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Nenhures

Nenhures

04
Out21

O Polígrafo, a queda de Medina e os Olivais

jpt

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A propósito dos hipotéticos efeitos nos resultados eleitorais de Lisboa tidos pela reportagem da "Sábado" sobre as práticas aquisitivas da presidente da junta de freguesia de Arroios, o Polígrafo tem hoje um artigo - de Carlos Gonçalo Morais - que mostra terem sido substanciais as perdas da candidatura de Medina nessa freguesia. E através da comparação com as outras freguesias lisboetas onde o PS não ganhou a freguesia (perdendo a presidência ou repetindo a derrota) evidencia ser Arroios uma das freguesias onde a punição eleitoral do PS, tanto para a Câmara como para a Junta, foi maior, apenas ultrapassada pela acontecida no Lumiar, deixando assim implícito (quase explícito...) que o desvendar daquelas deselegantes práticas da presidente da Junta terão lesado a candidatura camarária do partido incumbente. Para comprovar isso o artigo apresenta uma tabela com os resultados dessas freguesias. E conclui, certeiramente, que "é verdadeiro que a freguesia presidida por Margarida Martins – Arroios - foi uma daquelas em que o PS perdeu mais votos nas últimas autárquicas em Lisboa, quer para a Câmara Municipal, quer para a Assembleia de Freguesia, com a erosão a ser ainda maior para Margarida Martins do que para Fernando Medina."

Eu direi que é "Verdadeiro, Mas...". E recordo este meu postal, "Os Olivais e a derrota de Medina" - nisso para ele apelando à atenção do Polígrafo, se tal for possível. É certo que na freguesia dos Olivais o PS não perdeu a presidência da Junta (o critério que o artigo escolheu para a comparação). Mas as suas perdas foram substanciais, e isso será um dado interessante para esta reflexão sobre o peso global da derrota em Arroios. 

Para o evidenciar vou aduzir Olivais à lista de freguesias apresentadas pelo Polígrafo:

I. Perdas do PS nas freguesias onde deixou de ser a força política mais votada para a Câmara Municipal (Fernando Medina) + Olivais

FreguesiaVotosPontos percentuais
OLIVAIS237712,92
Lumiar1.97711,07
Arroios1.83911,17
Alvalade1.3438,97
São Domingos de Benfica1.2727,74
Avenidas Novas1.0318,43
Areeiro9468,82
Parque das Nações6478,68

 

II. Perdas do PS nas Assembleias de Freguesia onde deixou de ser a força política mais votada (candidatos às juntas) + Olivais

FreguesiaVotosPontos percentuais
OLIVAIS328018,8
Lumiar1.97711,07
Arroios1.83911,17
Alvalade1.3438,97
São Domingos de Benfica 1.2727,74
Avenidas Novas1.0318,43
Areeiro9468,82
Parque das Nações6478,68

 

Por isso este meu sorridente "Verdadeiro, Mas" ao cuidadoso artigo do Polígrafo, pois a derrota do PS não se deve apenas - como aqui comprovo - ao acontecido nas freguesias onde a coligação "Novos Tempos" ganhou a freguesia. Repito o que disse há dias: só as perdas do PS nos Olivais são superiores à distância (2194 votos) entre as candidaturas de Moedas e de Medina.

Enfim, é provável que com tudo o que aconteceu nos últimos quinze dias a concelhia do PS, alguns dos simpatizantes desse partido e até Fernando Medina estejam algo magoados com o desempenho de Margarida Martins em Arroios, e ela própria algo dorida com o ocorrido. Mas sosseguem ela e os seus correligionários. Pois, de facto, quem rebentou com aquilo tudo foi a "nossa" Rute Lima, presidente da Junta nos Olivais e colunista do prestigiado boletim "Público". Como os números o comprovam.

ADENDA: só agora reparo que o Correio da Manhã publicara este esclarecimento gráfico - 

olivais votos.jpg

 

03
Out21

Olhar os políticos mortos em democracia

jpt

sampaio chissano.jpeg

(Visita presidencial a Moçambique, 1997: Hilário, Chissano, Coluna, Sampaio, Acúrsio, Eusébio. Desconheço a autoria da fotografia).

