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Nenhures

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

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(Cartoon publicado no Expresso, sem indicação de autor)

Por cá há dois tipos de locutores anti-Covid: o PCP, que insiste em reduzir este momento a uma "epidemia". Confesso que não percebi ainda esta deriva. Esperaria muito mais uma posição de defesa do trabalho, uma exigência extrema de medidas de protecção sanitária à mão-de-obra. Uma ofensiva contra as hipotéticas tentativas do capital (e do Estado) de manter o afã pelo lucro, pela actividade laboral, em detrimento da reprodução física e social da classe trabalhadora. Enfim, alguma coisa terei que ler para perceber este aparente flanar do PCP diante da era covídica;
 
e um núcleo alargado da direita democrática, extremado na afirmação do histrionismo mundial, num frenético "no pasa nada" nisto do Covid-19, como se tudo seja um mito, um exagero. Não se trata, como foi afirmado no início deste período, de "liberalismo epidemiológico": de facto, internacionalmente os oponentes à retracção sanitária foram o marxista nicaraguense, o fascista brasileiro, o mercantilista americano, o brejnevista bielorusso e a social-democracia sueca. Parece-me evidente que a refutação dos perigos desta pandemia alimentou-se da simpatia (até indita) por Trump e Bolsonaro, mas o charme discreto da monarquia burguesa sueca veio-se a impor como legitimador. No entanto, o rei Carlos Gustavo já lhes tirou o argumento, numa autocrítica decerto que penosa.
 
Entretanto o mundo contrai-se, procurando que o céu não nos caia em cima da cabeça. Há exageros, lusos e alhures? Há. Por cá houve e há medidas mal tomadas, e muito comportamento errático? Sim. Muita demogogia estatal? Há. E, talvez pior do que tudo, pressupostos ideológicos estatistas minoraram a resposta abrangente a esta pandemia? Parece-me bem que sim.
 
Mas criticar derivas e engasganços é uma postura. Outra é este afã avesso às preocupações. Até pessoalmente sinto como agressões estes discursos (quotidianos, repito) que negam a pertinência de cuidados extremos. A minha mãe findou a sua vida enclausurada face ao perigo, verdadeiramente letal, desta doença. A minha filha contraíu a doença, estando longe, o que exponenciou os meus cuidados. E habita onde surgiu a nova estirpe, dita de maior agressividade sobre os jovens. E há os restantes familiares, septuagenários alguns. E os amigos próximos, que vimos de biografias nada ascéticas. E nisto há que conviver com os tipos que insistem (repito, quotidianamente) "no pasa nada".
 
Têm todo o direito a isso, liberdade de opinião acima de tudo. Mas nos últimos dias há uma alteração nos seus ditos - uma vera involução. Pois leio vários apelando a que não nos vacinemos. Já não se trata de uma visão diferente, crítica e legítima. Nisso até salutar. Mas o apelo a uma resistência a uma política sanitária que não aparenta ter algum efeito negativo. Apenas porque ... Um mero finca-pé. Um não dar o braço a torcer.
 
Ao fim deste horrível 2020 estou cansado. Olho para estes doutorzecos, aparentes "liberais", os anti-vacinas de agora, mero capim. E digo-lhes "desnasçam" - e para quem não perceba o termo imagine o que seria preciso para alguém desnascer. E verbalize esse hipotético acto no mais rústico do léxico português.
 
Entretanto por aqui irei apagar das minhas ligações-FB (não bloquear, atenção, que isso é censura inadmissível, apenas apagar) todos os filhosdeputa que por aqui andam a apelar a que não nos vacinemos. E com desprezo dizendo-lhes, insisto, "desnasce, pá!".

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(Bruxelas)

O que está acima, imagem e legenda, é um postal que deixei abandonado em rascunho na Páscoa de 2019, aquando dos terríveis atentados no Sri Lanka e a propósito das comunicações de Barak Obama e Hillary Clinton, então lamentando os atentados aos "adoradores da Páscoa". O dístico toponómico é de uma rua de Bruxelas que me chamara a atenção - e tem uma origem bem prosaica, sem pingo de "manifesto", pois apenas ecoando a história mais ou  menos mítica dos rituais religiosos locais, para além de ter uma versão francófona algo incorrecta. Mas recupero-o nesta quadra cristã, religiosa e cultural. Não tenho agora grande paciência para elaborações "globalizantes" sobre este folclore "interseccionalista" que está na moda, decerto que já candidato a "património intangível" da UNESCO, entre ranchos de "cante", "caretos" e agitadores de "chocalhos". Entre o qual tais "homens cristãos", cultuais ou meros culturais, são sempre pontapeados em detrimento de outros cultos, esses sim sacralizados. E, já agora, por ali ou acolá, erradicados quando não dizimados. Face ao silêncio propagandístico, académico e subsidiado. Ambiente de anuência que é, com toda a certeza, refracção do nosso complexo de culpa. Cristão. Ateu cristão.

 

cartaz natal 1918.jpg

Natal de 1918! Já então os mitos para criarem a sensação de "falsa segurança".

(Claro, é Dezembro, a rapaziada já esqueceu as parvoíces das incompetentes. Sim, é Natal, a rapaziada já perdoou as incompetências das parvas ... Ou seja, a todos desejo um Santo e Estuporado Natal.)

(excerto da entrevista de Tiago Mayan Gonçalves à RTP, captado na página FB da Iniciativa Liberal)

Temos sete candidatos às presidenciais. 3 populistas, 3 ideológicos. O populismo melífluo de Sousa, sobrevoando partidos e ideologias no desnudado rogaçar das boas gentes populares; o desaustinado de Gomes, num "eles" "são todos iguais", excepto "eu e alguns poucos dos "meus"; e o mariola de Ventura, avesso à ciganada e coisas assim, que soem bem a quem está cansado com o "estado da arte" mesmo que nem o perceba. 
 
Nos ideológicos temos o comunista Ferreira, que me dizem ser bem apessoado (e me afiançam ser um "ortodoxo" ainda que júnior); a social-democrata Matias, que eu digo ser bem apessoada; e o liberal Tiago Mayan Gonçalves - que me parece ter estado bem nesta entrevista (só vi este excerto). E no qual vou votar, se é que esta informação interessa a alguém ... E há um outro que não sei o que seja, vem de Rans, é povo - ou seja, não é delfim de Caetano, assim ungido, não é ex-embaixador, não é delfim de delfim de Cunhal, não é escolhido por velhas elites políticas, nem vem da "Foz" -  e teve imensos votos nas últimas eleições.
 
Adenda: anteontem almocei com gente que me é muito querida. Um dos presentes sorriu quando eu anunciei esta minha intenção de voto, dada a reduzida votação que as sondagens anunciam para Mayan Gonçalves ... E depois disse-me que iria votar em Ferreira ... "É mais ou menos o mesmo, não é?" sorri de volta. "Pois ..." percebeu ele, aquilo da questão numérica. E rimos.
 
(Claro que depois chorarei. Quando vir o vil candidato do BES reeleito. Não por ele. Mas pela pobreza mental que isso mostra do meu país. O início de XXI em Portugal? Sócrates & Sousa e sua gente. Que miséria!)

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