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Nenhures

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Um tipo aprende que a vida se escoa. Ainda assim às vezes surpreende-se, pelo ápice que isto é. Como agora, ao ler que hoje passam 5 anos (já!) que morreu o Zé Pedro, o verdadeiro Homem do Leme!

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Lá no Catar anda endiabrado o nosso Bruno Fernandes, até agora sempre tão contestado pelo seu rendimento na "equipa de todos nós". Se no jogo anterior oferecera dois golos agora ainda mais se aprimorou e não só bisou como esteve prestes a alcançar o tricórnio, o famoso hat-trick, que teria conseguido não fora o esforço final do guarda-redes adversário e ainda a férrea oposição do poste alheio.

Mas um verdadeiro hat-trick, glorioso, conseguiu-o este atleta popular, irrompendo campo afora, com codícia surpreendendo a defesa de betão da equipa FIFA, numa magnífica investida box-to-box, tão escorreita que escapou ao escrutínio televisivo do VAR. Jogada enleante e letal e num ápice 1-0, pela Ucrânia, 2-0 pelo povo iraniano, 3-0 por isto de vivermos e amarmos como queremos sem sermos perseguidos por isso.

Sem qualquer dúvida foi o melhor jogador em campo...

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Estou este indivíduo, auto-fotografado este mês em paragens além-Trancão. Hoje mesmo, em iniciativa para mim inédita, fui a uma actividade cultural nesta capital distrital aquém-Tejo. Fui surpreendido pela profusão de participantes, largas dezenas, todas as cadeiras ocupadas. Nisso esgueirei-me até meados da sala, encostando-me à parede para ouvir os palestrantes participantes, no início ali falando o meu antigo professor Pacheco Pereira. Alguém que sempre escuto com interesse, mesmo que sob ocasional discordância, o que fui fazendo, bem perfilado para não perturbar a visão dos que me sucediam na até longa fileira dos emparedados.
 
As alocuções foram sábias, até problematizadoras, com as delongas próprias ao contentamento geral. Diante de mim, sentada, estava uma senhora agradada com o tom do acontecimento, seus motivos e elaborações. Largamente septuagenária, quiçá até um pouco mais, mas de atenção viva, caderno de notas e - notei - de sossegado sorriso ainda agaiatado. Iam os palestrantes já algo alargados quando ela, de súbito, se virou para mim, fácies carinhosa, e sussurra-me, dadivosa e decerto que compungida com a minha aparência "quer-se sentar um bocadinho?"...
 
Seguiu-se um simpático beberete. Bebi todo o tinto, todo o branco e todo o moscatel que consegui. E ainda comi umas chamuças. Mas não foi o suficiente....

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O desporto serve de propaganda dos países - e daí todas as manipulações estatais desse património, desde a simples associação dos políticos aos ídolos aos apoios cirúrgicos a actividades que possam fazer resplandecer os Estados e seus próceres. Até, de forma ainda mais perversa, às indústrias de aplicação de drogas - o sempre dito "doping" - centrifugadas pelos Estados, principalmente, mas não só, os ditatoriais. Mas ao mesmo tempo - numa confluência avessa a leituras lineares, encomiásticas ou denunciatórias -, o desporto é o espelho das sociedades, assim não só matéria através da qual se descortinam características fundamentais mas também dinâmicas transformativas emergentes ou existentes.

Em Portugal tal complexidade foi patente durante as guerras coloniais, com as espantosas epopeias do Benfica europeu - e, em menor escala, do Sporting - e, ainda mais, dos "Magriços", essas amálgamas de filhos de operários e agricultores miserabilizados pejadas, estreladas e até capitaneadas por mulatos "filhos do Império" (estes assim elevados a "brancos", como lembrou o Monstro Sagrado Mário Coluna na sua biografia), equipas que se poderiam dizer epítomes do então propagandeado "luso-tropicalismo", quase como se o seu seleccionador fosse, afinal, o brasileiro Gilberto Freyre.*