O Pedro Correia salientou (no Delito de Opinião 1, 2) a recente generalizada homenagem ao antigo presidente da República Jorge Sampaio - sobre o qual deixei memória da minha simpatia (1, 2). Foi notório ter esse luto suspendido críticas ao político. Sampaio foi um líder estudantil durante o Estado Novo tardio,  e veio a integrar a via radical do socialismo português. E depois já como secretário-geral do PS e durante sua presidência da câmara da capital deu corpo à velha palavra de ordem do PCP, a "maioria de esquerda". Assim sendo uma evidente influência para o cenário actual. E foi presidente da República durante uma década, convulsa. Esse percurso de seis décadas de preenchida e complexa actividade política dá azo a diferentes interpretações e avaliações. Mas na sua morte a sociedade portuguesa, suas instâncias estatais e outras organizações, a imprensa, bem como a miríade de opinadores na cidadania telemática, saiu a homenageá-lo. E os que a isso não se quiseram associar pelo menos evitaram críticas aceradas.

Isso tem sido recorrente, considerado curial, na morte dos políticos deste regime. Desde a emotiva reacção às traumáticas mortes de Sá Carneiro e Amaro da Costa, às reacções respeitosas e até condoídas face às relativamente precoces de Mota Pinto, Lucas Pires, Luís Sá ou Barros Moura, ou às mais recentes de Jorge Coelho e Pina Moura, exemplos entre tantos outros. Disso ainda mais significativo foram as reacções gerais aquando da morte de anciãos relevantes no regime, como Freitas do Amaral, Mário Soares ou Álvaro Cunhal. É evidente que sempre se mantém a pertinência da análise crítica (ou mesmo das meras invectivas) a posteriori. Mas o relevante, repito, é que em todas esses momentos houve um luto, implícito que seja, e um sufragar da importância desses indivíduos assente num evitamento crítico e num colectivo de elogios - por vezes até demasiado enfáticos, quiçá condizentes com a recente crítica do nonagenário Eugénio Lisboa ao modo português de produzir eulogias.

Claro que há sempre excepções, em especial nas "redes sociais" - ou seja, individuais e não editadas. Mas não só são sempre muito minoritárias como acabam por convocar sanções morais, nem que seja a mera sensação de "isso fica mal". Nesse âmbito haverá duas excepções mais significativas: as reacções desabridas de alguns pequenos nichos gerontes de oriundos/regressados das ex-colónias aquando da morte de Soares e também de Almeida Santos - as quais abordei aqui, aquando da morte de Soares: "trata-se de um envelhecido e traumatizado universo social [que] nunca abandonará a sua visão e os seus mitos (...) [e] a mágoa de um universo de portugueses vítimas da história, de facto vítimas do tardo-colonialismo do Estado Novo. Soares ficou-lhes, a esses meus compatriotas, até porque algemados a uma pobre e ignorante visão da história que precisa de autores, da antropomorfização causal, não como o símbolo mas como o agente do necessário e justo fim do colonialismo, para eles entendido como desnecessário, injusto e traição". Mas em geral vigorou a tal suspensão crítica, o período de nojo.

Também sobre os "militares de Abril", sejam os directamente envolvidos nas operações de 16 de Março e de 25 de Abril como os que vieram a ter papéis de alguma relevância no período posterior, o tom tem sido o mesmo. Desde o infausto destino de Ramiro Correia, afogado na lagoa do Bilene logo em 1977, à morte precoce de Salgueiro Maia, às bem posteriores do meu querido Aventino Teixeira, Melo Antunes, Carlos Fabião ou Costa Martins, até aos recentes falecimentos de Luís Macedo e Dinis de Almeida, passando pelos dos então mais relevantes, como Costa Gomes, Spínola ou Vasco Gonçalves, em nenhum desses momentos terá havido uma explosão de azedume. Os que lhe eram mais próximos, afectiva e/ou ideologicamente, homenagearam com a ênfase que lhes foi possível e o conteúdo que entenderam. Os outros assistiram. E os mais avessos a cada um desses indivíduos ter-se-ão eximido a desvalorizações públicas. Neste âmbito também encontro o mesmo tipo de excepção, o acinte com que alguns núcleos de regressados das ex-colónias receberam a morte de Rosa Coutinho, muito devido à avaliação crítica que faziam da sua acção como Alto-Comissário em Angola no período de transição para Angola - algo significativamente contrastante com o acontecido na morte de Victor Crespo, antigo Alto-Comissário em Moçambique. E também, ainda que oriundo de locutores de crença ideológica contrária, algumas invectivas que surgiram na morte de Jaime Neves, muito devidas a algumas das perspectivas avessas à democraticidade do 25 de Novembro.

