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Nenhures

Domingo nebuloso, partes chuvoso, estou com a Margot, ela sempre rainha, sós de mão dada, soa a canção de sempre, a "nossa", em ininterrupto "vira o disco e toca o mesmo". Vou até ao muro, iço-me para espreitar o mundo, estes que ali vão, mais as vacinas e o resto, sinto-me " mr. Jimmy", escorrego no musgo, arroto um "que se fodam", olho para a Margot, que já foi linda, húmida e segue já velha, seca, sem-sentido. E troco-a por uma nova. Pois sei-a(s) barata(s).

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Estreei-me na Netflix, com este "Irlandês" de Scorsese. Muitíssimo gostei. Senti-me como se estivesse, agora, a assistir a um concerto dos Rolling Stones. Pior dia blogal de sempre: avisam-me que ataquei alguém que já não está bem. Logo emendo mas não se apaga a maldade, mesmo que involuntária. Muito tenho pensado nisso, como a exposição das redes sociais - e mais o FB, que é de nós-velhos - acolhe(rá) as nossas demências progressivas. Há muito que me cuidei, todas as senhas das minhas contas digitais estão com querida amiga, mana mesmo, co-bloguista: se me der o badagaio apagará tudo em todas. E se eu for perdendo (ainda mais) o tino, idem. Aqui na zona tem faltado a lenha - cá em casa há com fartura. Mas chegou agora o zimbro. O velho fornecedor é uma simpatia, ama e sabe de madeira como nunca vi. Meia hora de conversa sobre o assunto, pois ele está atarefado. Lá para a primavera falaremos mais repousadamente. O Presidente anunciou o óbvio, que o confinamento está para meses, a pandemia para o ano. E exigiu melhorias nas práticas do povo. E dos poderes. Tarde piou - mas ainda assim muitos dos seus recentes eleitores deverão estar amofinados. Principalmente os prostitutos que clamam "Super Marta" à Temido em plena semana em que Portugal é - e de longe - o pior país do mundo nisto do Covid. Escumalha de gente - são, bloguista sabe, a mesma imunda cáfila que apoiou Sócrates até mesmo ao fim da sua "narrativa". Execráveis: "Super Marta"? Energúmenos. Nem suicidários, meros criminosos de delito cívico ... Leio uma pérola, "Culatra: Uma Ilha Com Gente Dentro", de Ana Cristina Leonardo, por 3 euros um livrinho de bolso com a história da ilhota - por coincidência um povoamento começado por um confinamento sanitário, uma fuga a peste magrebina em início de XVI. Quem vá ao Pingo Doce que o compre. A ideia de meses confinado deprime. Em Março era novidade e foi peito feito, com filha ao lado. E pus-me a ler e a escrever sobre o Covid: poucos leram mas aliviou-me. Agora? Reescrevo sobre Niassa, inutilidade pura. Ânimo quebrado: mortes súbitas e precoces de queridos amigos, infecções em vários outros. Como aguentar isso e ombrear nas perdas? O celibato de cinquentão torna-se hábito, um tipo vira urso - mas não "bear", atenção, que isso é coisa lá daqueles. Mas é défice, um tipo sozinho com quem embirra? Pois não se pode embirrar com os amigos, não é másculo. Com eles um tipo zanga-se. E depois partilha vinho ou uísques para amainar a coisa. Mas assim embirrar com quem? Deveria meter um anúncio na gazeta local, "cavalheiro, recentemente regressado ao país, procura senhora economicamente independente para relação séria". Mas já não há gazetas! As vísceras andam mal, achaques de homem, acho que terei que me desconfinar até ao Centro de Saúde, cem kms disso. Releio mais algumas crónicas de Artur Portela (Filho, como o foi até ser avô), no "A Funda 3", textos de 1972-3. Até arrepia a sua actualidade. O meu pai morreu asfixiado. Velho mas asfixiado. O meu avô paterno morreu asfixiado. Velho mas asfixiado. It runs in the family? O Liverpool de Klopp joga muito mais do que o Tottenham de Mourinho. Mas aquele Ndombèlé, em quem nunca reparara, é um belíssimo jogador.

