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Nenhures

Nenhures

31
Jul23

O Preço do Azeite

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Na passada semana, durante um aprazível almoço, um bom amigo, homem avisado das coisas do mundo avisou "é melhor comprarem azeite, que ainda vai aumentar mais, e muito", coisas da parca colheita. Atendendo ao estertor em que as minhas garrafas estavam - e ao Agosto mais culinário que me espera - fui agora à "grande superfície", sempre Lidl, abastecer-me do frugal rancho que me cabe mas também para me reforçar do dito azeite. Daquele básico, baratucho, claro. Já não devia comprar há uns tempos, talvez desde Março ou assim, dadas as andanças que tenho tido. Fiquei estupefacto. Boquiaberto. Melhor dizendo, transido! Se não dobrou de preço para lá caminha....
 
Regressei de mãos a abanar. Na expectativa de ir aos rivais, em busca de uma qualquer "promoção" azeiteira, para poupar uns euros para o tabaco. Ou então, logo pensei, passarei a fazer os estrugidos com Queen Margot, que esse ao menos quase não encarece.
 
(Adenda: estou grato à plataforma SAPO pelo destaque dado a este postal).

31
Jul23

Geny Catamo

jpt

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Há dois anos que clamo "Hoyo-Hoyo, Geny Catamo", torcendo para o jogador se firme no plantel principal do meu Sporting. Nas últimas décadas têm escasseado os jogadores moçambicanos no nosso clube - nos já longínquos 80s vieram Calton, um grande jogador mas então no ocaso da carreira, e Aly Hassan, um médio elegante que não teve grande sucesso. Pouco depois foi Chiquinho Conde, apenas uma fugaz época de notoriedade. E há 20 anos veio Paíto, um bom lateral-esquerdo mas que não conquistou a titularidade.
 
Agora há Catamo, um jovem no Sporting desde 2019 e que tem vindo a ser emprestado, "para rodar" como se diz na gíria. O menino cresceu e já tem 21 anos. Antes da pré-temporada foi logo anunciado como excedentário. Mas nestes jogos de preparação tem entrado e marcado. E ontem, na apresentação já em Alvalade contra o Villareal (3-0), entrou a meia-hora do fim. Jogou e encantou, atrevido, sem medo a querer mostrar que o lugar dele é ali, dono de drible mágico, lesto a escapar-se aos adversários, rijo a opor-se-lhes, levantando ovação nas bancadas. E dando golo a marcar. 
 
Geny Catamo não engana, é daqueles jogadores "alegria do povo". Espero que não o remetam para mais uma época "emprestado", num qualquer clube secundário que não lhe dê espaço para arriscar, brilhar, crescer, como antes aconteceu. Em nome de uma qualquer solidez "táctica". E que assim fique no plantel. Para que nós agora no estádio possamos gritar "Ó Rúben, mete a opção!"...*E o resto, a titularidade, ver-se-á depois...
 
(* Alusão a uma velha expressão dos benfiquistas: nos 1970s - em jogos com mais dificuldade para abrir os "ferrolhos" defensivos adversários - gritavam ao então treinador, o luso-moçambicano Mário Wilson (dito "Buda"), "Ó Buda, mete a opção!", isto para que ele fizesse jogar Jorge Gomes, o ponta-de-lança brasileiro que foi o primeiro estrangeiro a jogar por aquele clube.)

 

30
Jul23

Leituras para Agosto

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Há alguns meses entrei num grupo-FB, o Mostra o que estás a ler..., alguém me terá convidado para isso. Fui ver. Uma cena bem porreira, despretensiosa. A ideia é simples: botar o que se está a ler, sem mais ademanes... Quando entrei o grupo tinha 20 e picos mil inscritos! Agora tem... 40 e tal mil!! (Duplo ponto de exclamação, para ira dos blasés, que há alguns anos clamavam contra esta pontuação, julgo que por causa do MEC ter botado sobre isso - não leram o Céline e querem ser "intelectuais" controleiros, é uma chatice...).