E a isto se pode associar que não há no discurso público uma tendência invectivadora dos sobreviventes desse núcleo militar, ele próprio ideologicamente bem diferenciado, entre Sanches Osório e Mário Tomé, para exemplificar. De facto, por vezes vêm-se invectivas a Vasco Lourenço, muito devidas às suas algo truculentas proclamações, qua terratenente do regime, naquele tópico do "não fizemos o 25 de Abril para isto" quando o eleitorado vota ao invés das suas preferências. Mas essas são reacções - normais, legítimas - às suas posições actuais e não devidas, pura e simplesmente, a ser ele um "capitão de Abril". Ainda que sendo essa condição simbólica convocada por Lourenço para basear as suas proclamações políticas, se torne ela própria um argumento do contraditório que então se ergue contra esse militar. 

Em suma, grosso modo e com excepção de muito minoritários núcleos irredentistas do "anterior regime",  há em geral um apego ou relativa placidez face aos "militares de Abril" sobreviventes. E a generalidade dos cidadãos, nas suas diferenças ideológicas, vêm acolhendo com comoção e/ou respeito a morte dos "militares de Abril", agentes do momento fundacional do regime, e dos políticos que neste vêm sendo relevantes. Nisso assumindo os implícitos ditames culturais face à morte.

Há uma excepção, a qual se realça nestas comparações. A alargada reacção negativa na recente morte de Otelo Saraiva de Carvalho. A razão é simples, ter ele inspirado e dirigido um grupo terrorista que, em democracia, durante mais de meia década organizou e executou inúmeros atentados, assassinando 17 pessoas. Não tendo depois cumprido a pena devida, nunca tendo reconhecido os actos, mantendo sempre uma narrativa falsária da história, nunca se tendo retractado das vis acções cometidas.

Convém reafirmar que o movimento terrorista de Carvalho, as FP-25, não medrou num contexto que permita aos democratas atribuir-lhe alguma justificação histórica - uma "razão histórica" - mesmo que mantendo uma aversão aos seus métodos. Poderá ser que tenha tido alguma inspiração (um torpe romantismo) nas guerrilhas sul-americanas coevas, mas essas reagiam a violentos regimes de extracção fascista. E não podia reclamar fundamentos numa identidade cultural/nacional, como a ETA ou IRA, nem tão pouco associar a oposição à inicial democracia portuguesa à luta contra a ditadura franquista. De facto as FP-25 foram um estuporado e maligno tumor na sociedade portuguesa, só comparável (por analogia que seja) às Brigadas Vermelhas e Baader-Meinhof: sem ditadura para enfrentar, sem movimento sociopolítico que as ancorasse, sem putativa identidade histórica para reclamar. Apenas um conjunto de comunistas (então ditos "esquerdistas") fundamentalistas e desatinados. Terroristas assassinos.

