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Nenhures

Nenhures

A Torres Vedras de Nuno Rebelo

Esta atividade integra o programa Emergência Cultural Torres Vedras 2020, organizado pelo Teatro-Cine de Torres Vedras, nisso cruzando esta era Covid-19. 

É um trabalho do Nuno Rebelo (Texto, video, música, sonoplastia e grafismo) - que alguns conhecerão por via do grupo musical Mler Ife Dada - em colaboração com o seu filho Igor Brncic Rebelo (voz e desenhos). Diz o Nuno: "Agora mesmo é aqui que estou é um vídeo autobiográfico da minha vida em Torres, onde nasci em 1960 e onde vivi até 1975. Faço-o a partir dos meus atuais 59 anos e do sítio em que me encontro, confinado como todos por causa do vírus, no meu caso em Barcelona."

É uma pérola. Rara. Linda. Que me encantou. Vede, que decerto gostareis.

 

Dia da Argentina

Verano Porteno -9- ASTOR PIAZZOLLA y su Quinteto Tango Nuevo -live in Utrecht (1984)

Hoje, 25 de Maio, é o dia da Argentina. E o de África (aquela que não é um país). E é também o aniversário da minha filha, que chega agora mesmo à maioridade. Que a banda sonora da vida lhe seja bela.

Dois meses confinados: rescaldo

(Lou Reed Live, "Vicious")

Daqui a pouco, a 13.5, cumprirei dois meses confinado aquém-Tejo, em magnífica companhia anfitriã. Quero partilhar alguns momentos cruciais deste excêntrico período:

1. Tenho 55 anos e está a tocar, bem alto, o cd "Lou Reed Live".

2. Estreei-me no focinho do porco e nas caras de bacalhau. A minha ética e o meu palato aprovaram.

3. Passei imenso tempo com a minha filha. Julguei que ser pai é a melhor coisa do mundo. Mas agora mesmo, a propósito de um desgraçado filicídio, aprendi na facebookpedia, com doutos lentes, que a família é um mero e vil mito afectivo que, sob tutela do Estado capitalista, reproduz as (exploratórias) diferenças sociais. Voltei a 1983, àquele inicial ISCTE. E duvido se não há gente confinada desde então ...

4. Perdi o meu nome: (ex?)amigos, da geração dos assistentes dos reedfeet dos 80s, desnomearam-me quando me irritei com a ignomínia de me dizerem culpado pela disseminação do Covid-19 em Moçambique. E que pagasse por isso. Falando sem rebuço? Brancos a comprarem o espaço que ninguém lhes vende. Eu estou numa quinta, cuspo para o chão ... (é para ti, Isabel, que eu não desnomeio as pessoas).

5. O vil dr Vitor Gaspar passou 850 milhões de euros ao banco do amigo do prof. Cavaco Silva e o dr. Passos Coelho fingiu que nada sabia disso. Nós, na esquerda, manifestámo-nos contra este neoliberalismo.

6. Os liberais (que significa "fascistas" no linguajar actual dos académicos da esquerda) suecos, bielorussos, nicaraguenses e brasileiros, não confinaram a população.

7. A economia portuguesa desde os 1960s que não estava tão bem, segundo um mandarim (és tu, João, e eu estou numa quinta, escarro para o chão).

8. O Queen Margot não aumentou de preço e a cerveja do Lidl é bebível se bem gelada.

9. A "Vicious" ainda mexe comigo ...

10. Um dia destes desconfinar-me-ei. A ver se chegado além-Tejo não me deparo logo com um mandarim.

O amor não é um labor

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Hoje publica-se o nº 4 da revista "Mordaz", dedicado ao tema "Trabalho". Aqui partilho o meu texto que lá vem incluído:

 

