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Nenhures

Nenhures

04
Jun21

O terraço de Cristiano Ronaldo

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ronaldo.png

Sobre a patética polémica devida ao acrescento que Cristiano Ronaldo fez na sua casa lisboeta há hoje dois textos interessantes. Octávio Ribeiro, no "Record", tem um justificado sarcasmo e resume a questão: se a selecção nacional de futebol tornar a ganhar o Europeu esta sala será louvada e o próprio Medina irá inaugurá-la, comovido. Se a selecção perder o título a afinal marquise será vistoriada e penalizada pela CML.

O outro é um belo texto de António Guerreiro no "Público". Como não tem acesso livre deixo transcrição de um excerto: 

"(...) Ouvindo as reacções de José Mateus [arquitecto] à vilipendiada "marquise" que veio "atropelar" a "cultura" e as "autorias", até parece ele que vive num empíreo e que só tem de responder perante quem lhe encomendou a obra e em nome de uma razão estética, de uma abstracta beleza. Ora, embora isso seja uma regra a que já estamos habituados, há momentos como este em que apetece dizer que essa regra é um atropelo ignóbil ao nosso direito à cidade. Os arquitectos daquele edifício sabem seguramente o que significa a verticalização da arquitectura, a transformação do skyline da cidade para oferecer a uns poucos "um conceito único de exclusividade" (como se diz no site do edifício). Entre essas exclusividades, está a paisagem, da qual este e muitos outros edifícios como este se apoderam.
 
Se lermos a descrição do edifício, percebemos que ele foi concebido segundo o modelo urbano a que os urbanistas americanos chamam gate communities, isto é, comunidades fechadas, completamente separadas da cidade, sem alimentar a vida que lhe corre nas veias, de onde se oferece apenas como uma vista panorâmica. As gated communities que se formam nos bairros mais ricos das cidades são "privatopias", isto é, espaços utópicos privados (...). São atentados à cidade. Os arquitectos têm todo o direito de reinvidicar a sua liberdade autoral, mas na medida em que conformam a nossa cidade e determinam o seu destino, eles não podem sentir que só têm de responder à razão estética e à exigência dos clientes que de um modo geral não coincide com o nosso direito a uma cidade habitável e mais produtora de uma "cultura" que animou o "espírito" das grandes cidades. O atropelo estético perpretado no topo do belo edifício desenhado por José e Nuno Mateus é um crime menoríssimo quando comparado com a arquitectura anestesiante que desconhece completamente a responsabilidade profissional de um arquitecto, a questão ética que lhe é inerente. Este vínculo não é de agora, vem de Vitrúvio. A bienal de arquitectura de Veneza, no ano 2000, tinha como título Less Aesthetics, More Ethics. (...) O grande historiador de arte italiano Salvatore Settis (...) propôs que [os arquitectos] deveriam fazer um "juramento de Vitrúvio", por analogia com o "juramento de Hipócrates" (...) Tal como um médico não pode matar o doente, o arquitecto não deve matar a paisagem nem contribuir para saquear a cidade. Mas isso não percebem os autores do "Castilho 203".
 
Para terminar, na quantidade de exaltadas críticas que nos últimos dias li e ouvi sobre isto há algo que retiro. Tendo crescido nos Olivais - urbanização sobre a qual recomendo o artigo do arquitecto Tiago Cardoso de Oliveira -, um bairro multiclassista brotado nos 1960s, sempre percebi que no Estado Novo (tardio) se pensou que urbanistas e arquitectos de topo se dedicassem às edificações para "classes desfavorecidas" (como agora se diz) Ou seja, que os recursos da arquitectura e os expoentes dos seus praticantes não se destinavam às elites ou melhor, por estas não estavam monopolizados e aos seus edifícios de luxo. Mas agora noto que o escândalo advém de se ter "desvirtuado" uma "obra" arquitectónica pois esta luxuosa, num país onde a autoria arquitectónica e a programação urbanística para a população vulgar vêm sendo, como é notório, pontapeadas com mais vigor do que o CR7 imprime nos seus tomahawks. Sem que isso levante quaisquer polémicas populares e mediáticas. Seria pungente se não fosse, acima de tudo, mostra do ambiente cultural desta II República (tardia?). Afinal, quem diria?, tão paradoxalmente ao invés do tal ocaso do salazarismo.

03
Jun21

Um batido de morango e banana

jpt

batido-de-morango-banana.jpg

 

(Batido de Morango e Banana, no sítio Food From Portugal)

Um lisboeta vulgar tem duas maneiras de encarar a sua cidade:
 
1) entretem-se a vociferar "malandro" e "marquise" contra o CR7 por este fazer uma recôndita sala de treino no terraço de um enorme, desnecessário e disruptor falo de vidro a Câmara permitiu. E vai abastecer-se ao supermercado "gourmet" (e caro) - onde consta que os produtos têm sabor - da gigantesca e absurda marquise El Corte Ingles, que a Câmara permitiu naquela vizinhança - saberá o Grande Arquitecto a troco de quê... Este é o abundante tipo de alfacinha que vai contente consigo próprio.
 