Diante deste processo podemos notar as manobras de falsificação da história, que apenas querem fundamentar a acção política actual. A mais imediata é a reclamação de que "Otelo" (esse manuseio do nome próprio como estratégia de aproximação e de santificação do indivíduo) é o símbolo do 25 de Abril, nisso da Liberdade. Ora como qualquer um deveria saber não há símbolos "naturais", como se obrigatórios. Os símbolos escolhem-se, alteram-se. Carvalho foi o operacional fundamental das manobras militares de 25 de Abril. E foi-se tornando "símbolo" dada a sua personalidade voluntarista e desabrida mas muito pela intensa agit-prop do universo que se congregou nos GDUPS, base da sua campanha presidencial de 1976. E essa sua dimensão simbólica foi diminuindo por várias razões. Em primeiro lugar porque pouco simpático à maioria dos simpatizantes de outras ideologias, e porque havia outros militares bem-queridos e simbólicos para outras forças partidárias - o "Vasco" para os do PCP, o episódico "Vasco só há um, o Lourenço e mais nenhum" para os dos outros grandes partidos, que depois foram transitando para o apreço ao "Eanes" ou ao "Jaime Neves", nisso também reclamando o 25 de Novembro como data também fundacional da democracia liberal que sistematicamente sufraga(va)m nas eleições.

E "Otelo" viu esgarçar-se ainda mais a sua dimensão simbólica desde os finais dos anos 1980s. Exactamente pelo seu envolvimento no terrorismo e pelo longo processo jurídico que o desvendou - para os que apenas se lembram do "caso Maddie" ou do "Casa Pia" conviria recordar o quão mais traumático foi para a sociedade o processo das FP-25. E essa foi também a época em que a simbolização pessoal do 25 de Abril se foi desviando, encarnando na figura de Salgueiro Maia devido a um feixe de razões: pelo facto de ter sido um muito visível e determinado operacional da revolução; por ter um perfil castrense, tendo-se eximido a intervenções políticas, o que o tornava um material simbólico mais pacífico para a generalidade dos democratas; por ter sido alvo de algum destratamento da hierarquia militar; pelo comportamento indigno que para com ele teve o governo chefiado por Cavaco Silva. E, evidentemente, pela sua morte precoce, dínamo de uma comoção simbolizadora.

Ou seja, o estatuto simbólico de Carvalho não foi perene. Foi-se esvaindo, excepto para os que com ele comungavam ideais de radicalismo ideológico. Acontece que o estatuto simbólico de Salgueiro Maia também se foi desvanecendo, com o correr do tempo. Pois Maia  havia morrido e, acima de tudo, porque esse estatuto não ancorava em grupos orgânicos de pertença ideológica - para além do difuso apreço pela democracia, essa rotina pouco exaltante e, como tal, fraco motor para grandes construções míticas e personalizações simbólicas contemporâneas. Enquanto Carvalho - o "Otelo" dos dislates tonitruantes - estava por aqui, acarinhado pelos grupos de extrema-esquerda, requestado pela imprensa feita por gente moldada no "radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista".  E nesse fluir dos anos estes núcleos, de esquerdistas e de preguiçosos intelectuais feitos, foram fazendo por reatribuir ao terrorista Carvalho o estatuto de símbolo. 

Nisso procuram consagrar o seu ideário político, feito de alguma ideologia - quantas vezes difusa e atrapalhada - e de muita afectividade, uma sonsa erotização do político, fazendo por a ele reduzir o 25 de Abril, seus motivos e seus corolários. E para isso usam a constante falsificação da história. Elidindo o quanto podem a existência das FP-25, escondendo a intensidade dos seus actos, refutando a participação de Carvalho. Mentindo, explícita e implicitamente. E, talvez o mais abjecto de tudo, sempre reduzindo o papel de Carvalho em tudo isso a um devaneio, uma ingenuidade. Quando muito a uma tendência para a asneira. E invectivando de "fascistas" ou de "extrema-direita", "adversários da democracia" aqueles que os percebem e que se oposeram e opõem às aleivosias de Carvalho e dos seus "camaradas", bem como a estas aldrabices "revisionistas" que estes locutores vão proferindo.

