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Nenhures

Nenhures

Elogio da Arte Viária

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Apesar de na véspera ter sido vacinado (produto Pfizer, adianto devido ao interesse geral na matéria) e de estar na situação pela qual ao pressionar o local onde fora injectado ser acometido de uma impressão, dita dor, e de estar então também na iminência de ser acometido por síndrome febril (febre, como se dizia no meu tempo), estive neste último domingo num agradabilíssimo convívio na Arrábida. Nesse Parque Natural, e para além da extrema simpatia e elegância dos convivas, pude conhecer este belo exemplar da simbiose entre Arte e Natureza. Coisas que só nos são proporcionadas pela Arte Viária (aka street art).

 

O Lidl nos Olivais

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Na passada semana, e com a prestimosa presença das autoridades locais, foi inaugurada uma loja do Lidl nos Olivais. Assim, num terreno delimitado pelas ruas Cidade de Bolama e Cidade de Bissau - exactamente onde cresci e agora envelheço -, terminou um período de obras constantes que durou... 28 anos! Repito, 28 anos de obras.
 
Não só o projecto inicial foi algo alargado - tenho em casa um folheto camarário de 1990, assinado pelo autarca Jorge Sampaio que o demonstra. Mas é também um projecto notoriamente sobredimensionado. Em volume e em adequação às necessidades, da freguesia e da cidade. Prova disto? Estes 28 anos.
 
Nisto na zona aconteceu a tercearização das lojas dos prédios - e o definhar do pequeno comércio que nelas se havia instalado desde o início do bairro, esmagado pelo centro comercial instalado (estuporadamente dito xóping). E também o aumento de escritórios e de habitação. A construção de uma escola C+S. Uma estação do metro. O trânsito muito cresceu. E foi mal regulado, pois de modo contra-intuitivo. O estacionamento desta zona habitacional tornou-se escasso. Entretanto, no bairro surgiu uma outra estação de metro. E brotou o vizinho Parque das Nações. Quanto à ideia de um novo aeroporto, já naquele in illo tempore dito urgente, definhou na querela entre os socialistas neo-terratenentes dos arrabaldes da Ota e os sociais-democratas financeiros a quem coube o legado do Rio Frio. Ou seja, a continuada extensão dos serviços do aeroporto da vizinha Portela teve efeitos pressionantes na mobilidade na Encarnação, nos Olivais-Norte e nos Olivais-Sul.
 
31 anos depois do anúncio das obras, 28 depois do seu início, várias presidências camarárias decorridas, duas nesta freguesia, no bairro não foi construído nem um parque de estacionamento público nem um silo de automóveis. Nada foi pensado, e ainda menos executado. Três décadas: Sampaio, Soares, Santana, Carmona, Costa, Medina. Na freguesia: Egipto, a actual inefável Lima. Na câmara? Moles de arquitectos e engenheiros e decerto que alguns sociólogos. E nada.
 
O que nos resta, aos fregueses? A punção da EMEL, pensada como ordenadora. Apesar da extensão do bairro, da sua acidentada orografia. E do envelhecimento, empobrecimento e isolamento da sua população. Pois nada foi pensado, nada foi planeado. Numa administração que espelha políticos e funcionários públicos: sobredimensionar projectos na volúpia do apego à "indústria" da construção civil. E taxar os cidadãos. De modo vigoroso e punitivo - pois tanto as modalidades do parqueamento como as quantias exigidas pela EMEL são, de facto, uma extorsão.
 
A mim, vá lá, resta-me isto de ter o Lidl na minha rua. Pois agora basta-me atravessá-la para comprar uma garrafa do apreciável Queen Margot, suficiente uísque a menos de 7 euros. E bebo um copo generoso, com gelo, durante este escapismo das redes sociais. Lendo tantos "cidadãos", tão convictos deles-mesmos, a protestar com a (falsa) marquise do Cristiano Ronaldo. E depois bebo outro. Sem problemas. Pois, apesar do que acima digo, não tenho carro.

A falsa marquise de Cristiano Ronaldo

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Viva CR7!

