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Nenhures

Nenhures

Jorge de Sena em Moçambique

Em época da comemoração do centenário do seu nascimento descubro esta entrevista de Jorge de Sena. É um momento magnífico (entre os 10 minutos e a 1 hora e 43 minutos desta gravação). E tem a particularidade de ter sido gravada (e censurada, pois só foi emitida em 2010) em Moçambique na viagem que Sena fez em 1972. Quando contactou com as gentes da extraordinária "Caliban", e também visitou a Ilha e a partir dela escreveu. Mas o que tornará o documento ainda mais interessante para alguns que aqui passarão é o ser uma entrevista feita por Leite de Vasconcelos, homem tão importante na imprensa em Moçambique. O qual ainda conheci, brevemente, pois pouco antes da sua morte, por gentil iniciativa do Camilo de Sousa e da Isabel de Noronha.

(Deixei aqui um pequeno apontamento dedicado aos livros de Leite de Vasconcelos)

João Paulo Borges Coelho, uma tradução em castelhano

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Devagar, demasiadíssimo devagar para o que realmente valem, os livros de João Paulo Borges Coelho vão sendo traduzidos. Agora vejo uma edição em castelhano do seu imperdível "Crónica da Rua 513.2", publicada na Colômbia. Que encontre leitores e que outras traduções se sucedam. (E que os meus patrícios, submersos entre tantos livros "novidades", encontrem alma e ritmo para lerem este olhar único, bem para além do nosso pequeno tempo).

Os "pequenos partidos" na Assembleia de República

Notícia interessante: os partidos tradicionais da esquerda recusam conceder aos novos 3 partidos parlamentares tempo para participação nos debates. Mas na anterior legislatura concederam-no ao ecologista PAN, abrindo excepção aos regulamentos (ditos "regimento"). Foram então magnânimos, assim se sentiram. Não o querem ser agora, porventura porque não se defrontam com uma novidade paladina de "cães e gatos" mas sim com 3 afrontas ideológicas ao status quo. Mas isso, essa atitude discricionária de quem assim tanto mostra que se sente proprietário daquela casa, pouco vingará.

O relevante é que a anterior legislatura (4 anos) funcionou com uma excepção aos regulamentos, considerada aceitável e legítima. Mas mesmo assim os partidos - até o PAN, que beneficou dessa "magnanimidade", qual mimoso "pet" - não modificaram esses regulamentos. E que o Presidente da Assembleia, que agora surge como se voz avisada, não induziu essa alteração nem clamou publicamente pela sua necessidade.

Andaram os partidos e andou Ferro Rodrigues "a dormir na forma", como se diz no dialecto castrense? Ou, pelo contrário, bem despertos, a deixar "correr o marfim" para manterem o controlo, "corporativo", da casa de todos nós por vias da "pessoalização" hierarquizada das decisões? Aquilo do paradigma do favorzito nas decisões públicas, neste caso o tempo para falar no plenário, noutros aquilo que tanto se sabe? Pois esse é o paradigma dominante, "regimentos" frágeis, maleáveis ou contornáveis, decisões "magnânimas", "atençõezinhas", ou seja, "leis não aplicáveis literalmente" como defende Santos Silva?. Escolha-se a opção.

Ferro Rodrigues tem razão, agora paladino da equidade? Nada disso, quatro anos de silêncio é o que se lhe deve cobrar. Tarde piou, é o que cumpre dizer.

O derrube do Muro de Berlim

 

(After the Berlin Wall, um documentário da DW)

30 anos passaram sobre esta enorme festa, tanto tempo já passado a mostrar como a vida corre. Crescer com "vizinhos" daqueles, aquele horror, foi uma experiência ... A sua queda foi era de Júbilo.

(Ainda há quem tenha a desvergonha, pois já não é a ignorância que então alguns ainda tinham, de negar o tenebroso daquilo. Que gente ...)

O aeroporto do Montijo?

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Este do Tim Curry é um dos ícones da minha adolescência (sim, eu sou "tóxico", mas cresci nos 1970s ...). E muito me tenho lembrado dele nestes últimos dias. A propósito destes direitinhas, uns mui liberais, outros algo Chegas, até Cêdêésses, uma nesga envergonhada deles psd não-Rio, que andam há um ano a gritar contra a Greta, a bufar contra os "marxistas culturais" do aquecimento global, a clamarem contra a cabala dos cientistas, a espumarem e flatularem "no pasa nada" no ambiente, etc. e tal.

E agora surgem, de repente, travestidos sem a onda do Tim Curry, mesmo quais prostitutos de rua barata, carregadinhos de doenças sexualmente transmissíveis, a protestar contra a perfídia, incompetência e malandrice dos socialistas, pois estes prontos, ao que parece, para decidirem por um aeroporto num Montijo que será, afinal, dizem estes malandretes, ... inundável pelos efeitos do aquecimento global.

Alguém chama a "ramona", a por ordem no beco infecto, a meter estes burguesotes histéricos na choldra? Só até amanhã, a ver se se acalmam ... que a gritaria não deixa dormir a vizinhança.