Depois, e já na minha atenta meninice, foi o advento de Joaquim Agostinho, ídolo do povo, na sua força heróica até algo simplória impondo-se lá nas "franças", para onde haviam partido tantos dos seus, labutando nos sopés das sociedades ricas, assim representando-os e até alijando-os daquilo a que os seus netos haveriam de chamar "discriminação" - e que espantosa comoção popular aquando da sua tão injusta morte! Por cá, sociedade atrapalhada, pobre e anacrónica, sob Estado pária, o desporto-rei firmou-se no "ferrolho" quando lá fora, o orgulho do empatezito a zero em mero particular em Wembley, o culto do singelo "brilharete" - como sempre titulava o então bíblia "A Bola" - que iluminasse o negrume em que isto ia. Quanto à "glória nacional" ela vinha dos triunfos no hóquei em patins, esse esconso desporto próprio de um país, o nosso, de uma província espanhola, de uma cidade italiana e de uma avenida argentina, como alguém tão bem então o definiu...

Depois foi-se sedimentando o desporto democrático, na profissionalização e num ambiente menos paternalista e de organização cada vez mais autónoma. Ainda rústico e pobre, por isso nada atreito a práticas colectivas ou à complexidade das disparatadamente chamadas "disciplinas técnicas" -. como se algumas não o fossem - (e  por isso o agrado de ver os actuais sucessos numa variedade de desportos), afirmaram-se os corredores de fundo, heróis solitários quais novos Agostinhos, feitos do inato e do esforço incessante. O Grande Carlos Lopes e também Fernando Mamede, este na absoluta grandeza da ambivalência feita dos seus dramáticos insucessos, ou Rosa Mota, que revolucionou o lugar das mulheres neste mundo luso, até porque prosseguida por outras campeãs. Todos estes mostrando que o sucesso "lá fora" era possível, apesar do nosso tudo...

As coisas mudaram no final de 1980s, com os excêntricos e inesperados triunfos mundiais das equipas de Carlos Queiroz, do "professor Carlos Queiroz" como então sempre era tratado. Pois este trouxe para a primeira página os triunfos colectivos - e logo no "desporto-rei" -, nisso também o primado da táctica, da organização, da formação, da "ciência". De algum modo Queiroz foi o verdadeiro arauto da modernidade no país - e não outros mais-velhos "professores" de humanidades entretanto celebrados no novo regime, provenientes de exílios ou mansos reviralhos -, na popularíssima demonstração de que se poderiam abandonar os velhos espartilhos institucionais e os meneios do "desenrascanço", a praxis avulsa. Na bola e não só.

E foi também insurgente, na exigência da radical democraticidade, na sua célebre saída "é preciso limpar muita merda" da bafienta Federação, ainda pejada - 20 anos depois de 1974 - dos tiques e toques fascizantes que haviam sido preservados pelo anterior e anacrónico seminarista presidente Silva Resende.  Ou seja, Queiroz trouxe cientificidade - como é reconhecido na explosão posterior de uma "ínclita geração" de especialistas futebolísticos, nele originada -, mas também a reclamação de pertinência institucional (uma burocracia weberiana, por assim dizer). Deste modo, e até pelo enorme peso do futebol nos afectos nacionais, mudou o país. Não só acrescentando-lhe o horizonte da vitória colectiva mas, acima de tudo, anunciando como era necessário trabalhar.