Em Lisboa, e não só, os "parvenus" ("arrivistas" se em português arcaico, "parolos" se sob a bigotry do sociólogo Augusto Santos Silva, a qual segue ainda imune às denúncias dos "movimentos sociais") sentem-se muito lesados com a sala de treino que o CR7 instalou no invisível terraço da sua casa. O generalizado clamor ofendido seria suficiente para a declaração de um "estado de emergência cultural", tamanha a calamidade que demonstra. E a apressada promessa municipal de uma vistoria punitiva é mais do que suficiente para uma ampla razia defenestradora.
 

Enquanto não termino esse manifesto sanguinário deixo este meu velho texto, um "Viva o CR7!". Que muito "bate bem", ao invés desta chusma compatriota.

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À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de "stop", pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. "Estou tramado!", resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos ("Maputo", respondo), de onde somos ("portugueses", digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta "how are you, sissi (maninha)?" e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me "se você é português vou-lhe fazer uma pergunta" e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal "Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?". Eu rio-me, num "Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais", enfatizo, mas ele insiste, "mas qual é o melhor?". "Ok", e enceno-me, olhando à volta, "só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi", e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. "Não, você está errado" riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), "Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!". Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num "podem ir". Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.

 
(Fica a historieta para os que acham mal resmungar com os patrícios que, sistematicamente, apoucam o labor do maior atleta em actividade. Talvez nisso ombreando com Federer, mas muito mais célebre).

Boletim Clínico pós-Vacina (2)

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Com todos aqueles que se irão vacinar contra o Covid-19 partilho esta informação. Várias portugueses (ou seja, com experiência prévia similar à minha nesta matéria vacinal) já me tinham avisado sobre as dores, até violentas, sofridas no braço inoculado.

Venho confirmar isso. Passaram já 24 horas após a minha vacina (com o produto da marca Pfizer, digo-o aos especialistas no assunto, sempre interessados). E se palpando a parte superior do braço comprovo, por sensação, que ali fui injectado. Chama-se a essa sensação dor ("dolor" em latim). Adquiri entretanto produtos químicos antidepressivos, Ben-U-Ron e Paracetamol (genérico), que promovem a felicidade e até euforia, pois avessos à tal dor e mesmo ao desconforto. Ainda não os usei. Mas é provável que deles ainda virei a necessitar. Pois ao carregar com veemência no local da injecção a sensação (a tal "dolor") é ainda maior.

Enfim, voltarei a informar-vos sobre este processo braçal. E deixo ainda, caso não saibam, a informação de que fui vacinado com o produto da marca Pfizer. Que me afiançam ser de confiança. Apesar desta dor...

Boletim Clínico pós-Vacina (1)

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Acabo de ser inoculado e assim cumpri o meu dever cívico - e agora, no dito recobro, lembro os maluquinhos anti-covid que ensaiaram um "anti-vacinas"... E continuam a clamar conta a "censura". Enfim, para arrogância egocêntrica não há vacina.

Quanto às vacinas: tudo rápido e bem, excepto a irritante cor de algum mobiliário. A lembrar a "Super-Marta" e seus esbirros.

Como anda tudo maluquinho a assumir clubismos quimicos antes que me perguntem adianto que fui consagrado, hoje cerca do CDUL, por um soro da marca do Viagra. 

Mulheres no Facebook

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(Mulher de Willendorf)

 
Desde há anos que quase todos os dias recebo propostas de ligação-FB ("pedidos de amizade") de minhas desconhecidas oriundas de dois agregados. Muitas provêm da uma globalizada (e assim anglófona) "spam red light", de perfis obviamente falsos. Mas o outro agregado constitui-se de perfis na sua maioria visivelmente reais. São oriundas da "pérola do Índico", mulheres muito jovens em poses simpáticas, sempre dotadas de formas muito generosas. Amplas.
 
Deste segundo universo retiro duas superficiais conclusões: 1) como os padrões estéticos são culturalmente tão diferentes, o primado do roliço a Sul contrastando com o consabido (e até doentio) primado do esguio a Norte. Sobre isso, e sem grande deambulações dietéticas, logo concluo um "Ainda bem!"; 2) que na minha sociedade estas púberes publicitações pessoais, femininas e provavelmente também masculinas, estarão alojadas no Instagram, o que demonstra diferentes manuseios nacionais destas redes sociais. Ancoro-me nisto: nestes largos últimos anos de FB não me lembro de ter recebido quaisquer propostas de ligações reais enviadas por jovens portuguesas, surgindo com estas poses (não "porno", friso, apenas "simpáticas", quais sedutoras). E ao que consta os nossos jovens estão inscritos no Instagram e outras redes.
 
