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Nenhures

Nenhures

Hoje (1)

Domingo nebuloso, partes chuvoso, estou com a Margot, ela sempre rainha, sós de mão dada, soa a canção de sempre, a "nossa", em ininterrupto "vira o disco e toca o mesmo". Vou até ao muro, iço-me para espreitar o mundo, estes que ali vão, mais as vacinas e o resto, sinto-me " mr. Jimmy", escorrego no musgo, arroto um "que se fodam", olho para a Margot, que já foi linda, húmida e segue já velha, seca, sem-sentido. E troco-a por uma nova. Pois sei-a(s) barata(s).

Ontem (1)

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Estreei-me na Netflix, com este "Irlandês" de Scorsese. Muitíssimo gostei. Senti-me como se estivesse, agora, a assistir a um concerto dos Rolling Stones. Pior dia blogal de sempre: avisam-me que ataquei alguém que já não está bem. Logo emendo mas não se apaga a maldade, mesmo que involuntária. Muito tenho pensado nisso, como a exposição das redes sociais - e mais o FB, que é de nós-velhos - acolhe(rá) as nossas demências progressivas. Há muito que me cuidei, todas as senhas das minhas contas digitais estão com querida amiga, mana mesmo, co-bloguista: se me der o badagaio apagará tudo em todas. E se eu for perdendo (ainda mais) o tino, idem. Aqui na zona tem faltado a lenha - cá em casa há com fartura. Mas chegou agora o zimbro. O velho fornecedor é uma simpatia, ama e sabe de madeira como nunca vi. Meia hora de conversa sobre o assunto, pois ele está atarefado. Lá para a primavera falaremos mais repousadamente. O Presidente anunciou o óbvio, que o confinamento está para meses, a pandemia para o ano. E exigiu melhorias nas práticas do povo. E dos poderes. Tarde piou - mas ainda assim muitos dos seus recentes eleitores deverão estar amofinados. Principalmente os prostitutos que clamam "Super Marta" à Temido em plena semana em que Portugal é - e de longe - o pior país do mundo nisto do Covid. Escumalha de gente - são, bloguista sabe, a mesma imunda cáfila que apoiou Sócrates até mesmo ao fim da sua "narrativa". Execráveis: "Super Marta"? Energúmenos. Nem suicidários, meros criminosos de delito cívico ... Leio uma pérola, "Culatra: Uma Ilha Com Gente Dentro", de Ana Cristina Leonardo, por 3 euros um livrinho de bolso com a história da ilhota - por coincidência um povoamento começado por um confinamento sanitário, uma fuga a peste magrebina em início de XVI. Quem vá ao Pingo Doce que o compre. A ideia de meses confinado deprime. Em Março era novidade e foi peito feito, com filha ao lado. E pus-me a ler e a escrever sobre o Covid: poucos leram mas aliviou-me. Agora? Reescrevo sobre Niassa, inutilidade pura. Ânimo quebrado: mortes súbitas e precoces de queridos amigos, infecções em vários outros. Como aguentar isso e ombrear nas perdas? O celibato de cinquentão torna-se hábito, um tipo vira urso - mas não "bear", atenção, que isso é coisa lá daqueles. Mas é défice, um tipo sozinho com quem embirra? Pois não se pode embirrar com os amigos, não é másculo. Com eles um tipo zanga-se. E depois partilha vinho ou uísques para amainar a coisa. Mas assim embirrar com quem? Deveria meter um anúncio na gazeta local, "cavalheiro, recentemente regressado ao país, procura senhora economicamente independente para relação séria". Mas já não há gazetas! As vísceras andam mal, achaques de homem, acho que terei que me desconfinar até ao Centro de Saúde, cem kms disso. Releio mais algumas crónicas de Artur Portela (Filho, como o foi até ser avô), no "A Funda 3", textos de 1972-3. Até arrepia a sua actualidade. O meu pai morreu asfixiado. Velho mas asfixiado. O meu avô paterno morreu asfixiado. Velho mas asfixiado. It runs in the family? O Liverpool de Klopp joga muito mais do que o Tottenham de Mourinho. Mas aquele Ndombèlé, em quem nunca reparara, é um belíssimo jogador.