Brasil

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Gosto do Brasil. Não imoderadamente. Sou patriota (sim, tão fora de moda para os identitaristas marxistas, que reificam todas as identidades menos as ... nacionais, se estas independentes). Adoro Moçambique ("juro, sinceramente, palavra de honra, vou morrer assim ..."). E gosto mesmo de Gales, da África do Sul, etc. Sofro bósnio, em particular herzegovino. Tenho agora um romance serôdio com a Bélgica. Mas, nisto, gosto do Brasil, também. Bloguei mais de uma década com uma epígrafe do genial, conciso mas genial, Raduan Nassar. Tremo com Milton. Machado de Assis é o maior no nosso linguajar. Ou seja, não conheço o país, não estou actualizado na ficção (Hatoum é muito simpático), não lhe leio a antropologia (coisas cá minhas, a cada um os seus rumos), desconheço a poesia, ensaios nem sei. Jornais, tv? Era o que faltava ... Tanto mundo por aí, tanta África Austral. Aquele não é o meu hemisfério de atenção. Mas tenho afecto.

Vem a isto a propósito de que o anterior presidente foi agora desencarcerado. Não sei ajuizar da sua presidência, não sei nem quero ajuizar da justiça com que o tratam. Torço o nariz ao actual presidente. Mas deste anterior pouco sei, nada "acho". Mas vejo-o comemorar. Diz ao povo que tem 74 anos mas 30 em energia, anunciando-se como candidatável a postos relevantes. E junta-lhe que tem também 20 em termos de disponibilidade eréctil ("tesão").

É o resumo do país? Infelizmente dá-me a sensação que sim. Enfim, brasileiro ou português, viva Haddock
 
 
 
 
 

Dia dos Mortos

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Muitos se indignam com o Dia das Bruxas de ontem, invectivando que não é tradição daqui. Mas hoje comemoram (nem que seja por fazerem feriado) o dia de Todos os Santos, e a esta tradição não a protestam estrangeira. E amanhã comemora-se o Dia dos Mortos (aliás Finados), e também ninguém critica, julgando-o uma tradição daqui oriunda. Muito cultos vão estes censores.

Enfim, nestes dias dedicados aos feiticeiros, aos mortos ilustres e aos mortos vulgares, aqui deixo a música apropriada à quadra festiva. Em versão madura e excelente. Assim digna. Pois o mal e a morte vêm "sem quartel". Comemore-se isso, sinal da vida.

 

(Page & Plant, 25.3.1998, concerto em Londres)

Postal ilustrado para a Vera (1): o corredor

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Passou já um quarto de século! Em 1994 trabalhei uns meses na preparação das eleições na África do Sul, aquelas nas quais Mandela e o ANC ascenderam ao poder. Foi o histórico e esfuziante fim do apartheid. E para nós, estrangeiros, também sublinhava a época, essa da crença num futuro ainda assim melhor, o da imperfeição democrática, derrubados que haviam sido os fascismos sul-americanos e os comunismos europeus, chegados os BRICS asiáticos mais desempoeirados e abanadas as ditaduras africanas, naquilo do "ajustamento estrutural", não tão santo assim, mas isso só o viríamos a perceber depois ...

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Integrei um pequeno grupo de observadores colocado no Cabo Oriental, num corredor a que então chamavam "Border", encastrado entre os bantustões Ciskei e Transkei, nominalmente independentes, um naco de terra fértil, coroado com a maravilhosa Hogsback, da qual se diz ter Tolkien retirado inspiração para criar o seu universo ficcional, e culminado com East London, rica cidade pois melhor porto índico do país. Entre o pequeno grupo de colegas logo a maioria se acomodou naquela plácida cidade, congregando-se numa até modorrenta sucessão de visitas às actividades pré-eleitorais decorridas nas suas imediatas ... imediações. E, sendo franco, pois tanto tempo já passado, na fruição das aprazíveis instalações de veraneio que East London tinha.

Nestas missões trabalha-se em pares. Tive a sorte de me ter calhado como parceiro um enérgico francês, vindo de uma missão de dois anos na guerra na Jugoslávia, na qual trabalhara para a Cruz Vermelha. D. e eu logo fizemos para nos baldarmos a esse remanso, tão desejado pelos tais colegas. Assim, e para contentamento de toda a equipa, ficámos encarregues de acompanhar o que se passava nas "townships" circundantes, e também no Ciskei e no sul do Transkei. As distâncias eram grandes, as jornadas decorriam em ritmo frenético. A experiência foi fabulosa.

Éramos jovens, bebíamos muito, dormíamos quase nada.  Deitávamo-nos tardíssimo, madrugávamos de noite, mata-bichávamos bifes tártaros, com o ovo cru, e partíamos no nosso pequeno VW Citi 1800, voando até, pois isentos de limites de velocidade por sermos observadores eleitorais. Lembro-me de dizer a D. ser ele o homem em quem mais confiava no mundo, pois adormecia no "lugar do morto" a mais de 180 kms/h naquele carrito. Pois se eu guiava depressa, ele fazia-o ainda mais. Assim, e sem exagero, "íamos a todas".

