Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

padrão.jpg

Alguém foi-se ao Padrão dos Descobrimentos e escreveu uma qualquer tralha. Caiu "o Carmo e a Trindade". Gente "saiu à rua" (hoje em dia é "aos teclados") arrepenhando os cabelos, rasgando as vestes, acorrendo à honra pátria, a Câmara aprestou-se a limpar a ofensa aos ancestrais, a célere Polícia Judiciária pôs-se em campo e logo desvendou ser o crime uma agressão estrangeira, assim sossegando-nos por não se tratar de uma sempre temível traição.
 
Todo este disparate dá-me vontade de... também bramir. Desde há imensos anos que está Lisboa (e não só) carregada dos tais grafitos. Boçais e imundos. Dizeres estapafúrdios, desenhos indigentes, rabiscos, miríades de "bastos" de todos os tamanhos e posições. Toda essa tralha amadora e morcona de facto legitimada e potenciada pela consagração - pela academia, pelas instituições estatais, pelo "gosto informado", agora até pelos construtores civis - da "street art" (de facto, uma mera "street curio"), que nada mais é do que o piroso desta era - a patética Pasionaria da Graça, os "Pierrot com lágrima" a louvar os profissionais de saúde ditos a "linha da frente" contra o Covid, etc. No fundo, tudo isto seguindo a coberto pelo culto da "intervenção".
 
E agora todo este "ó da Guarda!", "Aqui-d'el-rei!"? Recordo que há uns tempos o jornal "Público" (claro) publicou um artigo de 4 universitários sitos em universidades americanas. Portugueses, brancos, de meia-idade, e de nome compósito. Defendiam a prática espontânea da "intervenção" "decolonial" sobre os monumentos. E desvalorizavam os críticos dessa festança como meros "homens, velhos, brancos e de certa classe social" [burgueses, entenda-se. Ou seja, os que tendem a assinar com nomes compósitos, para quem não perceba]. Alguém deu porrada nesse "paper curio"? Nada, que ninguém se vira a esta gente dos ademanes.
 
Enfim, vai um ror de disparates. E nisso lembrei-me de um texto que escrevi há sete anos quando encontrei uma "intervenção" "decolonial" no ex-libris colonial em Bruxelas. Para quem tiver paciência aqui deixo a ligação.

matu.jpg

Noutra rede social, mais dada a questões profissionais, vejo o anúncio de um webinair austral dedicado ao tema "Mulheres investigadoras de ciências sociais na época do Covid". Sinto-me. E logo escrevo a amigo-colega, também transhemisférico, convocando-o a que organize ele, académico de renome, um outro webinair sobre "Homens (quase) velhos investigadores durante o Covid-19".
 
Ele ri-se e responde: "seria expulso do campus". E não é que deve ter razão?

 

mo.jpg

Sobre Moçambique é importante ler (e ouvir) o que vêm dizendo alguns intelectuais e jornalistas nacionais, e este artigo é um bom resumo. Por um lado, a constatação - que surge também como um lamento - de que a situação militar no Cabo Delgado se alterou radicalmente com a recente chegada de um pequeno contingente ruandês (ao qual se seguiram vários contingentes dos países da SADC), culminando na recente reconquista de Mocimboa da Praia. E o quanto isso é demonstrativo da fragilidade do Estado moçambicano (e não só das suas forças armadas). 

Por outro lado, a consciência de que a abordagem governamental - que muito se reforçará com os presumíveis sucessos da força militar internacional - continua a não reconhecer as causas sociais, económicas e políticas endógenas que vêm alimentando este conflito. E nesse sentido é importante ouvir o filme (5 minutos) incluído no artigo, com declarações muito ponderadas de Elísio Macamo. Ou seja, e como é patente há vários anos, se é urgente combater a guerrilha é também fundamental reestabelecer um contrato social, não só no Cabo Delgado mas em todo o país.

Há outros dois assuntos (entre tantos) que me ocorrem: os EUA acabam de publicar um rol de responsáveis locais do movimento internacional islamista em África, incluindo a liderança no Cabo Delgado. Que isto sirva para sedimentar a ideia de que se este conflito não se resume a uma agressão islamista externa, também não lhe é excêntrico - como muitas das ênfases nas causalidades internas propalaram ao longo do último ano e meio. 

Finalmente, e para nós portugueses interessados nesta temática: as causas da actual situação moçambicana são múltiplas e as dinâmicas (e putativos efeitos) da missão militar internacional são complexas. E algumas serão até, por enquanto, indiscerníveis. Mas para tentarmos perceber o processo convirá afastar-nos da poluição de uma imprensa demagógica. Eu sei que o "Público" já se me tornou numa "bête noire" (e ao longo dos anos que vivi em Moçambique quantas vezes bloguei resmungando com as incompetências daquele jornal sobre o país). Mas quando, como recentemente, o "Público" proclama que esta intervenção estrangeira é "uma guerra por procuração da França", reduz-se à indigência, ao "grau zero" analítico, à mera teoria conspirativa - por mais que estejamos conscientes da influência dos macro-interesses da indústria extractiva. Ou seja, que os meus compatriotas evitem comprar/visitar esse boletim. Para as questões moçambicanas e, note-se bem, para as restantes tralhas.

messi.jpg

Isto das regras financeiras da Liga espanhola terem impedido o clube de associados Barcelona de manter Messi, e de este transitar para o clube das relações públicas da ditadura catari terá um efeito a curto prazo: vai mesmo começar a tal SuperLiga Europeia, juntando os clubes de milionários de 5 países.