A chuvada eleitoral

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A chuvada eleitoral de domingo, com o sucesso do Prof. Ventura, demonstrou a pertinência da velha máxima "o que é preciso é que se fale, mesmo que seja ... bem". Recordo o que já resmunguei: catapultado como "voz televisiva do Benfica" e, depois, "enfant terrible" de Loures, Ventura chegou aos 60 mil votos e foi resvés eleito deputado em 19. Breves minutos depois da sua eleição a então também nóvel deputação do Livre celebrou o seu sucesso eleitoral alcandorando-o a adversário fundamental, dando-lhe eco, sublinhando-o reforçando-o, como mera forma de se reclamar paladina do "antifascismo". Forma de encapuçar a estreiteza da agenda política própria e, acima de tudo, de ocupar espaço à "esquerda", onde o palanque legitimador do "antifascismo" vem sendo - e com legitimidade histórica, diga-se - ocupado pelo PCP e pelo PS. E de nisso também se apartar do BE, ao qual acabara de subtrair basto eleitorado e, também por esse novo estatuto "antifascista" reclamado, imensa atenção mediática. Pois a imprensa lisboeta, muito "gauchiste", assumiu com frenesim este novo conflito entre unideputações, novidade bem mais apetecível do que os já monótonos acintes entre os "big five".

Depois foi o que foi: Ventura soube afrontar os ideais dominantes da imprensa sem com isso a afastar; enquanto a disparatada Moreira a afastou de vez, não só pelo seu patético conflito com o "pós-stasiano" Tavares mas, acima de tudo, pelo dislate de chamar a polícia para se proteger das perguntas da imprensa, arrogância - dela e do seu assessor dos saiotes - nunca vista na democracia portuguesa. Resultado: a imprensa democrática não lhe liga, condenando-a um silêncio revelador da sua essência, mero apêndice de um PS tacticista. Enquanto persegue, enlevada, um Ventura que seguiu rampante, capitalizando as antipatias recebidas.

O disparatismo dos "bem-pensantes" urbanos mostra-se ainda mais no rescaldo das eleições presidenciais. Leio inúmeras declarações de nojo pelos compatriotas que se (a)venturaram - na senda das declarações do grande maître à penser Malato. Vão tal e qual, estes ululantes perdigoteiros, o prof. Ventura quando fala de ciganos. Como a parvoíce - que terá evidente substrato publicitário - da organização do festival Amplifest 2021 que anuncia  não querer como espectadores quaisquer votantes do Chega. Ou, pior ainda, a recepção jubilosa de alguns textos mais desequilibrados que surgem nas redes sociais, invectivando os recém-eleitores do Chega.

Para além da indecência e da parvoíce de muitas destas reacções, o seu fundo, consciente ou inconsciente, é traçar uma "cerca sanitária" vs. Chega, para a qual será necessário traçar uma população a encerrar, o "Eleitor Chega", e demonizá-la. De facto, "queimá-la" (simbolicamente, espera-se) e ostracizá-la (moralmente). Daí o afã em traçar-lhe, o mais lesto possível, um perfil unívoco: os tipos da "direita", aliás PSD/CDS; os alentejanos do PCP, como muitos referem - ainda que, de facto, o PCP não domine o Alentejo há já bastante tempo, mas tendo ali um peso eleitoral maior do que alhures.

O que me parece óbvio é que Ventura colhe votos em vários sectores - talvez não tanto no eleitorado PS, mais sociologicamente repousado. Antes do Natal jantei com amigo emigrado, cinquentinha viajado e culto, classe média, e que se situa naquilo a que os democratas chamam "centro-direita" e a esquerda revolucionária amiúde apelida(va) de "fascista". Ou seja, é um fluído apoiante do CDS. Dizia-nos ele, algo estupefacto naquela visita anual à "Pátria Amada", que "na minha família só eu e o meu pai é que não apoiamos o Chega", e avançava, até desencantado, que lhe era agora óbvio que todos esses seus parentes "não têm vínculo com a democracia", "são saudosistas do Salazar" ainda que sempre tivessem sido eleitores de CDS e PSD, até consoante os momentos.