Enfim, o que é interessante naquele grupo é o que se pode apreender sobre os actuais hábitos de leitura. Até porque é uma boa amostra (os tais 40 e tal mil inscritos), e há um frenesim de publicações. A maioria lê narrativa ficcional - e muitos escritores portugueses actuais -, com gostos heterogéneos (do "romance histórico lite" a Proust, para falar do que vi hoje). Escasseia (até inexiste) a poesia, há pouquíssimas notas sobre ensaios e nunca vi referências a literatura científica. E - como sempre - ninguém refere revistas.

O grupo tem também uma outra dimensão, deliciosa, até cómica. É que no meio da enorme mole a mostrar, "na boa", o que vai lendo, o que comprou, o que amontoou, há sempre uns patuscos que sobem ao estrado e fazem prelecções sobre o "dever ser", o que se "deve ler", o que é a "boa literatura", criticando os hábitos alheios, "populares". São os "doutores" - a capacidade das pessoas serem ridículas é quase infinita. E é bom ver isso, para que um tipo não se esqueça que também a tem, a essa ridiculite, e se tente controlar...

Enfim, vem isto a propósito de eu partilhar aqui o postal que lá deixei, sobre as minhas leituras actuais:


***

Em Agosto terei (maiores) responsabilidades paternais. Por isso fui às estantes e trouxe para esta casa um punhado de receituários que me apoiem, dada a minha inaptidão ao fogão. Eu cozinho ladeado por tutoriais - sou aficionado do “Sabor Intenso” de Neuza Costa, minha líder nestas lides, e tenho o Necas de Valadares como alter ego. Visito respeitosamente os programas de Sá Pessoa e de Clara de Sousa. Mas o que alimenta as minhas frágeis tentativas culinárias é a panóplia de livros de cozinha - e aos grandes tratados prefiro estes pequenos ”de bolso”, pejados de receitas simples (e baratas). Os quais polvilho de post-its, marcando as receitas ”para mais tarde recordar”. Para este veraneio abasteci-me de uns 15, centrado em sopas, saladas e um ou outro arroz com o peixe a que possa aceder, que o fresco está pela hora da morte...

Para me dar um ar mais “culto”, de “Leitor”, acompanhei-os do delicioso ”A Viagem Dos Sabores” de Rui Rocha, uma excursão pelas mesclas gastronómicas promovidas pelas navegações portuguesas. Não cozinharei por ele mas folheá-lo-ei com deleite…

Aos membros deste grupo desejo um bom Agosto, boas férias se for o caso. Boas leituras. E, acima de tudo, bom apetite.

(Estendo aqui os votos aos visitantes deste blog)

29
Jul23

História, Escravismo e Racismo

jpt

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Fiz a 4ª classe em 1974. Como tantos dos miúdos de então aprendera já a História de Portugal nesta magnífica colecção de cromos, um original de 1953 que teve múltiplas reedições até meados dos 1970s (sobre ela ver este texto). A qual bem me marcou - e no final da licenciatura ainda fiz um trabalho sobre "o Zarolho e o Maneta" indo-europeu de Dumézil na história nacional, apenas devido às memórias dos cromos.
 
Tão impressiva ficou essa memória que ainda há dias dissertei no café sobre personagens cruciais na nossa história pátria - Deuladeu Martins (também ela figura dumeziliana, se se quiser...), Geraldo Sem-Pavor, Martim Moniz, etc. -, das quais tenho como exclusiva imagem e único saber o que aprendi naquela mítica colecção.
 
Nesse mesmo dia continuei, e explanei na esplanada a súmula do meu sempre adiado ensaio imorredoiro sobre o actual regime politico português: oscilamos entre a concepção que privilegia a indução da iniciativa empresarial privada (e muito ligada à silvicultura, note-se) e a preferência por um Estado redistributivo de índole caritativa (solidário, diz-se hoje). Ou seja, mantém-se a oposição entre D. Dinis (o tal silvícola PSD) e a Rainha Santa Isabel (o PS)- cujo debate político (conhecido como "Milagre das Rosas) apenas conheço através do cromo desta colecção.
 
