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Nenhures

Nenhures

20
Ago22

Xenofobia

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De há alguns a esta parte instaurou-se um discurso mediático - muito dinamizado pelo diário da SONAE e cavalgado pelo esquerdismo radical - que sumariza o nosso país como sede de um abrasivo racismo e concomitante xenofobia. Não há como contestar essa visão, assente numa mescla de vontade revolucionária, sensibilidade benfazeja, elisão das realidades, desprezo pelo comparativsmo e, talvez mais do que tudo, aldrabismo retórico (textos académicos a bolçarem insanidades sobre "racismo cultural" serão suficiente exemplo disso). Enfim, não há como contestar isso pois quem acredita nesta patacoada perora em cima de um estrado moral e vê os seus críticos como pagãos satânicos. 

Eu tenho apreço pelo comparativismo (deformação profissional, ainda que milite na secção indutiva). E às vezes diante deste demonizar de Portugal - recorrente entre os clientes da SONAE e os admiradores do dr. Ba - sorrio ao ver outros exemplos alhures, que passam ao lado destes "críticos" brinca-na-areia.

O nosso maior fluxo imigrante é brasileiro. Decerto que muitos serão pobres, em difíceis e até algo precárias situações laborais e socioeconómicas. Muitos terão razões para se sentirem desvalorizados ("discriminados", no jargão actual). Mas será interessante analisar a protecção legal que têm e se esta é menor do que a que cobre nacionais e oriundos de outros países. É também relevante se sofrem efectiva perseguição dos nossos cidadãos (de modo que seja sociologicamente relevante, para além de um qualquer despautério ou zaragata). E em terceiro lugar, será necessário perceber que tipo de discursos públicos - e sua reprodução mediática - sobre eles existem, que categorizações negativas são produzidas e ecoadas, que estereótipos são mantidos e publicados. Com objectivos de desvalorização, exclusão e mesmo de ostracização.

Vem-me isto à cabeça no sábado soalheiro devido às notícias do futebol brasileiro. Pois desde há anos, após a ida bem sucedida de Jorge Jesus para o Brasil, que lá são amplamente divulgados discursos xenófobos, discriminatórios, dos portugueses, e sistematicamente usando estereótipos que nos são avessos. Primeiro contra Jesus, depois contra os vários treinadores nossos compatriotas que foram contratados para aquele país. Ultimamente uma verdadeira concertação de importantes treinadores brasileiros contra Abel Ferreira. E hoje vejo no Record um idoso treinador brasileiro denegrindo Paulo Sousa através do consabido chavão "voltou para Portugal e abriu uma padaria". 

Ou seja, num país onde o futebol tem uma enormíssima importância, os seus agentes - principalmente jornalistas e treinadores - não têm qualquer rebuço em proferirem discursos explicitamente xenófobos contra os portugueses. Sem que isso, friso, tenha qualquer comparação com hipotéticos dichotes ou desatinos que por cá se passem.

E nenhum "activista" - por lá usualmente chafurdando na patética construção "consciência africana" ou quejanda, por cá entretidos nas quermesses anti-apropriação cultural e nas coalizões entre causas políticas e erotismo - se pronuncia sobre o assunto. Imagine-se o que não seria se umas dezenas de imbecis por cá tivessem discursos semelhantes sobre renomados brasileiros aqui trabalhando ...

Quantos jornalistas brasileiros seriam convidados a "denunciar" isso nas televisões, quantos "observatórios" proclamariam a nossa crise nacional e defeito identitário, quantas páginas do boletim da SONAE seriam dedicadas ao assunto, quantas indignações do comunista dr. Ba?

Mas assim? Nada. "Vamos ao pão", fazê-lo, que é o nosso destino. De "tugas".

20
Ago22

Dia Mundial da Fotografia

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Soube aqui que no actual calendário laico, o vigente, ontem foi o Dia da Fotografia. Eu, "grumpy old thing", como ainda agora me definiu uma querida e tão bela amiga - devido, ainda que presuma que não em exclusivo, a este postal -, preferiria que fosse o Dia dos Fotógrafos, os desse ofício abalroado por todos nós, pataratas munidos de instrumentos avalizados e olhares descalibrados.