Este é um detalhe, individual, que pode ilustrar os bons resultados de Ventura em alguns locais urbanos, como as zonas mais favorecidas da "Linha" - que é a que aludo aqui. Ao mesmo tempo, e porque estou em Palmela, mostro os resultados de um universo que não é alentejano rural e que mostra como num eleitorado que vota basto à esquerda, Ventura surge com bons resultados. Significará o que deveria ser evidente: que as pessoas votam consoante o tipo de eleições e consoante as mensagens que querem enviar ao poder - flutuando muito mais do que os ideologizados jornalistas, empenhados intelectuais públicos ou mesmo os meros drs. locutores nas redes sociais (como este jpt).

Ou seja, houve meio milhão de pessoas que decidiram ir votar num tipo que apareceu há pouco mais de um ano e que foi insuflado pela imprensa lisboeta e pelos movimentos demagógicos de extrema-esquerda. É uma amálgama de nossos vizinhos, que o fizeram por uma série diversa de razões. E decerto que o terão feito também devido à grande máxima da política: "o que parece é!". E tudo isto parece que está mal. Pode até nem estar tão mal como parece. Mas parece estar bastante mal. E feder. E o melhor seria reflectir sobre o "estado da arte" e sobre as formas de "exposição" dessa "arte". E não, nunca, isto de andar a demonizar os nossos vizinhos, co-fregueses. 

As verdadeiras causas do sucesso eleitoral do prof. André Ventura

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Meio milhão de votos! No "inominável"?, no " coiso", como lhe chamam os "verdadeiros democratas" fervilhantes nas redes sociais? Serão assim meio milhão d'"inomináveis", de "coisos"?
 
Ontem na SIC 2 próceres "comentavam", "fazendo a cabeça" da turba burguesa telespectadora: o advogado Júdice (a que propósito tem ele aquele tão grande palanque?) e o Prof. Louçã (que mente sobre propostas da IL e não se retracta; que diz gostar a Alemanha disto do Covid porque ganha com a crise; com estes ditos, a que propósito é que esta aldrabismo básico tem tamanho palanque ...?). Nisso conclui então Louçã, mui assertivo, que os votos em Ventura lhe chegavam directamente do PSD e CDS, a direita... (agora já "democrática", candidata Gomes dixit, mesmo que " liberal" ainda lhe venha igual a Pinochet).
 
Então lembro-me de Palmela: não é um ermo alentejano calcorreado por hordas nómadas da "etnia cigana" (agora diz-se assim). Mas Vale do Tejo, urbano. De onde, das cercanias do seu "castelo altaneiro", se vê Lisboa. Câmara do PCP (+9000 em 2017), secundado por PS (+6000), onde PSD/CDS unidos valeram ... +2000. Comparai com os votos de ontem. Quereis o Alentejo das tais míticas hordas, o "profundo"? Deixo como exemplo o belo Alandroal.
 

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Grandes transferências de eleitores nunca são iguais. Mas há tendências (e a França é um bom modelo, ajuda a pensar), basta ler. Ou então não se leia, ouça-se a ladainha reconfortante a la Louçã.
 
Eu tenho uma explicação para os resultados eleitorais de ontem, em particular para a ascensão do prof. Ventura: foi um "downburst". Bastará chamar um director da PJ para identificar a Árvore assassina. E tudo ficará bem. Sem "coiso" "inominável".

