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Nenhures

Nenhures

23
Jul22

O caso do treinador Alberto Lário

jpt

atletismo_taca_maputo.jpg

O caso do treinador português Alberto Lário é interessante. Tendo sido detido em Moçambique por não estar correctamente documentado - e assim ilegal no país - foi libertado e, leio agora, não será deportado, o que muito saúdo.
 
Desconheço o treinador, nunca ouvira falar do seu trabalho, que tem sido muito elogiado, e desconheço completamente o que causou esta desagradável situação administrativa. Mas, assim à distância, retiro três pontos de tudo o que tenho lido nos últimos dias:
 
1. Lário nasceu em Moçambique, saiu em criança aquando da independência. Regressou à sua terra natal e, de acordo com a lei nacional, solicitou a nacionalidade. Está há seis anos à espera de uma decisão. Esta imensa delonga é uma situação... típica, como é consabido.
 
2. Li vários, e outros haverá, testemunhos e declarações de moçambicanos reclamando contra esta situação, afirmando a injustiça que Lário sofre(u). E todos sublinhavam o excelente trabalho que o treinador vem fazendo, em prol do atletismo nacional. É normal essa ênfase quando por exercício de cidadania se toma a defesa de alguém. Mas será conveniente recordar (tanto para Moçambique como para Portugal) que os direitos individuais não dependem da excelência do indivíduo. Ou seja, os atletas treinados por Lário poderiam não ter tantas capacidades, Lário poderia ter métodos de trabalho não tão competentes, ou apenas algum azar poderia ter obstado a que se obtivessem tão bons resultados. E nada disso reduziria os direitos do cidadão Lário. E julgo que esta, até antipática, nota pode servir para reflectir não sobre este caso mas sobre a tipicidade que o abrange.
 
3. Um terceiro ponto que é totalmente excêntrico a esta situação. Deixo aqui ligação à notícia, já velha de dois dias, emanada pela agência LUSA, que foi publicada no "Público". Este jornal tem sido, desde há vários anos, o órgão de comunicação social mais demagógico relativamente às relações entre a sociedade portuguesa e as sociedades africanas. Agora publicou esta notícia, no registo neutral da mera "take" recebida. E contrariamente a tantas outras situações com questões (mesmo que levemente) aparentadas, não teve disponibilidade nem interesse para desenvolver o caso ou para dar palco sobre o assunto ao seu habitual núcleo de colunistas antropólogos, estudiososculturais, historiadores, sociólogos e afins, sempre lestos na gritaria "decolonial", ou aos ali recorrentes propagandistas das ong's dedicadas à "justiça social" internacional. Se fosse preciso algum exemplo para sublinhar a profunda desonestidade intelectual que grassa naquele jornal do grupo SONAE, está bem aqui.
 
Enfim, votos de sucessos desportivos para o atletismo moçambicano. E - como sportinguista que bem se lembra dos destratos sofridos pelo meu saudoso Estádio José de Alvalade aos pés das assistências de concertos rock - os meus votos pela preservação das instalações desportivas no Parque dos Continuadores, questão que terá originado esta detenção do treinador.

23
Jul22

Ventura Strikes Again

jpt

ventura.jpg

(Fotografia de António Cotrim, Lusa)

O deputado Ventura clamou contra a chegada de estrangeiros - que não turistas, entenda-se - a Portugal. Entende-a como uma ameaça grave e um disparatado desperdício de recursos públicos. Para além de questões de princípios e do ordenamento jurídico internacional, será de olhar para os argumentos que costumam alimentar esta recusa dos estrangeiros (repito, que não dos turistas).  

