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Nenhures

Nenhures

A carta aberta às televisões e o sindicato dos jornalistas

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Será, até estatisticamente, pacífico dizer que as estratégias estatais para enfrentar o Covid-19 neste corrente Inverno foram um fracasso. Estamos confinados, com os custos económicos e sociais gigantescos presentes e futuros. Mas andámos qual "ilha no topo do mundo" devastado pela doença. E isto depois do "milagre que é Portugal", o sucesso (enfim...) da Primavera passada. Um caso óbvio de "tarde piaram" os possidentes. Nesse âmbito o que acontece? Um conjunto de "cidadãos muito respeitáveis" (como são definidos num editorial algo incomodado de um jornal de "referência"), um feixe da "nobreza de toga", por assim dizer, faz uma "Carta Aberta" insurgindo-se contra: a) a extensão dos telejornais (matéria bem antiga, inscrita na concorrência por audiências, como todos sabem); b) o estilo confrontacional dos entrevistadores televisivos (bem, pelo menos já José Sócrates, aquele político que nenhum destes "cidadãos respeitáveis" criticou em carta pública, manipulava pressões políticas, financiamentos públicos e empresariais para afastar alguns destes "confrontacionistas"); c) a tendência para criticar governo e administração pública, que vem sendo dita antipatriótica. E terminam com: d) a denúncia de agendas políticas subterrâneas e inditas, quais "mão invisível", ligadas ao capital privado mas capazes de poluir o serviço estatal, manipuladoras do jornalismo.

Não elaborarei muito sobre este documento. Pois cada cabeça sua sentença. Mas lembrou-me que, em 2018, o peculiar presidente do Sporting Clube de Portugal, dr. Bruno de Carvalho, na efervescência de uma Assembleia-Geral do clube, lançou o repto a associados e adeptos (o agora dito "Universo Sporting") para que não comprassem jornais nem vissem as televisões (ou seja, não lhes consumissem a publicidade). As reacções foram indignadas, em particular da "classe" (ou "corporação") jornalística. O próprio Sindicato de Jornalistas contestou as declarações desse presidente de uma colectividade desportiva considerada instituição de utilidade, dizendo-as um atentado à liberdade de imprensa. Entenda-se bem, o presidente de um clube disse: "não vejam as estações generalistas, não comprem jornais". E o sindicato notou um atentado à liberdade de imprensa. Isabel Nery, da revista Visão e dirigente sindical, anunciou que o Sindicato recorreria às entidades tutelares em defesa dos profissionais do sector, até mesmo juridicamente, soube-se depois. Explicitando que essa é uma posição estrutural do sindicato pois "estamos a falar de desporto mas se estivéssemos a falar de outra coisa qualquer a posição do sindicato seria idêntica".

Passaram três anos. Surge esta posição intrusiva sobre o jornalismo, que intenta cercear e moldar o espírito crítico, de forma muito mais aguda do que fez o peculiar Carvalho havia feito, e até explicitando serem os jornalistas agentes de agendas inditas, falhos de deontologia. Gente galardoada (Carvalho e Horta são prémio APE, Alice Vieira - viúva de Mário Castrim, caramba, a prestar-se a uma coisa destas! - já tem escola com seu nome, Lourenço é oficial superior e Benavente foi governante, como exemplos). Mas muito mais significativo que isso, alguns dos signatários dirigem actualmente instituições estatais ou articuladas com o Estado - que eu saiba pelo menos Bebiano, Silva, Rodrigues e a "directora do Museu do Aljube que não sabe o que é o Gulag", Rato. Ou seja, altos quadros da administração pública e da sociedade civil convocam alterações no livre-arbítrio jornalístico e explicitamente põem em causa deontologia de largos sectores da classe. E exigem a cessação de críticas ao Governo e à Administração Pública. Enquanto especulam sobre interesses clandestinos aos quais os jornalistas estarão algemados.

E que diz o Sindicato dos Jornalistas sobre estas acusações? Nada! Pois o respeitinho pelo governo é muito bonito. Mesmo...

Remover Padrão e afins...

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A semana do Império (5):

Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enquanto Vasco da Gama Dormia

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A semana do Império (4): na sequência das polémicas ocorridas na semana passada, desde a questão do funeral de Marcelino da Mata até, e fundamentalmente, às propostas de destruição dos monumentos apresentados por deputados socialistas e animalistas, o meu amigo Tiago Matos Fernandes publicou este texto no seu mural do FB. Pedi-lhe para o reproduzir. Como lhe disse este texto é "o mundo num postal de facebook". Sinto-o (e, confesso, invejo-o) como se meu fosse. E muito para além do pequeno "portugal" destes locutores d'agora e daqui. Entenda-se bem, há gente na "sociedade civil" (para se usar o jargão) tão mais capaz, sagaz e sábia do que estes possidentes do sistema político, a la Ascenso Simões. E do que na pobre Academia das causas...

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Enquanto Vasco da Gama Dormia

Faltavam poucos meses para as primeiras eleições autárquicas do país, quando o presidente Chissano decidiu visitar a Ilha de Moçambique, sem pompa mas com circunstância. Como não tinha o tempo contado, acabou por dar um salto ao Centro de Recursos, em frente da mesquita central, onde eu trabalhava como voluntário. Um séquito leal acompanhava-o.

Pouco tempo antes, eu tinha organizado uma exposição sobre o património da ilha, com os alunos da escola secundária. Ao longo de duas salas, a exposição mostrava desenhos e pinturas juvenis da Fortaleza de São Sebastião, do Palácio do Governador, dos edifícios públicos, das igrejas, das mesquitas e do templo hindu, assim como fotografias dos grupos de dança do tufo, além de amostras de contas de vidro e pedaços de faiança recolhidos na praia (libertados, com o movimento das marés, do fundo de navios árabes e portugueses naufragados ao largo). Zainal, o irmão de Rahimo Satar, proprietário do Cinema Nina, emprestou-nos duas belas imagens a preto e branco que viriam a ocupar o lugar central da exposição: a fotografia de uma corrida de touros realizada no interior da fortaleza de São Sebastião, na época colonial; e uma fotografia da estátua de Vasco da Gama em grande plano, com o Palácio de São Paulo ao fundo.

Depois de ter realizado uma visita aos ateliers do Centro de Recursos, o presidente Chissano, para nossa surpresa, manifestou grande interesse em ver a exposição. Eu observava tudo de fora, tentando manter-me discreto o tempo todo, desconfortável com todo o peso do protocolo. Porém, não consegui ficar assim por muito tempo: “MX”, meu colega de trabalho, chamou-me à margem e disse-me que não havia mais ninguém que pudesse ser guia do senhor Presidente, senão eu próprio. Por mais que eu quisesse, não tinha como fugir, nem para onde, a não ser que quisesse importunar pessoalmente o Sua Excelência, o Chefe de Estado. Com os olhos, “MX” fez-me um sinal, e eu furei a cortina de gente que cercava Joaquim Chissano, pondo-me humildemente à sua disposição. Fi-lo consciente de que aquela era uma oportunidade única – porventura a derradeira – de privar com um dos heróis da revolução moçambicana; e consciente também de que aquela vez que fui levado para a esquadra por não ter parado a minha bicicleta a menos de cinquenta metros da bandeira nacional (que era também a bandeira da FRELIMO), no momento em que era arriada e se cantava o hino, era uma experiência menor, quando comparada a suprema provocação que, inadvertidamente, poderia causar com aquela exposição descaradamente luso-tropicalista...