Também por isso, mas não só, celebro o dia partilhando esta fotografia feita (sublinhe-se o "feita" enfrentando-se esta era do "tirada") pelo meu amigo Miguel Valle de Figueiredo , oficial graduado do ofício, e nisso uma lente sem cedências, aqui a olhar na ilha Reunião.

19
Ago22

Em inglês...

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(Postal no meu mural de Facebook)

Muito me abespinha esta mania cada vez mais generalizada, a de usar breves frases em inglês para enfatizar. E lá vêm o "amo-te", "é a vida", "belo ocaso", "festa divertida", "esplêndida Lua", "tão giro", etc. Tudo isso botado em inglês. E isto não é para comunicar com o mundo mais amplo, na língua franca, nem para mostrar dotes linguísticos. É mesmo a parvoíce de pensar que inglês reforça o sentido...

17
Ago22

A Polícia e a imprensa

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O filme está aqui: o Jornal de Notícias noticia que dois polícias agrediram um homem com um cassetete e que as imagens divulgadas geraram uma onda de indignação. O Expresso é ainda mais enfático, publica a imagem (um fotograma do mesmo filme) acompanhado de uma legenda denunciante,

numa óbvia condenação do acontecido ao "cidadão" (como faz questão de frisar) que estaria "aparentemente desarmado". E o normalmente enfático Correio da Manhã noticia que o homem (o tal "cidadão") ameaçara com "ferros" os polícias depois de o fazer aos transeuntes. E é este "ameaçar com ferros" que é o mais significante de todo este fluxo noticioso sobre a matéria...

Eu, com alguma desatenção, vira o breve filme numa qualquer estação televisiva, que ia acompanhado de uma locução cuja forma não recordo mas que não era simpática aos "agentes da autoridade". Impressionei-me com aquilo, num "lá estão estes gajos outra vez..." (os polícias, claro), aquela meia dúzia de bastonadas num tipo já relativamente imobilizado, mesmo que ainda algo estrebuchando, e - o que mais me impressionou, ainda que tal não seja ilegal - a acção de imobilização através do joelho no pescoço, que ficou mundialmente celebrizada há dois anos quando um polícia americano assim esganou um cidadão, dando azo a grandes manifestações.

Mas nos dias seguintes, e enquanto continuam as denúncias públicas do exagero policial e se anuncia um inquérito a estes dois agentes - os quais muito provavelmente serão punidos, até porque a opinião pública isso parece desejar - percebo outra coisa: os tais meros "ferros" não são ferros... O homem estava na tarde das estreitas vielas do Bairro Alto a ameaçar pessoas. E veja-se a fotografia (fotograma do filme de telemóvel): fazia-o brandindo arma letal - não é exactamente nem sabre, nem espada, nem uma catana, mas a esta se poderá assemelhar, ainda que eu prefira chamar-lhe cimitarra. E o outro "ferro" é uma placa metálica que deverá ter sido usada (imaginada) como um escudo. E diante de um homem assim armado, decerto que exaltado (e muito provavelmente desequilibrado), dois jovens polícias arriscam-se - por dever de ofício - à tarefa de o imobilizar num corpo-a-corpo, e acompanham isso com meia dúzia de bastonadas em zonas do corpo nunca letais, para o aquietar em definitivo. 

Face a isto, filmado ainda para mais, a imprensa chama "ferro" à cimitarra, "cidadão" ao agressor ( - num mundo em que se um tipo chama "gordo" ou "maricas" a outro isso torna-o um agressor, como se definirá um tipo desabrido a invectivar os vizinhos no meio da rua, armado daquela maneira, que não seja como "agressor"? E não "agredido"!) E considera, a imprensa, "agressão" a acção policial. O poder investiga (e tem de o fazer) os dois agentes. A opinião pública resmunga contra a  polícia. 

Há aqui qualquer coisa errada. E não é só o ter sido o homem imediatamente solto (até à sua próxima iniciativa, temo). 