Portugal tem apenas 5,4% de imigrantes. É um dos países da União Europeia que menos concede direitos de nacionalidade a estrangeiros. É, notoriamente, um dos países da União Europeia com menor fluxo de imigrantes (e a UE não é um dos maiores destinos de imigração - surge em 12º lugar neste documento, mas é uma posição algo artificial, mas é uma indicação que serve para matizar a ideia feita de ser o alvo primordial da mobilidade). É um dos países europeus com menor número de refugiados e de pedidos de asilo. Os estrangeiros residentes não têm elevada criminalidade. E a taxa de desemprego não está muito elevada.*

Já agora, e como quem não quer a coisa..., Portugal tem, pelo menos desde XIX, uma longa experiência de emigração (Brasil, América do Norte, Europa Ocidental, África, sucessivamente). E continua a tê-la - ainda que os propagandistas avençados pelo PS e os agitadores profissionais do BE continuem a reduzir a emigração em XXI a efeitos do satanismo liberal de Passos Coelho. Disso resulta termos centenas de milhares (pelo menos) de cidadãos emigrados e milhões de seus descendentes no estrangeiro - com direito a requerer a nacionalidade, se o entenderem. E é neste país, com este historial e este presente, que se botam estas tralhas.

Ou seja, o paleio de Ventura nada mais é do que um animar das suas hostes (morcãs). É um aldrabismo, boçal. Um vácuo tonitruar de quem pouco ou nada tem para adiantar sobre a situação nacional e sobre o que é necessário avançar. Isto é uma bosta intelectual e um escarro moral. Aliás, é André Ventura.

 

*As estatísticas vão variando de ano para ano, e de fonte para fonte. Deixo estas ligações, encontradas em rápida pesquisa no Google. Se o meu objectivo fosse fazer um ensaio, a selecção de fontes estatísticas teria de ser mais cuidada, fundamentalmente em termos da sua coerência. Mas isto é um postal de blog, assim sendo mais do que suficiente a opção por fontes avulsas, desde que credíveis.

23
Jul22

A semirreta

jpt

Em tempos muito bloguei contra o AO90 - tinha então a cândida esperança de que a intelectualidade portuguesa empurrasse o poder político até uma consciência de si mesmo. E, nisso, do espúrio anacronismo do ideário imperial que motivou o Acordo Ortográfico. E, ainda, para os mais iluminados, dos seus efeitos negativos na capacidade dos portugueses se fazerem entender entre os outros falantes da  língua. Enfim, o Acordo Ortográfico não é, nem de perto nem de longe, o fenómeno mais gravoso deste regime (e muita da argumentação que lhe era e é avessa, de tom escatológico e grandiloquente, é até contraproducente). Mas será o facto mais facilmente ilustrativo da incompetência intelectual, inércia executiva e, acima de tudo, falta de visão ("estratégia de desenvolvimento", "projecto", "desígnio", termo a escolher consoante o ideário do locutor) sobre o país que habitam na mole de políticos portugueses deste regime.

Agora que no Delito de Opinião o Pedro Correia (re)apresenta a série Acordo Burrográfico, lembrei-me de um dos (inúmeros) casos diante do "acordês", e que me serviu para um carinhoso pois paternal postal, há já uma década. Eu sei que posso parecer (e ainda hoje) um pai coruja, mas ainda assim pergunto-me: se a minha querida filha, aos seus 9 anos, já tinha aquela compreensão, como é possível que os insignes e ilustres Professores que ascendem às mais altas posições do Estado não o entendam? Desiludam-se os que nisso vêem (atrapalhadas) razões de política externa, como o trôpego historial internacional deste AO90 pode deixar entender. Pois, de facto, toda esta continuidade "acordista" apenas se deve a ininteligência, mediocridade individual. Deles próprios, e daqueles que os içam a tais palanques.

Enfim aqui replico o tal postal de 27.3.2012:

Esta semana terminou o segundo período de aulas do ensino português. Estive a corrigir o teste de matemática com a minha filha (9 anos, 5º ano). Num dos problemas estava questionada a "semirreta". Brincando li "semirrêta". A Carolina, que sabe destas minhas embirrações, mas ainda não tem idade para perceber que estas são mais com os admiradores serôdios do Acto Colonial, sonhando-lhe avatares, veros sobrinhos-netos de Salazar e netos de António Sérgio, mas sem o brilho dos antepassados, corrigiu-me com uma "semirréta". "Eu sei", confirmei, "estou a brincar!".

Ao que ela, certeira, e boa aluna, me respondeu: "a professora de português disse que o acordo ortográfico não muda a maneira de falar". Ao que eu lhe ripostei "e como aprendes tu a falar?". "A ler?!", percebeu ela. Aos nove anos.