Ao longo da minha apresentação, Chissano não tirava os olhos do que via, enquanto se deixava levar pelo fio de História, contado pela voz de um jovem voluntário, branco, português e, sobretudo, muito ingénuo... Paciente e silencioso, deixou-me terminar a explicação, antes de, finalmente, pousar os olhos sobre mim, com um sorriso amável. Tomando o seu tempo, o séquito percebeu que ele ia finalmente tomar a palavra. “Os portugueses fizeram um excelente trabalho na ilha”, começou por dizer. Não pude duvidar da sua sinceridade, pois a obra estava à vista de todos, e eu também pensava o mesmo... Seguidamente, olhou para o seu staff, procurando a sua aprovação e a inspiração para o que iria dizer a seguir: “Porém...” – prosseguiu – “aqueles edifícios que vocês construíram no Lumbo, do outro lado da ponte... são mesmo feios!...”. Ao dizê-lo, abriu lentamente a boca e presenteou-me com um sorriso de Mona Lisa, bem ao seu estilo. Novamente, tive mentalmente de lhe dar razão, é verdade, não sei o que nos deu para tamanha falta de gosto, aqueles caixotes de três andares, dizem que foram construídos no início dos anos setenta, são horrorosos, não têm jeito nenhum. Encaixei a crítica e sorri, anuindo na sua observação. Como eu começasse a achar que tinha ganho a confiança do senhor Presidente, ele guardou algum silêncio, antes de completar o raciocínio, assegurando-se primeiro que todos o estavam a ouvir. “Não dá mesmo para perceber o que se passou...” disse-me, baixando os olhos. E voltando a fazer uma breve pausa, voltou a olhar para a fotografia que tinha à sua frente, para finalmente rematar, sem sequer olhar para mim: “Se calhar era já a pressa para se irem embora...”.

O pessoal que o rodeava abriu o sorriso com grande satisfação com aquela alfinetada e fitou-me, em silêncio, para ver a minha reação à provocação do senhor Presidente. Não sei se ele esperava alguma réplica da minha parte, porque eu senti-me a desvair e não tive ânimo para defender a honra da lusa pátria. Que poderia fazer? Chissano preparara-se uma vida inteira para mudar o curso da história do seu país – já eu era apenas um rapaz de 24 anos, que achava candidamente que, três décadas depois, as contas entre Portugal e Moçambique estavam todas saldadas... Atordoado, limitei-me a replicar com um sorriso acabrunhado, e procurei um buraco para me esconder. Aquela provocação rebentou na minha cabeça como um tiro da Kalashnikov que enfeita a bandeira de Moçambique. Quando voltei a sentir a pulsação, pensei: “Puseste-te a jeito... agora toma... embrulha e aprende!”. Dando por terminada a visita, despedi-me, peguei nas minhas coisas e fui rapidamente à minha vida.

De regresso a casa, sentei-me junto à janela do meu quarto, com vista para a Igreja da Misericórdia, no coração da “cidade de pedra e cal”. A Igreja ficava paredes meias com o Palácio de S. Paulo, em frente do qual, virado para o continente, se localizava a praça com o coreto e o pedestal da estátua do Vasco da Gama. Apenas o pedestal, porque, naquele tempo, Vasco da Gama pernoitava nas oficinas da capitania. Os pés de cobre mantinham-se fixados à base, apoiada sobre o chão, na posição ereta; o que restava do navegador recostava-se, numa grande cama de metal rolante, de barriga para cima, olhando fixamente a humidade do telhado. Vasco da Gama para ali fora trasladado, nos dias mais quentes da revolução, quando foram mandadas derrubar todas e quaisquer figuras que fizessem recordar os horrores da ocupação colonial. E foi assim que para ali ficou, patético, contando carneiros até adormecer, sonhando que alguém por ali passasse e se lembrasse dele... 

Na rua da Igreja, a seguir ao café “Âncora d‘Ouro”, já perto da contracosta, vivia Joaquim, a sua mulher e os filhos, numa antiga casa colonial, ocupada por várias famílias. Joaquim era o zelador da casa de hóspedes da OIKOS, onde eu me encontrava alojado. Como tantos outros, Joaquim viera do mato nos tempos da guerra civil, em busca de um refúgio seguro na ilha. Era um machambeiro que aqui teve de se reinventar como cozinheiro. E que talento tinha! Os melhores filetes de peixe-papagaio da ilha saiam sempre do seu grelhador... Joaquim aprendera depressa e era um trabalhador esforçado, que acabava sempre a falar com desdém das idiossincrasias dos macuas da ilha, e da sua inenarrável preguiça. Andava pelos trinta e muitos anos, e tinha uma alma alegre, adornada por uma enorme fileira de dentes brilhantes.

Aos fins-de-semana, Joaquim escapulia-se da sua casa, atravessava a rua dos Arcos e chegava rapidamente à praça da capitania. O fantasma de Vasco da Gama nunca teve sequer o prazer de ver a sua sombra, porque Joaquim seguia a passo apressado, na direção da cidade de macuti, onde se situava o recinto do antigo paiol. Era aqui que, todos os fins-se-semana, vinha ouvir uma banda de músicos tanzanianos interpretar temas clássicos do soukous congolês. A cadência frenética das guitarras era amplificada por poderosas colunas de som, que mantinham toda a gente acordada. Ninguém se incomodava, muito pelo contrário: uma horda de ilhéus inundava regularmente o espaço e aqui ficava a dançar até de madrugada. Possuído pela espiral melódica, interminável e obsessiva, Joaquim acabava frequentemente alcoolizado à conta da Enika, a marca local de aguardente de banana que ele consumia como se não houvesse amanhã... Joaquim terminava as noites a dormir em parte incerta. A meio da noite, receando a reação da esposa, refugiava-se na entrada da casa de hóspedes, até que a ressaca passasse – e o ciúme também.

Quando de madrugada o encontrava deitado na esteira, e lhe perguntava o que andara a fazer noite fora, Joaquim rasgava sempre um sorriso do tamanho do mundo e os olhos vítreos do álcool abriam-se-lhe ainda mais, como que a sair-lhe das órbitas, antes de me responder com um ar esforçadamente sério, trocando os dês pelos tês, como um verdadeiro macua: “Nata patrrão, nata!!”. Acabava sempre por rematar a resposta soltando uma gargalhada fenomenal, antes de voltar a adormecer com uma criança. E com isso se encerrava mais um interrogatório, até à próxima sessão.

Um dia, quando se celebrava o quinto centenário da chegada da Vasco da Gama à Ilha de Moçambique, perguntei-lhe se sabia que o grande navegador ali tinha chegado havia precisamente quinhentos anos. Joaquim encostou-se à janela, levou a mão pensativa ao queixo, olhou o vazio e disse finalmente: “Xiiii, patrrão! Eu só cheguei há oito anos e já estou tão farto!”. Mentalmente, soltei uma risada farta. E, no entanto, a resposta do Joaquim fazia todo o sentido. Realmente, só um tonto suportaria viver meio milénio naquela sepultura do Índico. Como é que alguém se entretém tanto tempo parado naquela língua de coral, onde Judas perdeu as botas, não há machambas e a água é salobra? E mais, o que faria esse tal de Vasco da Gama, para se suster e à sua família? Biscates? Poesia? Bahhh!... Para isso já lá tinha estado o Camões, aborrecido e teso como um carapau, sem dinheiro sequer para regressar a casa. Provavelmente, esse tal de Vasco da Gama era só mais um inútil macua, que passava ainda mais fome do que ele, que tinha cinco bocas para alimentar. Não, definitivamente, esse Vasco não regulava bem, e só mesmo um mucunha como eu para lhe falar da sua chegada a Muhipiti. A conversa terminou ali, e nunca mais voltamos a falar do assunto. Como as autoridades também não quisessem celebrar a efeméride, fui eu sonhar com a entrada da armada na baía do Mossuril.

