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Nenhures

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O mundo está como está. Ou seja, continua como continua... Quino, em especial a sua Mafalda, é uma necessária inspiração. Para uma inquietude sem candura, algo que nada se conjuga com "causas" ariscas e convicções de mão na cintura, nas certezas de bolso tão do apreço de tantos. Enfim, para que possamos interrogar o 24 que chega.

Por isso deixo três filmes com o grande autor: um excerto onde narra o nascimento da imortal Mafalda (minha grande amiga, Filipe que sou...). E duas entrevistas longas em momentos diferentes da sua vida. Forma de fazer regressar aos seus livros. Maiêuticos.

El nacimiento de Mafalda

Entrevista a Joaquín Salvador Lavado «QUINO» creador de MAFALDA 1977 completa

De Cerca - Entrevista a Quino

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Eis-me acoitado num recanto de um dos meus redutos. Estou num estado de gélida, ártica, estupefacção, siderada. Pois descobri que poucos dias restam para que se entre em 24, ano em que me tornarei... sexagenário. Estou deveras desprevenido, não vi isso chegar nem sei as suas causas. "Que fazer?", como dirimir o indirimível?... Traído, é o que me sinto. Pelos outros, claro, esse consabido Inferno.

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Uma querida amiga moçambicana telefona-me hoje, desejando-me risonhamente um "Bom 20-24!", expressão que quem conhece da história do país melhor perceberá...
 
E é isso mesmo que a todos desejo, um "Bom 20-24". O que, de facto - e ironia à parte -, é o destino certo, o partir célere com o mínimo possível rumo a algures. E que nisso possamos ser embondeiros de nós próprios.
 
Enfim, bom ano... e saudável.
 
 
Nota: 20 [quilos] - 24 [horas], ditames nas ordens de expulsão de Moçambique in illo tempore

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Uma ríspida constipação tússica impôs-me um Natal solitário, para evitar contagiar a família. Isento da fartura de bacalhau, rabanadas, sonhos, coscorões e quejandos, e do fervilhante convívio com os mais-queridos, terei sido mais atento aos derrames televisivos, tanto às notícias dos dias como ao cardápio dos obrigatórios filmes da quadra. Ou seja, a dieta incrementou o meu estupor diante deste revanchismo sociopata do governo - e da sociedade - israelita, o qual amansei com uma panaceia tomada em duas cápsulas, num dia o filme "Pretty Woman", no seguinte o "Notting Hill". 

Hoje, e porque já menos alquebrado eximi-me a ver pela enésima vez o tão obrigatório "Pale Rider". Mas, pois ainda convalescente, enrolei-me em manta e de ceroulas e pantufas assisti a uma simpaticíssima entrevista com o dr. Montenegro, passeando pelo tão aprazível litoral de Espinho, durante a qual o candidato apresentou os itens fundamentais do seu programa eleitoral. Pouco depois, já eu de chá de cidreira em punho, acompanhei o comentário político do inefável dr. Júdice. O qual me deu uma novidade - ao saudar efusivamente um inquérito feito pelo Instituto Nacional de Estatísticas, incidindo sobre as dimensões "étnicas e raciais" da população. Impante com a conquista civilizacional do nosso Estado, o referido dr. Júdice não deixou de salientar que a França não faz este tipo de questionários, algo que considerou ser causa dos problemas que aquele país tem. Deixando assim implícito que ao invés de outros países que assumem tais metodologias classificatórias, onde decerto inexistirão os tais não elencados problemas...

Mas fiquei genuinamente supreendido. Pois não tinha conhecimento de tal inquérito nem, muito menos, de que o INE já assumira esta classificação dos habitantes do país. Distracção minha, pois esta é uma verdadeira vitória política da esquerda comunitarista, dita "identitarista". Há uma imensa literatura internacional sobre o assunto, uma muito militante paladina desta classificação dita "racial" e "étnica" das populações - com grande ênfase em documentação institucional e no "activismo intelectual", toda de retórica benfazeja, e muita dela com implícitos revolucionários -, outra a isso avessa.

Não me vou abalançar a fazer uma súmula disso, para nisso promover um qualquer requebro bloguístico. Julgo saber, pelo que li num artigo de um demagogo antropólogo, que o nosso país é um "apartheid". E também que a nossa população - pelo que também li de um outro qualquer demagogo - é maioritariamente crente num "racismo cultural". Um Inferno, luso. Ainda assim prefiro ir ler os resultados do Boxing Day. E esperar que amanhã já esteja eu rijo para ir levantar os últimos exames médicos, para em breve me apresentar ufano diante da consulta aprazada para o início do ano em que serei sexagenário, impregnado que estou desta moinha duvidosa sobre se esta velha carcaça ainda aguentará mais uns tempos. Pois, de facto, é-me isso bem mais relevante do que gastar tempo a discutir esta gente, coisa afinal sem qualquer préstimo.