O Amor não é um Labor

São Martinho do Porto, verão frio como sempre, é sábado, eu no quarto, já não no tempo de Verne ou Salgari pois agora de “Vampiro”s, ouço o transístor vermelho minha companhia e, na tarde desportiva, Orlando Dias Agudo promete grande notícia para dali a uma hora, e logo caio no alvoroço, será o rumor verdade?..., e depois vem o júbilo!, sim, o Senhor João Rocha resgatava Rui Jordão, salvaguardando-o em Alvalade, e eu adoro-o, ao Rui Manuel Trindade Jordão, paixão ganha, traição minha, no 3-5 d’antes, no jogo em que Jázalde, Hector Casimiro Yazalde, dito Chirola, casado com Carmizé, marcou cabeceando junto à relva, mas ali Jordão, então feiticeiro do Benfica, enfeitiçara(-me), ainda que em magnífico ano de campeões, esses que sei de cor, Damas, Manaca, Alhinho, Bastos, Carlos Pereira, Vagner, Nelson, Baltazar, Marinho, o tal imenso Jázalde, Dinis, os quais bateram o Porto no 16 de Março, jogo transmitido em diferido ao fim da tarde, coisa tão rara, devido a não sei o que se passou nas Caldas, mas que não pude ver, maldição, pois a minha mana parira e obrigaram-me a visitá-la, como não vi ali o tal seguinte 3-5, esse de quando o estádio todo, sem clubismos, se levantou a saudar Marcelo, o “tio” deste, mas, logo depois, também ao Chirola e ao Jordão, e não os vi porque o meu pai nunca foi de bola, nem lá ia, nem os meus irmãos, queques da vela e do “rugby”, e sozinho me ganhei sportinguista na 1ª classe, ano de opções em ecrã preto-e-branco, no Barça 4-Valência 3 e assim até ao Futre, no Arsenal 3 (2 golos do Charlie George, cabelo à Beatles)-Leeds 2, lá nas taças deles e, na nossa, num 4-1 ao Benfica, com o King, como o conheci décadas depois, a marcar, e nós (sim, naquele exacto durante fiquei “nós”) com Damas na baliza. Vítor Damas, eu quero ser assim homem como ele, e ainda disso não desisti, no campo mas mais até cá fora, como se barbeia, com Palmolive, e aquela voz, cava, e com ele aprenderei, e não na tropa, a fazer o nó da gravata, naquele algo descaída,

e por tudo isso sigo Agostinho na França, meu pai dando-me dinheiro para comprar “A Bola” para lhe ler as aventuras, ele gigante batendo-se com Ocaña, Merckx, Thevenet, até trepando mais que Van Impe, Tourmalets acima, “Tinô!”, “Tinô!”, por lá o cantavam, ao nosso herói, poderia lá eu então perceber o quanto o era de facto, até, bem depois, se morrer numa coisa menor, e nós a esperá-lo, em esquife, na volta ao José de Alvalade, devastado como nunca vi, e seguindo para o túmulo em estrada recoberta pelo nosso povo, num silêncio pesado como nunca ouvi, ledes a minha ainda dor disto?,

por isso segunda-feira me baldei às aulas, subi ao aeroporto, junto ao Luís, azarado pois corcunda, nem corria nem nunca correria, merda de vida estará a ter se ainda a tem, a acolher os campeões Aniceto Simões, o barbudo, Carlos Cabral, Mamede e Lopes, o gigante, por quem Mariano Haro, o às espanhol, esperara quando ele caíra na lama, caval(h)eiro como já não havia, ao invés do bárbaro Lá-ce Viren, o maldito, o dopado que tanta dor causou até ao nosso Lopes daquela maratona olímpica, majestoso, correndo pujante, erecto, nada como os desengonçados que vieram a mandar, “vai Lopes!”, “vai, campeão!”, na angústia até às lágrimas mesmo, mas também venerando Mamede, intuindo-o Príamo d’agora, semi-divino nas suas dúvidas e fraquezas, assim vero herói, pois falho como todos, como eu, que nem sequer cheguei ao topo …,