16
Ago22

Matheus Nunes

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O futebolista Matheus Nunes é transferido do Sporting para um clube inglês por 50 milhões de euros, tal como antes o seu colega João Palhinha saíra para aquele país por 22 milhões de euros. Associe-se isso às largas dezenas de milhões de euros pelas quais o Porto cedeu as licenças dos jovens Vitinha e Fábio Vieira, e as recebidas pelo Benfica através de idêntica operação com o uruguaio Darwin. E isto para além de outras operações similares, ainda que de menor montante, que vários outros clubes portugueses vêm fazendo. Tudo somado poder-se-á constatar que nesta "economia de lazer" globalizada - na qual o futebol, como maior desporto mundial, tem um enorme relevo - Portugal é um grande exportador de licenças desportivas, com assinaláveis lucros. Os quais se repercutem, directa e indirectamente, nas empresas desportivas, seus fornecedores e empregados. É certo que numa economia aberta já não tem o mesmo sentido falar em acumulação de divisas, mas ainda assim os efeitos positivos são relevantes. E talvez um Estado atento à indução da produtividade pudesse reflectir naquilo que os clubes tanto exigem - um aligeirar dos impostos sobre os ordenados dos jogadores, legítima dada a especificidade (curta duração) dessa carreiras profissionais. O que aumentaria, e em muito, a capacidade formativa dos clubes nacionais e o estatuto de "trampolim" para os grandes mercados internacionais. E concomitantes lucros nacionais. Ou seja, neste caso é evidente que a pesada carga fiscal é contraproducente para o objectivo social de incrementar a riqueza interna e sua distribuição. Contra esta ideia, alguns argumentarão que os jogadores de futebol ganham imenso - mas isso não corresponde à verdade, alguns ganham imenso, umas dezenas ganham muito, centenas são artistas remediados até aos seus trinta anos, e imensos são meros assalariados empobrecidos. 

A transferência de Nunes tem, evidentemente, uma outra dimensão, que nada tem a ver com Economia mas sim com Cultura. Presumo que o jogador aceitou a transferência dado que partiu para o mais importante campeonato do mundo e que terá acesso a um grande aumento de remunerações. Mas quer-me parecer que o jogador também considerou que a sua presença no campeonato inglês lhe poderá impulsionar a titularidade na selecção portuguesa neste próximo Mundial-22, legítimo anseio pessoal e profissional. Pois, de facto, é notório que o seleccionador Fernando Santos cada vez é menos atreito aos jogadores do Sporting e, em particular, a outorgar-lhes o estatuto de titular - uma subalternização que se tornou evidente neste absurdo caso. Fará parte da sua Cultura de seleccionador... É possível que Nunes tenha pensado nisso. Quanto a mim presumo que a sua associação no meio-campo de Wolverhampton com Rúben Neves será positiva. E que essa familiaridade entre dois jogadores, até possível comunhão, lhes será útil, lhes dará alento, amparando-se no banco da equipa nacional, vendo jogar Danilo e William Carvalho, entre outros. Pois "ele" há coisas que não mudam...

16
Ago22

Construção Social do Género

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Estas questões do "género" têm que se lhe diga, e o que sobre isso vem à baila também. Diz-se que "agora" os homens têm de se despachar em afazeres domésticos, aprendê-los e isso, num óbvio "os tempos mudaram", um viés do que hoje se diz "construção social do género" e antes se dizia divisão sexual do trabalho. Será assim, para os muitos das novas gerações, os desta "Era Identitária"... Acontece que sou velho e tenho outras memórias, "identitárias" por assim dizer.
 
Quando acabei o curso fui convocado ao "Calhau". Não guardo disso boas memórias, pois foi um azar nítido: não só pelas oportunidades laborais que logo perdi. Mas, acima de tudo, porque no meu edital (25 ou 50 nomes, já não recordo) fora o único a quem não tinha sido atribuída a ansiada "passagem à reserva territorial". Terá sido o dia de maior raiva da minha vida.
 