As causas do sucesso eleitoral de André Ventura

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Muito aprendo hoje, na leitura matinal dos sub-textos na imprensa e dos textos nas rede Facebook. Apreendo assim que "Pensar Bem" sobre política, ser "educado" ("ilustrado"), culto, democrata, reflexivo significa isto: se os compatriotas votam no brejnevista Cunhal, no berlingueriano Carvalhas, no honeckerista Sousa, se se agregam sindicalmente sob um deslumbrado ceausesquiano Judas ou um quase-titista Silva, são massas desalienadas em luta pelos seus direitos. Se tantos desses mesmos compatriotas de repente votam num Rolão Preto modo boçal? Passam a ser uns broncos. Básicos. Até deslavados.
 
Quando for grande quero ser assim Culto. Democrata. E "Ilustrado". E desse modo Feliz comigo-mesmo, claro.

O Grande Eleitor de Celorico de Basto

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No mural de Facebook de uma prezada co-bloguista encontrei, nesta madrugada, uma pérola que aqui transcrevo: 

Há 4 ou 5 dias disse António Costa: "Devem ser muito raras as excepções das pessoas que estão, violando a lei, recenseadas fora do seu local de residência, mas admito que haja pessoas que tenham mudado de casa recentemente e, portanto, ainda não estejam devidamente actualizadas". 

Hoje [ontem], em todos os noticiários: Marcelo Rebelo de Sousa chega "a casa" depois de ter votado em Celorico de Basto."

E assim vamos. Esta ilegalidade por parte de um Presidente da República seria totalmente inaceitável em qualquer momento. No meio de um confinamento, em situação sanitária tão gravosa, torna-se mesmo um insulto vil. Ao regime e ao povo. Mas todos olham para o lado, como quem não quer a coisa ... O único tino está em Rans, não há qualquer dúvida.

Declaração de voto

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Mesas de voto

Tendo madrugado fui votar logo na alvorada eleitoral. Apesar das décadas passadas tão longe faço-o ainda no local de sempre, a escola nas traseiras da casa onde cresci e na qual sigo hoje envelhecendo, em tempos chamada “Damião de Góis” e agora abarcada por uma qualquer sigla C+S, amputação onomástica que presumo devida à tomada de consciência estatal da malévola colonialidade eurocêntrica daquele intelectual, nunca denunciante do escravismo e do racismo seus coevos.

Fui assim um dos primeiros eleitores presentes, percorrendo os pequenos corredores frios e vazios daquele edifício acabrunhado, que já este século veio substituir os imundos pavilhões pré-construídos que ali decorreram décadas sob estatuto de “provisórios”. Enfim, direito cívico e momento de nostalgia correram-me lestos e aprestei-me a regressar a casa. Mas ia eu nesse propósito e ali mesmo fui captado por uma vizinha. Do meu prédio, das mais novas da geração dos meus pais, os povoadores dos Olivais, aportados no final da década de 1960s. Esta ainda septuagenária, e activa, agora figurando na organização do dia eleitoral. Enérgica e atenta, pois cooptando-me, convocando-me a integrar as mesas de voto, às quais muitos dos membros agendados haviam faltado.

Tentei escapar mas era-me difícil, embatucado com o que senti como um tal de dever de cidadania - e logo comigo que passo a vida a resmungar sobre política. E tendo já trabalhado em várias eleições no estrangeiro, como assim negar-me a fazê-lo na minha “Pátria Amada”, e mesmo à porta de casa? Ainda assim, com alguma falta de pudor, ainda tartamudeei, em desespero de causa, “ainda nem comi, nem bebi café, estou meio azamboado”, nisso procurando razão suficiente para me escapulir. Hábil estratega, a vizinha não vacilou, “vai lá tomar o pequeno-almoço e volta rápido”. E assim fiz, cerviz dobrada, acorri ao meu “Arcadas”, a pastelaria de sempre, à bica dupla, a resmungar ao Sô João “veja lá o que me aconteceu, vou passar o dia ali encerrado” e ele sorridente, “vá e depois venha com boas notícias”. E eu, desalentando-nos, “não virei, decerto que os gajos vão ganhar isto”. E “para mal dos nossos pecados”, acrescentei, ateu. No que anuiu ele… Risonho, telefonei ainda à minha mana a narrar-lhe a armadilha em que caíra, e ela sossegou-me em definitivo: “o pai ficaria muito contente, até muito tarde sempre foi para as mesas…”, e é verdade – como delegado do Partido, claro, que nesses tempos ainda tal havia. E se o pai ia como posso eu negar-me?

