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Nenhures

Nenhures

Taça Covid-19?

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Acaba hoje o mês e meio de "estado de emergência" proclamado pelo presidente Sousa. O qual foi decidido sem pedido governamental e mesmo com o relativo desacordo do PM, que implicitou a sua desnecessidade. Convém recordar que Sousa tomou essa iniciativa para "recuperar terreno" na popularidade, depois da sua patética clausura, durante a qual se entreteve no "gozo fininho" da lida doméstica. Veio depois para o "gozo grosso" de exagerar a suspensão de direitos, num querer mostrar-se. E este inaceitável final, culminado ontem, mostra bem o vácuo que (des)anima esta presidência.

Belém, para adornar o seu percurso, gaba-se agora de um telefonema laudatório de Trump. E reina por aí uma saudável descompressão, pois "isto" não correu tão mal como o tememos. Até já se foi para a Alameda, ainda que sem patrocínio da Sagres. Mas convirá lembrar algo que acabo de ler: somos o 12º país com mais de meio milhão de habitantes com mais mortos; somos o 10º país da UE com mais mortos per capita. Ou seja, por meneios que queiram fazer convém lembrar: a taça Covid-19 que nos querem fazer crer ser nossa? Nada disso. Muito infelizmente.

É certo que muitos quererão gozar com o exemplo, por pobres razões clubísticas, por politiquice ou, aqui no DO, por lavourismo. Mas dou-vos um exemplo, para ilustrar o que realmente se passou: no dia 5 de Março o Sporting contratou o treinador do Braga pagando para isso uma quantia milionária, algo que foi motivo de grande polémica (ainda se falava em tais coisas, na imprensa e entre o público). A Itália estava já devastada, a Espanha começara o seu purgatório. Mas o Estado português calava-se, de tal maneira que os grandes agentes económicos seguiam como se nada fosse, a imprensa falava da "bola" e o povo assistia. Insisto, pode-se pegar neste exemplo e gozar com o clube, seus dirigentes, etc. Mas se se deixar esse rasteiro estatuto, se se ascender a cidadão? Então lembra-nos-emos que o Estado (e o seu palrador presidente) estava calado sobre a matéria, atarantado. Não foi capaz de sinalizar os cidadãos e os grandes grupos económicos do que se aproximava - e este exemplo, tão mediático, da excêntrica e polémica contratação de Amorim é grande mostrador disso mesmo. 

A memória é curta, e está a sê-lo. Estou confinado numa quinta, num grupo de famílias amigas. Eles encerraram-se a 6 de Março, no dia seguinte ao anúncio de Amorim no Sporting. Eu vim depois pois esperava a minha filha, que estuda em Inglaterra. Ou seja, estes meus amigos encerraram-se - apenas abrindo portas para nos acolher, o que nunca esquecerei, ainda para mais por ter sido naquela época tão angustiante - exactamente no dia em que Espanha fechou os lares de terceira idade e a nossa directora geral da saúde nos aconselhou a "ser solidários" e a visitar esses mesmos lares. Lembrai-vos disso? Se sim eu pergunto: quem morreu e onde vivia?

Assim, Taça Covid-19? Trump telefonou? Deixemo-nos de coisas, estes tipos estiveram a dormir na forma. Poupem-nos aos auto-elogios.

(E espero mesmo que a comentadora "Graça" aqui regresse para me chamar "energúmeno" de novo. E eu desta vez responder-lhe-ei. Num mero "quem morreu? onde?") 

 

As "celebrações" do 1º de Maio

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Hoje, 1º de Maio e manifestações por aí. Tal como houve celebrações "em sala grande" e sem "mascaradas" no 25 de Abril. Então é dia para recordar esta postura de Mattarella, o presidente italiano, celebrando nesse mesmo 25 de Abril o 75º ano (número ainda mais simbólico) sobre a libertação italiana na II Guerra Mundial. Ou seja, o dia da liberdade, da democracia, do fim do jugo nazi-fascista. E da paz. Fazendo-o de modo tão mais simbólico, tão mais solidário, tão mais cidadão, tão mais democrata. Tão mais respeitador. E tão mais inteligente. Do que este paupérrimo duo Rodrigues-Sousa na festa chocha de São Bento e nas arruadas de hoje.

