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Nenhures

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Há alguns anos dediquei-me a escrever uma espécie de livro sobre a minha experiência profissional austral. Seria o "Basta Viver: Um Olhar Embaciado Sob Moçambique", uma introdução e 12 capítulos, uns textos mais longos. Foi tarefa em que afrontei a minha faceta "transgender", pois tecia-os dolorosamente durante longas jornadas. Para, nas noites esconsas, encarnar Penélope, destecendo-os furiosamente. Ainda assim estava eu - finalmente - prestes a terminar aquela minha mortalha intelectual quando veio o Covid. Confinei-me. E assim continuei - apesar das vacinas que tomei (do lote Pfizzer, caso o detalhe ainda vos seja relevante) -, confinado, findado, pois imóvel, desistindo daquele trapo, já imundo. De vez em quando sacudia-lhe as traças, nada mais.

Há pouco regressei àquilo. Leio os textos com indulgência - sofrem de uma estéril pompa, típica de um homem de meia-idade traumatizado, a sofrer de um complexo escolástico. Mas não tenho energia para reescrever aquelas 400 páginas num registo solto, o apropriado ao júbilo da reflexão autónoma, a desnecessitar de se justificar. Restam-me 2 opções: o panache de delir os arquivos; a humildade de os divulgar.

Escolhi divulgá-los. Refiz (mantendo o tal registo pomposo) alguns, completei outros. E vou (re)publicá-los na minha conta da rede Academia.edu. Em fascículos, semanais, assim fazendo o tal livro. Não sei se interessam aos aqui visitantes, se estes terão paciência para longos textos com meneios intelectuais. Mas pode ser que algum deles se possa interessar. Ou conheça outrem que possa ter interesse, e assim faça uma chamada de atenção, até mesmo um envio. Enfim, pelo menos estas (re)publicações poderão servir para minha "prova de vida". E, quem sabe, até poderão colher alguns leitores que se tornem dialogantes, debatendo o que eu escrevi.

Então aqui seguem as ligações aos dois primeiros fascículos desse meu "Basta Viver!":

1. (Introdução) "Do Maputo ao Rovuma, do Zumbo às Águas do Índico"

2. "As Botas do Antropólogo: sobre os métodos de trabalho em Antropologia".

Para a semana haverá outro fascículo.

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Há uns anitos fui a uma consulta de rotina, dessas onde se encomendam as vasculhas em busca de hipotéticas maleitas esconsas. Deparei-me com um novo "médico de família", um tipo afável, ainda relativamente jovem. Fez-me algumas perguntas, a deixar-me falar para que conhecesse ele o mortal paciente que ali enfrentava. Discorri um pouco sobre o meu corpo - pois aos médicos se deve dizer o que nem às paredes confessamos. E fui-me queixando disto da degenerescência etária, do "idadismo" da Natureza, essa que nos discrimina progressivamente, retirando-nos "direitos adquiridos", até "inalianáveis". Ao que o doutor intercalou, sorridentemente irónico - e já depois de me ter dado a novidade de precisar eu de deixar de fumar, pois é algo prejudicial à saúde - "já vi que o senhor tem problemas com a idade!". Ao que lhe respondi, com evidente sageza - a qual tenho de assumir - "não, não tenho quaisquer problemas com a idade. Tenho é problemas da idade...", o que é bem diferente. Ao que ele anuiu - até porque não se iria por a discutir com o paciente, ainda por cima estando espartilhado pelas métricas do SNS, que lhe impunham, e impõem, consultas aceleradas para que se componham belas estatísticas.

Lembro-me disso devido ao jantar de ontem. Um par de gentis amigos, pai e filho, levaram-me a jantar à Baixa lisboeta, conduzindo-me ao já tradicional "Solar dos Presuntos". Aceitei com agrado o convite, mas friso que o júbilo sentido se devia à companhia. Não ia ali desde antes do Covid, pois o célebre restaurante - recoberto, como sabem os seus frequentadores, com inúmeras caricaturas e fotografias dos seus mais afamados comensais de antanho e de agora, dando evidente realce ao King Eusébio e ao Imperador CR7, apostos logo à entrada - está (bem) acima das minhas disponibilidades económicas. Não estou a reclamar que seja caro, apenas constato que é dispendioso. Avante, e sigo a narrar a refeição havida, não por gulodice mas para ecoar o tal perverso "idadismo" de que sou vítima.

