidade não morre: Dignitas non moritur é a fórmula que, segundo Kantorowicz, constrói um paradigma dos soberanos vivos e imortais, onde se misturam instituições e corpos místicos. Estes axiomas da teologia política elaborada no Ocidente medieval permaneceram válidos até à instituição de uma “teologia profana”, em que se transpõe para a dimensão terrena da contingência política do Estado secularizado a Majestade divina, como mostrou Kantorowicz na sua grande narrativa da invenção do Estado moderno.

De forma laica, e ilustrando a tese de Carl Schmitt de que os conceitos fundamentais da política moderna são conceitos teológicos laicizados, o princípio dos dois corpos do rei nunca deixou de manifestar um enorme poder de sobrevivência. Não podemos deixar de pensar no grandioso estudo de teoria política de Kantorowicz quando vemos que o actual Presidente da República decidiu desde o início apresentar-se publicamente sob a forma de um excesso de corpo profano (que Manuel Carvalho, no seu editorial, chama “estratégia de banalização”), aquele corpo demasiado visível, sempre a oferecer-se às múltiplas máquinas de visão e reprodução modernas, exibindo demasiada carne, demasiada paixão, e eclipsando aquele outro corpo mudo, misterioso, invisível, sublime, que impõe distância e se confunde com o próprio Estado. No entanto, é possível perceber que a sua estratégia não é da “banalização”, mas a singularização pelo excesso, do qual este último gesto documentado na fotografia de Daniel Rocha é a manifestação mais eloquente. Aquele corpo vulgar, que se assemelha a todos os corpos envelhecidos, vai para além dos seus próprios fins e entra no êxtase da sua imanência. Dito de maneira muito mais singela: com este seu último gesto escandalosamente profano o Presidente não pretende descer ao nível do homem banal, mas elevar-se a um estado paradoxal. A nível nacional, o outro pólo do seu gesto de desnudamento — aquele onde não há invisibilidade nem sublimidade possíveis — só tem um correspondente no seu amado Ronaldo.

Caricaturas e liberdade

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Na sequência do assassinato do professor francês Samuel Paty, devido a ter mostrado caricaturas aos seus alunos, a pastora da Igreja Protestante de Roubaix, Sandrine Maurot, convidou os crentes de todas as religiões a "publicarem uma caricatura na sua própria religião, defendendo a liberdade de expressão".

(O meu muito laico sportinguismo é o meu sentimento mais próximo, ainda que imensamente distante, da religiosidade. Ou seja, resta-me isto ...)

Mascarados na rua

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"Diz que" teremos de andar mascarados na rua. Se a defesa contra a pandemia a isso apela não serei eu a opor-me. E nem sequer me questiono como é que este tipo não tem a dignidade de se demitir, por "razões pessoais" ou "reforma", seria pedir-lhe demasiado face ao que é. O que me surpreende é que nenhum dos dele lhe diga para ir saindo. Septuagenário vácuo, apagável. Nulo.

Eleições nos Açores

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A Iniciativa Liberal elegeu um deputado nos Açores. Não faço a mínima ideia de quem seja. Mas acho porreiro. Daqui a uns meses votaremos para a presidência. Eu não sou um liberal, no sentido radical (aliás, alguns amigos dizem-me um Conservador), e doem-me os ossos e despertam-se-me outras maleitas quando ouço alguns dos rapazes do Mercado a perorar, pois há muito taralhouco luso a "liberalizar-se". Alguns deles são muito reaccionários, coitadinhos, incultos cheios deles mesmos. Mas outros nada disso, nada mesmo, e dizem coisas basto interessantes. E o que é bom no crescimento do prof. Ventura, tão potenciado e desejado pela ex-rapaziada do Livre e pelos universitários socratistas, é que os grunhos foram-se, em meneios másculos, grunhir para o Chega, deixando os liberais medrar o que podem. E este país precisa, como de pão para a boca, de vozes liberais. Na economia. E, fundamentalmente, na cultura. Não na "Cultura" mas sim na cultura, nas mundividências, entenda-se.

