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Nenhures

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Quando há alguns anos regressei a Portugal meteu-se-me na cabeça (sabe-se lá porquê) cumprir um grau de formação, ainda que já velho. A ideia era voltar a Moçambique e fazer uma investigação. Para isso pedi um financiamento à FCT. Três vezes o fiz, nunca fui avaliado. Pois, das três vezes que tentei, sempre me deparei com uma inenarrável incompetência institucional, uma atrapalhação tecnológica e jurídica que lesava os candidatos. Da terceira, e última, vez que me candidatei mais uma vez coloquei um recurso, dado que a recusa da instituição se prendia - apenas - a um regulamento mal feito. Dois anos depois do meu recurso [Dois anos depois de um pedido de um financiamento para um doutoramento!!!!] recebi uma resposta, assinada pelo presidente: recurso indeferido e se quiser recorra ao tribunal.
 
Nem respondi, apenas para mim referi: "filho de uma p... imunda!" esse presidente, arrogante que se atrevia a endereçar uma resposta daquelas. Hoje, tantos anos passados, almocei com uma meia dúzia de grandes e velhos amigos em Palmela. Um deles trabalha há décadas na FCT. Estávamos entre imperiais, grelhadas mistas, ginjas da casa e bagaços brancos e recebi este filme de festa FCT, agora realizada, e rimo-nos. Perguntei-lhe se o presidente dele ainda é o mesmo, e ele nem sabe (ou nem quer dizer). "Filho de uma g'randa p...!", digo-lhe eu, falando entre amigos "dos tempos", "se o c..... estivesse aqui dava-lhe com uma cadeira nos cornos". Socialista de m....!. E daria, podereis acreditar nisso. Pois sou dos Olivais.
 
 
 
Entretanto a escandalosa casa comemora-se assim. Agora venham dizer que eu digo palavrões a mais. Escumalha imunda. Clientes, nada mais do que isso. E como este filmeco bem mostra os trastes que ali abancam.
 
(Peço desculpa pelas reticências mas as minhas mais queridas exigem que não escreva palavrões nos blogs e no FB).

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A "New Yorker" traz uma boa peça sobre Bill Frisell (ligação com acesso livre). Enquanto a leio abro outra "janela" e deixo-o tocar. Mas, oops, cansar-me-ei - sim, sei que o homem é infindável, quase infinito, mas o concerto que abrira aborrecia-me. E por isso recuei às suas declarações na tal peça, dizendo que fora influenciadíssimo pelo grande Boubacar Traoré... "Ih, há quanto tempo não o ouço!", resmungo-me. Deixo o Frisell lite (lamento, mas é a verdade), vou à referida Spotify e inscrevo-me como ouvinte do gigante maliano. Isto foi na alvorada. Passei o dia a ouvi-lo, a Boubacar Traoré. Que belo dia!

Boubacar Traoré  - Je Chanterai Pour Toi (documentário de Jacques Sarasin, 2001)

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Por aqui, uns vasculhando outros mais à superfície, partilham os operáticos, por hoje lamentando a morte "da" (comme il faut) Berganza, os etno-ouvintes, agora mais dados à kora do que à cítara e quase nada à flamencada, os nacionaleiros, "que não há como o fado/a marrabenta/...", a malta do jazz - mas não muito "free" -, dos standards ou das lendas - ainda que Dexter siga esquecido -, e menos do actual, aqueles do canto de intervenção, Fausto ou Violeta Parra, muito mais Karajan do que James Last, os memorialistas, - esses do slow "com que roçaguei a Maria(na)/o Manel" -, os do rock, progressivo, indie, southern, n'roll, até heavy, and &, e os da "chanson", française, ou da sempre MPB, mas sem o grande Roberto Carlos noto, um ou outro escasso do blues, e nem discuto se R&B, e, claro, os dos crooners, alguns do Patxi Andión e vizinhos andaluzes, e há até quem se lembre de Savall, e ainda restarão uns já anciãos, balbuciando "inesquecíveis" pérolas do festival de San Remo.
 
Dito todo este quotidiano não deixo de sorrir ao vê-los, empertigados em pantomina, discutindo o Festival da "Canção" na Eurovisão de ontem. Os "faxos" e os "comunas" irritados, os "intelectuais", ditos melómanos, lamentando da justeza dos resultados, dos "interesses" envolvidos, das qualidades dos intervenientes, da subalternização da "música" à "política" e isso. 
 
Enfim, não vejo um festival desses desde o "sobe, sobe, balão sobe" ou das rutilantes "Doce". Mas se os devastados ucranianos vibraram com a sua vitória, um décimo que seja do que os tontos lusos há anos com aquela tralha do rapaz que dá traques em palco... então ainda bem.