23
Jul22

General Nuno Lemos Pires sobre Moçambique

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Uma entrevista à Televisão de Moçambique (Junho de 2022) do General Nuno Lemos Pires, chefe da missão militar da União Europeia em Moçambique, ali deslocada devido aos conflitos no Cabo Delgado.
 
Excelente! Totalmente demonstrativa de que o obrigatório cuidado diplomático em alguém com tão delicada missão é conjugável com a pertinência analítica e discursiva. O nosso General discorre com elegância, clareza e sentimento sobre as causas daquela guerra, a situação actual, a função das missões militares estrangeiras - e a da UE em particular -, o papel desejável das forças armadas moçambicanas. E fá-lo com empenho esclarecido e esclarecedor, um até afecto nada desbragado.
 
Excelente, repito, e exemplar. Para quem se interesse pelo país é mesmo de ver.

22
Jul22

Ventura Strikes Again

jpt

ventura.jpg

(Fotografia de António Cotrim, Lusa)

O deputado Ventura clamou contra a chegada de estrangeiros - que não turistas, entenda-se - a Portugal. Entende-a como uma ameaça grave e um disparatado desperdício de recursos públicos. Para além de questões de princípios e do ordenamento jurídico internacional, será de olhar para os argumentos que costumam alimentar esta recusa dos estrangeiros (repito, que não dos turistas).  

Portugal tem apenas 5,4% de imigrantes. É um dos países da União Europeia que menos concede direitos de nacionalidade a estrangeiros. É, notoriamente, um dos países da União Europeia com menor fluxo de imigrantes (e a UE não é um dos maiores destinos de imigração - surge em 12º lugar neste documento, mas é uma posição algo artificial, mas é uma indicação que serve para matizar a ideia feita de ser o alvo primordial da mobilidade). É um dos países europeus com menor número de refugiados e de pedidos de asilo. Os estrangeiros residentes não têm elevada criminalidade. E a taxa de desemprego não está muito elevada.*

Já agora, e como quem não quer a coisa..., Portugal tem, pelo menos desde XIX, uma longa experiência de emigração (Brasil, América do Norte, Europa Ocidental, África, sucessivamente). E continua a tê-la - ainda que os propagandistas avençados pelo PS e os agitadores profissionais do BE continuem a reduzir a emigração em XXI a efeitos do satanismo liberal de Passos Coelho. Disso resulta termos centenas de milhares (pelo menos) de cidadãos emigrados e milhões de seus descendentes no estrangeiro - com direito a requerer a nacionalidade, se o entenderem. E é neste país, com este historial e este presente, que se botam estas tralhas.

Ou seja, o paleio de Ventura nada mais é do que um animar das suas hostes (morcãs). É um aldrabismo, boçal. Um vácuo tonitruar de quem pouco ou nada tem para adiantar sobre a situação nacional e sobre o que é necessário avançar. Isto é uma bosta intelectual e um escarro moral. Aliás, é André Ventura.

 

*As estatísticas vão variando de ano para ano, e de fonte para fonte. Deixo estas ligações, encontradas em rápida pesquisa no Google. Se o meu objectivo fosse fazer um ensaio, a selecção de fontes estatísticas teria de ser mais cuidada, fundamentalmente em termos da sua coerência. Mas isto é um postal de blog, assim sendo mais do que suficiente a opção por fontes avulsas, desde que credíveis.

21
Jul22

Manguitos de Rafael Bordalo Pinheiro

jpt

capamanguito.jpg

Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, edição do Museu Bordalo Pinheiro, 2022.

Rafael Bordalo Pinheiro é muito invocado, dito "fundador da caricatura nacional" - para além de minudências cronológicas que lhe encontram "antecessores" - respeitado, amado até, como "cidadão pleno e libertário" e nisso precioso "coleccionador de fraquezas" (como disse João Paulo Cotrim), dessas que lhes eram coevas e as quais dizemos ainda actuantes nesta nossa (gasta) Pátria.