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A chuvada eleitoral de domingo, com o sucesso do Prof. Ventura, demonstrou a pertinência da velha máxima "o que é preciso é que se fale, mesmo que seja ... bem". Recordo o que já resmunguei: catapultado como "voz televisiva do Benfica" e, depois, "enfant terrible" de Loures, Ventura chegou aos 60 mil votos e foi resvés eleito deputado em 19. Breves minutos depois da sua eleição a então também nóvel deputação do Livre celebrou o seu sucesso eleitoral alcandorando-o a adversário fundamental, dando-lhe eco, sublinhando-o reforçando-o, como mera forma de se reclamar paladina do "antifascismo". Forma de encapuçar a estreiteza da agenda política própria e, acima de tudo, de ocupar espaço à "esquerda", onde o palanque legitimador do "antifascismo" vem sendo - e com legitimidade histórica, diga-se - ocupado pelo PCP e pelo PS. E de nisso também se apartar do BE, ao qual acabara de subtrair basto eleitorado e, também por esse novo estatuto "antifascista" reclamado, imensa atenção mediática. Pois a imprensa lisboeta, muito "gauchiste", assumiu com frenesim este novo conflito entre unideputações, novidade bem mais apetecível do que os já monótonos acintes entre os "big five".

Depois foi o que foi: Ventura soube afrontar os ideais dominantes da imprensa sem com isso a afastar; enquanto a disparatada Moreira a afastou de vez, não só pelo seu patético conflito com o "pós-stasiano" Tavares mas, acima de tudo, pelo dislate de chamar a polícia para se proteger das perguntas da imprensa, arrogância - dela e do seu assessor dos saiotes - nunca vista na democracia portuguesa. Resultado: a imprensa democrática não lhe liga, condenando-a um silêncio revelador da sua essência, mero apêndice de um PS tacticista. Enquanto persegue, enlevada, um Ventura que seguiu rampante, capitalizando as antipatias recebidas.

O disparatismo dos "bem-pensantes" urbanos mostra-se ainda mais no rescaldo das eleições presidenciais. Leio inúmeras declarações de nojo pelos compatriotas que se (a)venturaram - na senda das declarações do grande maître à penser Malato. Vão tal e qual, estes ululantes perdigoteiros, o prof. Ventura quando fala de ciganos. Como a parvoíce - que terá evidente substrato publicitário - da organização do festival Amplifest 2021 que anuncia  não querer como espectadores quaisquer votantes do Chega. Ou, pior ainda, a recepção jubilosa de alguns textos mais desequilibrados que surgem nas redes sociais, invectivando os recém-eleitores do Chega.

Para além da indecência e da parvoíce de muitas destas reacções, o seu fundo, consciente ou inconsciente, é traçar uma "cerca sanitária" vs. Chega, para a qual será necessário traçar uma população a encerrar, o "Eleitor Chega", e demonizá-la. De facto, "queimá-la" (simbolicamente, espera-se) e ostracizá-la (moralmente). Daí o afã em traçar-lhe, o mais lesto possível, um perfil unívoco: os tipos da "direita", aliás PSD/CDS; os alentejanos do PCP, como muitos referem - ainda que, de facto, o PCP não domine o Alentejo há já bastante tempo, mas tendo ali um peso eleitoral maior do que alhures.

O que me parece óbvio é que Ventura colhe votos em vários sectores - talvez não tanto no eleitorado PS, mais sociologicamente repousado. Antes do Natal jantei com amigo emigrado, cinquentinha viajado e culto, classe média, e que se situa naquilo a que os democratas chamam "centro-direita" e a esquerda revolucionária amiúde apelida(va) de "fascista". Ou seja, é um fluído apoiante do CDS. Dizia-nos ele, algo estupefacto naquela visita anual à "Pátria Amada", que "na minha família só eu e o meu pai é que não apoiamos o Chega", e avançava, até desencantado, que lhe era agora óbvio que todos esses seus parentes "não têm vínculo com a democracia", "são saudosistas do Salazar" ainda que sempre tivessem sido eleitores de CDS e PSD, até consoante os momentos.