Porque precisa esta "esquerda" instalada, cinquentona, sexagenária, septuagenária, destas festividades? É um potlatch de incúria intelectual. Revivem um panteão risível, entre louvores aos múltiplos itens do "movimento comunista" e aquilo a que se chamava "terceiro-mundismo", agora dito "pensamento abissal". Utilizando como matéria-prima um grupo seleccionado, pouco orgânico, de militares apolitizados na sua maioria, e que pensaram consoante as suas circunstâncias de época. Disso amputando outros, que não correspondem aos desejos desta gente de agora, já apenas afectivos pois, de facto, mera disfunção ideária. É um ritual que serve para reforçar a "amnésia organizada" sobre a revolta de Abril e a revolução que se lhe seguiu. Manobra que lhes permite dizer, nas outras 51 semanas, todos os que não se revêm nesse vetusto imaginário de radicalismo marxista como "fascistas", "inimigos da democracia", "salazaristas". Não há outra razão para a parvoíce cerimonial desta semana. 

Assim a "vacinada" e "desmascarada" boçalidade de Rodrigues, acolhida pelo pusilânime Sousa, não só se contrapõe a esta simbólica grandeza de Mattarella, ali só a celebrar a queda final de Mussolini/Hitler. De facto, as patéticas manifestações (ditas, hipocritamente, celebrações) de hoje e a cerimónia de 25 de Abril servem para nos dizer, aos imunes ou convalescidos do apego totalitário, como "fascistas". A fronteira é fluída, mas cruza ali ao PS, puxada à "esquerda". 

Este ritual, falsificador da vida portuguesa, sobrevive nos dislates. Sempre desculpados pelo "afecto memorialista" com a "liberdade", com a (nossa) "juventude". Todos os anos se revive essa parvoíce. Nem falo da absurda capa de hoje do "Público", que é onde leva a patetice misturada com uma inenarrável candura, e a querer-se interventiva ...  Agora um bom e antigo amigo enviou-me um filme associando o novo líder do partido demo-cristão, um puto de 30 anos, com o salazarismo. Respondi-lhe, entre homens, invocando genitálias e "imoralidades" sexuais. Uma querida amiga chamou "Sua Excelência" ao abjecto terrorista assassino Carvalho, fui suave na reacção (e nem falei na piroseira) mas presumo-a ofendida. E pelas redes sociais abundam os dislates louvaminheiros do mesmo tipo. E não só cá: no mural de um intelectual moçambicano que, recorrendo a codiciosas demagogias textuais, entende dever ensinar-nos como viver,  um demo-cristão português é invectivado de fascista, neo-nazi, homossexual, (voz de) colono. E, para abrilhantar a festa, de branco. E comunistas portugueses - brancos, já agora, - vão lá aplaudir. Tal como o dono da casa o faz, ainda que muito democrata, como por cá o consideram os libertários. 

Celebrar o 25 de Abril é celebrar a Paz (que todos esquecem pois julgam secundária) e a Liberdade. E o 1º de Maio é celebrar os direitos laborais. Não é mistificar a história, falsificar o presente. E impensar. 

Assim sendo, com a imagem de Mattarella, vai daqui de Nenhures a minha saudação à UGT e aos sindicalistas do BE, que decidiram celebrar o dia dos trabalhadores como, neste momento, manda a ética de cidadania. E sei que muitos deles, ali na rapaziada bloquista, queimam incenso e mirra a uns totens execráveis. Mas portaram-se muito bem neste dia. Ao invés de outros, com mais responsabilidades institucionais. E de outros, profissionais intelectuais com obrigações analíticas.

Liberdade?

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O número 3 da revista digital "Mordaz" foi ontem publicado. Está disponível aqui (gratuita, sem publicidades agarradas). Aqui partilho o texto que lá publiquei.

Liberdade?