Entrámos na casa e logo fomos recebidos pelo pessoal com gentileza, nessa afabilidade sem mesuras que cada vez mais escasseia - a qual antes se descrevia pelo galicismo do "savoir faire" -, fazendo-nos sentir como se "clientes da casa". O nosso trio comensal é frugal, e ontem não foi excepção. Evitámos os vinhos - e depois também os digestivos - e ficámo-nos por algumas, parcas, cervejas de pressão, muito bem "tiradas". Encetámos pelo consuetudinário couvert, um mero compósito com salpicão, presunto e queijos, tudo apreciável.

Mas logo nesse entrementes se me colocou um problema da sociologia da alimentação. Pois na mesa estava um cesto - o qual veio a ser preeenchido algumas vezes -, com um sortido de pães. Ora acontece que um dos problemas actuais nas cidades portuguesas é a catastrófica situação da panificação. Pois, destroçada a pequena indústria panificadora, esquartejada a rede de pequenas padarias locais, o pão - base da nossa alimentação - é comercializado pelas "grandes superfícies", essas empresas potenciadas pela ignara desregulação urbanística, e cujas famílias proprietárias continuam a surgir na imprensa popular (das CNN às revistas de "referência") em artigos exaltadores das suas excelências. Apesar de serem um oligopólio que nos impingem pães miseráveis, decerto que devido à sanha de lucros apresentada como "criação de empregos". Este meu trautear do "De Pé, Ó Vítimas da Fome" adveio-me, exclusivamente, da excelência dos pães que os simpáticos funcionários do "Solar dos Presuntos" nos cumularam. E deles me atafulhei, tamanha a saudade que tenho de pão decente...

Seguimos às breves entradas, das quais apenas convocámos duas: uma dose de lingueirão que nos veio à moda de Bulhão Pato. Acontece que, e nisso serei minoritário no país,  julgo bastante desinteressante esse omnipresente Bulhão Pato. Não só as suas memórias, que encetei há alguns anos, são um texto até impertinente de vácuo, tanto que nem nunca lhe visitei a propalada poesia, como o raio do molho que (imerecidamente) levou o seu nome tende a ser uma mistela, quantas vezes até sopeira, que recoze os víveres. Não foi ontem nada o caso: o lingueirão, até raro alimento que tanto prezo ("adoro", no parco léxico em moda), chegou-nos magistral. A outra entrada foi um trio de pastéis de massa tenra de lavagante, um item algo excêntrico (exquisite, no português d'agora), acolhido com satisfação geral - pese embora ser eu muito especioso com os pastéis de massa tenra, devido à minha longa experiência de cliente do restaurante maputense Ka Mpfumo, onde comi os melhores exemplares da minha vida. Ou seja, se ontem não rejubilei com a massa - ainda que a tendo apreciado - constatei que o seu recheio era magnífico.

Depois seguiu-se uma demasiada pausa. Sublinho ter sido nossa culpa, máxima culpa. Pois entre as conversas iniciais - eu particularmente loquaz, como me acontece quando com gente de que realmente gosto - e as hesitações nas escolhas, havíamos pedido bebidas, só depois as entradas, e algo depois lá encomendámos as "peças de resistência". Assim provocámos a tal pausa, a qual nada nos custou a cruzar - entre a continuada converseta até à escapadela até à rua para o cigarro. Os meus, de facto, anfitriões acolheram - em evidente devaneio - fartas doses de pregado e de arroz de garoupa com gambas. Eu fui mais terra-a-terra e avancei para um pernil assado, do qual acima deixo testemunho iconográfico. Estava soberbo! Na conjugação do estaladiço exterior e da languidez, até sensual, interna. E tudo tão condignamente temperado.