Dito isto, em 1974/5 entrei no então Ciclo Preparatório e tive uma excelente professora de História, Margarida Cabral. Depois, já no Ensino Secundário, os meus pais remeteram-me para a escola oficial, os "Viveiros" de então - "não quis que fosses um menino de colégio" veio-me a dizer o meu pai uns anos depois, justificando ideologicamente a aberrante decisão.... Ainda assim ainda tive dois excelentes professores de História, no 10º ano (Abílio Esteves) e 11º ano (injustamente esqueci-lhe o nome). Em todos esses anos nunca me ensinaram a História de Portugal sob o molde de uma narrativa glorificadora da Gesta Pátria, mitificando a grandeza dos Feitos Imorredoiros. Nunca! Não esqueci os cromos mas fiquei com uma outra visão do rumo nacional. Jovenzinho subi à universidade. Tive uma disciplina de História Contemporânea - com Miriam Halpern Pereira, assistida por António Costa Pinto. Líamos a própria Halpern Pereira, Valentim Alexandre, José Capela, em 1984, há 40 anos! Mitos, Grandiloquência Patriótica? Nem um laivo!
 
Uma década depois fui trabalhar para a (excelente) Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Nesta, grosso modo, houve duas épocas, com alguma diferença que não abissal. Sob o primeiro Comissário Vasco Graça Moura predominou uma abordagem historiográfica menos "analítica" (opto pelo termo mais "liso") e mais manuseável para a sua apresentação pública. Depois, sob o segundo Comissário, António Manuel Hespanha, e sem desprimor pela espectacularização comemorativa, privilegiou-se uma historiografia "analítica", mais problematizadora dos processos históricos - um rumo que foi continuado pelo terceiro Comissário Joaquim Romero de Magalhães. É justo dizer que nessa década e meia não se enfatizou a vertente do escravismo, mas ela não foi apagada. E que bastantes investigações foram apoiadas e/ou publicadas, com vasta disseminação. Mas mais ainda: nesta semana andei a limpar velhos dossiers e redescobri uma luminosa conferência do Hespanha, "As narrativas da interculturalidade", de Março de 1997. Não posso precisar se foi proferida em Lisboa ou em Maputo, mas nessas breves 8 páginas ele problematizava as questões fundamentais da história da expansão portuguesa, das formas de a analisarmos actualmente e a necessidade de sobre elas reflectirmos em termos de política, interna e externa. E o homem era o Comissário-Geral das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses...
 
Depois fui 18 anos para Moçambique e não andei propriamente a ler a história pós-medieval portuguesa. Entretanto a minha filha fez o "liceu" no estrangeiro e assim não conheci os actuais livros escolares portugueses. Mas não acredito que - apesar da consabida influência da intelectualidade do PS - o ensino da História tenha regredido até aos modos patrioteiros colonialistas dos tempos do Ultimatum e da I República. Ou do Estado Novo...
 
Todas estas memórias (aborrecidas, os velhos inutilizados têm a mania de chatear os outros com os seus passados, coisas de "has been...") vêm-me a propósito das constantes publicações na imprensa sobre a necessidade de "trazer a lume" a "Escravatura" portuguesa, de "descolonizar a história de Portugal", de nisso afrontar o "racismo sistémico, estrutural" que polui os portugueses, qual necrose das suas almas. Todos eles clamam que a história portuguesa se reduz a um rosário de malevolências e que nada disso tem sido dito, na academia, no ensino, na sociedade. São falsários. Alguns são militantes políticos ("activistas", diz-se agora) demagógicos. Outros são académicos falsários, o que é muito mais grave. Alguns outros são apenas jornalistas, e como tal não precisam de adjectivos desqualificativos.
 
O outro dia vi uma reportagem da SIC, anunciada com a habitual pompa e "gravitas" por Rodrigo Guedes de Carvalho, chamada "Pretérito Imperfeito". Uma patetice pegada... Entre a colecção de dislates - e disso eximo o actual ministro da Cultura, ali respondendo com bom senso às patacoadas da repórter - saliento uma investigadora de Coimbra. Analisando os "manuais escolares" denunciava, com veemência, o facto de ser ensinado que os portugueses comerciavam "especiarias, marfim e escravos". E que não se diz, reclamava, "pessoas escravizadas". Ou seja, para esta intelectual "abissal" se eu conseguisse arranjar um lugar de professor de História (o ensino do secundário está vedado aos antropólogos, talvez por a corporação andar há décadas entretida nestas maluquices ideológicas e descurar o rumo profissional dos licenciados), eu deveria ensinar aos petizes que o comércio na era das navegações se centrava em "pessoas escravizadas", "marfim animal" e "especiarias vegetais". Caso contrário as pobres crianças (uns "monstros", como disse um psicanalista célebre) não compreenderão...
 
