Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

marcelo.jpeg

A alusão presidencial ao decote de uma cidadã portuguesa que no Canadá acorrera à sua presença é, evidentemente, um disparate. Mais um. Uma marcelice, por assim dizer. Ainda para mais nesta era de exigências de mudanças de práticas e discursos - às vezes exageradas, muito mais vezes bem fundamentadas. Neste caso é mesmo absurdo - é que nem se trata apenas de referir a deselegância de trato, apoucando a função presidencial. Convoca mesmo a memória da insistência de Marcelo no uso do seu corpo  como  factor de visibilidade: as rábulas dos "mergulhos" no oceano aquando em visitas a alguns países africanos (aqui referi o politicamente contraproducente que isso é), as entrevistas em traje de banhista. E, pior do que tudo, o trocar de calções em público com um batalhão de jornalistas em seu torno. Ou seja, um homem que faz política de tronco nu vem comentar - e sarcasticamente - um decote de uma cidadã? Claro que as acusações de sexismo surgem - a activa Isabel Moreira já as proferiu. Acontece que neste caso tem razão. Mas isso nem é principal defeito. O grave é a sucessão de dislates, atitudinais, a arrombar um pouco de gravitas que a presidência requer. Tem sido um fluxo deles, intermitente mas continuado. Sobre este desnorte de Rebelo de Sousa escrevi há um ano o "A situação presidencial", sumarizando que "Honestamente, a sensação é que Rebelo de Sousa não está bem. Porventura macerado por efeito de insucessos políticos, ou por outras razões desconhecidas, a sua coreografia está descalibrada", e notando a falta de uma entourage política e pessoal que lhe vá equilibrando pose e atitudes. No fundo, lembrando que - como noutros períodos da história recente foi dito, mas agora realmente se impõe, e não apenas por motivos de querelas políticas- é preciso ajudar o Presidente a acabar o mandato com dignidade. E isto (ele) está de tal forma que para tal será preciso uma concertação nacional.

 

(Agradeço à plataforma SAPO o destaque dado a este postal)

wa.jpg

A organização pediu que não se fotografasse o senhor Allen e eu cumpri. A imagem retrata o imediato após a sua saída de sala. A sua charla foi simples e muito agradável, deixou explícitas as influências mais marcantes na sua escrita, narrou alguns detalhes sobre o início da sua carreira, tanto na escrita como na representação, e também na realização, abordou a importância para a sanidade do olhar cómico, restringiu-se a um homem "com muita sorte". E culminou - diante de um intrometido tonitruante da assistência que o convocou a filmar em Portugal - dizendo o mais ou menos óbvio, que o poderá vir a fazer se para isso tiver "uma ideia", condutora. Rematando que talvez "com sardinhas", o que mostra bem que algo conhece do país. Nesse entretando fui comovido nisto de estar sob o mesmo tecto dele.
 
O seu interlocutor foi Ricardo Araújo Pereira, que esteve muito bem nessa função - também por se lhe ser evidente um natural, e mais do que justificado, até devido, nervosismo. Há meses vira-o na Feira do Livro conversar com o excelente Jerónimo Pizarro e gostara. Mas ontem ser-lhe-ia mais difícil. Esteve muito bem.
 
Depois viu-se o Manhattan, a magnífica falsa comédia, sempre tocante.
 
Muito obrigado à minha querida família, que à última hora me meteu na sala pela porta da frente, eu que há muito já havia desistido de lá ir, dadas as notícias (verdadeiras) da multidão que acorrera à Cinemateca, perfilando-se até quase ao São Jorge na esperança de ainda conseguir assistir a este encontro..
 
(Agradeço à plataforma SAPO o destaque dado a este postal)

Jornal A Bola - Armazém Leonino

 
 
Li há uns dias que o jornal "A Bola" fora vendido a um grupo internacional (dizem-no "suíço", mas presumo que seja uma bandeira de conveniência), especializado no comércio noticioso digital. É, evidentemente, a "crónica de uma morte anunciada". As primeiras informações sobre o processo são... as habituais: à "aquisição" (o jargão "científico" para "compra") seguiu-se o despedimento de uma percentagem (muito) elevada dos trabalhadores. Ou, para falar como agora, a "descolaboração" com os "colaboradores". Dá-me a sensação, leigo na Economia, que é o primado do misticismo na referida ciência económica: o que interessa é a "marca" (entidade metafísica) e não o "produto" (a mezinha).
 
Enfim, parece-me evidente que pouco mais durará o já velho periódico, fundado em 1945 pelo mítico Cândido Oliveira (também seleccionador de futebol), Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, um trio sempre invocado.
 