Vasco da Gama aportou na ilha no dia 2 de março de 1498, na sua primeira viagem à Índia. Diz que o sultão da ilha (Mussa Bin Bike, cuja corruptela viria a dar nome ao país) o recebeu inicialmente com simpatia, e depois com desconfiança, quando percebeu que o visitante não era turco, mas sim cristão; mas que mesmo assim concordou em conceder-lhe dois pilotos para lhe mostrar o caminho até à Índia; e também que os pilotos tinham sido secretamente incumbidos de o matar à traição, logo que surgisse a oportunidade, o que apenas não sucedeu porque um deles fugiu e o outro acabou por dar conta dos planos. Diz também que a sua passagem pela ilha deu origem, oito anos depois, ao início do processo de edificação e ocupação do lugar pelos portugueses, fundamental como porto de abrigo das intempéries causadas pelas monções e entreposto comercial servido de um canal navegável junto da costa. O património físico da ilha é maioritariamente o resultado dessa conturbada passagem da armada pela baía do Mossuril. Mas também diz a história que Vasco da Gama era afinal muito grosseiro, rude e violento; que pilhou navios, assaltou portos, avassalou povos, matou e torturou muita gente; e também que desejou a todo o custo ganhar fortuna e estatuto social, por ser filho ilegítimo de baixa nobreza.

Por essa razão, quando, pouco tempo depois da visita do presidente Chissano, as autoridades decidiram recolocar a estátua de Vasco da Gama no pedestal da praça de São Paulo, a surpresa foi total. O que é que lhes passou pela cabeça? Como é que a FRELIMO, presumivelmente tão hostil aos símbolos da ocupação colonial, suportava tal provocação? O que é que poderia explicar a sublimação do homem a quem se devem os primórdios da ocupação colonial portuguesa e a transformação da ilha numa gigantesca plataforma comercial destinada ao tráfico de escravos em grande escala? As perguntas sempre me intrigaram, mas, numa rara conversa com xehe Abudo Amur, obtive uma parte importante da resposta.

Abudo Amur era, à época, o mais respeitado líder religioso da Ilha de Moçambique. Para isso muito contribuía o facto de ser filho do venerável Amur bin Gimba, natural das Comores, fundador da primeira confraria de origem sunita da ilha. Abudo Amur (ou “Gimba”, como era mais conhecido) herdou os pergaminhos do pai e desenvolveu a humildade dos homens grandes: “Chamo-me Abudo Amur Rahamane. Abudo significa escravo. Mas agora escravo de quem? De Rahamane, Deus”. Acaso eu não compreendesse a importância simbólica do seu apelido, o xehe explicava-me: “Não pode ser só Abudo, Abudo é um contínuo. De onde? De onde ele trabalha. Tem de ser um contínuo do Conselho Executivo, ou da Associação dos Amigos da Ilha”.

Na juventude de Abudo Amur ainda havia “escravos sem ser de Deus”. Traficavam-se clandestinamente e eram levados para São Tomé e Príncipe onde faziam trabalho pesado. Mas, explicou-me, era já o declínio de uma época de tráfico de escravos em grande escala, que nos séculos XVIII e XIX tinha dado azo a muitas disputas entre mercadores portugueses, franceses, brasileiros e afro-asiáticos ao longo dos principais portos do litoral norte de Moçambique. Os negreiros, aliados aos chefes macuas muçulmanos, majojos e ajauas, capturavam e vendiam contingentes significativos de escravos, que iam buscar até o lago Niassa e com eles desciam até ao litoral, na esteira das caravanas de marfim, acabando finalmente por exportá-los para o Brasil. Estima-se que, apenas entre 1825 e 1830, foram vendidos no Rio de Janeiro 25 mil escravos oriundos da Ilha de Moçambique. O velho Gimba sabia muito bem que o tráfico de escravos fora um negócio em que havia poucos inocentes. Além de esclarecido, era um homem alto e elegante, com as suas balalaicas engomadas e o seu cofió enfiado no cocuruto da cabeça. As cataratas denunciavam-lhe a idade física, mas não o espírito. Não precisava de falar muito para exibir a sua inteligência suave.

Ao longo dos anos seguintes, tive a oportunidade de confirmar e alargar a lição do velho Gimba. Em linguagem académica, diria que coligi vários estudos de caso, em vários países. Quando foram construídos os primeiros entrepostos esclavagistas no litoral do então Reino de Dahomey (hoje Benim), eram os Fon, poderosa tribo local, e não os portugueses, quem capturava os escravos de outras etnias, que os negreiros enviavam depois, em grandes quantidades, para o Brasil e para as Caraíbas. De resto, o maior negreiro de que há memória na Costa do Ouro, não era sequer natural de Portugal, mas sim do Brasil. Francisco Félix de Souza (mais conhecido por Xaxá) nasceu na Bahia, filho de português e de índia, e na idade adulta ocupou-se do forte português de São João Baptista de Ajudá. Ao aliar-se ao Rei de Dahomey, o seu maior fornecedor de escravos (que todos os anos sacrificava umas boas dezenas de prisioneiros de guerra, para honrar os seus antepassados), Xaxá enriqueceu principescamente e recebeu o título de Vice-Rei de Ajudá pela coroa portuguesa. Morreu aos 94 anos, deixando mais de oitenta filhos e, já na sua fase de decadência, dois mil escravos. Paradoxalmente, grande parte dos africanos que conheci veneram os descendentes da família Souza, como se fossem os “Kennedy da África Ocidental”. Na verdade, não surpreende que os Souzas sejam muito numerosos, a ponto de ter encontrado descendentes do Xaxá nos confins do Sahel...

No Gana, surpreendeu-me poder encontrar fortes construídos pelos suecos e, mais tarde, pelos dinamarqueses ao longo de toda a Costa do Ouro, em apoio ao comércio de escravos em grande escala, mais ainda do que a imponente feitoria de São Jorge da Mina. Afinal, aqueles que tantas vezes apontam o pecado original do império português, como inibidor de uma discussão objetiva e imparcial das modernas políticas de desenvolvimento desses países, também tiverem a sua quota-parte de responsabilidade no tráfico transatlântico.

No Togo, visitei Agbofrafo, onde John Henry Wood, um traficante de escravos escocês, construiu uma casa em estilo afro-brasileiro, suficientemente distante da orla marítima para que não pudesse ser vista pelas autoridades, numa altura em que o tráfico de escravos era oficialmente proibido (e policiado) pela Inglaterra. Wood escondia centenas de escravos em condições deploráveis, num vão com menos de um metro de altura, localizado sob o estrado de madeira da sala principal, ao qual ainda hoje se pode aceder através de um alçapão.