E entretanto todas as semanas é publicada mais uma atoarda destas - no "Público", no "Expresso", nas televisões. Nisso pulula um conjunto de "activistas", entre performers, artistas, jornalistas, académicos, e entre estes vários antropólogos - desses que vão pisar os brasões municipais na Praça do Império mas que nem percebem que a avenida que sobe até ao "Humberto Delgado" (nome que apreciam) se chama Avenida (da Conferência) de Berlim, ignorância irreflectida e apenas festiva que bem justifica que lhe troquem os nomes na tv... -, um conjunto aparentemente avantajado de gente que vai botando textos desabridos e falsários. Pejados de jargão, anunciam um malvado ensino da História e uma concepção de Portugal que não é real.
 
E há meia dúzia de tipos que lhes vão respondendo, com o saber e o talento de cada um. Mas que nisso apenas incrementam o eco destes dislates. Agora vejo que saiu uma pomposa "declaração do Porto", vinda desses "activistas" - deve ter saído de uma actividade artístico-política que ocorreu quando estive nessa cidade há semanas. É um documentozito esquerdalho, uma "sobrevivência" dos tempos m-l, quais ressureições das FEC (m-l), PSR, PCP (R) e quejandas organizações revolucionárias. Dizendo-se contra o colonialismo e o racismo, ditos vigentes, o sumo das reclamações é uma discursata mal amanhada contra o capitalismo.
 
E tal como o país nada ligou a esses grupelhos nos 70s e 80s, bem que se podia fazer o mesmo a estes seus demagógicos descendentes. Haverá entre eles uma ou outra alma bem intencionada, pulularão intelectuais humanamente em busca de militâncias que propiciem tardias erecções. Mas de facto é uma tralha. "Aldrabística"...

28
Jul23

Ghorwane em Sines

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Telefona-me um velho amigo, também ele torna-viagem, a desafiar "embora a Sines ver os Ghorwane?!!". "Arranja lá um carro, vá", eu resmungo, os custos - decerto que desabridos -, a falta de energia, tenho lá eu estaleca para ir a um festival, que canseira, aquilo carregado de gente, barulhenta e - pior do que tudo - jovem ("então não foste à Colômbia, Andes acima Andes abaixo?!", poderia ele ter ripostado mas não o fez), "não tenho carro" resolvo eu com a verdade, e acrescento, só por segurança, "e onde dormiríamos?" e o sacana, feito puto, "dorme-se na praia" e avança "eu levo a garrafa de tequilla" - e até já me estou a ver exausto na areia da alvorada, depois de dois ou três Red Bull a beber tequilla pelo gargalo. Rust Never Sleeps, defendo-me ainda, entrincheirado geronte e o tipo faz o ataque final: "não tens uma amiga que nos leve?", provocador no seu remanso conjugal, como se estivesse eu (e ele) nos anos 80s, e alguém ainda me aturasse o suficiente para uma estafa destas...
 
Praguejo, raisparta, o tipo a lembrar-me, mostrar-me, o velho que estou, acomodado. Passa um dia. E estou aqui a matutar. Então vou, vamos, perder os "Bons Rapazes"? Os Ghorwane aqui tão perto, a Sul do Sado...? Camioneta e dormimos na praia, N.? Trazes a tequilla?
 

28
Jul23

Marc Augé

jpt

 
[Marc Augé] L'anthropologie aujourd'hui
 
Por vezes resmungo com a imprensa "de referência" portuguesa, cheia de aparências "cultas", e nisso de obituários do showbizz ou de cortesãos, "aparatchicos" tantos deles. Alguns dirão "lá está o reaccionário". Seja!
 