E entretanto o Bloco de Esquerda - essa amálgama ideológica-afectiva da qual brotam estes "revisionistas" da história, que há anos coligou a miríade desses grupos de extrema-esquerda, e que se poderá dizer como aggiornamento dos velhos GDUPS, por mais que se reclame de transmutação social-democrata - continua a integrar nas suas candidaturas vários criminosos, condenados por crimes de sangue no caso das FP-25. Os quais não só não cumpriram as penas como se recusam à mera retractação. E nesta atrevida e falsificacionista versão da História e do Presente afirmam-se eles, esse amálgama coligada, os "democratas". E seremos todos nós, outros, os anti-democratas, pois avessos ao terrorismo ou à sua redução a uma insignificante, singela, até juvenil "asneira", e ao ideário extremista que acalentou todo aquele bombismo assassino.

otelo.jpg

Este recente artigo é um exemplo tétrico do conluio com estas manobras de elisão manipuladora da história e do presente, desta reclamação da justeza dos afectos - e da colaboração actual - com os terroristas, acompanhada da invectiva insultuosa para com os democratas que se erguem contra a memória dos terrorismo e contra a actual falsificação da história. Trata-se de um texto de página inteira do jornal "Público". A descrição da sua autoria vem acompanhada das instituições públicas nas quais trabalha o colunista - o que é uma prática sublinhadora da relevância do autor e dos seus textos, uma costumeira estratégia de "sacralização". Trata-se de um elogio veemente de Carvalho, apesar das suas "contradições". É significativo que no longo texto sejam usados 6 acrónimos (PREC, MFA, SAAL, RALIS, UE, CEE), alguns dos quais sendo repetidos, mas que não compareça o "FP-25". De facto, a longa actividade terrorista de Carvalho é descrita apenas como "levou longe demais o seu radicalismo ingénuo" por isso tendo-se "perdido nas teias da violência". E nós, aqueles que não nos curvámos na sua morte, como é o hábito desde há décadas nas mortes dos agentes políticos, somos insultados como esse "Portugal ressabiado com a Liberdade e com a Responsabilidade".

O "Público" de Manuel Carvalho, que diante de um texto ocasional com uns dislates sobre vacinação sente necessidade de expressar o seu repúdio e até de o apagar, nada se sente com uma manobra destas, uma verdadeira produção de amnésia social e uma desvalorização do terrorismo nacional. Um conúbio com o mal. Que vem inscrita num coluna periódica. E as instituições públicas que neste órgão privado são feitas subscrever esta peça? Acham normal, e silenciam-se. Tal como todos os que nela trabalham. Assim sendo, seguem coniventes os lentes. E nós, futricas, somos ditos ressabiados.

Ficaremos então nós, democratas, como o fazemos desde há décadas, segundo os ênfases ditados pelas nossas preferências ideológicas e afectivas, a respeitar os notórios e até ilustres que vão morrendo. E vivendo. E a desprezar aqueles que terroristas. E os convictos falsários da História, daqueles admiradores. E, já agora, os que se silenciam diante destas aleivosias.

03
Out21

Os 90 anos de Narana Coissoró

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Leio aqui que hoje mesmo Narana Coissoró completa 90 anos, uma bela idade, e que haverá uma homenagem em molde convivencial (haverá melhor forma?) agregando familiares, amigos, colegas e correligionários.
 
E logo lembro este seu tão interessante trabalho, publicado em 1966, que li e reli ainda em XX e no qual tanto aprendi. E que está escondido, muito pela nossa (não tanto minha) mania de considerar "datado" o que nos é passado, e nisso apoucar aquilo que, como tudo, é fruto dos quadros teóricos do seu tempo. Infelizmente neste momento disto umas dezenas de quilómetros do meu exemplar, bem que gostaria de o folhear, nisso vasculhando os (imensos) sublinhados e gizar uma rápida recensão, em forma de vénia. Pois se escrever de memória (cada vez mais romba, a minha) nada mais conseguirei do botar meras generalidades sobre o livro, e temo que mesmo essas poluíveis por leituras outras, anteriores e posteriores, sobre essas temáticas e contextos - percebi-o ao tentar encetar coisa pouca que fosse.
 
Fica então apenas a tal vénia por quem, em tão peculiar momento e tão específico contexto de dinamização dos estudos portugueses em África, se abalançou a tamanha investigação, isso das questões de sucessão (e descendência), recenseando e tratando tanta informação. Algo precioso para quem estude Moçambique, já agora.
 