Depois foi o que sabem aqueles que fizeram a tropa. Algo rude - menos que antes, pois havia 2 anos que tinham morrido uns recrutas na "prova do fosso" e isso amainara o jovem oficialato e os temíveis furriéis. Pesado, porque aquela "ginástica até à morte" não era um mero mito. E dificilmente suportável, porque tudo aquilo era, acima de tudo, uma imensa perda de tempo para um puto cheio de pressa na vida. E depois, ainda por cima, era um bocado pacóvio, de anacrónico - cada um tinha a sua "namorada" (a G3): e todos tínhamos um "inimigo" ("o meu alferes dá licença?", um dia perguntou o sô Teixeira, durante a prelecção ao pelotão na parada, "diga, sô Teixeira!", "quem é esse inimigo?". Sorriso do jovem oficial - que era um puto porreiro, rijo mas porreiro - e "Bem, dantes eram os russos, agora não sabemos!!!", que o raio do Gorbatchov nos tinha trocado as voltas...).
 
Enfim, por lá andávamos, Tapada acima, Tapada abaixo, disparando quando nos diziam para isso, correndo e saltando quase sempre, marchando na parada com a monotonia ou nas cercanias do raio da vila (raisparta Mafra), com mochilas mais pesadas do que no inter-rail, estudando sebentas do pequeno oficialato noite afora, sorvendo o rancho que não vinha do Pap'Açorda, e o tintol que se dizia ter cânfora para reduzir os anseios (sodomitas, presumo), e sei lá mais-o-quê que já lá vão mais de trinta anos. E no meio disto tudo ainda se tinha de aturar - e isso talvez fosse o pior - os instruendos camaradas estuporados, pois ali deprimidos e/ou na ronha, sofrendo aquilo como se dali fossem partir para a frente leste, os esperasse um qualquer Estalinegrado e não apenas um anito de modorra numa Tavira ou Lumiar qualquer...
 
Enfim, no que tive de fazer lá me safei o suficiente, apesar de desajeitado naquilo (menos na pontaria, registo, apesar de destro com olho condutor esquerdo), muito devido ao que na avaliação final ficou explícito, uma boa referência em "rusticidade", algo que ainda hoje recordo com prazer, enfático.
 
Dito isto, foi na tropa que este burguesote, tão benjamim que quase filho-único, aprendeu a coser botões, a ir à máquina de lavar quando chegado a casa de trouxa às costas, a passar a ferro (mais ou menos, mais ou menos...), a ter os pertences muito bem arrumados, qu'a gente tem de limpar os sanitários (lavabos e cagadoiros), a ter calçado e vestes impecáveis. A organizar uma mesa (quando se é "chefe" dela"). E que fazer a cama é a primeira coisa após se vestir, e muito bem aprumadinha, que a "casa" não é para estar descomposta... E, mais do que tudo, a ser "mães de famílias" (como então se dizia) pois também era exigido o tomar conta dos outros (mais-novos, por definição) que não sabiam fazer as coisas, como eu desesperado com o bom do sô Cabecinhas, meu camarada de beliche, um daqueles alourados celtas que o Norte ainda nos oferecia, desajeitado nas artes de esticar lençóis e tão atrapalhado em tudo aquilo, assim sempre atrasando-se, que algo relapso na higiene pessoal, obrigando-me a trocar-lhe in extremis as fronhas, para evitar a gritaria do oficialato, aquela do "Sô Teixeira, você não está a ajudar o seu camarada... vamos encher". Etc...
 
Enfim, é isto apenas a minha contribuição de antropólogo para esta lengalenga da "construção social do género", sub-secção "lavores". Quanto ao resto? Raisparta Mafra...
 