Pois é no Facebook - essa malvada "rede social", tão invectivada por ser território de falsidades e futilidades - que vejo a notícia da morte do grande Marc Augé! Há já quatro dias! Googlo e notícias lusas inexistem - e o que o Google não mostra é porque não existe. Incrível, não só pela notoriedade de Augé como pelo facto dele ter sido dos poucos antropólogos publicados em Portugal - já naquela velha colecção de "livros pretos" das Edições 70 (não os tenho aqui mas pelos menos foram editados o "Domínios do Parentesco" e "A Construção do Mundo" - este último por ele organizado). E depois, mais recentemente, foram sendo publicados vários dos seus livros, isto sob o lema que lhe deram, o de "antropólogo do mundo contemporâneo".
 
Enfim, não me vou por a fazer aqui um "obituário" e muito menos uma eulogia - para o fazer a um homem destes faltar-me-ia o "engenho e a arte". Que algum mais graduado o faça, se alguém o entender. Mas já que os "de referência" nada disseram partilho aqui uma sua palestra, "A Antropologia Hoje" - ele começa a falar aos 13'40''. Lamentavelmente o filme não tem legendas e isto fica para francófonos - atenção, Augé tinha uma bela dicção, quem percebe um pouco de francês poderá acompanhar sem problemas o seu pausado e claro falar.

27
Jul23

Kevin Spacey

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Na Grã-Bretanha Kevin Spacey foi agora ilibado das acusações de crimes sexuais, que quatro candidatos a indemnizações lhe tinham levantado. Em Outubro passado também fora ilibado de acusações nos Estados Unidos.

O processo que lhe foi feito, nas suas múltiplas vertentes, foi horrível - e sim, daqui a uns anos haverá um filme de "Hollywood" mostrando-o como vítima e todos o considerarão como tal. Mas durante estes últimos seis anos fizeram-no passar um verdadeiro Calvário. Não apenas no ponto pessoal - vasculhado, enxovalhado, julgado, ostracizado. Mas também arrombando-o profissionalmente: despedido, apeado, censurado - chegou-se ao ponto de retirar as suas cenas num filme e atribuir o seu papel ao velho Christopher Plummer, o qual teve o desplante de, antes de morrer, aceitar essa função.

Em Dezembro de 2017 aqui deixei o postal "Viva Spacey", enjoado com a perseguição que lhe faziam e notando o perverso cariz político de todo este processo. Recupero algumas palavras, para quem não tenha paciência para ir ler o texto todo: 

"esta horrível coisa que andam a fazer ao Spacey - despedido e até o apagam de filmes, pura censura diante do silêncio da dita "esquerda europeia", sempre tão atenta às censuras e perversões de Hollywood. É de lembrar, isto é um ambiente criado pelo fundamentalismo "genderista" / "identitarista". Em última análise é autofágico (pois cairá em cima dos seus mais acérrimos defensores, vituperando comportamentos ditos "alternativos).  Pois, de facto, a única coisa de que Spacey é acusado é de ser "promíscuo" (palavra que é um programa político, moralista). Foi moral e profissionalmente linchado por razões políticas - por não se ter assumido como homossexual, e como tal ser uma "fraude", disse o primeiro delator [Anthony Rapp]. Ou seja, por não integrar as fileiras do movimento político "gay". Nisso acusado de violências morais e físicas, e até pedofilia (a monstruosidade dos nossos dias). Mas de facto o gajo não é mais do que um atrevido...".

Enfim, deixo votos que o extraordinário actor possa recuperar a paz de espírito, e nisso a sua vida afectiva e sexual. E também o estatuto profissional que tanto merece, com o seu enorme talento.

26
Jul23

Eduardo Pitta

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Morreu ontem Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, crítico literário. E também bloguista. Encetado em 2005 o seu Da Literatura era um dos blogs relevantes na época vibrante da "blogosfera" e Pitta manteve-o activo até recentemente - infelizmente retirou dos arquivos a primeira década do blog. Nele compôs uma mescla de atenção a factos culturais com uma intervenção política. Nascido em 1949 na então Lourenço Marques, Pitta tinha interesse pelos processos moçambicanos. Foi isso que o fez conhecer o meu ma-schamba, que fora o primeiro blog em português escrito no país e que quando ele começou a blogar era ainda um dos poucos ali existentes. Foi afável comigo, num companheirismo bloguístico então comum, e estabeleceu até uma correspondência - lembro que teve a gentileza de me enviar por via postal o seu ensaio "Fractura : a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea". E explicou-me também as razões, mais do que curiais e sem qualquer acinte, que o haviam conduzido a recusar a proposta feita por intelectuais moçambicanos para o inserir no cânone do historial da literatura daquele país - não estou a ser indiscreto, desvendando correspondência privada, pois lembro-me de ter lido declarações suas sobre o assunto. Era essa, apesar do prazer havido com a atenção recebida, uma opção que fundava em termos de identidade pessoal e não de postura político-ideológica.