Durante muito tempo vivi longe. Conheci gente. Alguma de mim gostou, outra nem tanto. Um desses homens não me deu simpatia ou ser-lhe-ia eu indiferente. Vivia de escrever. Um dia mataram-no. Ele tinha um colega, qual concorrente. Esse gostava de mim, e partilhávamos uns uísques noctívagos. Meses antes, em deriva madrugadora, encomendara-lhe cautela com o que botava. Indignou-se, de vozear e perdigoto, como se eu ali censor. Recuei e, por carinho, resmunguei-lhe que pelo menos não guardasse informação, afixando o “nada na manga”. Nem me respondeu, só levantou o queixo em esgar. “Tuga”, terá pensado. Mas pelo menos não mo disse, e isso valeu. No funeral grassava o medo. Denso. Três conhecidos pediram refúgio em minha casa, qual asilo. Anuí, mas lembrando não ser porto seguro. Outrem fez o elogio fúnebre, belo, qual pegando no facho. A meu lado alguém murmurou “ele está a fazer para ser o próximo”. Findo o discurso cruzou-me e disse-lhe “calma, ninguém está seguro…” e ele replicou, cavo, “queres que me cale, Zé?” assim calando-me. Esta era gente do mesmo partido, que cruzara tétrica guerra civil, enormes mudanças, e vivia ríspidas eleições entre os velhos inimigos. Um jornalista, que então já não estava, até ao fim batalhara e batera, até nos seus próprios correligionários, apontando políticos e polícias, estrangeiros e nacionais. Sarcástico, escrevera um “cabricionário”, dicionário do cabritismo, aquilo de “o cabrito come onde está amarrado”, que alguns dizem africano mas é universal. Outro passou anos enfrentando aleivosias do seu partido e dos outros. Prometera clamar “até ficar rouco” e amigos picavam-no, dizendo-o na senda de mártir, ao que ele casquinava. Continuou para além de rouco, já só com um fio de voz, até à sua última semana.

Eu era professor. Então, como acontece nas universidades, a geração do meio empurrava a mais velha. Mas ali e então tudo tinha um tom político. O café do campus era à frente do meu gabinete. Nas mesas as polémicas viviam-se, com críticas magoadas aos poderes. Estrangeiro e jovem estava sem ser parte. E notava os engravatados fatos azuis nas mesas vizinhas. Meneava para os sinalizar e aqueles mais-velhos, gente também do mesmo partido, mas sem locais de recuo, outros ofícios ou riquezas, só professores, encolhiam os ombros. Alguns, a velha guarda mesmo, elevavam a voz. Para que os esbirros não perdessem pitada.

Anos passaram. Escritores foram até ao osso, explícitos ou em subtexto, seguindo os passos do poeta que para isso, convocando os plácidos citrinos, reinventara a literatura do seu país. Investigadores vasculharam, e por isso foram ameaçados. Suportaram o que puderam, e alguns partiram para sabáticas involuntárias ou para outras vivências. Um dia, à saída do café que frequentava, um colega jurista foi morto. Depois um politólogo foi raptado e, avisado de ordens para não o matarem, dispararam-lhe sobre as pernas. A outro raptado iam-no matar decepando-lhe as pernas mas os assassinos fugiram à chegada da população. Todos por terem opinado livremente na tv. E refiro apenas quem conheci. Os sobreviventes continuam, como outros, investigadores, professores, jornalistas, a trabalhar, a criticar. E muitos deles com vínculo afectivo ao partido do poder. E, note-se, num país onde o Estado tem enorme peso na redistribuição, directa ou indirecta, dos recursos.

Cinquentão, voltei a Portugal. País temperado, seguro, pouco crime e nada de violência política, nem da vigilância abrasiva e das ameaças soezes. Afinal democracia já instituída, sinal do envelhecimento da minha geração. E conflitualidade tépida entre linhas políticas, nada do abrasivo a que vinha habituado, pois enormes linhas de consenso real entre os grandes partidos. E grande homogeneidade na população, bem diversa do mosaico que conheci, passível de exacerbar conflitos. E sim, o Estado muito influencia na distribuição de recursos, através de empregos, subsídios, etc. Mas bastantes empregadores alternativos.

Uma coisa me espanta. Não encontro quem bote em público criticando o seu pequeno partido, o seu “nós”. Reina a defesa a todo custo, o pobre catenaccio político. Gente tão diferente, tão mais escassa do que alhures.

Liberdade? Sim, decerto. Mas tão fraca gente.

...Stones, bater no ar

Os Stones por Zoom (a empresa que mais terá beneficiado com esta pandemia), cada um em sua casa, ontem no festival Together At Home, tocando o ícone You Can't Always Get What You Want, uma das (a?) canções da minha vida. E que magnífico Charlie Watts ...

Vendo estes mais-velhos (Watts já com 78) e sabendo do gigantesco "Live Aid" que isto foi ilumina um pouco a dimensão deste confinamento generalizado, melhor até do que as notícias o fazem.

