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Nenhures

Nenhures

O Brasão Dourado

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Antes de tudo quero dizer que cá em casa tenho uns bibelots iguaizinhos aos da ministra. Depois será interessante dizer que em 2015 o novo governo encontrou o país algo em alvoroço: enormes trapalhadas com os grandes bancos privados e suas algo esconsas ligações à banca pública e ao poder político, as quais devastaram as finanças estatais; o antigo primeiro-ministro acusado de crimes gravíssimos. Ainda assim o Presidente eleito era íntimo do banqueiro cerne daquele rombo financeiro e o novo governo encheu-se de antigos colegas do ex-primeiro-ministro, como se nada tivesse acontecido, entre a usual e curial presunção de inocência do réu Sócrates e a extraordinária presunção da candura generalizada da elite do PS. Nesse ambiente, mais que não fosse, seria de esperar que o poder político procurasse com denodo reforçar a confiança do país na sua justiça, ser nesse âmbito mais ainda do que "mulher de César", no hastear da bandeira da radical separação de poderes, da não intromissão governamental no reino da Justiça. Sarar, por assim dizer, as feridas de parte substancial da população, magoada com o socratismo e seus elos com Espírito Santo, descrente face à imagem da costumeira impunidade jurídica dos poderosos. Tal não veio a acontecer. E o afã em afastar (por "tradição", disse-se com impudicícia) a anterior Procuradora-Geral mostrou bem esse sentimento de desnecessidade em religar a sociedade - em afivelar a justeza do comportamento governamental -, objectivo irenista afinal tão propalado pelo presidente Sousa quando abordando temáticas mais comezinhas do que as ligações do seu íntimo Espírito Santo com o partido charneira da então "geringonça".

Entretanto o tempo longo vai passando. Espírito Santo e tantos outros seus colegas cruzam em paz os seus "anos dourados". O engenheiro Sócrates, ainda que já descrente em vir a ascender a Belém, torna-se um freguês jagoz, sem mais. Os seus antigos colegas e/ou subordinados, governam, sem qualquer rebuço. Ou seja, o regime manteve-se, impune - e até hierático, apesar do popularucho toque do seu presidente. 

Este caso do envio do procurador Guerra para a Europa é demonstrativo da soberba governamental, da cegueira face às chagas que existem, uma descrença social que não se cura com "selfies" de Sousa. O ministério da Justiça entendeu nomear Guerra, ao invés do pretendido pelas instâncias europeias - e reclama ter feito isso por acordo com órgãos corporativos nacionais. Mas para fazer essa proposta "doirou o brasão" do procurador preferido, falseou informações oficiais sobre o seu percurso. A ministra nega a relevância do facto, tudo reduz a um "lapso". Depois, decerto que pressionada, aceita a demissão do seu director-geral responsável pelos serviços que promoveram o documento falseado. Este demite-se invocando a "responsabilidade republicana", a de assumir as falhas dos serviços que dirige. E deixa referido que apresentara o tal documento à ministra antes de o enviar, que ela teve conhecimento (compreensivo, entenda-se) do seu conteúdo. 

A bofetada é gigantesca. Só menor do que a indignidade governamental. Isto até arrepia.

Adenda: o comunicado da DGPJ que explicita que o documento falsário foi do conhecimento do Gabinete da Ministra foi apagado do sítio do Ministério da Justiça. Isto é uma vergonha, patética.

O confinamento britânico e os nossos negacionistas

(BBC: Boris Johnson announces New England Lockdown)
 
Ao jantar juntou-se a família, em zoom - seria o aniversário da nossa matriarca, morta há dias. A notícia - já esperada - caiu durante o convívio: o Reino Unido entra em confinamento. Tenho sobrinhos - hoje no meu ecrã - lá imigrados. E a minha filha lá estuda e agora, aqui a meu lado, só pode lamentar todo este longuíssimo processo que lhe amputa a formação real.
 
Boris Johnson falou. Proclamou o confinamento. Referiu os seus conteúdos em traços gerais. E anunciou o vastíssimo programa de vacinação (em Fevereiro contam ter os 4 grupos prioritários já vacinados), o maior da história britânica. Ele não é, como todos saberão, um interseccionalista ou marxista cultural. Nem abordou a situação com mecanicismo restritivo.
 