esse topo de Livramento, o mago, eu miúdo no pavilhão, esfuziante com Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e … Livramento, e o triunfo contra os inimigos espanhóis, então únicos, e depois obrigado a crescer, e nesse fervor descer às casas de bilhar, tão saudosas, SG Filtro e bejecas adornando-me da linhagem do Theriaga, que é nosso, e nessa névoa amando Big Mal, o do maior exemplo, pois champanhe, mulheres, charutos, jogo e … vitórias, rock n’roll para os nossos ouvidos, e nisto a vida escorreu, lesta, eu desapercebido disso, e o milénio acabou, fez-me largo trintão e só lembro na tv lá em Maputo de um autocarro estrada afora noite adentro, na via do Salgueiros a Alvalade, e a minha mulher, até surpresa, “andaste dias com um sorriso parvo” …

e há pouco, já cá, em casa do mano Bill num jogo qualquer, Benfica, Europa, sei lá, e mesmo no fim o tal golo de sempre, a derrota, claro, e após o belo manjar que ali é sempre, indo para o carro, a minha filha já adolescente resmunga “é sempre a mesma coisa, perdemos no fim”, e respondo-lhe “não é importante”, e ela devolve-me “ mas é uma chatice”. Sorrio e insisto “não é importante” e avante … Não lho disse, digo-lhe agora, se ela me ler, que não é importante pois não tem causa, nem razão, nem ganhos. É (como o) amor. Mas sem divórcio. Um arquétipo. E não um labor.

Liberdade?

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O número 3 da revista digital "Mordaz" foi ontem publicado. Está disponível aqui (gratuita, sem publicidades agarradas). Aqui partilho o texto que lá publiquei.

Liberdade?

Durante muito tempo vivi longe. Conheci gente. Alguma de mim gostou, outra nem tanto. Um desses homens não me deu simpatia ou ser-lhe-ia eu indiferente. Vivia de escrever. Um dia mataram-no. Ele tinha um colega, qual concorrente. Esse gostava de mim, e partilhávamos uns uísques noctívagos. Meses antes, em deriva madrugadora, encomendara-lhe cautela com o que botava. Indignou-se, de vozear e perdigoto, como se eu ali censor. Recuei e, por carinho, resmunguei-lhe que pelo menos não guardasse informação, afixando o “nada na manga”. Nem me respondeu, só levantou o queixo em esgar. “Tuga”, terá pensado. Mas pelo menos não mo disse, e isso valeu. No funeral grassava o medo. Denso. Três conhecidos pediram refúgio em minha casa, qual asilo. Anuí, mas lembrando não ser porto seguro. Outrem fez o elogio fúnebre, belo, qual pegando no facho. A meu lado alguém murmurou “ele está a fazer para ser o próximo”. Findo o discurso cruzou-me e disse-lhe “calma, ninguém está seguro…” e ele replicou, cavo, “queres que me cale, Zé?” assim calando-me. Esta era gente do mesmo partido, que cruzara tétrica guerra civil, enormes mudanças, e vivia ríspidas eleições entre os velhos inimigos. Um jornalista, que então já não estava, até ao fim batalhara e batera, até nos seus próprios correligionários, apontando políticos e polícias, estrangeiros e nacionais. Sarcástico, escrevera um “cabricionário”, dicionário do cabritismo, aquilo de “o cabrito come onde está amarrado”, que alguns dizem africano mas é universal. Outro passou anos enfrentando aleivosias do seu partido e dos outros. Prometera clamar “até ficar rouco” e amigos picavam-no, dizendo-o na senda de mártir, ao que ele casquinava. Continuou para além de rouco, já só com um fio de voz, até à sua última semana.

Eu era professor. Então, como acontece nas universidades, a geração do meio empurrava a mais velha. Mas ali e então tudo tinha um tom político. O café do campus era à frente do meu gabinete. Nas mesas as polémicas viviam-se, com críticas magoadas aos poderes. Estrangeiro e jovem estava sem ser parte. E notava os engravatados fatos azuis nas mesas vizinhas. Meneava para os sinalizar e aqueles mais-velhos, gente também do mesmo partido, mas sem locais de recuo, outros ofícios ou riquezas, só professores, encolhiam os ombros. Alguns, a velha guarda mesmo, elevavam a voz. Para que os esbirros não perdessem pitada.