Assim lá segui até à escola. À entrada identifiquei-me a uma jovem da Junta da Freguesia, cujos óculos e atitude davam ares de encarregada - deixando o meu rol de contactos, como se garantindo-me honesto - e dirigiram-me a uma mesa de voto. Ali me apresentaram como membro avulso, voluntário, e me empossaram como segundo secretário, condição na qual passei o dia a conferir cadernos de votantes ordenados alfabeticamente e, mais tarde, a contar o que haviam eles feito. Para isso integrei uma equipa de simpáticos olivalenses, eficientes e entusiastas daquilo, todos veteranos da poda eleitoral: três deles haviam feito todas as eleições desde os anos 1980, e a mais nova – filha da presidente da mesa, por coincidência - fazia-as desde há uma década. Surpreendi-me, questionei como era isso possível, qual o sistema que os integra desse modo? Que basta as pessoas inscreverem-se para este efeito na Junta de Freguesia, afiançaram-me.

Acabou por ser um dia interessante, muito também pela eficiência, tarimbada, daqueles parceiros, tanto na votação como na contagem. Cabiam naquela mesa 1000 eleitores, entre Luíses e Marias P’s, consistindo, dada a área coberta, e ainda que naquele bairro tão compósito, num nicho da pequena-burguesia – o em torno do Centro Comercial dos Olivais, para quem conheça a zona. População muito envelhecida, eleitores até nonagenários, imensos octogenários, feixes de septuagenários, escassíssimos jovens, raríssimos mesmo (e quase todos “Marco”s, já agora…), e a aparecerem em grande número, muitos até compenetrados no acto. Fui vendo o desfilar do eleitorado geronte, com carinho mas também remoendo “como pensar numa reviravolta disto tudo com estes votantes?”. Voto muito conservador, presumi primeiro e depois contei-o… Comprovando-me pois ali brilhou, resplandecente, o dr. Costa e seguiu-se, menos trôpego do que alhures, o dr. Rio.

Mas também me diverti, na quantidade de caras conhecidas que ali aportavam: amigos de agora (“estás aqui Zezé?”, “até logo” para a imperial de rescaldo), amigos de antes, da saudosa juventude de bairro, colegas do secundário – e algumas delas ainda em muito bom estado, clamava o sátiro utópico em mim aboletado -, vizinhos de rua e bairro, pais e mães (muito mais mães, claro, que os homens já as enviuvaram) de amigos, e nisso uma catadupa de lembranças para a minha mãe Marília, então já abstencionista. Surpreendidos seguiam os meus parceiros de mesa, com a rapidez com que eu identificava tantos nomes nos cadernos, pois quantas vezes me bastava ver assomar o eleitor e sabia-lhe o nome… “dá muito jeito ter alguém da área”, sorriam simpáticos. Senti-me assim, como nunca, um verdadeiro freguês, um vizinho ancorado. Agradável, para um ainda – e talvez para sempre – torna-viagem.

Nisto foi chegando a hora do almoço e começámos uma escala, a vez de cada um se ausentar para ir comiscar qualquer coisa. Disse então eu, para a jovem colega ali a meu lado, “seria simpático que a Junta nos trouxesse um lanche … e evitavam-se estas saídas”. E ela, perspicaz, percebeu-me desatento ignorante: “mas olhe que nos pagam!”. Surpreendeu-me, não fazia ideia de que era aquilo trabalho remunerado, suponha-o extremoso voluntariado cívico, coisa, decerto, de ter vivido tantos anos fora. “Pagam-nos?! E quanto?”, “cinquenta e tal euros”, não estava ela certa da quantia, pois fora anunciado um pequeno aumento. E juntou-lhe, mas já em registo “aqui entre nós”: “mas só pagaram as eleições passadas – as europeias, que haviam sido sete meses antes – anteontem. Por isso é que muita gente não veio hoje para as mesas”. Sorri diante daquilo, claro, o costume, apenas mais uma mostra do atrapalhado desrespeito do Estado para com todos nós… E percebi bem melhor este afã dos veteranos eleitorais, decerto que o prazer da participação – notório, afianço -, porventura também espelhando-se como importância própria, por parca que seja, entre vizinhança e parentela. Mas tudo isso bem sublinhado pela jorna, meia centena de euros que será coisa pouca para muitos doutores, mas nada de deitar fora, nada mesmo, para nós-remediados, e isso se nos conseguimos assim manter.