14
Ago22

A Propósito do Ataque a Salman Rushdie

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O atentado sofrido por Salman Rushdie, 33 anos depois da sua condenação à morte pelo ditador Khomeini - em cujo país a imprensa já louvou esta acçãoconvoca a que se reflicta sobre como se concebe esta teofilia constituída como fascismo islâmico, que se vem alastrando nas últimas décadas. Pois na Europa há uma tendência "compreensiva" do fenómeno, de facto desresponsabilizadora dos seus agentes. Esse rumo tem dois grandes dínamos: 1) o viés autopunitivo da civilização ocidental, dominante nas correntes "identitaristas" tendentes a interpretações "multiculturalistas" deste fenómeno político, nas quais se enfatiza a relevância das suas raízes "culturais" - como se estas assim fossem legítimas, qual uma segunda natureza. No fundo, esta é a actualização da "obsessão antiamericana", oriunda do conservadorismo oitocentista europeu, neste ambiente impulsionada pela sua refracção em Foucault - ele próprio arauto da teocracia iraniana -, um grande inspirador desta deriva "identitarista"; 2) o reforço do pensamento antiliberal, um estatismo sempre tendente a impor limites à liberdade de expressão e de consciência, demonstrado em particular no anseio de reverter o direito à blasfémia e da aceitação - em primeiro lugar para as minorias residentes - da censura à liberdade de apostasia.

No caso de Salman Rushdie foi notório que muitas reacções após a sua condenação, provocada pelo "Versículos Satânicos", denotaram a subalternização da adesão aos direitos de consciência, tanto na sociedade britânica e suas congéneres como até em agentes políticos. Pois, mesmo que tenha vigorado o espanto, até repugnado, diante da proclamação de Khomeini, esse foi acompanhado de críticas ao escritor: este, avesso ao governo britânico de então e à política externa americana - e que havia defendido a revolução teocrática iraniana -, foi ridicularizado por aceitar a protecção policial que o Estado lhe proporcionou, como se isso fosse paradoxal. E, ainda mais significante, foi evocada a sua ascendência islâmica como factor que algo lhe deslegitimava a liberdade criativa, evidente refracção da aversão à apostasia (individual ou colectiva). Mas para além desses dichotes na vox populi, britânica e não só, e cujo valor foi apenas denotativo, o certo é que na sociedade britânica e em algumas congéneres, os cleros, e seus próximos, se mobilizaram, não só na crítica ao escritor como - e nisso foi relevante o então arcebispo de Canterbury - reclamando a extensão e (re)activação das leis contra a blasfémia e concomitantes acções censórias.

Para muitos, crentes ou descrentes, a blasfémia pode surgir como antipática ou mesmo anacrónica. E alguns consideram os seus defensores - numa evidente manipulação retórica - de "fundamentalistas seculares", até como incapazes de perceberem a "complexidade" socio-religiosa contemporânea. Naquilo que é um paupérrimo pensamento, pois deixa entender uma "simplicidade" pretérita das conflitualidades político-religiosas - ainda por cima num continente com séculos de guerras religiosas internas à cristandade, e de difíceis coabitações com minorias judaicas e islâmicas. Mas o certo é que a possibilidade blasfema é (tal como o é a apostasia) uma componente fundamental da liberdade de consciência e de expressão, e foi uma verdadeira conquista histórica.

De facto, as reacções que apelam a uma restrição à iconoclastia dedicada ao Islão contêm um ignorante "culturalismo", que implica uma generalização empobrecedora do complexo islâmico e uma vitimização - infantilizadora - daqueles crentes, como se esses sejam incapazes de ultrapassarem traumas advindos dessa iconoclastia. Mas contêm também o propósito de se aproveitar a imposição desses limites face ao Islão para os estender à totalidade do âmbito da religião - bem como a outras áreas da vida social.

Ou seja, essa deriva censória não se restringe ao Islão. No âmbito da cristandade contemporânea é ainda célebre a violenta reacção da igreja anglicana e de outras congregações face ao filme "Life of Brian" dos Monty Python. E mesmo que hoje em dia essa posição pareça absolutamente patética - de um ridículo que foi imensamente glosado, tão patente no sempre recordado debate entre John Cleese e Michael Palin com o bispo de Southwark Mervyn Stockwood - em pleno final da década de 1970 essa acção eclesiástica teve efeitos censórios, e não só na Grã-Bretanha. E convém recordar a violenta reacção do Estado russo e da sua Igreja Ortodoxa no caso do grupo Pussy Riot, condenado (também) por sacrilégio. E em Portugal, neste nosso registo manso dos "brandos costumes", ficou célebre - e muito ridicularizada - a exaltada passeata capitaneada pelo então presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, aquando da apresentação do "Je Vous Salue, Marie" de Godard. Tal como a patética investida do clero católico - nisso então apoiado pelo actual presidente da República, Rebelo de Sousa - contra a singela "Última Ceia" de Herman José, já em 1996.