Adenda: Para quem não conheça o livro deixo a transcrição de uma breve recensão feita pelo grande Richard P. Werbner:
 
"The Customary Laws of Succession in Central Africa. By NARANA COISSORÓ. [Doctoral thesis, University of London, 1962.] Lisbon: Junta de Investigag6es do Ultramar, 1966. (Estudos de Ciencias Politicas e Sociais, 78.) Pp. li, 412, bibl. 60 escudos.
 
A reference work for jurists, primarily, this is a comprehensive and highly technical handbook of judicial rulings and jural norms of succession, up to 1962, among Plateau Tonga, Bemba, Ngoni, Nyakyusa, Cewa, and Yao. A chapter is devoted to each separately (except for Cewa together with Yao), following roughly the same legal lines: general background, funeral rites, administration of the estate, property left by the deceased, intestate succession, succession to women, testate succession. Standard ethnographies, government or travellers' reports, and also fourteen unpublished cases are the sources. Finally, there is a discussion of the African Wills and Succession Ordinance (Nyasaland) and of conflicts of law. This examines questions of legal pluralism, showing where African personal law and tribal rules of construction take precedence. The author suggests that, in colonial times, an African could draw up a will, a formally valid instrument, which could still be challenged as not being "essentially valid", because it was not in accord with the testator's tribe's customary laws "governing his civil status regarding succession"'. The author adds, however, "Unfortunately, the Africans are not aware of this legal distinction and sometimes they think that the admission to probate makes the dispositions in the will unchallengeable." Readers familiar with the ethnography will also find other unfamiliar distinctions, as in his argument about the necessity for personal law to apply for the validity of a will; "Otherwise a simple written paper - "nuda cogitatio" - in the eye of law - would change the civil status of an African to that of a non-African pro hac vice." The compendium lacks an index, though the table of contents is very full and does allow cross-reference."
 
[Richard P. Werbner, Africa: Journal of the International African Institute Vol. 41, No. 2 (Apr., 1971), p. 176]

02
Out21

As homenagens da Câmara Municipal de Lisboa

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Na recente morte de Jorge Sampaio a Câmara de Lisboa tratou de o homenagear, utilizando espaços comerciais disponíveis, forma ágil de trazer essa evocação até ao quotidiano dos munícipes. Julgo muito curial que a Câmara homenageie deste modo, sentido e bastante visível, um seu antigo presidente, na hora do seu falecimento. Presumo que tal não tenha acontecido na morte de Nuno Krus Abecasis (1999) e de Aquilino Ribeiro Machado (2012) - não encontro registos fotográficos disso -, mas nada obsta a que se encete agora uma simpática e honrosa prática.

Mas o contrário pensarei se esta acção for dedicada a homenagear o antigo Presidente da República, como julgo ter sido o caso pois esta acção vem na sequência do realizado aquando da morte de Mário Soares. Pois se esta for uma prática a dedicar a todos os presidentes da República que venham a falecer isso será um  mimetismo das práticas simbólicas do Estado central, e assim uma intrusão nas funções que a este competem. O que transporta uma implícita reclamação de um estatuto especial da câmara da capital, um "centralismo municipal" lisboeta. O que se torna mais visível neste contrafactual: face ao registo relativamente contido do cerimonial do nosso Estado democrático muito nos impressionaria, até desagradavelmente, se todas as centenas de câmaras existentes inundassem os seus territórios com homenagens pictóricas por ocasião da morte de um antigo presidente da república. Estou crente que produziria até um travo autocrático, como se de tempero norte-coreano ou afim. Porquê então aceitá-lo na câmara da capital?

É certo que estas homenagens poderão ser justificadas por se terem dedicado a cidadãos naturais do concelho (Soares e Sampaio nasceram em Lisboa) que ascenderam à mais alta função do Estado. Se assim for então serão totalmente curiais. Deixando assim espaço para que na ocorrência de futuros falecimentos de antigos presidentes (longe vá o agoiro) sejam as câmaras respectivas a homenagearem esses seus ilustres naturais. Mas se é esse o vector que imprime esta homenagem póstuma então tem que ser explicitado. E não o é.