2) entretem-se durante o defeso a questionar o destino próximo do CR7 (Juventus?, PSG?, M. United?, Sporting) e de outros futebolistas, enquanto anseia pelo próximo Europeu, no qual a selecção caiu num "grupo de morte". Nos intervalos dessa angústia (ainda que esta omnipresente) abastece-se nos supermercados populares, nos quais vegetais e legumes sabem a quase nada, coisa do como são criados e comercializados. Este é o abundante tipo de alfacinha que anda um bocado chateado com os outros e, em alguns casos, consigo próprio.
 
Para nós, os do grupo 2, há que disfarçar as tralhas que trazemos para casa, "verdes" de imaturas ou já quase-podres, as das "promoções"... Hoje, como é feriado e está dia soalheiro, disfarcei banana e morangos, todos de teor quase neutral, claro, e caminhando rapidamente para a putrefacção, num batido seguindo este tutorial.
 
Refiro-o, ao tutorial, pois denota a grande diferença cultural entre portugueses e brasileiros (abundantes na internet culinária): os brasileiros mesmo para um singelo batido levam infindáveis minutos e usam inúmeros diminutivos. Cá a gente é um "ver se te avias", bons tutoriais, curtos e informativos.

03
Jun21

Uma sopa de beringela

jpt

sopa.jpg

 

(Sopa de Beringela com iogurte, chef Continente)
 
No FB e restantes redes sociais as pessoas mostram-se como querem ser, (re)constroem-se: analistas das questões do mundo, vorazes bibliófilas, confinadas telespectadoras, extremosas familiares, iradas e impolutas cidadãs (olá jpt), gulosas aka gourmets, convictas fotógrafas, patuscas convivas, poetisas de versalhadas e arreigadas cronistas, descaradas evangelistas, mimosas zoófilas, atentas melómanas, insuportáveis "comerciais" (os Serafins Lampiões andam por ali), sóbrias enófilas, amantes de "arte contemporânea" e mesmo da de antanho, palestrantes algo balbuciantes, militantes ecologistas. E mesmo raríssimas cozinheiras, estas sempre ufanas dos respectivos empratamentos (como agora se diz aquilo de botar a comida no prato).
 
Acontece que neste imenso rosário de boas pessoas com as quais tenho ligação não há uma alma caridosa que partilhe o como cozinha (exceptuando, in-blog, Maria Dulce Fernandes). Todos comem todos os dias, bem ou mal. Mas anunciar como o fazem? Nada, nada mesmo. Que serão boas pessoas, generosos amigos e conscientes cidadãos, mas partilhar cristãmente o que realmente interessa? Nisso seguem basto egoístas. Por isso, e por dever de cidadania, comecerei aqui a partilhar não tanto as minhas certeiras análises sobre o devir mas o rol dos tutoriais de que me socorro.
 
Hoje - e já aberta a garrafa do decentíssimo Queen Margot adquirido na nova loja Lidl dos Olivais, que gratuitamente muito recomendo - irei fazer esta sopa. É certo que sou militante seguidor do SaborIntenso de Neuza Costa, Senhora que já merece ser comendadora. E admirador do grande Necas Valadares, meu ícone. E consulto amiúde, devido à minha "resiliente" costela burguesota, com prazer intelectual o chef(e) Henrique Sá Pessoa. Mas hoje, e porque tenho ali umas beringelas a fenecer vou-me a isto - que tem todo o ar de me vir a sair uma mistela. Pobre Carolina, às mãos de um pai "solteiro"...

01
Jun21

Boletim Clínico pós-Vacina (3)

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Actualização do boletim clínico pós-vacina.
 
Dado o interesse generalizado na temática vacinal e nos efeitos derivados da inoculação, e face à preocupação com que muitos têm acompanhado este meu estado - expressa em inúmeras mensagens e telefonemas - venho actualizar o meu estado de saúde.
 
Passadas cerca de 48 horas sobre a referida inoculação (com o produto da empresa Pfizer, sobre o qual há boas referências), algo esmaeceu a impressão (popularmente conhecida como "dor") sentida quando pressionado o local injectado. Não registei quaisquer laivos de síndrome febril. Entretanto retirei do braço, sem perda de penugem ou camada epidérmica, este objecto ("penso") que me havia sido colocado no antebraço cobrindo com exactidão o local perfurado pela agulha, e no qual não detectei quaisquer sintomas de degenerescência corpórea - facto que comprovo com imagem apensa.
 
Espero que estas informações sejam para todos valiosas. Amanhã de manhã emitirei outro relatório actualizado. A todos desejo sucessos vacinais.

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Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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