Na Gâmbia, explorei a minúscula ilha de Santo André, batizada por Luís de Cadamosto, navegador veneziano ao serviço da coroa portuguesa, em honra do oficial homónimo falecido durante a célebre expedição de exploração do rio Gâmbia, e que ali foi enterrado há 580 anos. A ilha (hoje St James Island) tornou-se depois num pequeno entreposto dos traficantes de escravos britânicos, que para aqui os traziam, com o objetivo de os enfraquecer com um jejum forçado de duas semanas, antes de serem levados para Gorée, no Senegal, e daí para as Américas. Quanto mais fracos, menos capazes seriam de se rebelar...

Em Gorée, reencontrei uma irmã gémea da Ilha de Moçambique. Praticamente do mesmo tamanho, igualmente dividida entre uma cidade de pedra e uma cidade de adobe (ainda que ali seja uma elevação e não uma depressão). Também ela património da humanidade, elevada a must see do turismo cultural africano, Gorée é basicamente uma ilha-postal com uma interessante arquitetura colonial, mas em que uma morna amnésia parece adoçar os traços mais grossos do seu passado escravocrata. Tristemente, foram os próprios senegaleses (com o presidente Senghor à cabeça) que decidiram promover a imagem de Gorée como lugar central na história do tráfico transatlântico, com o objetivo de a vender como atração turística (o que efetivamente lograram fazer). A verdade é que, de um total de 12 milhões de escravos transportados da África para as Américas, apenas 500.000 terão embarcado desde Gorée...

A minha caderneta de cromos poderia continuar – e continua. Mas não necessariamente com estórias do passado longínquo, ou estórias com os do costume. Infelizmente, vi muito registos de ódio e racismo entre os próprios africanos – ou, para ser mais rigoroso, entre os nascidos no continente africano (para os etíopes, somalis e eritreus, africanos são os negros de origem bantu – eles são povos hamíticos, logo não são africanos).

Inevitavelmente, a minha memória mais difícil prende-se com o Ruanda. É impossível ficar indiferente ao genocídio de 800 mil pessoas (entre tutsis e alguns hutus moderados). Uma ação organizada ao milímetro e executada em três meses, às mãos das milícias radicais hutu, com especial destaque para os “interahamwe” (“aqueles que atacam juntos”). Mas também às mãos dos próprios vizinhos hutu. Ou dos próprios cônjuges, forçados a perpetrar os crimes, por serem de etnia diferente. Ou às mãos de colegas de escola, tão crianças como eles. Com catanas, paus e machados, distribuídos diligentemente pelo próprio governo. Em Kigali, visitei o Memorial do Genocídio, onde uma laje de cimento, dividida em secções, esconde uma vala comum, onde jazem 250 mil corpos, 30% da população tutsi, à data do genocídio. Foi-me impossível digerir os números de forma racional. Julgo ter tido uma experiência semelhante àquela de quem visita Auschwitz-Birkenau. Levei um murro no estômago e fiquei sem palavras.

Mas a experiência que mais me impressionou foi a visita à Igreja de Nyamata, na região de Bugesera (onde, à data do genocídio, viviam predominantemente tutsis). Assim que o genocídio começou, milhares de tutsis correram para a Igreja católica de Nyamata, na esperança de aí não serem atacados. Puseram um ferrolho na porta de ferro, trancaram-se lá dentro e rezaram. Rezaram muito, foram forçados a jejuar, e aguardaram a misericórdia de Deus. Os hutu, mesmo aos milhares, não conseguiram abrir a porta da Igreja. Tiveram de chamar os “interahamwe”, que só apareceram uma semana depois. Com uma granada, rebentaram o ferrolho e parte do portão, e entraram na Igreja, onde encontraram uma horda de gente faminta, demasiado fraca para oferecer qualquer resistência. O que se seguiu foi uma selvajaria indescritível. Com revólveres, machados, facas, paus e catanas, esquartejaram todos os fiéis que encontravam no interior da Igreja. Fizeram-no com requinte e compassadamente. Liquidaram um a seguir ao outro. Homens, mulheres, crianças, idosos – afinal não passavam todos de “inyenzi” (baratas). Dez mil tutsis morreram naquela manhã. O cenário foi tão deplorável e tanta gente morreu, que os cadáveres apodreceram antes que pudessem ser retirados. Mas as roupas e os pertences ficaram. Até hoje. Ficaram exatamente como se apresentavam naquela manhã. Ficaram no mesmo lugar onde se encontravam os donos, a recordar a sua memória. Ficaram como fantasmas alinhados para assistir a uma missa eterna.

Com o passar dos anos, compreendi, enfim, que embora o tráfico transatlântico de escravos tenha sido uma mancha horrível na história da humanidade, não foi apenas a obra dos europeus. Compreendi que muitos daqueles que mais julgam o pecado original da nossa expansão marítima, também acabaram por participar diretamente no comércio de escravos. Compreendi que os africanos também têm uma relação dúplice com a história, ora criticando, ora tolerando, ora mesmo admirando algumas das figuras que ficaram associadas ao tráfico transatlântico. Compreendi que o escravismo pode ser vendido como um poderoso instrumento de atração turística. E compreendi também que o ódio e o racismo não são filhos únicos do escravismo, podendo florescer mesmo onde ele não existe.

Mas apenas quando tomei conhecimento da estória pessoal da minha amiga Alima*, consegui ver o programa com todas as suas cores. Alima, natural da Ilha de Moçambique, foi uma dessas jovens mulheres que, logo a seguir à independência, foi levada à força para um “centro de reeducação”. Acusadas de prostituição, muitas dessas mulheres eram apenas mães solteiras, ou mulheres indocumentadas, ou simplesmente vestiam-se de maneira diferente, pintavam-se e usavam batom. No auge da revolução, a FRELIMO seguia à risca cartilha marxista e tinha a convicção que, através da disciplina e dos trabalhos forçados, essas mulheres se regenerariam e transformariam na "Mulher Nova", livres dos vícios burgueses do capitalismo e da mancha do colonialismo. Os centros de reeducação foram a versão moçambicana dos campos da morte do Camboja e dos gulags soviéticos, e traduziram-se em milhares de mortes e desaparecimentos. Quem para lá fosse enviado, não beneficiava de qualquer proteção legal e estava à mercê dos funcionários do SNASP, o serviço paramilitar e de inteligência do governo de Moçambique. A permanência nos centros funcionava como no tempo colonial, na base do chibalo, ou seja, na base da semiescravidão, da bofetada e da ameaça constante de alguns comandantes cruéis. Alguns dizem mesmo que era pior que chibalo, pois não sabiam sequer quem era o “patrão”. Eram verdadeiros “escravos sem dono”.

A Alima também não tinha “patrão” nem “dono”. Sempre com o coração ao pé da boca, era apaixonada e exuberante. Estava claramente fora do seu lugar e à frente do seu tempo, pensava pela sua cabeça e tinha sede de mundo. Um dia, em 1977, quando se passeava pelas ruas do Maputo, de regresso a casa, Alima foi detida pelas autoridades. Como em tantos outros casos, o motivo da detenção era bastante prosaico: a Alima “dava demasiado nas vistas”, “usava anéis” e “unhas de esmalte”. A acusação estava feita e não admitia defesa, nem recurso. Ponto-final-parágrafo. Embora sabendo que esses “excessos” eram expressamente proibidos, Alima pôs-se a jeito e, como consequência do seu atrevimento, acabou por ser enviada para o centro de reeducação de Lichinga, onde permaneceu três anos, privada de qualquer contacto com o exterior. À semelhança de tantas outras mulheres, foi sujeita a trabalhos forçados e a sevícias enquanto lá esteve, e que só por vergonha e respeito francamente não consigo aqui reproduzir. Não consta que se tenha regenerado, nem transformado numa “Mulher Nova”. Imagino mesmo que a experiência no centro só tenha reforçado os traços da “Mulher Original” que sempre fora...