Ou seja, daqui a uns tempos teremos umas eleições. O prof. Ventura é o que é, e pronto(s) ... O prof. Sousa é, insisto, repito-me, a pior coisa que floriu no país desde 1975. O povo adora mas antes a sorte do que tal morte. À esquerda gosto muito da candidata Matias. Gosto mesmo, e sem brejeirices, parece-me (decano ingénuo?) genuína e empenhada. Não fosse ela tão comunitarista e votaria nela. Anseio, aliás, votar nela na segunda volta. É certo que votarei em todos os candidatos contra Sousa (excepto se for contra o morcão, nesse caso irei de fim-de-semana), mas nela votarei com franco prazer.

Mas, antes de tudo, na ansiada (?) primeira volta o meu voto será na candidatura da IL que votarei, no candidato Mayan. Não tenho a soberba de vos pedir que o façam. Mas, caramba, já que a imprensa pouco ou nada o refere tende um pouco de atenção no que ele diz, no que os seus dizem. Repito, o país precisa de vozes liberais. E grito (ainda que em minúsculas), às gentes mais à direita e ao centro: este Sousa é a pior coisa que floriu no país desde 1975. Abri o vosso cérebro a outras vias.

Enfim, a Iniciativa Liberal elegeu um deputado nos Açores. Não faço a mínima ideia de quem seja. Mas acho porreiro.

A Zoom no Covidoceno

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Nesta era do Covid-19 a Zoom terá sido das empresas que mais lucrou, abrindo espaço para novas formas de intercâmbio e aprendizagem.

["Ai, Ze(zé), és sempre desagradável", dir-me-ás. "O que é queres?", respondo-te, "sou um etnógrafo (falhado é certo)" ....]

Um abraço

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Hoje, manhã de domingo, bebo um café, dois mesmo, com amiga que há muito, demasiado, não via, pois ela emigrada. Ainda tão bela, entusiasmante, até balsâmica, como o era aquando nós no liceu e no sempre depois, porventura mesmo mais se me deixar acreditar neste sentir já trôpego. Conversa larga, rápida mas larga. E diz-me que se testou com a competência necessária. E depois foi a casa da mãe, agora octogenária, já viúva: "Mãe, há quanto tempo é que ninguém a abraça?". "Há mais de seis meses, filha". E abraçaram-se, como é óbvio que deve ser.

O torso dispensável (transcrição)

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(um dos inúmeros dichotes gráficos sobre o presidente Sousa que brotaram nos últimos dias)

Raramente leio o "Expresso". E nunca leio Clara Ferreira Alves. Ontem uma amiga, que sabe do meu desagrado com a caprichosa plumitiva, convocou-me: "Lê a crónica da CFA". Li. Tenho uma visão bem mais negativa dos bonzos dominantes do que a da autora (ou seja, não, Sousa não é melhor do que isto, como ainda sonha CFA na sua conclusão). Ainda assim o texto é muito clarividente. Por isso, e dado que o acesso é só para assinantes do jornal, roubo-o e transcrevo este excelente

O Torso Dispensável (Clara Ferreira Alves)

Estamos, parece, em plena comédia. E na administração da desorientação, todos os dias renovada em mais uma declaração, uma justificação, um comentário e, claro, uma entrevista. Os nossos governantes privilegiam a mensagem em detrimento da eficiência e da logística. Não funciona? Apresenta-se mais um relatório açucarado de amargas contradições para o povo engolir. Num dia há crise política e dramalhão, no dia seguinte vai ficar tudo bem e somos todos amigos e patriotas. A triste figura que António Costa tem feito nas negociações com o Bloco de Esquerda, que está a ter um momento warholiano que só pode ser interpretado como chantagem a um primeiro-ministro enfraquecido e a um partido dividido, não o recomenda. E não seria o momento adequado para o espetáculo. A líder do BE tornou-se a bela do baile e deixou-se tratar como tal. O sentido de Estado é inexistente, mas uma coisa aquela gente sabe, farejar a fraqueza. A fraqueza é farejada por todos os animais políticos, e Costa deixou-se tratar como um subalterno dependente. Nenhuma vitória daqui sairá.