Assistíamos a reuniões políticas, era essa a nossa função, o de "mostrar a bandeira", a da U.E., nisso a todos confirmando estar a "comunidade internacional" presente, para assegurar uma eleição "livre e justa", sem incidentes nem violências. Foram centenas naqueles trepidantes três meses: vi Mandela no Ciskei, um dia maravilhoso, Mbeki e Ramaphosa, os dois anunciados vices, FW, Winnie - que mulher!, que carisma ... Holomisa, o homem do Transkei, e a queda de Gkozo, o homem do Ciskei (bloguei pequenas memórias disso aqui). E imensas outras, pequenas, de cariz local. A logística era sempre igual: na véspera sabíamos as reuniões (comícios ou afins - ninguém dizia "arruada" naquele tempo) previstas e seguíamos desde a madrugada. À chegada éramos aguardados por "comités locais de paz", gente de organizações não-governamentais que nos enquadravam, tanto para questões da nossa segurança como para nos servirem de intérpretes. Claro, nem sempre existiam esses "comités", mas sempre alguém nos acolhia.

Nessas manifestações as únicas verdadeiramente difíceis eram as do Pan-African Congress. Histórico movimento de resistência anti-colonos e anti-apartheid, o partido estava então submerso à enorme vaga Mandela/ANC, como os resultados eleitorais vieram a mostrar. Tratava-se de um partido m-l radicalizadíssimo, profundamente racista e, ainda que na época isso não fosse assunto de agenda, visceralmente homofóbico  - sob a tese muito espalhada de que a homossexualidade é excêntrica aos africanos, entenda-se pretos, e uma maleita dos brancos, a extirpar. Os seus comícios, nos quais nunca havia qualquer "comité" de acompanhamento, decorriam nas paupérrimas "townships" e nos tétricos "informal settlements", tinham sempre escassos participantes, estes nada amistosos, para não dizer mais, com os brancos estrangeiros que ali apareciam. O partido tinha dois motes muito peculiares: mantinha o cântico/slogan "one settler, one bullet", a convocatória ao assassinato de todos os brancos no território, o que nos fazia algo desconfortáveis, e defendia a mudança do nome do país para Azânia. Enfim, se visitar sozinhos essas paupérrimas áreas residenciais era já bastante enervante, tanto nos avisavam dos perigos que corríamos e nos desaconselhavam a fazê-lo, entrar naqueles comícios e enfrentar a rudeza dos aglomerados era algo custoso. Íamos, dávamos uma volta, mostrávamos que ali estávamos, calculávamos os participantes e outros itens requeridos para os relatórios, e logo partíamos, sempre bastante desconfortados. Para não dizer outra coisa.

Os meses passaram, as eleições correram, o PAC teve um resultado ínfimo. Mandela chegou ao poder. Após a contagem dos votos parti dali, fiz a Garden Route pela minha primeira vez e cheguei ao Cabo ainda a tempo de acompanhar o seu empossamento como Presidente da África do Sul. Glorioso momento.

Logo voltei a Portugal. Dois dias depois de chegar fui à universidade, pois estava então a fazer um mestrado e a preparar a minha partida para Moçambique para trabalho de campo, o qual adiara exactamente por causa desta missão. Logo no corredor de entrada encontrei um professor, homem conhecido e cidadão activista. De modo simpático, até enfático, dirigiu-se-me e disse "Flávio (que era o meu nome de escola), soube que estiveste na Azânia!". E lembro-me exactamente do que pensei: "Fogo, branco e homossexual eras o primeiro" (a ser abatido, entenda-se). Mas é óbvio que não lhe disse isso, para quê? Apenas lhe respondi "Não, estive na África do Sul ...". E segui à minha vida.

***

Vera, minha querida amiga, e até co-bloguista, partilho contigo esta mera historieta, e já tão antiga, que me veio agora à memória. Decerto que pelos dias que correm e algumas pessoas que discorrem. Não tu, que assim fosse nunca o faria deste modo público e até enviesado. Esta história não me serve de trampolim para tentar compreender a tão complexa África do Sul, nem fenómenos como Malema, as lutas de poder no país, o historial da propriedade fundiária ali ou nos países vizinhos, ou tantos outros assuntos, e muito menos para a decalcar para o resto do mundo. É mesmo só uma memória pessoal, talvez pouco significante. Mas partilho-a contigo, agora, um quarto de século passado, porque me ocorre algo bem diverso: é óbvio que se podem tirar as pessoas do corredor. Mas a algumas pessoas não se lhes tira o corredor. Pois este é muito confortável.

Beijos, bom campo ...

A demagogia

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Leio num jornal que provavelmente a actual ministra da justiça sairá do governo e irá para o Tribunal Constitucional, sendo previsível que passará a presidi-lo daqui a algum tempo.

Entretanto, nestes últimos dias, continuo a ler um enorme chorrilho de patacoadas sobre o extraordinário significado da ascensão ao parlamento de gentes oriundas do bloguismo mais demagógico do início dos 2000s. Uma verdadeira orgia de jargão, um frenesim orgástico. E, espertalhões que são, as pessoas dão-lhes atenção. 

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