Como se não bastasse, em 1981, e já em liberdade, o Governo decidiu retirar-lhe a nacionalidade moçambicana. Sem hipóteses de permanecer no seu país, Alima pegou na sua filha (nascida no campo, poucos meses depois de Alima lá chegar), saiu do país como apátrida e pediu asilo no Brasil, que lhe foi prontamente atribuído pela Polícia Federal. No Brasil, Alima fez contas com o passado: do quase-nada, arrumou todos os seus demónios num armário e tornou-se numa empreendedora bem-sucedida. Na novilíngua cor-de-rosa das revistas de negócios, dir-se-ia ter tornado numa “mulher de sucesso”. Aos seus olhos, porém, e apesar de ter apanhado o elevador social tão bem e tão depressa, o Brasil era apenas um lugar entre dois parênteses... E foi assim que, um dia, dezassete anos depois de ter saído de Moçambique, e já perto dos quarenta, Alima resolveu regressar à ilha. Não para ajustar contas com o país, que a Alima não era pessoa dessas coisas, mas sim por causa um ilhéu simpático, de conversa muito fácil e olhos expressivos, a sua grande paixão da juventude. Foi nessa época de torna-viagem que a conheci.

Ao longo destes vinte cinco anos de explorações africanas, aprendi que a identidade de um país é feita de muitas estórias. É como um processo contínuo, um quadro inacabado, um enorme lego em construção. No caso de Moçambique, a identidade nacional construiu-se, até ao período pós-independência, a partir de um discurso de exaltação das virtudes culturais dos povos explorados, por oposição aos vícios morais da ocupação colonial. Sempre houve muito de negritude neste discurso, muito de Césaire, muito de Senghor, e muito de Gramsci também... na verdade, esta posição sempre transmitiu uma visão unívoca e parcial da relação como o povo colonizador, uma ode gloriosa aos valores culturais dos povos negros, a ponto de se tornar paradoxalmente racista, como os próprios autores do movimento viriam a reconhecer.

Do mesmo modo, é-me difícil partilhar a fé que Nelson Mandela tinha na filosofia ubuntu, supostamente definidora de um modo de pensar comum africano, alicerçado na máxima zulu de que “uma pessoa é uma pessoa através das outras pessoas”. De fato, como é possível defender esta suposta consciência de pertença do indivíduo à comunidade, alegadamente geradora de solidariedade incondicional e respeito pela vontade coletiva, perante um genocídio como o do Ruanda, a guerra civil do Sudão ou o tribalismo sanguinário na Somália? Ou, perante o colaboracionismo de alguns povos africanos na escravidão e tráfico dos seus irmãos? Ou ainda perante a prisão de uma jovem como a Alima, votada aos trabalhos forçados e ao ostracismo na flor da idade?

A memória de um país é uma pele cheia de cicatrizes que se trata no divã do psicanalista. Não é real, carece de objetividade, e apenas pode ser representada simbolicamente. É o espelho da forma como lidamos com a história, mas não é, ela própria, a história do país.

A grande virtude dos africanos é que foram forçados a gerir os seus traumas muito mais depressa do que as nações colonizadoras. Alguns aprenderam a lidar com os seus fantasmas, outros nem por isso, outros ainda encontraram formas criativas de gerir a sua memória, exorcizando os seus medos. Em geral, os africanos que conheço são muito resilientes. Testemunho essa resiliência, quase todos os dias, num grupo Whatsapp de que faço parte, juntamente com outras quarenta pessoas, provindas dos quinze Estados-membros da CEDEAO. São todos diretores e ex-comissários desta organização regional e todos meus ex-alunos. Eu sou o único branco – embora eles, carinhosa e sabiamente, me chamem de berbere. Tenho o raro privilégio de poder ler as longas conversas e diatribes entre eles, a forma como se referem a nós, os brancos, sem filtros nem salamaleques. Mas sobretudo a forma apaixonada como discutem o futuro da sua África. Às vezes também participo nas conversas, embora prefira assumir um papel de observador-participante, antropologicamente neutro.

Recentemente, dei os parabéns aos muitos nigerianos presentes no fórum pela eleição de Ngozi Okonjo-Iweala para a presidência da Organização Mundial do Comércio, embora lamentando o facto de a notícia dada pela CNN – “uma mulher negra vai ser a líder da organização cimeira do comércio internacional pela primeira vez” – ter realçado a cor da pele e não a sua competência. Muazu Umaru, Diretor da GIABA, uma poderosa agência que há anos se dedica a combater a lavagem de dinheiro nos países da região, replicou-me imediatamente: “Factos são factos: primeira mulher, primeira africana, primeira negra... o problema não são os factos, mas o preconceito”. A sua única preocupação residia nas expetativas geradas em torno da sua eleição, sendo fundamental que ela exceda as expetativas, para calar de vez a miopia generalizada. Muazu representa a África nova que tenho tido o prazer de conhecer: a África que segura no destino com as próprias suas mãos, que assume orgulhosamente as suas conquistas, que responsabiliza os seus líderes pelo destino das suas nações, que não culpabiliza os seus fracassos num discurso miserabilista e profundamente datado.

Testemunhei a mesma resiliência e plasticidade dos africanos, noutros moldes e com outras estórias, na Libéria, na República Centro-Africana, na Eritreia, mas também em Moçambique. Quando a estatua equestre que homenageava Mouzinho de Albuquerque (o herói português que capturou Gungunhana), derrubada em 1975, foi trasladada para o Fortaleza de Maputo, poucos imaginariam o deleite que ela representaria para os recém-casados, que a passaram a utilizar como plano de fundo para as suas fotografias de casamento. Já a estatua que representava Salazar, derrubada em 1974 e que até então se encontrava no centro do Maputo, foi recolocada na Biblioteca Nacional de Moçambique. O velho ditador foi colocado de frente para a parede, como que estando de castigo, a forma encontrada para ilustrar, com suprema ironia, o sentimento generalizado dos moçambicanos sobre o seu passado colonial. Como quem pega um touro de cernelha, não eliminaram a estátua, nem a vandalizaram, apenas mudaram de perspetiva...

No caso de Vasco da Gama, o navegador foi recolocado na mesmíssima posição em que se encontrava ao tempo colonial, virado a poente, apreciando o vai vem silencioso das dhows ao largo do canal de Moçambique. Talvez por muitos reconhecerem que o artista esculpiu a estátua de Vasco da Gama com costas muito largas, mas não tanto que possam ser-lhe assacadas todas as culpas da história desse lugar complexo, onde vítimas e algozes não escolheram religião, nem raça, nem género, nem época.