E antes da desorientação, veio o aviso aos portugueses, dez milhões de crianças que precisam de “um abanão”. Tantos estudos e tantos peritos para nos passarem uma vistoria. A ministra da Saúde corre de um lado para o outro com ar assustado e afadiga-se em conferências de imprensa com dados e em recados aos que a interpelam, ou, como ela diz, empurram. Quando um ministro se sente “empurrado” perdeu a autoridade. Quando um primeiro-ministro passa mais tempo nos telejornais do que sentado a pensar pela sua cabeça, perdeu a cabeça.

Desde o episódio deprimente da cataplana que sabemos que os agenciadores do populismo são mais importantes do que os políticos resolutos. Nenhuma reforma sairá daqui, continuamos na visão política do Estado esmoler. Um subsídio de duas centenas de euros para os trabalhadores da saúde em vez de uma reorganização das carreiras da saúde e do sistema público e parcerias com os privados, não vai, pela manifesta insuficiência de subsídios, resolver a falta de quadros nos hospitais e centros de saúde. O sistema aguenta? Não aguenta se o crescimento for exponencial durante o inverno. Em vez de afirmar o contrário da realidade, negando-a, porque não começar a reformar um sistema que se revela inadequado e à mercê de improvisos e boas vontades? (...)

António Costa perdeu a bússola ou deixou-a esquecida num canto. E vai a caminho de perder a autoridade. Enquanto a mesa do banquete estava cheia, os sorrisos socialistas aqueciam os brindes à prosperidade. Agora que a mesa está vazia, e mais vazia ficará, o espetáculo é o de incompetência, que gera a lassitude geral. O ano de 2021 será cru e nem sequer podemos confiar num governo que usa as palavras esquerda e direita como moeda negocial. Costa não devia ter cedido como uma dama lacrimosa ao PCP e ao BE e agora é vítima de ambos. Nenhum deles pretende ver o próprio partido aliado a uma crise económica brutal, e esperam ganhar mais com a crise afastando-se dela do que ajudando a resolvê-la. Põem o interesse do partido acima do interesse do país, e nada disto é novo ou admirável. Quando o declínio chegasse, prefeririam estar bem longe do poder, agitando as massas e o descontentamento.

Se Costa pensou que tinha nestes dois partidos de esquerda os melhores aliados, devia ter pensado duas vezes e analisado a história da democracia portuguesa desde 1974. Ao repelir o PSD como interlocutor, deu a este a vantagem imensa de o poupar para poder ser poder no futuro, e afastou o único partido, o social-democrata, que poderia ter ajudado o PS nesta aflição. Rui Rio nem precisou de falar ou contra-argumentar. Bastou-lhe estar quieto e calado. Qualquer crise política, no meio de uma pandemia incontrolada ou, pior, descontrolada, será responsabilidade dos partidos da ‘geringonça’ e das suas intrigas interesseiras. O povo aguarda o desfecho enquanto assiste à comédia de enganos.

Ora é nestas ocasiões que se necessita das clássicas auctoritas e gravitas. E que temos no Palácio de Belém? Marcelo meio nu. No mesmo dia em que a fotografia lhe revelou o torso, o Presidente foi alvo de chacota, trocadilhos e memes eróticos, pornográficos ou achincalhantes. Em vez de arregaçar as mangas, em sentido real e metafórico, Marcelo, o Presidente da República, despiu-se como se fosse mergulhar no Guincho e chamou as câmaras. Tal como Costa, Marcelo acha que isto lhe traz mais popularidade. Um Presidente da República irreverente é diferente de um Presidente da República ridículo. Convém preservar a dignidade para os momentos solenes em que é convocada, quando fala aos portugueses. Já temos comediantes suficientes e profissionais, não precisamos de mais. Em vez de discutirmos coisas sérias, aqui estamos a comentar anedotas, acidentes e cláusulas acessórias. Esta tem sido, por grosso, a estratégia do Governo para desviar as atenções dos temas emaranhados como Tancos, Pedrógão ou mesmo a covid. Acabamos a comentar ninharias, esquecendo de fazer as perguntas principais. Com a espantosa conferência de imprensa do campeonato Champions, ou o apoio de Costa a Marcelo, ao lado de Marcelo, durante uma visita a uma fábrica de automóveis, o Presidente ficou enleado na estratégia e nada fez para se libertar dela. O torso não ajuda. Preferimos os torsos clássicos dos museus.