Mas, na realidade, Bordalo é-nos algo desconhecido, até mesmo obscuro. Um pouco como aquele avoengo presente em tantas famílias, evocado em convívios sazonais através de episódios que se querem risonhos ou verdadeiros exempla, historietas mais ou menos inventadas acontecidas nos Dembos e Angónias, entre os seringueiros amazónicos, baleeiros atlânticos, filões de volfrâmios ou, também, naqueles das andanças "a salto", tudo isso sem que nós, a sobrinhada, de facto perceba quem foram tais estranhos aventureiros "tios-avôs" e o que lhes foi acontecendo e como se fizeram acontecer.

Muito desse afastamento se deve a que as obras de Bordalo eram contextualmente enraizadas, raras as personagens por ele criadas - e estas sempre simbólicas -, pois se tratava de um universo centrado na vida política e social portuguesa do fim do século XIX. E, sendo aqueles quadros quase sempre de uma rica encenação, pela pluralidade de elementos expostos, a sua fruição convoca vários níveis de leitura, apelando a um conhecimento mais amplo, seja das personalidades caricaturadas seja dos contextos de cada uma das investidas de Bordalo Pinheiro. Digo-o também por mim, herdeiro de três volumes da "Pontos nos ii" oriundos de bisavô paterno, cuja leitura exige uma nada apressada decifração.

E é devido a essa distância para com o mundo de Bordalo Pinheiro, encapuçada pela aparente similitude das invectivas aos poderes que dele queremos recuperar, que são preciosos os livros a ele dedicados, pela descodificação daqueles contextos, afinal mais diferentes deste hoje do que poderá parecer a leituras de mera adesão. Através deles poderemos perceber bem melhor as suas obras, e, sem juizos anacrónicos (auto)punitivos - como esses que tanto estão na moda -, fruir do verdadeiro encanto que a compreensão permite. Por exemplo, apreender a profusão das suas referências a África e às putativas colónias portuguesas percebendo-o também como "Romântico, positivista e mação, agarrado às colónias como a um simbólico pé-de-meia, boémio, sexista, sentimental e altivo, cioso da dignidade nacional, intuitivo e de repentes, Raphael Bordallo Pinheiro é de facto "o português tal e qual"", como, há mais de três décadas, escreveu Ângela Guimarães em "Bordallo: Face a um Mundo em Turbilhão"*, uma investigação dedicada à refracção no autor da mentalidade colonial e dos anseios africanistas da época, algo que Guimarães cumpriu sem se desviar por bacocos dislates punitivos mas sim olhando Bordalo como uma voz trangressora no seu tempo. Ou essa reedição aquando do centenário da sua morte (2005), com textos de João Paulo Cotrim, do "Álbum de Glórias", que é preciosa para a identificação de inúmeras personalidades caricaturadas e, também, por fazer reviver a prosa de Bordalo e seus corrosivos colaboradores (em particular a de Guilherme Azevedo e a de Ramalho Ortigão).

Enfim, várias obras têm sido dedicadas ao autor. Mas ainda assim é muito atractiva esta nova colecção que o Museu Bordalo Pinheiro começou agora a publicar, pequenos volumes (de pequenas tiragens, 250 exemplares) com incursões temáticas àquelas obras. Comecei por este Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, apresentado este mês. O qual comporta uma bem conseguida mescla entre a importância da gestualidade como comunicação não-verbal intra-comunitária e a a genealogia do carismático "Zé Povinho", "[Essa] criança que tem hoje perto de cinquenta anos de idade! (...) Nele concorrem em conjunto todas as partes que nos enlevam e encantam no bom menino - casta inocência, temor de Deus, obediência a seus mestres, humildade, nariz por assoar, dor de barriga às segundas-feiras e santíssima ignorância. Aos carinhosos desvelos de sua extremosa mãe, a Carta, e de seu galhofeiro pai, o Parlamentarismo, se deve o estado miraculoso de infantilidade que tão vantajosamente recomenda este vulto à simpatia e ao espanto de todo o mundo" (Ramalho Ortigão, dito João Ribaixo no "Álbum de Glórias"), descrição bem apropriada a um "Zé Povinho" que Bordalo, apesar da simpatia que lhe votava, invectivava por não se erguer como Povo, preguiça que considerava desamor à Pátria.