Como tal, esta vertigem censória é ainda uma questão interna à sociedade portuguesa, bem como em muitas das suas aliadas europeias e americanas. E é notório que muitos países, incluindo europeus, mantêm leis contra a blasfémia e há ainda dezenas que as têm contra a apostasia. E - associável a essa situação - continua a existir uma globalizada discriminação, ainda que com plurais conteúdos, dos ateus - sem que nenhuma dessas situações (consagração do direito à blasfémia e à apostasia, eliminação de entraves sociais, políticos e jurídicos à consciência ateia) surja com veemência nas agendas internacionais, seja nas articulações multilaterais seja no âmbito das relações bilaterais. 

Esta refutação do direito à blasfémia, imensamente cruzado com a "vitimização" de um aparente universo islâmico - evidente eco destes discursos "identitaristas" que tendem a encontrar "comunidades" "racializadas" (esse sonho agit-prop de marxismo de bolso, que quer transformar a "raça-em-si" em "raça-para-si") -, aliada à vontade de (re)instaurar mecanismos censórios e de induzir os autocensórios, foi patente após o sanguinário atentado à "Charlie Hebdo".

Em Portugal lembro o aplauso (as "partilhas") entre a intelectualidade de esquerda de um texto do célebre padre Leonardo Boff, apelando à instauração da censura - e explicitamente agregando a temática "islão" à cobertura noticiosa das eleições brasileiras, num atrapalhado texto que bem demonstrava o anseio de vetusto teólogo, e de todos os que o ecoaram, essa amplitude das dimensões que esta temática implica: a instauração de uma censura e de uma autocensura que sejam "protectoras" de determinados grupos sociais (e políticos)...

E notória foi também a reacção de Ana Gomes, encerrando-se em críticas às vítimas, numa evidente "justificação" do(s) ataque(s), devido(s) às ofensas sofridas, mesmo atribuindo-os à... austeridade. E o que é relevante é que esse somatório de dislates que Gomes veio proferindo - incapaz de entender as dimensões políticas e ideológicas da situação, a particular e sua envolvente -, demonstrando o seu alheamento ao valor da liberdade de expressão, não lhe causaram qualquer ónus social ou político. Pois acabou por se afirmar como candidata a presidente da república, numa candidatura emanada de um partido cujo fundador se afirmara um dia "republicano, laico e socialista" - sublinhe-se "laico", e perceba-se que "laicidade" (pessoal e estatal) é algo que Gomes, e tantos outros, incompreendem.

Esta relativização do terrorismo islamita, o reenvio das suas causas para os contextos europeus, deste modo a estes querendo moldar em função das acções assassinas da teofilia fascista, surge também na igreja católica. Disso exemplo são as declarações de Manuel Linda, o bispo do Porto, em 2020 aquando de um atentado islamista em França: "O atentado de ontem na catedral de Nice não é luta do Islão contra o Cristianismo: é o resultado dos preconceitos daqueles europeus que não só não fomentam o diálogo intercultural e inter-religioso como até estão sempre de dedo em riste a acusar as religiões." 

Mas o conúbio dos agentes políticos portugueses com esta deriva censória é um traço continuado. Em 2005 a revista dinamarquesa Jyllands-Posten publicou caricaturas centradas em Maomé, as quais viriam a ser republicadas em vários jornais mundiais. (Em Moçambique foram reproduzidas no "Savana", o que originou manifestações de muçulmanos que recordei neste "Kok Nam no Dia das Caricaturas"). As reacções internacionais foram violentas, tendo até a Liga Árabe e a Organização da Conferência Islâmica exigido que a União Europeia introduzisse leis contra a blasfémia. E a posição do governo português foi esclarecedora: em texto do  ministro dos Negócios Estrangeiros, o antigo democrata-cristão Freitas do Amaral, condenou a revista, remetendo-a para uma "licenciosidade" e convocando "limites" para a expressão pública. 