Em vez do exibicionismo, não seria preferível preservar a qualidade da autoridade? Em vez dos comentários a esmo, que nos cansam, não seria bom ouvir um discurso coerente e consistente de propostas e soluções, de disciplina sustentada por um pensamento? Marcelo Rebelo de Sousa não consegue domar a personalidade e adaptá-la ao cargo que ocupa? Sabemos que ele é melhor do que isto, o homem do torso dispensável. Políticos nervosos não postulam ações triunfais e precisam de cabeça, tronco e membros

As eleições americanas

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Ralf Dahrendorf, François Furet, Bronislaw Geremek conversaram sobre o futuro da Europa após a queda do comunismo, durante o Inverno de 1991/1992, com a moderação de Lucio Caracciolo. Trinta anos passados é interessantíssimo (re)ler este "A Democracia na Europa" (Presença, 1993), recordar as perspectivas sobre o remoldar da União Europeia e da Europa, sobre o papel dos intelectuais, da cultura na construção e manutenção da democracia, etc. É notável a clarividência e a densidade destes três enormes intelectuais liberais (aqui, aos seus  nomes juntei ligações para artigos elucidativos sobre a dimensão de cada um deles). E será também importante recordá-los para comparar com os dislates constantes que se vêm lendo nos últimos largos anos, largados por "liberais" lusos, meros idólatras do mercado e de um profundo autoritarismo (reaccionarismo, dizia-se), que não passa de afascistada aversão à democracia. E, sempre, à cultura e aos intelectuais. Quem leu blogs ditos "liberais" saberá do que aqui falo, desse boçalismo inculto.

Mas o que trouxe este livro ao blog foi estar a folheá-lo no dia do último debate das campanha eleitoral americana, que encheu as estações televisivas nacionais e internacionais. Pois atentei neste meu velho sublinhado.  O qual, mutatis mutandis, muito descreve o que se passa naquele país. 

Abordando a queda do comunismo soviético e europeu disse Geremek (pp. 47-48): 

"Gorbachev é um dos factores decisivos para se compreender a implosão do império soviético. Um dia, estava eu a falar com Jakovlev, conselheiro e amigo de Gorbachev e considerado o pai espiritual da perestroika. Perguntei-lhe: "Como é possível que, a um dado momento, você e Gorbachev tenham decidido empenhar-se numa empresa tão perigosa?" "Trata-se de um facto biográfico", respondeu-me, "eu tinha dito certas coisas que não agradavam aos meus camaradas, que me mandaram para o exílio no Canadá, como embaixador. Um dia, Gorbachev foi visitar o Canadá. Fomos passear para o campo para podermos falar livremente, sem sermos controlados pelos microfones da KGB. E vimos que estávamos de acordo. A crise do nosso país era muito grave, e o contacto com a realidade do Ocidente, com as suas proezas económicas, tinha-nos convencido de que era necessário reformar profundamente o nosso sistema."

"No entanto, depois disso, houve sobretudo um facto que nos fez compreender a necessidade da perestroika. No Comité Central do PC havia um dirigente particularmente imbecil, que não sabia nada de nada, e que era utilizado quando não havia nada de importante a fazer. Chamava-se Chernenko. Ora, depois da morte de Andropov, é ele, Chernenko, que é eleito para secretário-geral do partido. Um homem como Chernenko à cabeça de uma das duas superpotências do mundo! Era intolerável! Se um sistema coloca um homem como Chernenko no seu topo, isso significa que esse sistema está muito doente. E foi por isso que nós, Gorbachev, eu e alguns outros, decidimos que chegara a altura de reagir."

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