E, entre outras coisas, lembrei-me de alguns liberais lusos (uns até ex ou ainda bloguistas) que desde há um mês andam frenéticos a bradarem que tudo isto, a suspensão dos contactos, o interrupção do trabalho, é fruto da imaginação, uma loucura, etc. (e até um bocadinho daquilo do "marxismo cultural"). Conheço alguns, são boas pessoas. Mas portam-se exactamente como os maluquinhos do BE há 15 anos ou mais. E são agora muito mais velhos, é um bocado pungente vê-los assim histriónicos. E acho que ninguém tem a piedade de lhes dizer isso.

Então digo eu, a ver se eles percebem que só o Charlie Watts pode bater no ar e soar.

Sobre as celebrações do 25 de Abril e do 1º de Maio

Isto das "celebrações" mostra bem o espírito de casta, fermentado na cultura maçónica e da sua estreita abordagem ao simbólico, da gente que gere o país. Acima do povo. Não vale a pena bradar sobre o fraco que é Ferro Rodrigues, pois apenas corresponde ao que há. Ou sobre a superficialidade do PR, também correspondente ao que o povo vota(ou?). Mesmo com o que João Soares disse - ainda que também ele maçónico, note-se -, mostrando senso político, talvez herdado, continuam as patetas proclamações. Imensos clamam que estando a AR a funcionar nada obsta a uma cerimónia com pompa, como se o assunto seja o do horário de uma repartição. E vão convictos nisso, como se defendessem "Abril".

A questão é de como as pessoas recebem isto no seu íntimo. Luis Naves, co-bloguista no Delito de Opinião, perdeu o pai (os meus pêsames). Narra que o funeral apenas teve 11 pessoas, "uma a mais do que o permitido". Na última semana três pessoas que me são próximas vivem situações semelhantes (um funeral paterno, duas impossibilitadas de acompanhar pais nonagenários, muito doentes, sem Covid). São coisas diferentes? São, mas o relevante é o impacto na população, as formas como a acção política é lida e sentida. Quando pessoas que há décadas vivem na e da política não o compreendem isso é sinal da degenerescência do regime. E do quão obtusos são muitos dos cidadãos que, por estreita militância de sofá, sentem que apoiar é tudo aceitar.

João Gonçalves escreveu ontem um postal no FB sobre o facto da rainha de Inglaterra ter, pela primeira vez, suspendido as celebrações públicas do seu aniversário (que têm, no seu simbolismo, uma dimensão política). Veja-se o inusitado eco desse postal, muito significante. Entretanto Putin cancelou as celebrações da vitória na II Guerra Mundial, as quais têm uma dimensão extrema de exaltação nacionalista e de afirmação deste presidente. Ao invés, por cá temos o "poeta de combate" Manuel Alegre a sair à liça, em retórica falsária, a defender "Abril" - quando o que se pede, e ele aldraba na contestação, é uma frugalidade simbólica, uma densidade política.

E tudo se fará para festejar com pompa, ao invés do que mandaria a prudência sanitária (pelos efeitos no comportamento das pessoas, não pela higiene da cerimónia) e a comunhão política (idem). Também para que se possa dar realce simbólico e político a um homem tão básico como Vasco Lourenço. Esse que, exaltado com a proximidade de "Abril" onde terá o seu momento anual de consagração, acaba de apelar ao golpe militar no Brasil. E ao qual os seus correligionários maçónicos tanto abraçarão entre pompas e cerimónias, "para brasileiro ver".

Claro que ao dizer isto convoco que as rasteiras invectivas, os urros de "bolsonarista", "fascista". Exactamente daqueles que andam aí a defender "Abril" deste modo. Para um ou outro escasso imbecil que ainda apoie esta arrogante medida mas que ainda tenha no seu recôndito âmago uma escassa centelha de inteligência (é uma hipótese meramente académica) deixo o trailer deste fraco filme, sobre os dias subsequentes à morte da princesa Diana. O qual valerá apenas por Helen Mirren. Mas há um detalhe que me tem vindo à memória nestes dias em que se discute o simbólico das celebrações ("quer-se dizer", há imensos imbecis que nem percebem o que é "simbólico" mas que para aí andam a falar como "doutores"). Resumo-o:

Diana morreu, comoção generalizada, e crise pois o povo reclama do que considera ser falta de apreço real pela princesa. A quebra de popularidade da Coroa virá a ser enorme, e levará década a sarar. Nos dias prévios ao funeral Blair, muito popular, tenta remediar a situação.