portugueses de bem.jpg

Vai uma resmunguice com a nossa representação olímpica nacional, ainda que os resultados até sejam algo melhores do que o habitual. Pois a alguns custa-lhes a origem dos atletas. A vitória do luso-cubano Pichardo é desprezada pelos comunistas do PCP: o seu ex-eurodeputado Miguel Viegas, e agora candidato a Aveiro, insulta-o de "paraquedista" e na RTP (o serviço público), já pós-medalha de ouro, um qualquer castrista ali funcionário insultou-o de "desertor". Entre os apoiantes de "Fidel" (PCs e tantos outros geringoncicos) ninguém se ergue no agora tão habitual "denuncionismo" - se alguém disser em público que Patrícia Mamona é lindíssima logo será apupado como "sexista", dada esta mentalidade da "esquerda" actual. Mas que um comunista da RTP chame "desertor" a um atleta passa incólume.
 
Mas o patrioteirismo racista não está só nessa gente "roja", pois entre o "povo comum" (a velha "maioria silenciosa", aquela do "a minha política é o trabalho") também muito se vai resmungando contra a composição da equipa olímpica. Entre esses Bessone Bastos, lenda do desporto português, antigo olímpico, e Prémio Stromp do Sporting - e isso é agora insustentável para o clube, que terá de se pronunciar -, afirma que a nossa única medalha é a do branco (Fernando Pimenta). E este lixo anda por aí.
 
Entre os (espero que muitos) que se abespinham com estes dislates também não vinga grande clareza. Vejo gente que afixa, com boas intenções (demoníacas, como bem se sabe), as caras dos medalhados negros intitulando-os "portugueses de bem", querendo pontapear a tal "maioria silenciosa", os fascistas do prof. Ventura. Ora, de facto, isso é o contrário do que deve ser dito: "portugueses" somos todos, os por ascendência, por sítio de nascimento ou por "naturalização" (de facto, por nacionalização). Não é preciso ser campeão, excelente. Alguém que vem de fora e que se "nacionaliza", dentro da lei, tem todo o direito a ser medíocre, incompetente, até mariola, mediano e, excepcionalmente, excepcional, como todos nós, os outros que já cá estávamos. Porque esses racistas ao ouvirem isso dos "campeões serem de bem" dirão que "esses sim, agora os outros" (a tralha tal qual todos somos) "é que não os queremos".
 

Quando há cinco anos o luso-guineense Eder marcou este golo toda a gente se atirou ao ar, mas não por causa das suas origens ou fenotipo. E termos sido campeões europeus tendo como melhor jogador (de todo o torneio, já agora) o luso-brasileiro Pepe - que para cá imigrou no final da adolescência -, também não chocou ninguém. Bem pelo contrário. E é isso relevante porque, dada a futebolização do país, a selecção convoca mais paixão identitária do que os judocas, nadadores ou afins olímpicos. Mas também antes ninguém se erguera contra os triunfos do luso-nigeriano Obikwelu ou do luso-cabo-verdiano Nelson Évora.
 
Isto bem demonstra que as estratégias confrontacionais dos demagogos de extrema-esquerda (a inefável Moreira com meia primeira página de hoje do boletim "Público" bem o sublinha) e dos de extrema-direita está a surtir efeitos, crispando a sociedade, reinventando velhas imbecilidades.
 
Ainda assim é agora o momento de criticar as federações desportivas pelas formas como se querem representar. Uma coisa é incluir ex-imigrantes, formados ou maturados no país, nas representações desportivas nacionais. Outra coisa, completamente diferente, é incluir atletas olímpicos dos seus países de origem, transferidos para as nossas selecções. Os casos de Lorène Bazolo (luso-congolesa) e Auriol Dongmo (luso-camaronense) são óbvios. Tudo isto é fluido, e as senhoras que se naturalizaram portuguesas têm todos os direitos de cidadania. Mas também os têm nos seus países de origem, e podem continuar a representar aquelas selecções. Mas o que o nosso Comité Olímpico e as nossas Federações fazem é aproveitar as contratações dos nossos clubes (Benfica, Sporting, etc.) para "enriquecer" a nossa representação olímpica. E isso é outra coisa, pois para esse tipo de competição internacional existem os clubes.
 
Sabe destes processos de contratação para as selecções nacionais, tornadas veros clubes, quem acompanha o futebol (desde que os países do Golfo começaram a nacionalizar em barda jogadores estrangeiros), o raguebi (com o abastardamento do estilo de jogo da França, por exemplo), ou no atletismo (com os africanos convocados pelos tais países do Golfo). E esta é uma preocupação que nada tem a ver com "raça" (esse vil mito que continuam para aí a guinchar, uns e outros) nem com patrioteirismos bacocos. Nem com o castrismo.
 
Quais são os limites da integração de ex-estrangeiros nas nossas equipas nacionais? Não sei bem, decerto que serão fluidos. Mas contratar atletas das outras selecções não é a via. Nem nacionalizar uns tipos porque nos dão jeito para aquela posição/especialidade. Para quem perceba de futebol: não é convocar o Liedson e o Dyogo Sousa. Independentemente de onde vêm e de que cor têm.

Pág. 5/5

Gerente

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador

Em destaque no SAPO Blogs
pub