Mas sigo com terceira conclusão, mais especulativa (e talvez preconceituosa mas juro que não malévola): é que este fluir constante de raparigas (muito)jovens propondo ligações a homens tão velhos como eu deixa entender uma propensão socialmente aceite para o "sugar daddysmo". Acredito no "vive e deixa viver" dentro do espectro do real livre-arbítrio. Mas, e sem exageros moralistas - que não me venho anunciar como santo -, ver isto, este constante fluxo, custa um bocado. É mesmo pungente.
 
Em suma, e pela parte que me toca: não tenho disponibilidades económicas nem disposições éticas para exercer o papel de "sugar daddy". Ou seja, meninas não peçam "amizade" a este velhote.

EuroBichas e censura no Facebook

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No zapping do jantar de sábado passei no Eurovisão. A minha filha propôs que víssemos um bocado. Anuí, por amor paternal e porque caíramos naquilo aquando da francesa: uma boa cantora, uma "chanson" competente, coisa deveras surpreendente no meio daquela sempre anunciada mediocridade. Depois seguiu-se o que se espera daquilo: um grupo pop-simpático islandês (de que vi mais no telefone filial), uma bojuda maltesa, umas desgraciosas dançarinas de cabaret cazaque meneando-se a la Bollywood. Pior do que tudo uns italianos pantominaram o heavy - "o heavy não é isto!", clamei irado e ali pedagogo, ainda que os meus Zeppelin fossem hard e não heavy... E a paciência esgotou-se-me com um pós-viking invertido, guinchando-se "anjo caído", algo ainda mais bimbo para quem tenha crescido com o belo e magnífico Sweet Transvestite Tim Curry e então, ali mesmo, apaixonando-se para todo sempre pela Sarandon.

Enfim, nada de novo, mesmo que desse historial festivaleiro só recorde os Abba. E uma Abanibi com que a Europa de então celebrou a "diversidade", para glosar os ditos dos activistas de hoje. E, nossos, a Balão Sobe mais as Doce. Deste XXI? Aquele travesti de barba, artista de feira miseranda. O nosso campeão Sobral, que ressuscitou a Eurovisão para os bem-pensantes. E, claro, o patusco olivalense dito Conan Osíris (que será feito do vizinho?).
 
Nada mais, pois nem vejo, apenas ouço falar, consabida que é a desinteressante mediocridade musical daquilo. E que se tornou, se é que não o era antes, uma "gay parade" festivaleira anual. E as pessoas sabem-nos, dizem-no, vêem ou não consoante os seus gostos e paciências. Isto nada tem de homofóbico. Diz-se que disse Horowitz, ainda que talvez seja apócrifo, que há 3 espécies de pianistas: os judeus, os homossexuais e os maus. Alguma coisa contra Horowitz? Mas esta pantomina anual, de lantejoulas rascas, é apenas isso. A que propósito é que o serviço público entra naquilo é coisa que não percebo.
 
Enfim, Eduardo Cintra Torres escreveu um artigo de opinião (acesso restrito, deixo notícia com citações) e tratou, bem, aquilo como EuroBichas. Ofendeu, ao que parece. João Gonçalves ecoou o texto no seu mural. O postal foi apagado pelo sistema-FB e ele suspenso desta plataforma. Não se trata de uma censura "sistémica", robótica. O que decerto aconteceu foi ter havido uma série de "denúncias" e até "bloqueios", gente que se julga activista e para aqui vem peneirar o que é "aceitável" e "inaceitável". Não são os coronéis da censura a la Estado Novo. São meros cabos arvorados, das brigadas dos "movimentos sociais". E que entenda bem quem não o conheça: João Gonçalves, veterano (ex-)bloguista, não tem pingo de homofobia. Mas é de "direita", essa direita que é preciso atacar... Assim. Como sempre, na história recente e na recuada destes "movimentos sociais" e seus avatares.
 