Ainda que com alguma mescla de sentimentos, pois o jornal estava muito fraco, lamento tudo isto. Lembro-me que há pouco mais de uma década o "A Bola" lançou uma edição moçambicana. A Maputo deslocou-se o então ministro Miguel Relvas e saudando essa iniciativa disse "aprendi a ler no "A Bola"". Cairam-lhe as críticas furibundas em cima, da intelectualidade subsidiada/avençada pelo PS e do magma trotskista-maoísta agregado no BE, invectivando-o de "inculto" para baixo. Eu então sorri, desdenhando a mole socratista e a tropa esquerdista. Pois, ainda que não gostando de Relvas com ele partilhava esse dado biográfico. Eu aprendi a ler com "A Bola". Vindo de Hergé, Goscinny, Martin, estúdios Disney, Enid Blyton, dos colectivos que produziam as colecções "Apache" ou "Falcão", o Major Alvega, Karl May, Verne, Salgari, Féval, etc os primeiros textos adultos que li, ainda na primária, foram os célebres apontamentos de reportagem "Hoje jogo eu" que o jornal desportivo tinha... De facto, tal como Relvas, e decerto que muitos outros da minha geração, também eu aprendi a ler no "A Bola".
 
Depois, décadas depois, o jornal - que agora entra em cuidados paliativos - muito degenerou. Por isso aqui recupero, para quem tenha interesse, um postal antigo - que já publicara aqui no Nenhures - as minhas memórias com "A Bola".
 
***
 

O meu pai António nunca leu um jornal desportivo – lá em casa lia-se o “Século” de manhã e o “Diário de Lisboa” à tarde, e as coisas da bola eram-lhe indiferentes, até incomodativas. Nas férias, em São Martinho do Porto, eu ia-lhe buscar os jornais à papelaria na “rua dos cafés” e ele dava-me dinheiro para que eu também comprasse “A Bola”, que saía 3 vezes por semana. Ele achava piada (ou seja, bem) que eu lesse jornais, eu queria-os pelos nomes do ciclismo, do “Tour” e também da “Vuelta”, com os quais decorávamos as caricas para os “grandes prémios” nas pistas de praia, e também pelas notícias de Deus Nosso Senhor Vítor Damas, do Yazalde, do Nelson, do Marinho e Manaca, do Dinis e Bastos e Alhinho, e depois do Fraguito (sempre) de meias-caídas, também do Carlos Lopes, Fernando Mamede, Aniceto Simões, Nelson Albuquerque, da belíssima Conceição Alves, Jorge Theriaga, Manuel Brito, Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento e tantos outros.

Assim cresci, desde a escola primária, a ler “A Bola” daquela ínclita geração de jornalistas, aqueles que também animavam a memorável coluna “hoje jogo eu”, em que botavam o olhar sobre o mundo, deriva então tão escassa: o director Carlos Miranda, das epopeias do ciclismo, o jovem Santos Neves dos automóveis, o entrevistador Rebelo Carvalheira que veio a morrer assassinado nuns quaisquer meandros, o intelectual da bola Victor Santos, o genial benfiquista-comunista irónico-mor Carlos Pinhão, o direitista estorilista Alfredo Farinha, o sisudo camarada Homero Serpa, o analista Aurélio Márcio, vários tantos outros, e punhados de correspondentes, locais ou de “lá fora”, como então se chamava ao estrangeiro (José Augusto na malvada URSS, Renato Caldeira no longínquo e inatingível Moçambique, Bruno Santos em Paris de França, Duda Guennes, que falava em Lisboa do Brasil, sei lá quantos mais). “A Bola” era um bocado, até bastante, vermelha (o que lhe dava bastante crédito junto do meu pai, comunista encartado) e imensamente encarnada. E era um belíssimo jornal.

As décadas passaram. Ali nos finais de 80s, já nas mudanças geracionais, para lá entraram camaradas olivalenses, o Afonso de Melo, que fora meu adversário de subbuteo, o João Matias, meu vizinho de rua, amigo e colega de turma de liceu e faculdade. O encanto desvanecera-se, talvez porque o jornal já diário, sem largar tinta nos dedos de quem o folheava, e nem aquele lençol sempre esvoaçante, ou até porque eu crescera. Mas era jornal. Ainda.

Depois foi decaindo. Imenso, imensamente. Há décadas que não o compro, apenas folheio, nos cafés. E nele clico, espreitando até com fastio, após ler o “Record”, jornal com o qual tenho relação utilitária. Mas com “A Bola” tenho esta relação, a da enorme primeira paixão feita amor desavindo. Mas ainda ciumento. E a sua degenerescência dói-me.