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Nos últimos anos, nesta era de redes digitais quase-rizomáticas (sê-lo-ão menos do que parecem mas também não há uma "Manápula Invisível" a controlar tudo isto), uma das vias discursivas mais histriónicas foi a de uma amálgama, a "direita profunda" europeia - alguma dela "extrema", no sentido fascizante, outra mesmo "profunda", no sentido hiper-conservador. À (minha) vista desarmada não se lhe consegue fazer um enquadramento sistémico, talvez só possível para quem lhe estude os discursos, práticas e organizações. Assim leigo e míope apenas os digo "antidemocráticos", mas também - o que não é equivalente - "anti-europeístas" radicais, "soberanistas" furibundos, mesmo que muitos com roupagens de liberalismo económico. E em tantos deles um exultante anti-intelectualismo (por exemplo as aspas nas "ciências sociais" é-lhes um penduricalho típico, de que não conseguem abdicar, um verdadeiro dildo moral).
 
Enfim, a gente viu-os frenéticos trumpianos - crentes até no esquerdismo do já velho Tea Party -, fervorosos brexiteers - ululando com as vagas imigrantes (de Leste, de Leste...) que devastam a nada pérfida Albion -, atentos à maldade universal dos islâmicos - excepto, lá mais pelas franças, à dos palestinianos que combatem os execráveis judeus -, bolsonarizados - apesar das nenhumas expectativas quanto àquele país pardo -, firmes contra a ditadura do Eixo Bruxelas-Estrasburgo, essa inumana elite burocrática. Activos nas trincheiras contra essa invenção do "marxismo cultural", as fake "alterações climáticas". E, mais recentemente, combatendo essa tão lucrativa falácia dos capitalistas (judeus?) farmacêuticos, as nazis vacinas contra o Covid-19.
 
E outras causas terão defendido nas quais - por indolência - não terei atentado. Sempre com frenesim (até robótico) discursivo. E sempre com fundamentos de cariz científico (hélas!) ou empírico, um "saber de experiência feito" inacessível a todos-nós, os outros. Pois seguimos alienados por uma imprensa ao serviço desses interesses plutocratas, contra os quais corajosa e loquazmente combatem.
 
Foi muito (mas não só) a propósito desta imensa tralha, sucessivas patacoadas, entre inventonas, trocas de nuvens por Junos, atrapalhados paleios com embrulhos em "cientifiquês", tudo em refogados anunciando adstringentes conspirações contra os "bons povos", que se veio falando das célebres "fake news". Ou seja, de um aldrabismo constante - já não a ultrapassada propaganda falsária manufacturada pelo pobre bloguista socratista ou pelo Palma Cavalão das actuais televisões, mas esta vertiginosa capacidade de em ápices perorar insanidades automatizadas, logo absorvidas por moles ávidas de iluminação.
 
Ora o que é mesmo "engraçado" é ver, quase todos os dias, como neste 2022 os velhos comunistas brejnevistas e os novos comunistas (aka, "alterglobalistas" de ascendência enverhoxista/trotskista ou coisa que o valha, mesclada com o legalize it e os 30 kms à hora), andam a partilhar por estas redes sociais estas tralhas todas, agora dedicadas àquilo da Rússia na Ucrânia. Usam exactamente as mesmas fontes, seguem os mesmos argumentos, vivem a mesma sanha contra a mesma "Manápula Invisível". Agora já não falam de "Fake News". Mas sim de "Fontes Alternativas" ou, mais profundo, "Pensamento Diferente". É uma verdadeira revolução coperniciana, promovida pela Rússia do sábio Putin...
 
Este vazio intelectual esquerdista não me surpreende. Mas o prazer com que o afixam? Isso já espanta. Enfim, para não me dizerem anti-russo, vou apanhar Sol e reler o "Pnin".

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Cheap Trick - I Want You to Want Me (from Budokan!) [Official Video]

A idade é isto, a tendência para resmungar com o que se passa, na desesperança de "isto ir lá", ainda que não saibamos bem para onde, e nisso a perdermos todo o resto. Dito isto, aporto hoje a meio da tarde na "Miradouro", meu local de refúgio quando a Sul do Tejo. Encosto ao pequeno balcão - belíssima imperial, vera "tulipa", face à capitosa oferta do pires do amendoim agregado ao pires do tremoço, essa mescla "comme il faut", e hoje ainda o cúmulo do pires de caracóis, e estes também marcham "malgré moi-même", que em Roma sê romano, única coisa de antropologia de que ainda me lembro, decerto por a ter aprendido bem antes da universidade, em casa-própria (que chega de galicismos). E estou eu ali a atrapalhar os destroços à que chamo dentadura, essa minha "ucrânia", e no rádio toca esta "I want you to want me". Rio-me alto, "o que foi?" perguntam-me detrás do balcão, onde mora um tipo porreiro, "é esta música" desculpo-me, sem lhe dizer o quão omipresente ela foi num antes longínquo, mesmo que rockezito piroso ou talvez mesmo por causa disso... "É dos tempos!" diz-me o mais novo... E mais me rio, na breve memória das festinhas liceais dos finais de 70s. E concluo, neste agora só para mim, que a vida veio a ter menos "charme" (afinal, mais um galicismo) do que imaginei. Mas não seja por isso, sorvo mais um caracol e beberico a bela imperial. E trauteio, juvenilizado, "i want you etc..."

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