Este é um detalhe, individual, que pode ilustrar os bons resultados de Ventura em alguns locais urbanos, como as zonas mais favorecidas da "Linha" - que é a que aludo aqui. Ao mesmo tempo, e porque estou em Palmela, mostro os resultados de um universo que não é alentejano rural e que mostra como num eleitorado que vota basto à esquerda, Ventura surge com bons resultados. Significará o que deveria ser evidente: que as pessoas votam consoante o tipo de eleições e consoante as mensagens que querem enviar ao poder - flutuando muito mais do que os ideologizados jornalistas, empenhados intelectuais públicos ou mesmo os meros drs. locutores nas redes sociais (como este jpt).

Ou seja, houve meio milhão de pessoas que decidiram ir votar num tipo que apareceu há pouco mais de um ano e que foi insuflado pela imprensa lisboeta e pelos movimentos demagógicos de extrema-esquerda. É uma amálgama de nossos vizinhos, que o fizeram por uma série diversa de razões. E decerto que o terão feito também devido à grande máxima da política: "o que parece é!". E tudo isto parece que está mal. Pode até nem estar tão mal como parece. Mas parece estar bastante mal. E feder. E o melhor seria reflectir sobre o "estado da arte" e sobre as formas de "exposição" dessa "arte". E não, nunca, isto de andar a demonizar os nossos vizinhos, co-fregueses. 

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Meio milhão de votos! No "inominável"?, no " coiso", como lhe chamam os "verdadeiros democratas" fervilhantes nas redes sociais? Serão assim meio milhão d'"inomináveis", de "coisos"?
 
Ontem na SIC 2 próceres "comentavam", "fazendo a cabeça" da turba burguesa telespectadora: o advogado Júdice (a que propósito tem ele aquele tão grande palanque?) e o Prof. Louçã (que mente sobre propostas da IL e não se retracta; que diz gostar a Alemanha disto do Covid porque ganha com a crise; com estes ditos, a que propósito é que esta aldrabismo básico tem tamanho palanque ...?). Nisso conclui então Louçã, mui assertivo, que os votos em Ventura lhe chegavam directamente do PSD e CDS, a direita... (agora já "democrática", candidata Gomes dixit, mesmo que " liberal" ainda lhe venha igual a Pinochet).
 
Então lembro-me de Palmela: não é um ermo alentejano calcorreado por hordas nómadas da "etnia cigana" (agora diz-se assim). Mas Vale do Tejo, urbano. De onde, das cercanias do seu "castelo altaneiro", se vê Lisboa. Câmara do PCP (+9000 em 2017), secundado por PS (+6000), onde PSD/CDS unidos valeram ... +2000. Comparai com os votos de ontem. Quereis o Alentejo das tais míticas hordas, o "profundo"? Deixo como exemplo o belo Alandroal.
 

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Grandes transferências de eleitores nunca são iguais. Mas há tendências (e a França é um bom modelo, ajuda a pensar), basta ler. Ou então não se leia, ouça-se a ladainha reconfortante a la Louçã.
 
Eu tenho uma explicação para os resultados eleitorais de ontem, em particular para a ascensão do prof. Ventura: foi um "downburst". Bastará chamar um director da PJ para identificar a Árvore assassina. E tudo ficará bem. Sem "coiso" "inominável".

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Muito aprendo hoje, na leitura matinal dos sub-textos na imprensa e dos textos nas rede Facebook. Apreendo assim que "Pensar Bem" sobre política, ser "educado" ("ilustrado"), culto, democrata, reflexivo significa isto: se os compatriotas votam no brejnevista Cunhal, no berlingueriano Carvalhas, no honeckerista Sousa, se se agregam sindicalmente sob um deslumbrado ceausesquiano Judas ou um quase-titista Silva, são massas desalienadas em luta pelos seus direitos. Se tantos desses mesmos compatriotas de repente votam num Rolão Preto modo boçal? Passam a ser uns broncos. Básicos. Até deslavados.
 
Quando for grande quero ser assim Culto. Democrata. E "Ilustrado". E desse modo Feliz comigo-mesmo, claro.

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