Ora vem esta sopesada mescla a propósito do célebre gesto do manguito, o qual sempre associamos, no nosso real afastamento à obra de Bordalo Pinheiro, a uma prática regular, desabafo até contestatário, do "Zé Povinho". Para depois, neste livro, percebermos que, afinal, "No que diz respeito aos gestos obscenos, Rafael Bordalo Pinheiro é muito discreto, evitando representá-los de modo explícito" (49). Ou seja, e contrariamente à nossa ideia feita, não há manguitos (literais, no sentido gestual) nas caricaturas - esse registo mais brejeiro apenas veio a surgir na cerâmica de Bordalo. E foi esta, torna-se assim evidente, que veio a moldar a nossa apreensão, a nossa memória, do trabalho gráfico do autor.

Fosse apenas por isso, por este desvendar, este livro seria já precioso. Mas há bem mais assuntos de interesse - até porque profusamente ilustrado (como não poderia deixar de ser), com explanações sobre o conteúdo de cada uma das ilustrações. E o mesmo se aplicará, presumo, aos outros exemplares desta colecção, um fio que será uma constante "reintrodução" a Rafael Bordalo Pinheiro, esse filão de entendimento sobre, 

"N'este país de compadres; / E de ministros d'estado, / E de vates trovadores, / E de tocadores do fado, / E de casas de penhores, / E de grandes orçamentos, / E de namoros aos centos, / E de parvonezes todos, / E de cem milhões de alferes, / E de homens que são mulheres, / E de eleitoraes engodos; (...)" ["Neste país de compadres e d'eleitoraes engodos", em O António Maria, 28 de Junho de 1883, reproduzido na p. 50), 

pois, se difererenças há em relação àquela época, e imensas há, as semelhanças também vigoram. E muito as incompreendemos quando não conseguimos perceber os detalhes da obra de Bordalo, na tal descodificação. Ou seja, urge ir ler os pequenos volumes desta colecção, a preço bastante acessível.

* Eu só tenho uma fotocópia de texto prévio, "O Riso e a Angústia", que não tenho a certeza de corresponder totalmente ao livro publicado em 1997.

19
Jul22

Na morte de Maria de Lurdes Modesto

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cozinha-tradicional-pt-site.jpg

Morreu Maria de Lurdes Modesto, a quem o país tanto agradece, pela investigação, pelos ensinamentos, pela divulgação - que nos legou em extensa bibliografia. Posso falar por experiência, conheço bem alguém que com ela aprendeu - e que, também por isso, magnífica mesa proporcionava em sua casa. Há uns poucos anos fui a um debate no enérgico Museu Bordalo Pinheiro, o tema era a culinária no final de XIX e sua refracção na literatura, e a Senhora uma das três intervenientes. Então já tardo octogenária tinha entusiasmo, energia, verve e simpatia verdadeiramente encantadores. Deixo a minha vénia, de gratidão e respeito.

18
Jul22

Faz mais calor nos Olivais

jpt

Olivais_(Lisboa)_localização.svg

Aqueles que me vêm aturando nestes anos - e em particular desde que regressei à Pátria Amada - talvez se lembrem das minhas cíclicas investidas sobre a Junta de Freguesia dos Olivais  em Lisboa (neste postal que aqui ligo deixara ligação a 12 desses textos), sua respectiva presidente, a inefável (sim...) Rute Lima, e o conjunto de decisões, práticas e demagogias que dali vai brotando. Os que me dedicam mais paciência recordar-se-ão ainda de como provei - matematicamente - que foi devido ao trambolhão eleitoral socialista nos Olivais que o presidente da Câmara teve o ensejo de ascender a Ministro das Finanças, pavimentando o seu óbvio rumo a São Bento... Santa serendipidade, deve murmurar Medina, louvando assim as patacoadas dos seus correligionários na freguesia.

Alguns dirão que exagero, que aquela equipa PS de Lima não pode ser tão má como eu a pinto. Pois então comprovo-me, deixando a notícia de há dias que só agora vejo: a Junta de Freguesia desinterpretou a indicação governamental e mandou fechar todos os parques infantis dos Olivais. Foi a única Junta a borregar desta maneira, tamanha a incompetência (para não dizer pior) que lá grassa. E, ao que consta, aos fregueses que acorreram ao seu sítio pedindo esclarecimentos, os autarcas defenderam a sua posição alegando que "está calor, isso faz mal às crianças" - deve ser a freguesia mais quente do país! Depois, dias passados, lá emendaram a patetice.