O Joaquim não chegou a ver o meu amigo Vasco imortalizado por mais quinhentos anos. Faleceu prematuramente, vítima de cólera, no hospital central da Ilha, que não encontrou meios para o salvar. Quando me deram a notícia, encontrava-me a caminho de Évora, e tive de parar o carro. Chorei a bom chorar. Destilei as emoções agarradas à pele desse tempo feliz na sua companhia alegre. Sem o saber, dei-me conta que lhe erigira uma enorme estátua de sal no meu coração. Continuo a rever a sua graça por essa África fora, celebrando a sua memória. Na verdade, mais de vinte anos depois da minha aventura no Índico, continuo a acreditar que é para os Joaquins da OIKOS que devemos todos trabalhar. Nós e os Joaquins Chissanos. Cientes das nossas responsabilidades partilhadas, mas sem complexos, nem memórias retorcidas.

“Cesse tudo o que a musa antiga canta…”

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A semana do Império (3): um texto do Miguel Valle de Figueiredo, escrito para este blog. As fotografias também são dele.

 
“Cesse tudo o que a musa antiga canta…”  
 
O Exmo Senhor Dr. Ascenso Simōes sugere, entre outros e variados dislates, a demolição do Padrão das Descobrimentos. O excelso deputado, um socialista socrático - o que diz mais dele que do seu mentor - tem sido confundido com qualquer pessoa medianamente inteligente nos intervalos das suas declarações. Estas, por sua vez, quando chegam ao conhecimento público, mal interpretadas com toda a certeza, não ajudam a cimentar a primeira impressão que o seu silêncio normalmente cria. Há um padrão de inanidades descobertas sempre que esta excelência debita e que deve ser considerado. Corre nos burladeros alfacinhas que o homem não está bem. Se é de um destrambelhamento intelecto-mental, daqui lhe envio os desejos de melhoras mas, enquanto o estado se mantiver, talvez um retiro para lá de onde veio fosse uma opção saudável. Ascenso Luis pensa-se um revolucionário polemista enquanto que quem o lê ou ouve, pensa-o um estulto mal-criadote, um patetista encartado. Façanhudo e voluntarioso, destrata quem o sustenta. Vai tudo a eito com este paladino da modernidade que Portugal precisa e merece. Seja o juiz presidente do tribunal constitucional, seja o parvo comum que se encontra no Povo, nunca esquecendo a velha Teodora que queria as contas à moda dela. Trata os eleitores, que, sem lhe sequer conhecer a existência, permitem que se vá coçando lá nas bancadas traseiras da AR de eventual urticária nas partes baixas que parece afligi-lo. Não se retracta nunca - era o que faltava, seria confissão de fraqueza deste forte e temido tribuno, deste pontiagudo aríete da Democracia... - mas apagou, por exemplo, a conta de “Twitter” que, depois de apanhado com as calças na mão, tentou fazer passar por falsa. Ou diz que o que afirmou não é aquilo que percebemos. Estamos em presença de um erudito dado à figura de estilo e não de um solerte "boy" como parece ser. Porém, e segundo os aleivosos do costume, tudo aquilo é resultado de almoçaradas bem regadas que o hepático não aguenta. Outros, mais cientificamente, entendem que o proeminente político é possuidor de um cérebro de funcionamento intermitente. De qualquer maneira, pelas razões apontadas pelo insigne Ascenso, o monumento fascista ia raso. Considera o conjunto de Cottineli Telmo e Leopoldo de Almeida um mamarracho, para além da leitura simbólica que lhe atribui. Notando-lhe um certo ar patibular, medievo, pode pensar-se que está o Ascenso Luis a falar dele próprio depois de se ver reflectido numa qualquer superfície mais polida, talvez numa lata de solarina. Adiante, uma vez aberto o precedente, poupava-se tempo e o erário público, e corria-se pela vizinhança: rebentava-se com o Mosteiro de Santa Maria dos Jerónimos, obviamente com a Praça do Império e sua fonte brasonada - Império que o protestante afirma ter sido uma construção salazarista visto nunca ter existido essa designação plástica que só aparece primeiramente na Constituição de 33…, de seguida ia a cabra da Torre de Belém, para logo dinamitar os pilares do regime fascista que desde 1966 sustentam a ponte baptizada com o nome do ditador. Isto para começar. Parece que conhece a zona da Reitoria da Universidade de Lisboa, aquele conjunto de arquitectura austera tão querida do regime. Dada a extensão do “ campus”, um bombardeamento cirúrgico e era uma limpeza. Uns passos mais e tratava-se do Hospital de Santa Maria, está bem de ver. Talvez uma implosão fosse uma boa solução para aquela reaccionária construção. É cinematográfico e emulava o seu ex-chefe (a Torralta ali em Tróia). Isto só para começar e em Lisboa, porque o país tão atrasado como rico, tem de se ver livre por uma vez de tudo o que possa lembrar o antigo regime, como escolas, tribunais, barragens, outros hospitais, etc, etc. Apagando esses traços fascizantes, lava-se o passado, acaba-se com os fascistas e o futuro espera-nos radioso. Enquanto isso não acontece, mando respeitosamente Sua Excelência à merda.
 
Enfim, como se sabe, cada um diz aquilo que lhe apetecer. A questão está em saber em que posição se está para que os devaneios do pensamento traduzidos na famosa liberdade de expressão, serem admissíveis ou, pelo contrário, entrarem no rol das estultícias constantes de um futuro Anedotário Nacional. O maçador é sermos nós a pagar os salários, as despesas de representação dos cargos que gente sem préstimo conhecido vai ocupando.
 
Deixo ainda uma imagem de meados dos anos 80 que fiz a bordo de um héli da FAP. Um Aloueite daqueles que andou na Guerra Colonial ou do Ultramar, como se preferir, acompanhada da ideia do supra-citado cidadão Simões. Repare-se que se mantém o aterro porque senão lá iam os barcos à vela para próximo do que foi a doca do Bom Sucesso (será que o Ascenso, culto como é, saberá que todo aquele terreno já foi rio?) e a ferrovia que nos leva até Cascais. Por falta de talento não acrescentei uma sugestão artística à fotografia que talvez fosse do agrado estético do Ascenso: um conjunto escultórico equestre. Depois, aos Domingos à tarde para entreter a populaça entre dois pastéis de Belém, podia a obra contar com elementos vivos. Usar este pândego em substituição de um equídeo, a resfolegar-se de tanto escoicear, um seu hábito, seria uma animação e fonte de receita para os arranjos paisagísticos necessários posteriores à intervenção do caterpillar. Fica a ideia.

A semana do Império (2)

Mo_ambique - Livro 'SAUDADE MACUA', de Jorge Gerreira (Ed AGU - L 1971) - Poesia (03) (1).JPG

A semana do Império (2): um texto de 2002, a ecoar os alfarrabistas de rua em Maputo. E a notar como a viçosa "lusofonia" ecoava, "à sua maneira", o defunto "lusotropicalismo". Não, não é a mesma coisa: pois actores, locutores e objectivos são diferentes.

Mundo Português

Ontem mesmo, arrastando em Lisboa este tempo que por cá me resta, enfrentei aquele início de alfarrábio, ali postado entre o café Luanda e o café Polana, a avenida assim a agigantar-se em mapa cor-de-rosa. E descobri esta jóia, os poemas de Jorge Ferreira em “Saudade Macua”, um pequeno livro de 1969 e que então ganhou o Prémio Camilo Pessanha, atribuído pela Agência Geral do Ultramar e acredito que muito merecidamente.