Mas nesse entretanto, que estava a ser extremamente prazeroso, fui avassalado pela referida Idade. A qual terá sido convocada pela tal pausa prévia - essa que tendo acontecido há alguns anos teria servido de pretexto para um mariola "pede-se mais uma garrafita de tinto, não". Mas que agora me fez tombar numa tão precoce saciedade, imobilizando-me a cerca de um terço da tarefa comensal. E tão deliciosa estava ela. Não lamento o desperdício, fico-me mesmo nas lágrimas da frustração. A frustração de um (quase)velho que já não dá conta de um Magnífico Pernil! Resta-me a egoísta consolação de constatar que os meus parceiros - o pai, meu camarada de geração, o filho, nisso camarada da minha filha - cediam também diante da generosa profusão alimentar que lhes coubera em sortes. E é claro que não houve (como podia haver?) sobremesas. Um café final, sem destilados posteriores, repito. E seguimos, julgo que (ainda) mais felizes do que chegáramos.

Que a vida me sorria um pouco mais, nas matérias terrenas. E que este fenecer do apetite seja lento. Para que eu, em breve, vos possa convidar a regressar ao "Solar dos Presuntos"...

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Acabo de saber que ontem o Prémio José Craveirinha 2023 - o mais prestigiado prémio literário moçambicano - foi atribuído a Marcelo Panguana. Exulto com a notícia. Sei que é um mandamento apartar a consideração pelas obras dos sentimentos tidos pelos autores - evitar aquilo do "gostar" da imagem pública (ou televisiva) ou da ideologia ou meneios dos escritores a comandar o apreço pelas suas obras. Mas nisso faço uma excepção com o Marcelo Panguana , pois ele homem gentilíssimo e interessantíssimo - e estou a agora a recordar a bela tarde com ele, o seu (e meu) mano Ídasse no bairro Jardim durante a minha última estada em Maputo, eu tão saudoso e ávido, das novidades, das castanhas de caju e das 2M geladas. E daquele convívio. Isto para além dos excelentes documentos, de sentimentos e bela prosa feitos, que são as suas ficções...
 
Dele tenho, para além das memórias das nossas conversas, suas tímidas mas quantas vezes corrosivas e tão bem-humoradas palavras, este conjunto de livros. Presumo que me falte algo... E não me posso esquecer deste episódio. Em 2007 fui a Chimoio - não terá sido a primeira vez. Abanquei no magnífico Café "Elo" - o "Elo", para quem não o conheça, era um item patrimonial. Mal comparado era uma espécie do "Galeto" lisboeta, pois um café-restaurante que então mantinha, por completo, a decoração e mobiliário dos anos 1960s, algo ainda mais surpreendente sabendo-se as transformações que aquela cidade (e o país) tinham cruzado. E um bom serviço... Avante, tendo comido qualquer coisa rápida, pois estava em trânsito para qualquer distrito mais recôndito, enquanto esperava o transporte dei um passeio na rua. E deparei-me com uma livraria, comércio verdadeiramente excêntrico nas províncias moçambicanas. Entrei, olhando os escaparates despidos, polvilhados de escassos cadernos escolares. Mas num velho e abandonado suporte vertical, daqueles giratórios quais os dos antigos postais ilustrados, havia 3 ou 4 livros, esquecidos de outras eras leitoras. Um deles era-me desconhecido, um exemplar de capa esmaecida e com marcas de passado institucional, com ilustração (claro) do belo Ídasse, do "As Vozes Que Falam Verdade". E eu, ainda que já há muito fiel ao Panguana, nunca ouvira falara deste livro! Logo o comprei - Chimoio, 17 de Outubro de 2007, apus. E disse-me, em júbilo, "já valeu a pena vir cá", nisso de encontrar um livro do Marcelo que desconhecia, editado ... vinte anos antes. Para logo depois descobrir, em Tambara, que eram 5 contos com "punch", coisa tão rara nos contistas. E que o Panguana tem.
 
Obrigado, Marcelo Panguana, pelos teus escritos. Saudações ao júri da Associação dos Escritores Moçambicanos, pela pertinência na atribuição do prémio. E, entretanto, como forma de festejar estou a reler o "As Vozes que Falam de Verdade". Como a do Panguana

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