Enfim, tudo correu bem naquele dia. Neste último Dezembro, 14 meses depois, numa manhã cedo fui ao Centro de Saúde dos Olivais, para saber de umas coisas nas entranhas, a ver se me ajudam com tais ardores e pressas. Regressei a casa em passo de peão e nesse calcorrear lembrei-me dos tais 50 euros, os quais nunca recebera e que muito me ajudariam agora a pagar a conta da electricidade – a qual, para o Governo, por não ser um bem essencial não deve ser paga a preço de custo. E assim fiz um pequeno desvio pelas ruas da Encarnação indo até à Junta de Freguesia. Atenderam-me à porta, pandemia oblige. Expliquei à simpática funcionária que ali estava em demanda da minha jorna eleitoral. Surpreendeu-se, pois “já pagámos isso há bastante tempo”. Ainda insisti, em modo de quem quer aparentar de que não precisa do dinheiro para a boca, e narrei as vias acontecidas. “Ah, como o senhor se voluntariou então não recebe, deve ser isso…”. E pronto, agradeci, na pose blasé que desencantei, feito Cidadão Teixeira, e lá segui à minha vida. Como quem nem queria a coisa …

*****

Há onze meses que seguimos ajoujados sob este Covid-19, e há muito que se espera e teme uma nova vaga infecciosa. A qual chegou. Estamos no topo mundial dos fustigados, no pico da pior crise que o país conhece desde há décadas. E o poder político convoca-nos a sair à rua e a visitar ambientes basto-respirados para votar. Durante todos estes meses ninguém no Estado, eleito ou funcionário, pensou em organizar o adiamento das eleições – se necessário ou recomendável. Inépcia, inacção, incompetência. Irrazão.

Em tempos disseram os nossos antepassados “navegar é preciso, viver não é preciso …”. Mas esses eram traficantes, pescadores, descobridores, piratas, soldadagem, todos feitos ou fazendo-se marinheiros de mar alto. Enquanto esta gente de agora é mera equipagem de cabotagem. E mostra-o agora como nunca o fizera…

E quando o nº 2 do Estado, Eduardo Ferro Rodrigues, veterano político, clama que “votar é forma de resistir ao vírus”, apenas ecoa um agora desajustado imaginário, a invocação de actos de corajosa cidadania democrática contra opressões. Para ele, patético, o voto de amanhã, no meio desta crise sanitária, entre contágio desregulado, hospitais apinhados e médicos exauridos, é qual o berro da La Pasionaria, as barricadas da Comuna de Paris, a cadeia do Forte de Peniche, o comício da Fonte Luminosa ou outro qualquer ícone das reclamações democráticas. Não percebe, por seus graves limites intelectuais, a diferença entre votar em condições adversas, durante conflitos ou rescaldos de catástrofes naturais episódicas - como cheias ou terramotos –, mostrando vontade moral, de cidadania, de afirmar a democracia contra adversários e adversidades. E votar agora quando “resistir ao vírus”, estancar a corrente de contágio – de facto, a cidadania democrática - é reduzir ao mínimo o risco de infecções.

Utilizar agora este argumento, este imaginário, é perverso. E boçal. Mas é pior ainda, denotativo da mundivisão de clique política, desencastrada da sociedade, dos seus compatriotas, de Ferro Rodrigues e seus correligionários e colegas políticos, desde a “esquerda revolucionária” até à “direita social”, dos “nacionalistas” aos “cosmopolitas/internacionalistas”.