Ora um dos factos que indigna a população, em luto pela "princesa do povo" como lhe chamou Blair, concentrada diante do palácio e das tvs, foi que a bandeira no palácio não fora colocada a meia-haste, como se deveria fazer em sinal de luto. Correu que era o sinal do menosprezo real pela princesa. E estupefacção da rainha quando Blair lhe pede para mandar colocar a meia-haste a bandeira. Pois aquela, no seu simbolismo peculiar, é o pavilhão real, apenas içado para significar a presença da rainha. Tem um significado diferente da bandeira nacional, essa sim passível de ser colocada a meia-haste. Mas as pessoas não conheciam esse detalhe, hoje em dia esquecido. E atribuíam outro significado - político -, julgando-o uma afronta.

É um filminho, não é preciso ser cinéfilo para o ver ou conhecer. João Soares viu-o. O pai dele sabia da poda. Esta gente de agora, aprisionados na sua mentalidade de casta, na jactância, nada percebem. São os coveiros de "Abril". Com a voz cava e vácua de Alegre, e a patetice grosseira de Lourenço e Rodrigues. E dos seus sequazes.

África não é um país

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Sempre me irritou esta afirmação do "África não é um país ...", uma ladainha queixume para a qual nunca tive paciência. Dou agora o meu braço a torcer, e peço compaixão na punição. Isto devido à quantidade de vezes que já vi estes jornalistas, depois de dissecarem a situação do Covid-19 em gigantes e tão próximos contextos como a Islândia, a Bélgica, o Paraguai, o Chile, Israel, seguirem para notícias sobre a situação "em África".

Em 2020, caramba.

Manifestação do 1º de Maio

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É uma questão de racionalidade, só. Manifestações do 1º de Maio são desrespeito por quem está confinado. É também uma indução para que todos saiamos de casa o mais depressa que nos apetecer (já hoje de manhã). E acima de tudo, "caramba", é um perigo. É um perigo naquele dia - por mais que invoquem as loas das "regras de segurança".. E é um perigo porque dá sinal para nos juntemos em massa a partir daí. Os tipos do regime perderam a cabeça - e não percebo como não encontro gente da dita "esquerda" a dizer esta coisa simples: não é o momento para manifestações. Nem sanitário, nem político. Esta ligeireza, esta cabotagem, é demencial. Vivemos a maior crise da nossa vida e esta gente dá esta pontapé no próprio regime? Urge reencontrar algum tino:

Marcelo não o tem, ocupado no "gozo fininho" de flanar, na patética homoerotização do poder. A Costa terá acontecido algo, exaustão talvez, para se meter nisto (e aquela ministra Vieira da Silva, dizendo que a proibição de presença nos funerais é "por acontecimentos que aconteceram no mundo" e que é diferente de permitir manifestações porque foi uma decisão anterior, ultrapassa tudo o que se tenha visto em governos). Rio é o que é, em volta de si mesmo - o que poderia ser bom, caso fosse pintor ou músico, mas o homem é político. A IL é muito pequena e o CDS, enfim, é uma memória, e agora uma irrelevância júnior e inculta. E o BE é óbvio que adere a um COVID Parade, para celebrar a vitória sobre o vírus com as gentes festivas.

Resta o PCP. Goste-se ou não sempre teve uma racionalidade. Dizem-no monolítico e repetitivo muito porque tem a sua racionalidade e as suas razões. E o 1º de Maio é palco da CGTP. Quer o quê, fazer uma "jornada de luta" na exacta conclusão do confinamento, a este afirmar/celebrar como feito "dos trabalhadores"? Ok (de facto até concordo com essa versão). Mas faça-o de outra forma. É o PCP que deveria ser o primeiro a dizer "não é o momento". A data é importante? Os símbolos são importantes? Sim. Mas são-no pelo que significam, não como bonecos do menino jesus ou santinhos de loiça. Proponham a troca de data. E mostrem a "nave de loucos" em que estes tipos se tornaram. Ou então vão, também, na onda. Troquem uma manifestação por esta "parade". Sejam como os outros, descabidos e irrelevantes.