Anos passaram. Escritores foram até ao osso, explícitos ou em subtexto, seguindo os passos do poeta que para isso, convocando os plácidos citrinos, reinventara a literatura do seu país. Investigadores vasculharam, e por isso foram ameaçados. Suportaram o que puderam, e alguns partiram para sabáticas involuntárias ou para outras vivências. Um dia, à saída do café que frequentava, um colega jurista foi morto. Depois um politólogo foi raptado e, avisado de ordens para não o matarem, dispararam-lhe sobre as pernas. A outro raptado iam-no matar decepando-lhe as pernas mas os assassinos fugiram à chegada da população. Todos por terem opinado livremente na tv. E refiro apenas quem conheci. Os sobreviventes continuam, como outros, investigadores, professores, jornalistas, a trabalhar, a criticar. E muitos deles com vínculo afectivo ao partido do poder. E, note-se, num país onde o Estado tem enorme peso na redistribuição, directa ou indirecta, dos recursos.

Cinquentão, voltei a Portugal. País temperado, seguro, pouco crime e nada de violência política, nem da vigilância abrasiva e das ameaças soezes. Afinal democracia já instituída, sinal do envelhecimento da minha geração. E conflitualidade tépida entre linhas políticas, nada do abrasivo a que vinha habituado, pois enormes linhas de consenso real entre os grandes partidos. E grande homogeneidade na população, bem diversa do mosaico que conheci, passível de exacerbar conflitos. E sim, o Estado muito influencia na distribuição de recursos, através de empregos, subsídios, etc. Mas bastantes empregadores alternativos.

Uma coisa me espanta. Não encontro quem bote em público criticando o seu pequeno partido, o seu “nós”. Reina a defesa a todo custo, o pobre catenaccio político. Gente tão diferente, tão mais escassa do que alhures.

Liberdade? Sim, decerto. Mas tão fraca gente.

O Amor nos Tempos do Covid

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Há uma semana surgiu a Mordaz, revista digital criada neste período de confinamento. Ontem foi publicado o seu segundo número, dedicado ao tema do amor. Um dos seus fundadores é um amigo meu dos Olivais, com o qual já ombreei há mais de uma década num blog dedicado ao bairro, o Olivesaria. É óbvio que só um tipo dos Olivais, sítio onde germinou gente algo peculiar, é que se lembraria de convidar este ogre jpt, ainda por cima durante este eclipse, para escrever sobre o amor. Mas como é Páscoa, momento desse amor - o qual se resume a confiança, será melhor dizê-lo porque há muito boa gente que não o sabe nem assim o vive, e esta é tão necessária agora, - e também porque à malta do bairro a gente não se nega, mandei este textinho:

 

O amor nos tempos do covid:

Pai,

lembras-te?, de certeza que sim, de eu, ainda estudante, te ter dito, durante um uísque noite-longa, que a amizade era poder estar calado, naquilo do silêncio?, e de tu te teres espantado, franzido o sobrolho e, em ironia pausada, me teres doutrinado “não, isso é o amor …”?

Sempre o recordo. E mais agora, pois tantos nos enclausurámos, coisa de uma epidemia, praga vinda do oriente, que não Constantinopla, por via mediterrânica, contar-te-ei depois ... Quem nos diria, há anos, uma coisa destas? Vamos aflitos, uma gripe rude que devasta mais os velhos, os já doentes e, claro, os fumadores – eu sei, devia ter deixado, mas agora é tarde, seria só casa roubada, trancas na porta.

Hân?. Sim estou preocupado. Com a miúda, é óbvio, com a mãe – continua no lar (a “residência”, como estes burguesotes têm que dizer) -, os manos e primos, a sobrinhada toda. E os amigos, claro – estamos todos a ficar velhos, tens reparado? Comigo? Que se lixe … Digo, digo, porque não?, deixa-me lá fingir o peito feito.