Nos últimos dias vem noticiando (sublinho, noticiando) a transferência de um treinador (Jesus) para o estrangeiro. Não aventa a hipótese. Não ecoa rumores. Não explicita vontades. Nem afirma cenários. Coisas que cabem no jornalismo. Mas não faz isso. Anuncia, ou seja, noticia o processo em curso. Um processo que, dizem de Paris de França, é “ridículo”, desadequado à realidade. Há quem diga que “não há fumo sem fogo”. Mas o certo é que há, e qualquer leitor o poderá dizer, quem ateie … fumos. O velho “A Bola” hoje em dia é isto, tipos a atearem fumos. Mentiras. E há muito tempo que o é. Ou seja, apenas um jornal que encena “factos” para se vender. A autoridade para a comunicação, a ordem dos jornalistas (ou sindicato ou lá o que é) nada dizem. Os tribunais também nada … Se algum jornal/jornalista mente sobre cultura (saiu um livro, um filme, abriu uma exposição, que, afinal, não existe) é rebaixado. Se sobre clima, falhando escandalosamente o boletim meteorológico, é gozado. Se sobre política é desacreditado. Se sobre economia pode até ser processado. Mas se mente sobre a bola, se “A Bola” mente sobre o futebol – e os clubes estão na bolsa, as mentiras sobre os plantéis têm influência na bolsa – isso passa incólume. Ninguém protesta. Nem, e isso é uma vergonha, os colegas da corporação. Nem o Estado que deveria ser regulador. Pois é só bola (mas depois vão-se abanicar nos triunfos patrióticos).

A minha “A Bola”, o meu primeiro amor, tornou-se uma velha prostituta. De esquina, barata. E eu tenho imensa pena. E, envergonho-me até disso, nojo.

(Postal no "O Flávio")

 

muvart.png

Que o tempo se escoa é um lugar-comum, até fastidioso. Mas há sempre momentos em que isso se impõe, de modo mais ríspido. Acabo de ver que em Maputo se inaugurou uma exposição colectiva (que estará até o início de Novembro), assinalando os 20 anos do MUVART - Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique. Esse que então foi uma verdadeira pedrada no... rio artístico nacional.
 
"Caramba, 20 anos já!", sorrio/resmungo. E "Ora este seria um bom pretexto para apanhar o avião, ir matar saudades e ver como estão as coisas...", murmuro, como se tal me fosse possível. Enrolo um cigarro e fumo-o, em memórias das actividades do MUVART e/ou dos seus membros iniciais. Lembro-me também que escrevi um breve texto para o catálogo de uma das Bienais que o movimento organizou, que bem difícil me foi, pois impus-me não aparecer pretencioso - e é muito difícil a um não especialista não ser pretencioso quando escreve sobre arte, em particular a dita "contemporânea". Não ficou grande espingarda mas pelo menos, estou certo, não me armei em parvo.
 
Enrolo outro cigarro. A minha costela Rimbaud restringe-se a um dito dele, em carta tardia. E vem ao de cima, nesta manhã já outonal: "que faço eu aqui?".
 
Adenda: escrevo o postal, nesta verborreia quotidiana. Está terminado e lembro-me do que ontem encontrei um velho amigo, um tipo sempre ríspido, e que me vai lendo. Ao de leve expressou-se um pouco solidário comigo, registo verbal nele excêntrico. Percebi-o e fui-lhe dizendo que a autoderisão sarcástica é muito fundamentada mas não é lamurienta.... Riu-se e rematou "mas olha que as pessoas não te percebem", "tens de meter um emoji...". Não coloco tal coisa, mas deixo o aviso: o bloguista é o tipo que finge o buraco em que deveras está.

areias.jpg

Entre hoje e 17 será apresentada no longínquo Porto (teatro São João), esta peça "As Areias do Imperador", uma adaptação de Victor Oliveira da trilogia de Mia Couto, e que conta com a representação de vários actores moçambicanos, entre os quais quero realçar - sem qualquer desprimor para com outrem - Dona Ana Magaia, que tanto admiro.
A peça já foi apresentada em Aveiro. Infelizmente não encontro referência a qualquer sessão futura nas cercanias do Trincão. Fica assim a (invejosa) chamada de atenção para aqueles vizinhos do Douro que se possam interessar.
 
(Fico grato à SAPO pelo destaque dado a este postal)

Gerente

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador

Em destaque no SAPO Blogs
pub