Já agora, e lateralmente: para quem gosta de gastar o seu tempo a opinar em público, este vil pequeno episódio mostra bem uma coisa. A superioridade dos blogs. Onde a censurazinha desta gentinha não funciona. Pode-se levar algumas porradas, mesmo duras e fundas, até bem piores (e eu sei-o bem). Mas não estas coisas desprezíveis.
 
Enfim, boto isto para dizer que continuarei a ler Eduardo Cintra Torres e João Gonçalves. E quando não gosto - às vezes acontece - do que botam ou resmungo (quando me irritam) ou vou para outra loja. Pois é assim que deve ser. Longe destes gaj@s activistas. Más reses.

Amadeu Castilho Soares

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(Amadeu Castilho Soares em trabalho de campo na (actual) Guiné-Bissau, 1959-1960)

Aos 90 anos morreu agora Amadeu Castilho Soares, durante décadas gestor de recursos humanos, área laboral na qual foi um dos primeiros presidentes da respectiva associação profissional. Aqui evoco o seu breve período de investigador "africanista" - como então se dizia - e a sua fugaz mas impressiva experiência no governo colonial. Pois esse seu percurso denotou dinâmicas político-administrativas daquele ocaso imperial mas também algumas das suas ambivalências, as quais não deixam de apelar ao matizar de interpretações mais sistémicas dessa era.

Castilho Soares frequentou a Escola Superior Colonial - entretanto renomeada como Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (futuro ISCSPU e actual ISCSP) -, instituição na qual logo veio a ser docente. Nesse ambiente formativo foi muito influenciado pelas concepções então reformistas de Adriano Moreira. Foi esse mestre que o integrou em investigações nas colónias, organizadas pela Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, numa época em que se procurou dinamizar a até então escassa investigação em temáticas antropossociológicas.

Nesse âmbito integrou a Missão de Estudo para a Atracção das Grandes Cidades e Bem-Estar Rural, com estadas de terreno durante as férias lectivas entre 1956 e 1959 em Angola e Moçambique. Nesta podia-se reconhecer a influência de concepções então emergentes, tendentes ao desenvolvimento comunitário rural - consagradas desde o início daquela década pela ONU -, e cooptadas em Portugal também para o esforço reformista do regime colonial em busca da sua legitimação internacional. A posteriori pode-se ainda notar a relação desses intuitos com a preocupação administrativa com o que então se dizia "destribalização", as transformações oriundas dos fenómenos de urbanização, assalariamento e até migrações. Mas o que agora será ainda mais interessante é detectar naquele quadro intelectual  concepções que, salvaguardadas diferenças de objectivos e métodos, ressurgiram décadas depois exactamente sob esse epónimo, o tal "desenvolvimento comunitário" ainda muito em voga neste XXI.

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É interessante para o historial da investigação portuguesa e da sua articulação com os objectivos político-administrativos que dessa longa pesquisa, congregando fundos então algo inusitados, não advieram os resultados colectivos esperados. Pois apenas resultou a tese de licenciatura de Castilho Soares, este “Política de Bem-Estar Rural em Angola”. Tal não se terá devido apenas à particular competência do autor, tornando-o excepção naquele projecto, mas indicia falta de organicidade institucional, a qual fragilizava o desenho e a realização das investigações. E não deixa de denotar que o vínculo entre as pesquisas realizadas e os mandamentos políticos que as convocavam eram, de facto, mais ténues do que interpretações posteriores vieram afirmar, acabando por ser mais um ambiente intelectual do que propriamente uma política cabal.