Sou mero leitor, nada especialista em literatura, serão as minhas opiniões sobre os méritos deste livro apenas senso comum. Mas não posso deixar de realçar a obra, talvez até retirá-la do esquecimento, desmerecido, tão percursora ela é das sensibilidades e noções de hoje, a abrangente lusofonia. Pois nela se corporiza (antevê?) este sentimento lusófono que vem unindo portugueses e seus irmãos de outros continentes, não só a história que nos une, como ainda a comunhão que a habita nos correres dos tempos. Veja-se como Ferreira antecipa estas décadas do hoje em dia, Estados talvez apartados pelos ventos da política, povos unidos pela língua e pelo sentir, por tantos interesses comuns. Repito, a revisitar, este hoje esquecido poeta:

 

"O Branco da Terras"

 

Oliverra é o branco da terras’

Oliverra é nossa pai

gente conhece

gente entende

a nosso amigos’Oliverra

machamba de s’Oliverra

é sempre bom

chi..s’Oliverra

branco tem feitiço!

S’Óliverra usa chapéu

sol é muito quentee

s’Oliverra tem careca.

Ah, tanta harmonia nesses dias, tanta harmonia para hoje.

(Jorge FerreiraSaudade Macua, Agência Geral do Ultramar, 11)

A semana do Império (1)

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(Metangula)

A semana do Império (1): vou deixar neste grupo algumas ligações a textos sobre este assunto.
 
A morte de Marcelino da Mata reanimou, na semana passada, a discussão sobre a memória imperial e seus efeitos actuais. Muita coisa oca foi escrita. O assunto serve para o jogo político. Nesta matéria desde 2019 que eram notórias as tácticas do PS, utilizando-a para minar a influência do BE na esquerda urbana. Algo que agora se tornou explícito, nas patacoadas de deputados socialistas (derrube do Padrão dos Descobrimentos, lamento pela relativa placidez do 25 de Abril, apagamento ou elisão de pinturas alusivas às navegações portuguesas) cavalgando a agenda dos activistas identitaristas. Ou seja, à promoção socialista do Livre e à posterior cooptação da sua ex-deputada, sucede-se o rapto do radicalismo discursivo desta "causa". Em futebolês dir-se-ia que o PS adoptou agora a "pressão alta". Não tanto sobre os resquícios materiais e intelectuais do colonialismo mas sim sobre os codiciosos arietes identaristas ainda sitos no plantel do BE.
 
Para muitos académicos e afins é agora necessário, meio século depois do fim do Portugal colonial, afrontar os resquícios do Estado Novo, materiais e intelectuais. E nisso refutar o "lusotropicalismo", essa síntese enviesada feita após 1950 por Gilberto Freyre e intelectuais portugueses, justificativa do colonialismo, e a memória das navegações de XV-XVI, dos "Descobrimentos".
 
Ora nós podemos perfeitamente viver com parcelas do legado cultural (e propagandístico) do Estado Novo. Como muito bem acaba de lembrar Helena Ferro de Gouveia o Castelo de São Jorge (e tantos outros castelos) que conhecemos são reconstruções - propagandísticas, construtoras de "identidade nacional" - do Estado Novo. Vamos (re)arruiná-los, para nos purgarmos da mundivisão salazarista? E podemos perfeitamente louvar os extraordinários feitos quatrocentistas e quinhentistas, e considerá-los parte fundamental da construção do país - todos os países têm um discurso mais ou menos dominante sobre si mesmos. Não uso qualquer sarcasmo, mas que diríamos se a Ordem dos Dentistas viesse questionar a celebração das navegações devido ao escorbuto que grassava entre as equipagens? Afirmando que tal é um atentado à higiene bucal, de efeitos perniciosos à actual saúde pública? Não se pode respeitar os espantosos feitos científicos e técnicos e a fibra dos participantes enquanto se lavam os dentes e se tem alimentação apropriada?
 
A grande questão é outra, não é afrontar os discursos de até há meio século, o tal "lusotropicalismo" do Estado Novo. Mas sim reflectir nos discursos que esta II República promoveu sobre o país, sua realidade e seu futuro. Ou seja, que discurso sobre si-mesmo produz o país, para além do corolário europeu e do gemido lusófono? Estruturante foi a produção da visão da "Lusofonia" como enquadradora do país. A qual reflecte e refracta o tal "lusotropicalismo" mas a isso não se restringe. É um produção dos intelectuais actuais, em particular dos ligados ao Partido Socialista finissecular, herdeiros do republicanismo. Na ânsia de se proclamarem "antifascistas" os intelectuais de hoje elidem isso, e fogem à crítica radical da produção actual. E os políticos ainda mais: tem algum sentido um mariola deputado propôr o derrube do Padrão dos Descobrimentos e esquecer-se de propor a renomeação da Ponte Vasco da Gama? Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.
 
Acabo de reler um pequeno livro, "Este País Não Existe", colectânea de textos de jornal, com autores insuspeitos de lusotropicalices, com Bethencourt, Ramada Curto, Castro Henriques, entre outros. E no qual está um artigo de 2007 de Alfredo Margarido (do qual ainda tenho o recorte do original), devastador do discurso da lusofonia. E é significativo dos limites da análise crítica (re)ver que um dos organizadores, Nuno Domingos (que trabalhou sobre Moçambique), reduz as críticas ao Acordo Ortográfico a um irredentismo saudosista da "gesta" pátria. E que nessa colectânea, que abrange textos sobre variadíssimos temas ligados às representações sobre o país e sobre a memória colonial, ninguém tenha abordado esse AO 90. O que denota a incapacidade (ou a falta de vontade) de olhar para como a II República, em particular os intelectuais de extracção republicana e sediados no PS, pegaram no projecto explícito de Salazar de compor um comunidade de língua e sentimentos - a reforçar e perpetuar por uma homografia. E continuaram-no.
 
Ou seja, a questão não é discutir o tal Estado Novo, findo em 1974. Mas sim a II República, vigente. Não é discutir o "lusotropicalismo". Mas sim a "Lusofonia". E nisso não só debater os seus conteúdos programáticos. Mas também as suas práticas. E os arranjos estatais em seu torno: e nisso perceber que muita gente se afixa avessa ao "lusotropicalismo" mas produz, reproduz e recebe (d)a lusofonia.
 
Enfim, vou buscar a minha memória. Contactei com ("levei com", no jargão) o arrivismo ignaro e a pesporrência da administração cultural socialista lusófona. Antes ainda dos textos de fins de XX de Margarido ou Lourenço, devastadores da ideologia lusófona. Quando Castelo publicou o seu estudo tornado canónico sobre o lusotropicalismo. Bloguei no ma-schamba durante 12 anos: tenho aí 167 postais com a etiqueta "lusofonia", quase uma monomonia. Sobre a ignorância, a patetice, o atrevimento da administração estatal, da imprensa, da academia. Lusófonas.
 
Não me venham assim criticar o defunto Estado Novo. Mas sim ser verdadeiramente analíticos: do presente. Da chamada intelectualidade de esquerda - há três décadas a viver de lusofonices. (E não me chamem "ressentido": fui eu que saí desse gravy train. Apeando-me de uma carruagem de primeira classe).
 