Pois para suprir a sua incompetente inacção, a sua pobre e trôpega cabotagem, para levar a cabo estas adiáveis eleições, estes possidentes induzem e apelam a milhares destes pequenos fregueses, enrascados remediados, ali também em busca da parca jorna eleitoral – não só mas também, pois escassos serão os doutores bem-postos nas mesas de voto – a acorrerem para acolher centenas de votos depositados nas invernosas salas fechadas. Com hipotéticos sacrifícios sanitários. E, acima de tudo, com angústias morais.

São estes políticos de “esquerda”, do “centro” e da “direita”. E enchem a boca com as suas preocupações com o “povo”.

Amanhã, domingo, não sairei deste Nenhures, não irei de camioneta à capital, à tal C+S que foi “Damião de Góis”, não votarei. Por mim e para sossego daqueles que comigo coabitam. Pois, mesmo que reduzido seja o risco, não é razoável corrê-lo. Deixo sim o meu voto de saúde para todos aqueles que acorrerem para trabalhar nas mesas eleitorais. E o meu desejo que, desta vez, as suas jornas não sejam pagas apenas daqui a uns meses. E, já agora, que paguem também aos voluntários, que vierem a acorrer já em in extremis.

 

Biden

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Tomou posse, com um bom discurso. Tem a minha simpatia. Aprecio-o muito por critérios agora ditos imperiais: é homem, heterossexual e velho como eu. Católico, como a minha mãe. Apesar de ser branco e eu não, é quase da minha espécie ...

De súbito, a vichyssoise

 
Tudo piora, numa crise extrema qual a Itália de Fevereiro. Muito pior, aliás, pois mostra a quem tenha um mínimo de decência que neste último ano o governo foi incapaz de aprender e de preparar a administração e a sociedade para a mais-que previsível nova vaga, num abjecto cúmulo de inépcia e inacção, uma incompetência inenarrável. E há quem, numa abjecta indignidade, ainda os sufrague.
 
Os governantes, para se defenderem, sempre fiéis à ideia de que o importante é "ficarem bem na foto", clamam que afinal a culpa é nossa, da nossa "mentalidade" diz Costa, diz a Temido, essa aberração, dizem os prostitutos do regime, os Seixas da Costa das administrações não executivas, os académicos em busca de "grupos de trabalho", os jornalistas avençados, moles apenas sôfregas das tenças. Miserável gente. Passaram meses a criticar governos nos quais a pandemia mais grassava, o Trump, o Bolsonaro, o Boris, até um pouco os suecos e por aí afora. Agora, aqui? Os governantes estão correctos, o povo não presta ...
 
É a nossa "mentalidade" que está errada? Não foram os portugueses a recuar para casa, encerrando seus filhos, seus mais-velhos, logo em início de Março quando o governo inconsciente continuava a protelar, clamando (a senhora da DGS) contra o encerramento das escolas privadas, apelando (a senhora da DGS) a que visitássemos os lares, afirmando (o PR e o MNE) a impossibilidade do fecho das fronteiras? Augurando (a ministra da agricultura) que agora é que ia ser, o inundar da China com as nossas exportações? É a nossa "mentalidade" que está errada? Não clamámos, tantos de nós, contra os sinais erráticos do poder, do "25 de Abril" não mascarado, das manifestações autorizadas, do avante às festas e aos grandes prémios?, não contestámos que isso implicaria uma aligeirar da concentração diante dos perigos? Não apontámos o desvario (do PR Sousa) na trepidante campanha veraneante, em tronco nu Algarves afora? Onde esteve, estes meses todos, a "mentalidade" do poder, a gravitas, a consciência? A razão? Um poder tonto, é que tivemos, que temos.
 