Foi nesse mesmo contexto que Castilho Soares integrou em 1959-1960, na condição de sociólogo e juntamente com os arquitetos Schiappa Campos e Saragga Seabra, a Missão de Estudo do Habitat Nativo da Guiné, cujo plano indicia o mesmo tipo de preocupações, uma abordagem etnográfica que baseasse o reconhecimento e valorização do modus vivendi populacional. Algo que se pode ligar com os intuitos então proclamados de gerir o povoamento, inclusive através da reorganização administrativa local e de reassentamentos rurais, que viessem a obstar aos fenómenos de "destribalização", estes perspectivados como anómicos e temidos como fonte de processos independentistas. Também neste caso os resultados da investigação não foram imediatos, em parte pela posterior realocação dos investigadores a outros serviços. Assim só em 1970 foi publicado o relatório Habitats Tradicionais da Guiné Portuguesa, abarcando um espectro bem menor do que o objectivo inicial - o que de novo permite referir a fluidez dos laços entre administração e investigação. E só muito recentemente esse precioso material fotográfico foi recuperado, através da exposição "Moranças - Habitats Tradicionais da Guiné-Bissau". (Aqui o folheto). Mas essa esparsa relação entre propósitos políticos e concepção das investigações, bem como o voluntarismo que a estas ancorava, perpassa ainda mais no interessante depoimento que Castilho Soares concedeu à historiadora Cláudia Castelo em 2010. No qual explicitou a disparidade entre os enormes objectivos iniciais e os recursos realmente disponibilizados, bem como a falta de formação metodológica da sua geração. 

Depois, com apenas 31 anos, e também por intermédio de Adriano Moreira, que viria a assumir funções ministeriais, foi nomeado para o governo de Angola, como Secretário Provincial da Educação, Saúde e Trabalho e Segurança Social. Eram, como disse, "as 3 áreas politicamente mais melindrosas quer a nível interno quer face à política internacional", exactamente no período da revogação do Estatuto do Indigenato e de alterações da Lei do Trabalho, ilegalizando a então omnipresente corveia. Nesse período desenhou o inovador projecto de desenvolvimento da Escola rural, o "Levar a Escola à Sanzala", uma verdadeira reforma que procurava alargar a alfabetização, concebida à margem da igreja católica à qual o Estado Novo havia entregue o ensino da população africana e que se veio a opor a esta iniciativa. Também neste caso agora se nota como algumas daquelas concepções foram recuperadas, décadas após as independências africanas, pois são patentes as similitudes com as metodologias actuais das "escolas comunitárias"  construídas pela população rural e sob sua relativa tutela, fornecidas de professores formados pelo Estado. 

Durante esse seu trepidante curto mandato foram criados vários liceus, escolas técnicas, de enfermagem e de serviço social. E iniciou-se o processo de estabelecimento da Universidade em Angola, o qual Castilho Soares acompanhou ainda que dele não fosse responsável. Mas este provocou acesa polémica política e mesmo a eclosão da crise entre os "integracionistas", partidários do centralismo metropolitano, e os crentes nas virtudes descentralizadoras, então emergindo no território angolano. Assim a proclamação provincial da universidade de Luanda veio a ser vetada pelo governo nacional, num processo que aceleraria a posterior abertura dos Estudos Gerais em Lourenço Marques e Luanda (1962 e 1963). Mas esse episódio foi o culminar de uma tensão entre essas correntes políticas e acabou por provocar as demissões do ministro Adriano Moreira e do governo colonial do general Deslandes.

Desse seu fulgurante biénio, e do seu afã reformista, ficaria como fundamental traço o projecto de alargamento da rede escolar, sem tutela eclesiástica. Demitido o governo de que era membro, Castilho Soares regressou a Lisboa sofrendo uma surpreendente represália estatal, bem mostrando como eram fluidas e complexas as concepções então dominantes e espúrias muitas das retóricas propaladas. A esse propósito, e com toda a pertinência, disse o professor Adelino Torres que o "Levar a Escola à Sanzala" se tratou "de um plano em grande escala concebido e corajosamente executado pelo antigo Secretário Provincial da Educação de Angola, Amadeu Castilho Soares. O plano era tão ousado que deu origem à posterior destituição pura e simples deste alto funcionário e ao seu afastamento da carreira universitária, para além de uma perseguição mesquinha de que foi vítima durante anos.

Assim afastado das áreas de investigação a que se dedicara desde a sua juventude Amadeu Castilho Soares inflectiu a sua vida profissional, seguindo uma preenchida carreira na gestão de recursos humanos. Já viúvo deixa agora filhas, netos e bisneto. Foi precedido na morte pelo seu filho, e meu saudoso amigo, João Nuno. O qual tanto recordo nestes dias de pesar.

