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Nenhures

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Hoje uma hora de conversa, via whatsapp video, com um grande, grande, grande amigo de Moçambique - e que saudades daqueles nossos estar-juntos, sempre para mim luminosos. Corremos as nossas vidas, filhas, já netos, envelhecimentos, insucessos, os países de ambos, amigos alguns, até um pouco do mundo, risos trocados de longe na auto-derisão, de alguma desesperança e todo o desencanto feita. De súbito, risonho dorido, conta-me ele o que viu, uma reportagem televisiva em Angola: um mero "fait-divers", a polícia chamada pois um casal fazia sexo em público durante o dia, ali cerca da marginal de Luanda. Acorreu também o tal repórter, o qual se aprestou a entrevistar os circundantes, queixosos uns, mirones outros. Um deles (um "popular", na linguagem da imprensa) ao ser-lhe pedida opinião sobre a ocorrência responde, magnífico: "O mundo já acabou. Nós é que ainda insistimos".

["E Depois do Adeus", Festival da Eurovisão 1974]

É, no género, uma bela canção e muito bem interpretada, esta "E depois do adeus", sempre lembrada por ter servido como senha para o golpe corporativo militar de 25 de Abril de 1974 - provocado pelos heróicos movimentos de libertação nas colónias africanas portuguesas e tornado, à revelia do oficialato castrense, numa revolução pelo povo de Lisboa (sobre a matéria ver Cunhal 1975 [1967]).
 
É também um bom símbolo da democracia, da autoria do socialista José Niza (lírica), de José Calvário (música) e Paulo Carvalho (intérprete), estes dois últimos logo autores do hino do PPD (depois PPD/PSD), do qual o primeiro foi militante.
 
Esta é a história deste símbolo - não a propagandeada pelos ainda hoje miseráveis enverhoxistas, guevaristas ou brejnevistas. E otelistas...
 
Bibliografia:
 
Álvaro Cunhal, 1975 (1967), As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média. Lisboa, Estampa, pp. 33-95.

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Viva o 25 de Abril! Viva o povo de Lisboa. E o português! Viva a democracia.

Nota dedicada a mais novos: a imagem é de arruada lisboeta bem anterior a 25 de Novembro de 1975. Avessa a grappistas, brigadistas, grupelhos maoístas e enverhoxistas, utópicos boumedianos, barbudos guevaristas, ciosos brejnevistas, intelectuais titistas, ignaros polpotistas. Havia sido convocada pelo então PS.

E é interessante recordar isto hoje. Até para perceber quem é que amanhã vai sair à rua em Lisboa para desfilar, Avenida abaixo, com os putinescos inomináveis PCPs, com os putinescos Mortáguas, Louçãs e Rosas, com os putinescos Boaventuras Sousas Santos, com os amantes dos terrorismos Isabeis dos Carmos e Elísios Estanques. Ou com aqueles que querem, na sua simples e quotidiana mediocridade nada poética, celebrar a democracia. Haverá dois desfiles: a escumalha imunda de um lado. A gente normal um pouco acima. 

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Dado ter sido alvo de um gentilíssimo convite, cruzei ontem o Tejo rumo a Sul na senda de um magnífico almoço, um delicioso cozido à portuguesa, confeccionado em bela sede familiar. O lauto repasto foi enquadrado por um rico sortido temático conversacional - mais urgente face a estes tão prejudiciais ensimesmamentos covidocénicos, que ainda vão decorrendo... -, e culminado em molde europeísta, por via de uma deliciosa sobremesa de origens humanistas. E tudo se concluiu em torno da fundacional aguardente vinícola, um arreigado bagaço branco daqueles que "novos mundos ao mundo" mostrou...
 
Após todas estas ocorrências, e ao fim da tarde soalheira, regressei à capital, trauteando o muito adequado "e navegando, a idade foi chegando, o cabelo branqueando, mas o Tejo é sempre novo...". Aportado às cercanias do Trancão fui ainda a tempo de esplanar com duas formosas amigas, encetando o convívio com uma sempre bem-vinda Água das Pedras, contributo ao remoer em curso, enquanto nos abalançámos sobre usos e costumes relativos ao bacalhau, entre outros assuntos menos prementes.
 
Enfim, sábado decorrido, recolhi ao reduto próprio e, sendo Dia do Livro, terminei aquele breve que me acompanhara a jornada, um esquecível e desnecessário roteiro de recente viagem ao Japão. Avancei depois, curioso que estava, para o episódio inicial da segunda temporada do folhetim português "3 Mulheres", adequadamente dedicado ao dia 25 de Abril, produto muito bem conseguido. Após o qual me dediquei a um sonolento zapping, escapando-me, por exaustão comensal, à fila de westerns clássicos que gravara durante a semana. Dei de caras com este "Contra Poder", mais um dos programas radiofónicos de comentário político, que nunca vira com este triunvirato. Servi-me do aprazível Queen Margot e assisti, algo curioso sobre os dizeres do comentador Sousa Pinto, esse recente ícone do centro português, desses que vêm neste inventor das "causas fracturantes" o actual totem do "socialismo de rosto humano", perdão, "pensante". Justiça seja feita ao ilustre deputado, tem verve e, melhor qualidade ainda, é cáustico.
 
E nisso ontem ocasionou um belo momento de radiotelevisão. Pois, estando ele lançado num enfático ditirambo, típico de vero iluminado, investiu contra a colega de painel em registo desabrido. E esta, Maria João Avillez, dedicou-lhe um - até maternalmente carinhoso - "você hoje não está muito bom da cabeça" (aos 45' do filme). Excelente!!! O tipo aguentou-se, que é sabido, mas, de facto, regressou a rapazote naqueles minutos seguintes, de posto no lugar que foi. Eu ri-me, sozinho, belo corolário de belo dia.
 
Depois peguei num molho de livros (era o Dia deles), empilhei-os na mesa de cabeceira, em requebro intelectual. E dormi a sono solto.

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