Depois vieram os anos da crescente degenerescência socratista. No seu blog Pitta foi um dos muitos que manteve não só o proselitismo socialista como a defesa arreigada do então primeiro-ministro. O Da Literatura continuava interessante, elegante e informativo - principalmente para quem estava fora do país. Mas, exasperado com o "estado da nação" e com a cumplicidade de um largo sector da intelectualidade portuguesa com aqueles desmandos antidesenvolvimentistas - a qual raiava o absurdo na "blogosfera" -, deixei de acompanhar a sua actividade. Como a de vários outros desse eixo político, habitualmente bem menos interessantes. 

As notícias de ontem e hoje sobre a morte de Pitta sublinham a sua importância no âmbito de uma literatura homossexual portuguesa - estatuto que ele próprio acarinhava, explicitando a necessidade de afirmação literária dessa temática. Eu sou pouco sensível a essa catalogação. E insisto naquilo que lhe disse e escrevi em pequeno postal, em texto que julgo lhe terá agradado, ainda que seja uma leitura arredia dessa peculiar atenção identitária que lhe dão: o seu breve "Persona" é o grande texto literário português sobre o final do regime colonial em Moçambique - e se calhar até mais do que isso (o  meu texto sobre o "Persona" está aqui). E, mais uma vez, proponho a leitura desse belo livro.

 

(Adenda: estou grato à plataforma SAPO pelo destaque dado a este postal.)

26
Jul23

Ocorrência

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24
Jul23

Ao ministério da Defesa

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É fácil cair numa visão escatológica do poder, aquilo do isto estar pior do que nunca... Pois a realidade sempre parece dura, também devido à memória selectiva que nos faz matizar as agruras passadas. E sempre surgem problemas na governação. Tudo isso sublinhado pelo democrático escrutínio feito pela imprensa. 

As actuais interrogações na Defesa, por hábito sector secundário para a opinião pública, são exemplo de tudo isto. Mas este mero fotograma enfrenta esse decadentismo espontâneo. Pois o ombrear dos dois últimos ministros da Defesa obriga a lembrar aquele que os antecedeu, Azeredo Lopes. O do episódio mais pungente deste regime, quando se defendeu em tribunal afirmando-se intelectualmente incapaz de compreender os relatórios sobre os assuntos que tutelava. Goste-se ou não dos seguintes, Cravinho e Carreiras, não é crível que estes venham a descer a tamanha indignidade. Ou seja, por este lado se deduz que nem tudo está a resvalar para o Apocalipse!

Mais importante para se ultrapassar o tal decadentismo é perceber que não é muito fiável o fluxo informativo crítico do rumo nacional. Não por acinte ideológico ou interesses esconsos das empresas da imprensa e seus trabalhadores. Mas devido à sua incultura incompetente, que lhes impede a compreensão do real. E assim lhes inviabiliza qualquer análise fidedigna. Também disso esta imagem é exemplo maior. No rodapé (aquilo a que os básicos chamam agora "oráculo", algo que os torna credores de péssimos, até mortais, augúrios) a SIC anuncia que "(o ministro) Cravinho foi novamente no Parlamento". Este linguajar boçal é uma empresarial onamatopeia intelectual. Algo recorrente, ali e alhures, mas raramente tão gutural. Entenda-se, esta gente que forma a opinião pública não tem os instrumentos básicos (léxico, sintaxe, quejandos) para pensar com discernimento. Por isso quando com afã professam o tal decadentismo convém recordar que nem sabem falar. Sendo assim, ao invés do que tantos propalam, não estamos a resvalar para o Apocalipse. Ou seja, há futuro...!

 

(Postal para o Delito de Opinião, como "Pensamento da Semana")

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Bloguista

Livro Torna-Viagem

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