Ter-se-ia tornado o símbolo, decerto que condecorável e senatorial, deste país agora europeu não fosse a sua personalidade agreste, desbocada, convicto de si e das suas certezas o suficiente para não andar de retorcido chapéu na mão. No peculiar mundo do futebol as paixões dos adeptos não lhe perdoaram os insucessos que fazem parte do ofício - nós, sportinguistas, ainda remoemos os 3-6 face ao Benfica (e eu, em particular, o facto dele ter tirado o Paulo Torres ao intervalo, abrindo o corredor para o João Pinto e o Isaías, jogo que vi, nunca esqueço para minha maior ira, na célebre "Tasca do Isaías" em Estremoz...). Outros contestam a eliminação nos oitavos-de-final do Mundial-2010 (passo em que Fernando Santos é especialista, para placidez adepta e anuência federativa), acontecida diante da melhor selecção de XXI (ali campeã mundial e antes e depois campeã europeia), numa derrota por 1-0 com golo em centimétrico fora-de-jogo na única hipótese ali acontecida. Outros clamam, eufóricos, o seu falhanço num desequilibrado e sempre problemático Real Madrid. E assim, desprotegido pela opinião pública (malgré tout) e desagradável às instâncias burocráticas, Queiroz saiu pela porta dos fundos - com o patético pretexto dos "vigilantes" do doping aparecerem na madrugada para controlarem os jogadores da sua selecção e ele lhes ter votado umas caralhadas bem justificadas, exigindo-lhes que esperassem apenas uma hora, pelo normal despertar dos seus atletas de alta competição ali em estágio...

Nesse consabido percurso de "santo da casa que não faz milagres" (apesar de os ter feito) Queiroz fez-se ao mundo, face ao displicente silêncio dos compatriotas. Pouco ecoou no país o gigantesco elogio, apaixonado mesmo, que o mítico Alex Ferguson lhe fez na sua autobiografia, tão parca em referência a outros treinadores - Wenger e Mourinho, como seus rivais, Queiroz como seu colaborador (deixei aqui uma recensão a esse livro, tamanho o interesse tido na visão de Ferguson centrada nas acções individuais). E está agora, globe-trotter quase septuagenário, de facto no seu 5º mundial - apurou a África do Sul tendo sido afastado da fase final por razões óbvias: ele atribui-as, elegante, a opções pelo pleno emprego (disse qualquer coisa como "eu estou sozinho, o meu substituto tem uma equipa de 18 colaboradores...) mas muitos percebemos as dinâmicas xenófobas e mesmo racistas que conduziam a federação sul-africana...

Enfim, tudo isto me vem a propósito do seu estatuto actual. Tripla participação num Mundial como seleccionador do Irão, ainda por cima em contexto político tão complicado naquele país, que envolve os seus jogadores. Na necessidade de blindar o seu grupo Queiroz, o "professor Queiroz", vem assumindo um papel que nos surge como o de antipático "advogado do diabo". Fá-lo no seu modo algo desabrido, afrontando os jornalistas internacionais, como biombo dos seus "rapazes" às  problemáticas políticas. E agora mesmo responde de forma exemplar ao antigo jogador e seleccionador Jurgen Klinsmann, pondo-o no lugar. E não é preciso simpatizar com a teocracia ditatorial de Teerão para fazer vénia ao "professor" - principalmente se percebendo que o desporto é política, não só mas também. No Irão e nos outros países.

Por isso, pelo restante anterior, e apesar de nunca lhe perdoar a afronta de ter ido falar a João Moutinho no Irão-Portugal de 2018 - um treinador a perturbar um suplente adversário quando este vai entrar em campo foi uma coisa inaudita, que deveria ter sido punida -, apesar disso, gostei de o ver aclamado em campo pelos seus "rapazes" - e de um modo que todo o mundo viu. E nisso aqui deixo um Viva o Professor Carlos Queiroz! Agreste, desbocado, talvez até arrogante. Mas marcante, imensamente marcante.

*Como adenda, em particular para aqueles que ainda proclamam a necessidade de apartar a "política" do desporto: a história do boicote africano ao Mundial 1966 e os efeitos na FIFA da actuação portuguesa. Sobre o impacto da campanha dos "Magriços" na imagem internacional de Portugal ver este trabalho de Luís Lourenço, em particular após a página 80.