NotaLista dos textos de Amadeu Castilho Soares

Soares, Amadeu Castilho (depoimento, 2010), IICT, 2011. 16 p. (entrevista concedida a Cláudia Castelo)
 
 
Adenda: para quem tiver interesse sobre esta época deixo - sem quaisquer pretensões de ser exaustivo - estas referências bibliográficas (basta pressionar a ligação para aceder aos documentos em formato pdf): Carla Abrantes, "Repertórios do conhecimento em disputa: trabalhadores indígenas e agricultores no colonialismo português em Angola, 1950"Cláudia Castelo, "Novos Brasis" em África: desenvolvimento e colonialismo português tardio"Fernando Tavares Pimenta, "O Estado Novo português e a reforma do Estado colonial em Angola: o comportamento político das elites brancas (1961-1962)"

Gerhard Liesegang

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Aos 80 anos morreu Gerhard Liesegang, autor de uma preciosa e vasta obra sobre a História de Moçambique, desde o seu doutoramento sobre a história do Estado de Gaza. Seguiu como praticante de Antropologia Histórica, e nisso foi enorme exemplo da irrelevância destas divisões disciplinares de que alguns são tão ciosos. Ele próprio assim se anunciava, não só na simpatia com que olhava os colegas antropólogos como quando deixava cair ter estudado (aquando na Londres dos anos 1960) com professores como Isaac Schapera, Raymond Firth, Robin Fox, Lucy Mair ou Tom Bottomore. De facto, nele subsistiu com pertinência a ambiciosa tarefa boasiana, da extrema abrangência do exercício individual das ciências sociais. Nisso fazendo-o um verdadeiro sábio.

Era um homem de enorme simpatia, a qual nem a sua (aparente) timidez escondia. E dono de uma dicção dificílima de captar - lendária até, e sempre carinhosamente evocada por colegas e ex-alunos. A qual nos convocava para ainda uma maior atenção para o que ele proferia. Lembro-me que em 1994 no meu segundo dia em Moçambique José Soares Martins (Capela) - sabendo que eu ia para o Norte - me mandou ter com ele. Recebeu-me em casa, ali à Polana, e no seu jardim deu-me um enorme "briefing" sobre o Cabo Delgado, numa total disponibilidade diante do miúdo que ali lhe batera à porta, de modo inopinado. Saí dali estupefacto, tanto pela dimensão da minha ignorância como pela sageza e simplicidade do Professor.

A última vez que o vi foi em 2017, quando apresentou o livro "Costumes Ancestrais do Povo Makhwa-Metto, de Montepuez", uma memória etnográfica de João Eduardo de Conceição, organizada pelo filho do autor, o antropólogo Rafael da Conceição. Decorrendo a cerimónia na Matola, diante das autoridades locais, o Professor dissertou sobre a relevância da obra e, depois, com o seu célebre sorriso plácido, aproveitou para inflectir o discurso e deixar uma radical crítica ao descuido com o património arqueológico daquela zona, triturado pelo "desenvolvimentismo", coisa que, como frisou, "já vem do tempo colonial e não mudou". Assim mostrando-se não só sábio como exemplo de intelectual.

Muito do que escreveu está em alemão, língua que não domino. Mas há um manancial em inglês e em português. E a melhor maneira de homenagear um autor não é botar encómios. É lê-lo e relê-lo. Deixo ligação para a sua página na rede Academia.edu e para uma entrevista sua, realizada em 2010 pelo meu colega Guilherme Mussane. E é para onde vou agora, relê-lo. Pois o Professor Liesegang é daqueles que conta

Monumento a Portugal

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Os romanos criaram a Europa e a Cristandade e nisso o primado do livre-arbítrio ("É de sua livre e espontânea vontade que contrai matrimónio?"). Por isso a nossa civilização. Fizeram-no devido à sua superioridade cultural e ao primado da lei. E também porque as suas legiões eram fortificadas contra as desinterias - assim podendo-se deslocar em combate sem desfalecimentos - bebendo posca, vinho avinagrado misturado com água.

Por isso aqui em Azeitão este cacho de uvas regado a repuxo é o grande monumento nacional dedicado à nossa identidade, portuguesa e europeia. Urge cultuá-lo, em romarias e oferendas. E protegê-lo das hordas de bárbaros pós-modernos.

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