Espero que este exemplo, entre o pungente e o patético, sirva de vez para que me votem indulgência: quando me irrito com a Junta do meu bairro não é coisa de "partidos". É mesmo porque Rute Lima (colunista do prestigiado jornal de referência "Público", convém recordar) e sua equipa ultrapassam o imaginável. E sempre insisto, colocados no poder pelo PS em Lisboa, capital do país, entre o Parque das Nações e as Avenidas Novas - numa freguesia com 32 mil eleitores.

Isto deve dizer qualquer coisa sobre a natureza daquela agremiação.

16
Jul22

O Prémio Camões e a representatividade

jpt

chiziane.jpg

 
Sei que os meus amigos-FB preferem quando boto sobre "comes e bebes". Mas este sábado é-me dia daquele "jejum intermitente", o qual parece estar agora na moda. Por isso animo o metabolismo com alternativas do cardápio, memórias como prato do dia.
 
Há duas décadas um colega brasileiro - um desses raros que nos fizemos amigos e depois camaradas - avisou-me que ia a Maputo. Sem pudor pedi-lhe que me levasse alguma ficção, desvendando-me autores mais recentes que Nassar ou Rubem Fonseca, os quais eram até onde chegava a minha (des)actualização da literatura do seu país. Na sua chegada logo nos encontrámos n'O Piripiri, cumprimos as efusivas saudações, avançámos nas 2M e chamuças... e ele deu-me a conhecer Bernardo Carvalho e Milton Hatoum. Autores que ele lera e seus amigos também recomendavam, avisou. Uma belíssima parelha, logo vim a confirmar.
 
Passaram os tais 20 anos, e num ápice. Há tempos, mesmo mesmo antes da Covid, o camarada avisou que vinha a Lisboa e ficou cá em casa. De novo lhe pedi ficção, que me supreendesse outra vez. Entretanto a ele acontecera-lhe o mesmo que a mim, tornámo-nos cinquentões, menos atreitos às novidades - a partir dos cinquenta relê-se, disse o nada cego Borges, e tinha (sempre) razão. Até menos ávidos de ficção, pelo menos eu. E, no caso dele, investigador e professor, mergulhado nas leituras profissionais, entre as quais os quase infindáveis textos de alunos.
 
Sentiu-se ele assim algo descalço do saber que eu lhe convocava - tal e qual eu estaria se me fizessem pedido semelhante, pois dos nossos escritores mais novos apenas li Afonso Cruz e Patrícia Portela. Fez então o normal: perguntou a uma amiga, ela editora, e com a qual ao longo de décadas havia ele falado da cena literária brasileira, o que havia de trazer para este seu amigo, um português, cinquentão, medianamente lido. Ao que ela elencou não alguns nomes mas sim um conjunto de características dos autores que ele deveria escolher para me trazer: negro, nordestino, lesbiana, e alguns outros "regionalismos". Ou seja, para muito pouco interessava o perfil - e presumíveis gostos - do receptor/leitor, eu próprio. E menos ainda interessava um qualquer cânone, de Bloom, Steiner ou de outrem, decerto que vilipendiado como "ocidental", arma de repressão do malvado Norte.  
 
Isto contou-me ele, logo que aqui aportado. Antropólogo intenso - e daqueles de muito(s) terreno(s) -, homem do mundo, personalidade nada padronizada, sem pingo de bacoco conservadorismo, resmungava ainda surpreso, até estupefacto: "esta conversa há uns anos teria sido totalmente diferente...". E entregou-me as prendas, escolhidas apesar dos conselhos: uma maravilhosa, e para mim comovente, primeira edição do "Menina a Caminho" do (meu) Nassar, um delicioso Modesto Carone, Fuks, etc. Escolhidos por "gosto" - essa entidade -, o próprio e o que me presume.
 
Às vezes lembro-me desta conversa, denotativa do "estado do mundo", desta vigência do critério da "representatividade" - no primado dado aos "representantes", quais porta-vozes, das ditas "comunidades", respectivos "sentimentos" e, também, seus "usos e costumes".
 