Talvez que sendo Boris Johnson a assumir agora estas medidas, e este discurso, isso possa calar os patetas da direitalha, esses que julgam que ser "liberal" é contestar a dimensão desta pandemia e as medidas restritivas que esta impõe. Que lhes demonstre o quão medíocres intelectualmente vêm sendo, dia-a-dia, nestes meses. E, mais do que tudo, lhes mostre a ignomínia que é a, explícita ou implícita, campanha anti-vacina do Covid-19 que alguns - como essa Maria José Morgado, para além de punhados de patetas facebuqueiros - andam por aí fazer. Uma miserável indecência sobre a qual já botei. E à qual agora volto, apontando o dedo.
 

Vozes Negras

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Literais "vozes negras" é o must deste pré-Dia de Reis. Ou seja, tudo como antes, "ano velho" como sempre!

Resmungo-me, folheio "Eu, o Povo" de um poeta chamado Mutimati Barnabé João. Que estava completamente enganado, como tanto se mostra agora.
 
Volto ao computador e no youtube sai-me em rifa esta branquelas, loura ainda por cima, num de facto chato easy listening (só ouço coisas destas quando guio, na Smooth, onde não há anúncios nem conversas). Algo chato mas também malvado, a roubar visibilidade a quem tem o literal "direito". E fujo desta racista por desconstruir.

Debates: Gonçalves e Sousa

(Excerto do debate Gonçalves/Sousa, 3.1.2021)
 
O homem, Mayan Gonçalves, não é um orador. Mas não seja por isso, pois passamos (os mais decentes, menos socratistas e afins) a vida a resmungar com estes bem-falantes telegénicos, professores comentadores e quejandos, que assim vêm ascendendo pelo menos desde a parelha Santana-Sócrates ...
 
Enfim, o homem não é um orador, dizia eu, e é inexperiente nestas lides (magnífica qualidade, já agora). E ainda assim meteu umas boas no candidato Sousa - que ele, muito apropriadamente tratou por Senhor Presidente pois é mesmo este Presidente da República que está em causa. Decerto que por isso mesmo Sousa não foi tão gentil como o foi antes, diante da social-democrata Matias.
 
Deixemo-nos de coisas, Sousa é mesmo "o candidato dos donos disto tudo". Em particular de um deles, o molde original. Mas o povo gosta, no patético entre-"selfies", nada de novo nisso pois até já alguém um dia escreveu sobre a "Servidão Voluntária". Mas ao menos haja quem o refira.
 
Enfim, o meu voto já levava. E espero que algum amigo, um que seja, ainda indeciso, me possa acompanhar nisso.

Debates presidenciais

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Noite já longa vi em diferido o combate Ferreira/Ventura. Ferreira mal preparado, pois oscilando, como se indeciso, entre o "estilo estadista" e o "gingar morcão". Assim, e porque muito mais homogéneo na táctica da "pressão alta", e já mestre na "finta jagunça", Ventura sovou.
 
Para descansar da épica peleja segui para o confronto Matias/Sousa. Um encanto: ela gentilíssima com o professor. Este gentilíssimo com a deputada, e muito a louvando bem como ao seu BE, e também para com o aprazível moderador, que inclusive foi coadjuvando. Sousa é Sábio. Ou seja, Sousa Rules!
 
Entretanto acordei e fui ver a entrevista da ministra da Justiça na RTP, a propósito deste caso da transferência do procurador Guerra para a Europa. Um pouco abespinhada, é certo, mas coberta de razão. Pois, como culminou, o populismo germina nestas coisas, nesta forma rasteira de fazer política. Repare-se, como nos lembrou, que esta "oposição" demagogicamente foi buscar uma carta (aliás, "nota de trabalho" do seu ministério) "do ano passado". Ou seja, denuncia que se vasculhe o processo de óbvio favorecimento de uma candidatura. Porque foi ... no passado.
 

O boletim de voto das presidenciais

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Passaram 45 anos desde as primeiras eleições presidenciais nesta 2ª República - ou 3ª, que a quantificação varia consoante o "lugar" ideológico do locutor. Presume-se que os processos administrativos estejam devidamente instituídos, que a "máquina" eleitoral esteja calibrada. Sendo que antes, no Estado Novo, também havia eleições - e burocraticamente buriladas, dado que os cadernos de votantes eram muito escrutinados, peneirados por assim dizer, o que exigia sábia competência.