Para ilustrar tudo isso, deixo ligação a dois textos antigos do ma-schamba, neste postal e num seguinte. Sobre as lusofonices. De 2002. Forma palavrosa de mandar à merda estes deputadozecos socialistas. Mais as professorazinhas que vão à TVI dar-me e dar-nos lições de literacia, para cobrir de elogios "o Mamadu". O primeiro escrevi-o em Mandimba, na primeira vez que fui ao Niassa.
 
 

"On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l'aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (...) car [on] supposait qu'un homme qui n'était pas né en France n'avait pas le sens commun

                                                                                                                                              (VoltaireL´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.

Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.

Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!

E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.

Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.

Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.

Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.

Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.

Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…

Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?

Mandimba, 2002

Sobre o funeral de Marcelino da Mata

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É certo que um antigo disse que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Mas outro escreveu que nada há de novo sob este Sol. E assim o problema de se blogar há já 18 anos é que, quase certamente, já se botou algo sobre a maioria das coisas que vão acontecendo.

A morte do tenente-coronel Marcelino da Mata provocou polémica - decerto que incrementada pela generalizada inactividade neste Covidoceno. E que foi muito potenciada pela presença do Presidente da República no seu funeral. Várias vezes já aqui invectivei o histriónico exercício presidencial de Sousa, forma de preencher a vacuidade do seu projecto político, apenas pessoalista - anacronicamente  mimetizando o modus faciendi tardo-imperial do seu digníssimo pai, aquando Governador-Geral de Moçambique. Cabota desprovido de gravitas, minando a auctoritas da função, a esta esvaziando, reduzindo-a a influência dependente das fragilidades conjunturais dos outros órgãos de soberania. O eleitorado (também conhecido por "povo") gosta e vota. E Sousa recompensa-se nisso. E o país deficita. Para não dizer definha.

Nesta ocasião isso é evidente. Alimentando uma situação em que - apesar deste contexto de crise gravíssima e de urgentes decisões estratégicas -, o país mediático está de novo - como o vem estando desde há quase dois anos - encerrado no confronto das minorias demagógicas, os ultramontanos saudosistas face aos revanchistas identitaristas, estes acalentados pelo Partido Socialista no âmbito da sua estratégia de dominação dos diversos feixes da esquerda urbana. Serve isto para articiosamente acirrar campos, nada mais.

Sobre este assunto é certo que há algumas vozes ponderadas, mas são escassas: o texto "Memórias de Sangue" do socialista Sérgio Sousa Pinto é um exemplo de sageza. Mas que ficará dele retido quando no mesmo dia um seu correligionário, o deputado Ascenso Simões, estuporadamente lamenta não ter havido mais mortos no 25 de Abril (bem mais agressivo e incompreensível do que o activista Mamadou Ba quando na academia, citando Fanon, convocou a "morte do homem branco" - da mundivisão dominante)? Propondo ainda Ascenso Simões, a coberto do revisionismo patrimonial, que se derrube o Padrão dos Descobrimentos?

Mas enfim, o que me convoca aqui é esta continuada incontinência do Presidente Sousa, a sua imponderação. Durante esta semana, diante deste despautério - repito, potenciado pela sua presença no funeral do tenente-coronel Mata, símbolo da africanização das tropas portuguesas - recordei-me de um texto que botei em 12 de Julho de 2004. Sobre a ausência do então Presidente Jorge Sampaio do funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo - de quem ele era, pelo menos ideologicamente, bem próximo. A demonstrar que há outras formas de exercer o poder. E que são melhores, mais sagazes. Mais competentes. Mesmo que discordemos politicamente dos agentes políticos. E mesmo que menos beijoqueiras. Aqui reproduzo o texto:

O Poder e a Morte

"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." (no "Público", em notícia a propósito da morte de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano). Notam, reparam, no sagrado do poder? O do rei sagrado, chefe tradicional, ungido pelos deuses, actual antepassado, centro da sociedade, ponto meridiano do cosmos, descendente e representante do passado, garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida. Esse nunca, mas nunca, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Nada critico, pelo contrário. Fico surpreendido, e deliciado, ao saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], concebido como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. Algo do simbólico do poder que eu nunca tinha percebido no meu país. Excelente. A mostrar continuidades no nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Pois esta arquitectura da função presidencial não deriva de dificuldades com o "sobrecarregar de agendas" ou de "critérios optativos". Mas sim de avisadas continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder, assim sua essência.

O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para o criticar, mas sim para tentar perceber as causas de tamanha inflexão.

ADENDA:  Comentadores referem-me que o PR frequenta funerais dos seus pares estrangeiros: mas essas são mortes estrangeiras, forasteiras, no exterior, não poluem a nossa ordem fértil, não perigam a nossa saúde. 

Ainda os arranjos florais da Praça do Império

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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.
 
Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece - tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.
 
Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.
 
1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório - e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.
 
Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.
 
Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como "ofensivos". Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente...
 
2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na "Praça do Império". Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero "show-off". Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?
 
Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito "bairro colonial", e no mesmo eixo de conteúdos - nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a "ofensa" com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores - e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal "show-off".
 
A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao "turístico" vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona "nobre", "histórica" e assim "patrimonial" e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do "épater le bourgeois" com o "para inglês [de facto "americano" de campus] ver".
 
(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular "Bairro das Colónias" - como ainda patente nas placas camarárias - e partam da Praça das "Novas Nações", sempre dita das "Colónias", e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, "contra os bretões marchar, marchar").
 
3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta "Praça do Império", símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma "Praça da Amizade", decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.
 
Ora esta "amizade" é o eco, até inconsciente, do ideário da "Lusofonia", essa proclamação acrítica da amizade/"comunhão de sentimentos" que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.
 
4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por "Praça da Diplomacia", simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente "iluminista".
 
5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as "relações raciais" (velho epíteto, a la Boxer) entre "negros" e "brancos" (e até "latinos") advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas "relações raciais" ("negros"/"brancos") foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.
 
Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de "intervenções" progagandísticas sobre o "património"? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é "intervencionar" os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.
 
Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.
 
Mas isso, "intervencionar" os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os "pais fundadores" deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

O novo Presidente do Tribunal Constitucional

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Gosto dos EUA. Muito por causa de alguns de lá, bem diferentes entre si. São minha vida: Clint, claro. Lou Reed, sempre. E Susan Sarandon, pois "hei-de morrer assim". Alguns outros também.
Por cá também muitos outros gostam dos EUA. Basta ver como julgam ser derbi local, Sporting-Benfica, um qualquer jogo Biden-Trump ou similar, pois sobre tal tanto espumam nos teclados como se disso dependesse o destino dos respectivos impostos. E do horário das sacristias.
Então se tanto se gringam, ainda que apenas "latinos", conviria lembrarem-se de uma coisa lá daqueles: quando alguém é apontado para qualquer posto muito relevante só é nomeado depois de cruéis zaragotoas (oficiais) lhe vasculharem o passado. Pessoal, profissional, político. Nisso o que foi proferindo, diatribes ou prelecções. Isto é por cá sabido. Pois ainda há poucos meses punhados de "latinos" luso-descendentes por cá discutiram, com afinco, o perfil passado de uma qualquer juíza americana ("wasp"?) apontada para um qualquer lugar pelo seu presidente.
Enfim, este arrazoado vem a propósito disto: se as gentes de cá tanto se gringam, poderiam perceber que é perfeitamente normal que se recuperem e discutam ditos e textos de um novo presidente do Tribunal Constitucional. Goste-se ou não das zaragatoas. Ou dele.

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