Esta secundarização da liberdade de expressão na sociedade portuguesa, consumada na repulsa pela blasfémia, esta permissividade face aos desejos censórios (e, insisto, autocensórios), é evidente. E é-o também na actual hierarquia das problemáticas levantadas, nos debates que emergem. E exemplifico tal situação recorrendo ao cerne do sistema jurídico português, o Tribunal Constitucional: o ano passado houve uma polémica sobre o novo presidente desse Tribunal, João Caupers, que muitos clamaram ser desadequado para as funções. O sobressalto, público e partidário, fora causado pela recuperação de um texto seu em jornal universitário, com mais de uma década, avesso ao casamento homossexual. Este ano foi também polémica a indicação de um novo membro desse Tribunal, Almeida Costa, num outro sobressalto colectivo, agora originado pelas suas posições antiaborto, expressas há mais de três décadas.

Ou seja, há - e ainda bem que o há - na sociedade e no espectro partidário uma vontade de escrutinar as opiniões tidas, mesmo que já muito recuadas, daqueles que concorrem ou ascendem a esse importante órgão de soberania. Mas recordo que há dois anos houve outro candidato a esse Tribunal, Vitalino Canas, um antigo governante socialista. Este, em 2006 aquando da discussão parlamentar de um voto sobre os acontecimentos internacionais provocados pela publicação das caricaturas dinamarquesas, considerou: "estão bem uns para os outros, os caricaturistas irresponsáveis e os fundamentalistas violentos". E uma proclamação destas, feita na Assembleia da República na condição de deputado eleito - e não em mero textos de opinião como nos exemplos congéneres que acima refiro - passou completamente ao lado de qualquer escrutínio às suas opiniões enquanto candidato ao Tribunal Constitucional.

E este é um exemplo sumamente demonstrativo das hierarquias políticas vigentes no país. No qual um esconso ditirambo contra o propalado "lóbi gay" faz levantar hostes, um vetusto e particular dislate sobre o aborto faz tremer de ira. E uma proclamação destas, um tamanho distanciamento à liberdade de expressão, proferida em pleno parlamento, é acolhida e "amnésiada" como irrelevante. E isto diz imenso sobre o ambiente político, e não só  partidário, que o país vive.

Ontem, ao ver a fotografia de Rushdie - que me eximo de aqui reproduzir -, deitado no palco após o ataque sofrido, rodeado por aqueles que acorreram a acudir-lhe, comovi-me e de tudo isto me lembrei. Porque, contrariamente ao antigo deputado socialista, continuo a acreditar que o escritor Salman Rushdie e o criminoso Hadi Matar não "estão bem um para o outro".

E continuo a concordar, porque democrata, com o anterior vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg, que após o ataque à "Charlie Hebdo", veemente, lucida e enfaticamente clamou que "we have no right not to be offended" (e bem que se justifica ouvir estes dois minutos, aos quais aqui deixo ligação...). E isso é a democracia - a qual vale bem mais do que um qualquer incómodo sofrido. E são estes defensores da censura os seus inimigos internos.

13
Ago22

Inter-rail

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(Fotografia Alix Lee, c. 1982)

De repente lembro-me, sei lá como: em 13 de Agosto de 1982 parti no meu primeiro inter-rail, primeira viagem adulta. A enfrentar o Ring de Viena, naquele seu um pesado encanto, e até opressiva a higiene da cidade. O Pártenon estava lá, carregado de andaimes e enfrentava moles de japoneses, frenéticos a fotografarem. O Muro de Nicósia, então recente, parecia uns tapumes mal amanhados.  Os soldados jugoslavos, cruzados em comboio, eram um desatino radical - e se não vieram a fazer uma guerra com a Albânia, como então presumimos, outras fizeram... Esparta fora um nada verdadeiramente surpreendente, um espanto desiludido - aquele tipo de surpresas desinformadas que a internet acabou. Mas Micenas um encanto. Magníficos foram os velhos camponeses do Peloponeso. O cruzamento dos jovens europeus em férias eufóricas havia sido... enfático, molde de um viver comum entre gente comum, que só quem não viveu - ou não soube viver - pode contestar. Um mês depois, e dez quilos a menos, fedia em Santa Apolónia... Só se tem 18 anos uma vez, por mais que os arrastemos por alguns anos.