Ora é esta administração pública que se permite - após todas estas décadas - organizar umas eleições para a Presidência da República em que o boletim de voto terá candidato(s) fantasma(s): pois se o processo de candidatura de Ventura tem um pequeno lapso, facilmente resolúvel, já o de Mayan Gonçalves chegou pejado de erros, o que o macula - e muito, ainda para mais numa candidatura sob ideário liberal, de responsabilidade individual e colectiva. Mas o que é incrível, em termos políticos e administrativos, será a  presença no boletim de um cidadão, nada patusco pois de facto apatetado, que apresentou uma candidatura com apenas 6 assinaturas válidas. 

Isto é inaceitável. Argumenta a Comissão Nacional para as Eleições que não seria materialmente possível esperar pela aceitação definitiva das candidaturas para mandar imprimir os boletins de voto. Acredito que assim seja. Mas isso significa que os prazos foram mal delineados. 46 anos depois das primeiras eleições parlamentares, 45 após as primeiras presidenciais e de inúmeras eleições autárquicas, legislativas, europeias, presidenciais. E o Estado é incapaz de planificar de modo condigno as etapas necessárias para cumprir umas eleições presidenciais. Isto é de bradar aos céus. Um sinal escandaloso da lassidão modorrenta e incompetente da administração pública, do estado do Estado. E o que é doloroso, quase incrível se - de facto, - não fosse o habitual, é que diante de um escândalo destes nenhum alto responsável assume responsabilidades, nenhuma cadeira cai, nenhuma "cabeça" rola. Nem as pessoas se ofendem.

Nem mesmo aquelas que tanto clamam os "valores d'Abril", que não vão "mascaradas ao 25 de Abril", se indignam com este escandaloso trato de polé a uma instituição fundamental da democracia. Que indignidade. E que indignos, na sua subserviência.

80º aniversário do Capitão Haddock

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(1ª vinheta com o Capitão Haddok, no "O Caranguejo das Tenazes de Ouro").

Importantíssima efeméride: cumprem-se hoje 80 anos sobre a primeira aparição do Capitão Haddock, então comandante do cargueiro "Karaboudjan", e sequestrado pelo seu pérfido imediato, Allan, e pelo seu imoderado apreço pelo Loch Lomond. Trata-se de "O Caranguejo das Tenazes de Ouro", apresentado na revista "Le Soir Jeunesse", e Haddock surgiu na edição de 2 de Janeiro de 1941.

Viva Haddock! Haddock Sempre!

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(As pranchas iniciais com o Capitão Haddock).


As passas do Ano Novo

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Cá em casa - pois sob "recolher obrigatório" - o banquete ritual não sendo opíparo saciou-nos a contento. O vinho agradou (e sobrou), o uísque novo foi o canónico e a aguardente descansou. O convívio foi excelso, meus velhos amigos de diferentes continentes e amiga recente. E a minha princesa. Tudo dentro da lei - pois aqui não entram negacionistas.

Naquela hora mesmo comi as passas, pedindo os desejos, coisa que antes terei feito apenas em menino (se é que o fiz). Envelheço, está visto. Peço rápidas vacinas para todos, saúde para os meus. Paz no mundo, qual miss - ou seja, paz no Cabo Delgado e que tudo corra bem na RCA (um grande abraço para ti, Zé). Mais um gole do sacramental Famous. E concedo-me um último desejo/pedido: que o Sporting seja campeão, que merecida festa seria.

E nada mais peço, pois tudo o mais seriam comezinhas utopias. Impossíveis. Pois não se podem mudar os compatriotas.

Carlos do Carmo

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Para além do calendário a vida não pára. Ou seja, a morte não pára. A assim abrir o ano. No cantor-fadista sempre senti uma sisudez composta que me desencantava. Mas tanto lembro, eu nos 16 ou 17, do espanto de o ver - na "Avante" ao Alto da Ajuda - a cantar esta Valsa assombrosa. Arrebatador!
 
(Carlos do Carmo, La Valse à Mille Temps, 1980)
 
E horas depois, já em casa, "Pai, que achaste daquilo?". E ele, camarada, "Não é o Brel!... Mas foi muito bom, muito bom". E foi.

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

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