E Sousa, esse, serve-lhes, aos do governo, a vichyssoise: o governo não se preparou para a terceira vaga, diz o PR. Como se não tivesse qualquer influência no que se passa. Eanes demitiu governos e constituiu os seus, Soares bateu-se com Cavaco, Sampaio demitiu governos maioritários, Cavaco restringiu-se mas em surdina marcou. E este pateta apenas troca de cuecas em público, roça-se, sem pudor, no povo, partilha bolos com os meninos, fotografa-se. E mente.
 
É evidente que foi o social do Natal que catapultou o que se passa. Exaurindo SNS e matando gente. Apesar de tudo houve gente no governo que quis incrementar as restrições nesse período. Inclusive lançou-se uma campanha publicitária (de facto propagandística, propaganda de cidadania): esta "Não deixes entra o vírus" - feita à revelia do inenarrável Ministério da Saúde, para o qual é suficiente deixar um ridículo doutor, de bigode retorcido, a mandar-nos fazer compotas, para re-mobilizar as pessoas diante dos perigos (que melhor ilustração da desvairada cultura das elites da administração pública, dos atrevimentos dos pequenos poderes?). Pois então as opiniões internas eram diversas. E o vosso "Marcelo", o meu abjecto "Sousa", influenciou-os, aos do governo, a animar o Natal, isso pressionou, para proteger tanto o comércio como os "afectos" e "famílias" deste país tão "católico". E, ainda que muitos quiséssemos "não deixar entrar o vírus" no Natal, veio ele (lembrai-vos?), risonho, anunciar que iria fazer várias refeições em família. Quereis maior minar das preocupações, das cautelas? Só se pensar na propaganda do governo, na véspera do Natal a anunciar as vacinas, quais prendas no sapatinho, e a enviar SMS's aos portugueses (aos eleitores, que é só assim que nos percebem, só assim, para isso, contamos). Haverá maior desincentivo para uma "mentalidade" hiper-cautelosa?
 
E vem agora Sousa atirar a vichyssoise aos pacóvios do governo, apontar-lhes a responsabilidade, descartar a caspa que lhe cobre a alma. Os do governo muito merecem e fazem por merecer as deslealdades dos cúmplices. E comem agora do que promovem. O aldrabismo visceral - e, infelizmente, neste caso assassino - do "católico" Sousa.
 
Entretanto, passam-se semanas em negociações, esperando pareceres de infarmeds e umas eleições que ninguém pensou em planificar - nem um boletim de voto apropriado conseguiram fazer, para além do caos das votações antecipadas, sob um ministro tétrico, esse abominável Cabrita. E, ainda que Costa tivesse dito em finais de Abril que tudo faria para nos proteger da pandemia, mesmo que violando a Constituição, nem conseguiram antecipar tudo isto, planificar o adiar das eleições. E dizem-nos, afinal e como se não fosse para eles letal, que não têm tempo para a "revisão constitucional" que seria necessária para esse adiamento. Que andaram a pensar nestes meses? Enfim, todas estas delongas, todas estas "excepções", toda esta abissal disfucionalidade, toda esta "crónica da crise anunciada", tudo isto pela vontade titubeante, nada esclarecida, de querer proteger "interesses". E tudo descamba.
 
Costa não é Sócrates (quer sê-lo quando procura controlar, para ganhos dos seus, o dinheiro europeu, nas manigâncias da ministra Dunem). De facto, Costa mostra-se agora tal e qual é, o pouco que é: um Guterres de segunda, emaranhado nas indecisões e nos tacticismos, na aflição da opção, numa indecisão radical para tudo que ultrapasse o mero jogo de bastidores, esse pouco que julga ser a política. Costa nada é, para além deste desastre evitável.
 
Guterres foi-se quando se levantaram os produtores de vinho, por causa do limite alcóolico dos condutores. Foi-se por uma minudência, a gota de vinho a transbordar o copo. Foi há vinte anos. Ainda havia energia para protestos consistentes.
 
E agora, apenas vinte anos passados, aceitamos este aldrabismo de Sousa, esta atrapalhação de Costa.
 
O país precisa de ventilador.

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