Ainda assim, e antes dos resultados da bola inglesa, fui ver o inquérito. Está aqui. E começa mais ou menos assim o texto estatal: "A pergunta sobre a autoidentificação étnica, à qual os respondentes poderiam assinalar mais do que uma opção do grupo a que consideravam pertencer, compreende as seguintes possibilidades de resposta: asiático, branco, cigano, negro, origem ou pertença mista" (p. 2). Sorrio. E no monólogo deste sozinhismo murmuro um arrastado "foda-se...", enquanto me noto a menear a cabeça. E depois sai-me um "este país é mesmo dos Tavares...". "E dos Júdices", complemento enquanto me levanto, pois nem vale a pena argumentar. Escorropicho o chazinho de cidreira, já morno. E vou-me servir de um uísque.

E assim fico, um branco com um uísque.

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(Gaza bombardeada, fotografia de Mohammed Saber)

As notícias de bombardeamentos em Gaza durante o dia de Natal que causaram 106 mortos, com vítimas sendo evidentes civis como o mostram as cristalinas reportagens televisivas, têm de interrogar esta sensação predominante de uma familiaridade entre nós-cristãos e os judeus - que não só esconde os séculos de destratos que estes últimos sofreram na Europa como apaga a efectiva cumplicidade de grandes parcelas das sociedades europeias no genocídio judaico encabeçado pelo nazismo alemão. Pois apesar disso reina uma percepção de uma "intimidade cultural" com os israelitas, incentivada pela efectiva democraticidade ocidentalizada no país, e também pela excentricidade das sociedades islâmicas vizinhas, amarradas a regimes ditatoriais e/ou teocráticos. E nas quais - por mais retóricas que os "multiculturais" mais ou menos foucauldianos agitem - o primado do livre-arbítrio individual é bem menor, tornando-as assim efectivas "sociedades outras".

Mas quando os israelitas escolhem o dia sagrado dos cristãos para massacrar os civis palestinianos - e logo de seguida enviam para a televisão governantes clamar o seu direito "ético" em tal acção - temos de questionar duas coisas: onde radica a tal "intimidade cultural" com eles; e o que resta da tal "democraticidade israelita"?

Uma ríspida constipação tússica impôs-me um Natal solitário, para evitar contagiar a família. Isento da fartura de bacalhau, rabanadas, sonhos, coscorões e quejandos, e do fervilhante convívio com os mais-queridos, terei sido mais atento às notícias do dia. Ou seja, a dieta incrementou o meu estupor diante deste revanchismo sociopata do governo - e da sociedade - israelita. Por isso, aqui deixo um resumo do que penso sobre tudo aquilo. Pois não me espanta a  maldade dos possidentes - israelitas e outros - nem o fanático revanchismo nacionalista dos povos. Mas enojam-me os apoiantes acríticos destas gentes. Em especial enquanto arrotam "Festas Felizes" e trocam bostas às quais chamam "prendas" ou "presentes", consoante o estrato social ao qual querem pertencer...

Desde o vil ataque terrorista do partido fascista Hamas eu deixei aqui quatro postais sobre o assunto: recomendei um excelente e assisado documentário sobre a história da região, transmitido na SIC Notícias, o "A Origem de um Conflito", relevante para evitar interpretações acaloradas sobre tudo aquilo; recomendei a leitura dos livros de Joe Sacco sobre a história e actualidade de Gaza, de indiscutível denúncia daquela situação (e lembrei que até escrevera um texto longo sobre essa abordagem de Sacco); referi a necessidade de tino na tomada de posições favoráveis à causa palestina; e explicitei o meu estupor diante da reacção militar israelita

Sobre a questão "Israel" não se trata de julgar a história - como tantos onanistas intelectuais querem fazer, a propósito de tanta coisa. Mas de pensar presente e futuro - para isso sopesando (mas não julgando) a história. E isso está explícito nas declarações do vice-chanceler alemão Robert Habeck e do primeiro-ministro britânico Rishi Sunak (no seu segundo filme a partir dos 4 minutos...). Mas nada disso, por difícil e lento que seja, se fará com os Netanyahu deste mundo. Nem com os festivos acríticos... Contra os quais não há Rennie que me valha.

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