Comemorações do 25 de Abril

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(Cartoon de Batista Rui)

Dificilmente se poderá falar melhor do que este cartoon. As comemorações públicas do 25 de Abril em pleno período de confinamento não são apenas um empurrão para que comecemos a sair de casa, violentando o gigantesco esforço que temos feito e que tem valido a pena. São, acima de tudo, um desrespeito por nós todos, os que realmente "ficámos em casa". É um sinal de inconsciência total do regime, do seu apartar-se do povo. Da superficialidade de quem ocupa os postos. É muito fácil dizer que quem se opõe às comemorações é contra a democracia e os seus (necessários) rituais. E é muito mais difícil pensar. Algo que é, já agora, um exercício democrático por excelência.

Eu sou ateu. Mas ocorre-me pensar que se o Papa reza (quase) só na celebração da Páscoa, se o clero em Portugal também o faz - e em articulação com o Estado, como é sabido -, a que propósito é que Sousa e Rodrigues precisam de centenas de pessoas em seu torno para um cerimonial?

São cidadãos eleitos? Falem sozinhos. Um de cada partido no friso, o PM idem. E, vá lá, um magistrado. E mostrem que são, realmente, apenas cidadãos eleitos. O resto? "Fica em casa". Isso é a democracia.

Na morte de Luís Sepúlveda

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Muito lamentável a morte de Sepúlveda. Quando se soube da sua infecção com esta maldita doença recordei que lera vários livros dele, ainda que não me tenha tornado um grande admirador. Mas é uma obra muito legível, para meu gosto. Mas não é de literatura, na qual sou leigo, que me apetece falar. Mas da impressão quando se soube da sua doença.

Foi impressionante porque em finais de Fevereiro não tinha havido casos de pessoas célebres infectadas (foi uma espécie de Klaus Nomi ou Rock Hudson aquando do SIDA). E mais ainda por ter estado em Portugal durante a incubação.

E para mim mais ainda impressionante porque ele tinha estado num encontro de escritores, o "Correntes de Escrita", local e momento de grande convívio, como tal de proximidade física. E onde esteve, como lhe já é hábito, uma pessoa muito querida. A qual, ainda que para mim continue a ser a radiosa miúda que me é sobrinha, é já uma quarentona, como tal um pouco mais atreita a esta doença do que os meus viçosos sobrinhos-netos. Preocupei-me, angustiei-me e emiti várias preces ateias. Mais chamadas imprecações.

Assim comovido notei, e recordo-o agora, a quantidade de gente que gozou com a doença de Sepúlveda. Gente do dito centro e da dita direita. Gente que passados uns tempos passou a lançar impropérios contra a dra. Graça e a ministra Temido porque não haviam tomado em atenção esta pandemia.

Doutores, funcionários públicos, ilustres franco-atiradores, gozaram (e assim também mostrando que não ligavam à doença) porque o autor era da dita esquerda. Porque tinha estado num "encontro de escritores". Porque agora "toda a gente é escritora". Porque se gasta dinheiro com escritores. E com estas festarolas. Gozaram com outros escritores que, sabendo disto, tomaram precauções (li gozos sobre Onésimo Almeida que no regresso a casa quis ser testado, e invectivas até ao Francisco José Viegas). Enfim, a habitual imunda tralha anti-intelectual tão necessário à pantomina dos que se querem afirmar "muito direita", muito "gente de bem" lá no paróquia.

Mas agora estas fezes lusas, oscilando entre os que até reconhecem mérito no Ventura e os que louvam o Pedro Passos Coelho (homem que eu aprecio, já agora), estas fezes lusas, dizia eu, passam os dias a perorar sobre o Covid e o que o governo vem fazendo.

A mãe da sobrinha que acima refiro - tal como a minha filha, que dela é sobrinha afilhada -, minha irmã, não me deixa escrever palavrões no facebook e nos blogs. Então não escrevo. Mas vós nem imaginais o que digo. Sobre esta gente. 

O Amor nos Tempos do Covid

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Há uma semana surgiu a Mordaz, revista digital criada neste período de confinamento. Ontem foi publicado o seu segundo número, dedicado ao tema do amor. Um dos seus fundadores é um amigo meu dos Olivais, com o qual já ombreei há mais de uma década num blog dedicado ao bairro, o Olivesaria. É óbvio que só um tipo dos Olivais, sítio onde germinou gente algo peculiar, é que se lembraria de convidar este ogre jpt, ainda por cima durante este eclipse, para escrever sobre o amor. Mas como é Páscoa, momento desse amor - o qual se resume a confiança, será melhor dizê-lo porque há muito boa gente que não o sabe nem assim o vive, e esta é tão necessária agora, - e também porque à malta do bairro a gente não se nega, mandei este textinho:

 

O amor nos tempos do covid:

Pai,

lembras-te?, de certeza que sim, de eu, ainda estudante, te ter dito, durante um uísque noite-longa, que a amizade era poder estar calado, naquilo do silêncio?, e de tu te teres espantado, franzido o sobrolho e, em ironia pausada, me teres doutrinado “não, isso é o amor …”?