E mais me lembrei dela agora, há dias, ao ler esta entrevista, com sorriso entristecido. Chamem-me o que quiserem. Do Prémio Camões já resmunguei o que teria a dizer, acima de tudo da sua impertinência após o esquecimento de Ruy Duarte de Carvalho (sim, um "branco"). Da literatura angolana li alguma coisa. E da moçambicana li quase tudo do publicado até meados da década passada, muita como documento, outra também como fruição. Sou um mero leitor, isto é apenas um critério quantitativo, não me dá peanha e menos ainda púlpito para aquilatar. Apenas "acho". Acho que Saúte seria um grande ficcionista - se o quisesse ser. Escrevi durante anos num jornal uma coluna "Ao Balcão da Cantina", por influência de um conto de Honwana. A tão precoce morte de Zita foi uma desgraça. White em poesia era grande. Nada perco de Muianga e de Panguana. Sou total adepto, holigão mesmo, de Borges Coelho. Alguns livros de Khosa são muito bons. Há (e houve) uma série de cronistas deliciosos - e alguém que me traga de Maputo, por favor, o Mathxinguiribwa de Alexandre Chaúque, esse que como cronista sempre me deliciou. Etc.
 
E ainda assim - ou talvez mesmo por isso - leio esta entrevista. Meneio a cabeça, no tal sorriso entristecido. Tal como quando há poucos dias li um escritor moçambicano - mais novo, do qual desconheço os livros - clamar contra a desatenção "ocidental" sobre aqueles que são os legítimos veículos da "alma africana"! Diante disto tudo ou, melhor dizendo, deste quase nada, recordo-me então da conversa com o meu camarada leitor. E, ainda, vem-me à cabeça a proclamação do júri de premiação camoniana, celebrando uma autora por ser... muito alvo de investigação académica. É o cânone da "representatividade". Estatística, até! E se a gente torce o nariz é apupado.
 
Enfim, é manhã de sábado veranil. E o melhor é mesmo, afinal, preparar-me para uma patuscada comensal. Verdadeiramente representativa do "ser". Da "alma lusa", por assim dizer... Depois deixarei aqui fotografia testemunho.
 
(Não me tragas livros neste Verão, que estou atafulhado de leituras atrasadas)

14
Jul22

Ao Largo da Feira

jpt

Largo da Feira.jpg

Não sou muito de doces. Aliás, tenho a ideia - que me é dogma - que homem que é homem não segue dado à doçaria, a esta deixando, em risonho e justificado mansplaining, como monopólio da volúpia do belo sexo. A nós os óleos e banhas da crocante chamuça, do rústico rissol, da bacalhauzada, do entrecosto a roer. A elas - e, vá lá, aos do convento - os açúcares que amainam os espíritos. É certo, é-nos permitida, e até requerida, a mera colher de café do pudim esponsal, sinal da partilha infindável que é o amor, e mesmo a de chá na musse alheia, marca do furor lascivo do amantismo. Mas só isso...
 
Na alvorada de hoje visitei a pastelaria fina da vila. Já lá havia estado, meia dúzia de vezes, "ao pão" e café. Após uma noite insone, encetei-me, em busca de alento para o dia, com uma para mim antiquérrima dupla, a Coca-Cola e a bica. Mas tamanho era o défice próprio que lhe associei - com a impudicícia permitida pela solidão e total anonimato - um "jesuíta", bolo que terei comido com agrado na juventude impúbere.
 
E fiquei absolutamente espantado. O tal "jesuíta" é ali uma verdadeira delícia, única. Um memorável momento... E enquanto o mastigava, surpreendido, lembrei-me de que já me haviam recomendado, com fartos encómios, a pastelaria desta "Largo da Feira", em Palmela.
 
Garanto-vos, vinde ao vinho, vinde ao belo castelo panorâmico, vinde às magníficas tulipas e entremeadas do "Miradouro" virado ao (agora fustigado) Vale dos Barris. Mas passai - até para agrado das Senhoras da vossa vida - pela pastelaria "Largo da Feira" a abastecerem-se dos tais açúcares de fabrico próprio, que estes amainam mesmo os espíritos.

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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