01
Out21

A Capa Alquímica

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capa moedas.jpeg

[Postal para o Delito de Opinião]

A capa desta última "Sábado" é ordinária, abjecta. Remete para um texto da jornalista Maria Henrique Espada, que levou o algo desengraçado título "34 Histórias do Senhor 34% em Lisboa". Mas tem uma característica interessante, rara: tudo nela provém do texto mas não tem nada do que está no texto. Pois a capa transmuta os elementos que combina. É assim alquímica. E nisso demoníaca, pois apenas os desvirtua.

De facto, pode-se gostar ou desgostar do texto de Espada mas tem de se reconhecê-lo como curial. Trata-se de uma breve biografia do novo presidente da câmara lisboeta, num registo que é comum na imprensa e, julgo, de agrado dos leitores: isso de mesclar alguns detalhes da vida pessoal com o trajecto profissional e político daqueles que ascendem a posições de destaque. O trabalho assenta numa conversa com Moedas, já após as eleições, e em material de arquivo de imprensa, com ênfase em pretéritas declarações dele próprio. E se a abordagem de Espada é algo neutral, pois o texto não é um panegírico, nela até se detecta alguma simpatia para com o seu biografado. Ou, pelo menos, nem no explicitado nem num hipotético sub-texto se notam verrina ou alçapões para especulações avessas.

Quantos aos elementos apostos na capa, a tal poção alquímica: o texto alude à infância bejense de Moedas e lembra a sua alcunha de miúdo, mas sem qualquer malvadez. Pois quase todas tivemos alcunhas em miúdos - os mais pequenos são (quase) sempre os "minorcas" ou "inhos" - e isso é um tópico neste tipo de textos. E refere o episódio conjugal mas sem nada de sumarento, de espreitadela moralmente indevida: ecoa declarações do próprio Moedas aludindo aos efeitos pessoais do excesso de trabalho (aquando no governo), aludindo a problemas tão comuns entre os casais. Também a nota sobre o alcoolismo paterno assenta em descomprometidas declarações de Moedas, sendo que o seu pai é referido e citado no texto com respeito e até desvelo. Tal como a doença da irmã não é dramatizada mas surge no âmbito de um bom ambiente familiar. Finalmente, mesmo a referência aos "negócios imobiliários" surge plácida, inserida no percurso profissional de Moedas e sem qualquer alusão especulativa sobre um assunto que poderia (e poderá) dar mais azo à maledicência, isso do presidente da câmara ter experiência nessa actividade económica. Ou seja, vejo a indignação com esta capa no twitter, fb e no meu whatsapp. Mas presumo - ainda que não conheça Maria Henrique Espada e nada saiba sobre os procedimentos internos na "Sábado" - que a pessoa mais incomodada com a capa será a jornalista, ela-própria. Com o que nela conspurcaram o seu trabalho. 

Será certo que a feitura desta capa pretende torná-la comercialmente apelativa, incrementar vendas e tráfego electrónico. E nisso terá algum resultado, momentâneo. Mas é evidente que tem outra força motriz, um azedume revanchista, que procura achincalhar alguém que surpreendeu a paz podre dominante. E os seus fluxos redistributivos. O qual incrementa este ambiente político que convoca direcções editoriais ao denegrir e/ou apoucar das figuras de oposição. Em verdadeiras campanhas orquestradas - como, em verdadeira via obscurantista, um consagrado avençado da "Sábado" quer negar. Cumpre-nos punir estas vergonhas, negando aos produtos dessa imprensa a compra e os clics. Mas também olhando com desdém esses colunistas, constantes ou episódicos, que (se) abrilhantam na "Sábado", sempre alcandorados a estatutos críticos, escavando estratégias e defeitos alheios. Mas que agora, hoje na internet, para a semana na próxima edição da "Sábado", se calarão, incapazes por doença de conivência de se demarcarem desta abjecção. Desta, repito-me, alquimia demoníaca.

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Bloguista

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