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D'além-Tejo chegam-me ecos do frenesim comercial acontecido ontem, a tão propagandeada sexta-feira de saldos, uma recente iniciativa a que a rotina lusófona atribui um inescrutável nome em língua estrangeira. Constato que os consumidores acorreram em massa às hipotéticas pechinchas, um saudável sintoma de que a crise já lá vai indo, porventura potenciado pelo verdadeiro placebo que foi a entusiasmante vitória da equipa de todos nós, acontecida na véspera. Mas o fenómeno decerto que implicou o reverso da medalha, a redução da atenção à rica oferta televisiva do dia: o anfitrião Catar enfrentando os poderosos "leões" do Senegal, campeões de África; os étnicos galeses face aos martirizados iranianos do rabugento Prof. Queiroz; os sempre-malvados paísesbaixenses contra os cardeais equatorianos; e, finalmente, o tão póscolonial Inglaterra-EUA.

Mas quero crer que esta redução das audiências ao mundial-22, qual implícito "boicote", não se prendeu apenas com o furor consumista e muito dependerá da crescente consciência cívica, na defesa dos "direitos humanos", principalmente os laborais, tão violentados estes foram na preparação catariana desta competição. Algo que vem grassando na opinião pública, e agora decerto que por influência da recente e enérgica intervenção do ministro da Cultura Adão e Silva, apartando-se veementemente de outros dignitários nacionais que acorrem ao Catar, abrilhantando-se com a selecção, clamando a sua ausência nesse cortejo e reclamando ser o seu lugar no estádio da Luz, algo que o "povo benfiquista" - ainda que feliz com a prestação do seu ídolo João Félix - recebeu com júbilo, ainda que este não seja tão compartilhado pela "nação portista" e pelo "universo Sporting". 

Mas esta consciencialização não advém apenas de algum poder político, provém mesmo de uma corrente presente na sociedade civil. Como já o o demonstrara a sageza académica da direcção da faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (presumo que seja esse o verdadeiro nome daquela que leva o "petit nom" algo arrivista de Nova School of Business and Economics [SBE]), ao suspender a instalação de um ecrã gigante para que nela se assistisse aos jogos por razões de oposição política ao regime catariano - ainda que eu presuma que alguns dos jovens alunos, dos não tão jovens funcionários e, quiçá, até mesmo alguns lentes irredentistas, se estejam a acotovelar diante das pequenas televisões disponíveis e, mesmo mais, face aos computadores sintonizados nas emissões piratas. Mas isso, o real, lamentavelmente independe das autoridades académicas...

Dito isto, na minha "neutralidade axiológica", espero que os jogos de hoje encontrem os sofás e as mesas de cafés bem compostas, na cuidadosa observação dos nossos potenciais adversários, trabalho colectivo necessário aos desígnios pátrios. Entretanto, no intervalo do Arábia Saudita-Polónia - após sistematizar as minhas necessárias notas, com particular enfoque nas sempre letais movimentações do ariete Lewandowski - espreitei no telefone a minha conta de Facebook. E nela encontro um breve postal de Filinto Pereira de Melo (que julgo ser um antigo bloguista - mas confesso que tantos anos foram passados desde a era blogal que já não tenho a certeza). No qual o seu autor transpira... clarividência: "Indignados finalmente com o trabalho escravo no Catar, os portugueses decidem boicotar os jogos do Mundial nesta Black Friday e optam por ir às compras na Shein, Zara, Primark e Apple. Top!"...

Sorrio. E nisso lembro-me de uma actuação do tão célebre Ricky Gervais, constantemente replicada nas "redes sociais" - é certo que a Gervais prefiro o velho Don Rickles, versão original deste tão dúbio tom cómico, ele verdadeiramente desbragado. Mas Gervais serve para os tempos actuais. E para esta questão - e até porque é fim-de-semana - aqui deixo (para ser visto durante os intervalos entre os jogos) o filme dessa sua actuação numa dessas galas de premiação cinematográfica, em 2020. Aos que se possam interessar peço que avancem até aos 7 minutos e 10 segundos e acompanhem até aos 8 minutos: é uma boa resposta a estas "tomadas de posição". Está em inglês não legendado. Mas isso não é, decerto, problema para os compatriotas da instituição estatal Nova School of Business and Economics...

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