12
Ago22

Gastronomia moçambicana em Lisboa

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A era do Covidoceno muito devastou. Tanto que desde o seu advento eu não ia ao santuário lisboeta da culinária moçambicana, esse Restaurante Moçambicano Roda Viva (sito no Beco do Mexias, ali ao Largo de Chafariz de Dentro, em Alfama). Agora na companhia de dois bons amigos, de visita a Lisboa - e ambos com larga experiência do interior do país, "mato" como se insiste em dizer, o mais novo tarimbado em Zavala, o seu mais-velho graduado em Sofala, Manica e Tete - lá fomos ver como param as modas naquela Ka-Chamba, a "casa" do Octávio Chamba...

Confesso que ia com algum temor, sabedor que - quantas vezes - os pequenos restaurantes têm tendência a ir fenecendo. E, mais do que tudo, conhecendo os efeitos tectónicos que nas casas de pasto têm as vagas de turistas que têm ocupado a Lisboa central.

Pois o resultado não poderia ser mais reconfortante. Os preços aumentaram ligeiramente - como tal poderia não ter acontecido? -, mas mantendo-se no acessível às bolsas remediadas. E a refeição foi recebida com júbilo por estes três veteranos: o mais novo, que ali se estreava, ainda pediu xiguinha (de feijão nhemba) ou cacana, nisso comprovando a sua sapiência na matéria - mas esses pratos não são acessíveis no quotidiano, dada a inexistência dos condimentos no mercado nacional.

Por isso as nossas opções foram outras. Os três comemos mais do que o suficiente para nos saciarmos, em qualidade e quantidade: foi-nos tal conseguido apenas com duas doses de um bela matapa de camarão, apresentada como deve ser, tanto em consistência como em sabores (com aquele leve traço amargo que muitos por cá tentam esconder), e um caril do mesmo, verdadeiramente "de trás da orelha". Tudo bem misturado com xima, a qual surge - tal como sempre ali - exactamente "no ponto". Entretanto o serviço fora gentilíssimo, como é tradição na casa
. Pausado, "vakani-vakani" (o até lânguido e sempre filosófico "pouco-pouco") disse o mais-novo, em arroubo macuófono (afinal?), como é tão melhor para estes sítios e momentos.

No final do repasto estávamos... felizes. E se assim foi, se felizes ficámos, para quê procurar outros, e mais rebuscados, adjectivos? Para celebrar tamanho agrado bebemos duas "aguardentes da CPLP " (um belo grogue cabo-verdiano), recordando e augurando (talvez utópicos) as nossas andanças.

Saí reconfortado com a vida, como sempre ali me acontece, mas agora ainda mais dado o tempo que passara desde a última visita. Carregando um frasco do picante da casa, o verdadeiro "Ka-Chamba" - já alvo, soube-o agora, de encómios em página inteira do "Público", atenção do MEC, esse único verdadeiro influencer nacional. 

12
Ago22

O Ouro Olímpico

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(1984-08-12 Olympic Marathon (men's) raw satellite feed - part 3 of 4 Carlos Lopes - Portugal)

Faz hoje 38 anos que o grande Carlos Lopes - nos seus 37 anos ! - ganhou a maratona olímpica, o primeiro ouro português nos Jogos. Julgo que nem se consegue transmitir aos mais novos a euforia que então se sentiu. Revendo a corrida ainda me arrepio - neste filme aos 26', quando ao passar a placa dos 37 kms, ele se refresca e arranca, apartando-se dos concorrentes num passo de enorme pujança que manteria até ao final, ou aos 39'50'' quando entra, já bem destacado, na pista do estádio, recebido em ovação. "Vai Lopes, vai Lopes, vai campeão!!", gritei, gritámos. Que grande comoção foi, que grande festa se seguiu!!!

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O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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