Sempre o recordo. E mais agora, pois tantos nos enclausurámos, coisa de uma epidemia, praga vinda do oriente, que não Constantinopla, por via mediterrânica, contar-te-ei depois ... Quem nos diria, há anos, uma coisa destas? Vamos aflitos, uma gripe rude que devasta mais os velhos, os já doentes e, claro, os fumadores – eu sei, devia ter deixado, mas agora é tarde, seria só casa roubada, trancas na porta.

Hân?. Sim estou preocupado. Com a miúda, é óbvio, com a mãe – continua no lar (a “residência”, como estes burguesotes têm que dizer) -, os manos e primos, a sobrinhada toda. E os amigos, claro – estamos todos a ficar velhos, tens reparado? Comigo? Que se lixe … Digo, digo, porque não?, deixa-me lá fingir o peito feito.

Semanas atrás quem podia começou a baldar-se para o campo, a tirar os putos das escolas, estas começaram a fechar, mais rápidas as privadas, logo depois também as universidades, e o governo a negar-se. Quem lá está? O Costa, aquele da câmara. Sim, mas é o que se arranja, que queres? O Partido apoia-o, não te podes queixar. É a tua “frente popular”, não me lixes. Mas, dizia eu, quem podia fugiu e o governo lá cedeu, fez como os vizinhos, qu’isto está assim por toda a Europa, e mandou-nos para casa.

Nem todos. As cidades parecem vazias, mas há muitos a trabalhar, os da saúde, polícia e isso. O povo vai à janela à noite e bate-lhes palmas, aprenderam a festarola com o Scolari, aquele da bola. E há mais, mas esses não levam palmas. Na construção civil, em fábricas, os rurais, os biscateiros, as pequenas empresas, continuam mas muito desenfiados no casa-trabalho, trabalho-casa. O que é o que o Partido diz? Não sei, não vos leio, tu sabes. Mas reclamou que se pagassem os salários a quem parou.

Lá no meu meio? Pouco sei. Mas de longe vejo que vibram. Li uma colega a perguntar nas redes sociais se os amigos “de esquerda” e, complacente entre parêntesis, (“e os de direita”) pagam às “empregadas domésticas” enviadas para casa. E eles respondem “sim, claro” – e até que “há empregadas que são como família”. Às dezenas, ufanos! Sim, é isso, o que o Cunhal dizia “radicais pequenos-burgueses …”. Como estou eu? Na mesma, lixado, vetusto, mas isso agora já não conta.

Mas deixa-me contar a história que quero: logo que nos fechámos o pessoal começou a enviar graçolas por telefone (o email já não se usa). Dezenas diárias, das cândidas às pícaras, do plácido ao provocatório. É forma de resistência, manter o ânimo, de estarmos juntos. Mesmo os sisudos, que nunca imaginaríamos nisto. Espantoso, garanto-te.

E uma coisa soou-me. Tu lembras-te?, dantes a sograria era motivo preferido das chalaças, aquilo das sogras ogres, chatas e intrusivas. Ora agora nem uma piada dessas para amostra. Não porque os velhos estejam em risco maior, pois reina o humor negro. É mesmo porque as sogras já não fazem parte, apartadas as gerações, encostadas nas mitras d’hoje. Já não chateiam, não se intrometem, a família apertou-se, os velhos não contam.

E sabes o que ainda é mais interessante? É que de repente confinados em casa, proibidos de sair, correm imensas anedotas como se sobre “as sogras”, da chatice, da canseira com as metediças, da falta de à vontade que causam. Mas agora vêm ditas sobre as mulheres – e também sobre os maridos. Agora as Celestes (e os Antunes) são as sogras de antes, é o que é. Sabes porquê? A gente papagueia, e imenso. Tem medo do silêncio, daquele. Do amor.

(Como estou eu disso? Ah!, agora não vamos falar disso, não vale a pena. Não, não é altura. Acho que sou um sogro, se queres que te diga … Beberemos um rum sobre isso. Depois.)

Palmela, 31.3.2020

 

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