Semanas atrás quem podia começou a baldar-se para o campo, a tirar os putos das escolas, estas começaram a fechar, mais rápidas as privadas, logo depois também as universidades, e o governo a negar-se. Quem lá está? O Costa, aquele da câmara. Sim, mas é o que se arranja, que queres? O Partido apoia-o, não te podes queixar. É a tua “frente popular”, não me lixes. Mas, dizia eu, quem podia fugiu e o governo lá cedeu, fez como os vizinhos, qu’isto está assim por toda a Europa, e mandou-nos para casa.

Nem todos. As cidades parecem vazias, mas há muitos a trabalhar, os da saúde, polícia e isso. O povo vai à janela à noite e bate-lhes palmas, aprenderam a festarola com o Scolari, aquele da bola. E há mais, mas esses não levam palmas. Na construção civil, em fábricas, os rurais, os biscateiros, as pequenas empresas, continuam mas muito desenfiados no casa-trabalho, trabalho-casa. O que é o que o Partido diz? Não sei, não vos leio, tu sabes. Mas reclamou que se pagassem os salários a quem parou.

Lá no meu meio? Pouco sei. Mas de longe vejo que vibram. Li uma colega a perguntar nas redes sociais se os amigos “de esquerda” e, complacente entre parêntesis, (“e os de direita”) pagam às “empregadas domésticas” enviadas para casa. E eles respondem “sim, claro” – e até que “há empregadas que são como família”. Às dezenas, ufanos! Sim, é isso, o que o Cunhal dizia “radicais pequenos-burgueses …”. Como estou eu? Na mesma, lixado, vetusto, mas isso agora já não conta.

Mas deixa-me contar a história que quero: logo que nos fechámos o pessoal começou a enviar graçolas por telefone (o email já não se usa). Dezenas diárias, das cândidas às pícaras, do plácido ao provocatório. É forma de resistência, manter o ânimo, de estarmos juntos. Mesmo os sisudos, que nunca imaginaríamos nisto. Espantoso, garanto-te.

E uma coisa soou-me. Tu lembras-te?, dantes a sograria era motivo preferido das chalaças, aquilo das sogras ogres, chatas e intrusivas. Ora agora nem uma piada dessas para amostra. Não porque os velhos estejam em risco maior, pois reina o humor negro. É mesmo porque as sogras já não fazem parte, apartadas as gerações, encostadas nas mitras d’hoje. Já não chateiam, não se intrometem, a família apertou-se, os velhos não contam.

E sabes o que ainda é mais interessante? É que de repente confinados em casa, proibidos de sair, correm imensas anedotas como se sobre “as sogras”, da chatice, da canseira com as metediças, da falta de à vontade que causam. Mas agora vêm ditas sobre as mulheres – e também sobre os maridos. Agora as Celestes (e os Antunes) são as sogras de antes, é o que é. Sabes porquê? A gente papagueia, e imenso. Tem medo do silêncio, daquele. Do amor.

(Como estou eu disso? Ah!, agora não vamos falar disso, não vale a pena. Não, não é altura. Acho que sou um sogro, se queres que te diga … Beberemos um rum sobre isso. Depois.)

Palmela, 31.3.2020

 

Uma década

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(Lago Niassa, fotografia feita no Nkwichi Lodge, 6.4.2010)

Meus queridos amigos,

Até cruel, de cego que é, este sistema FB. A lembrar-me que há exactamente dez anos estava com a família em magníficas férias no Lago Niassa, numa maravilhosa reserva natural (hoje em perigo de descontinuação) lá quase perto de Cobué.

Uma década!, como imaginaria tamanha mudança, este outro Algures e deste modo, enclausurado? O rumo não foi o esperado, pois um tipo sempre crente, optimista, até sonhador, por mais que encene o pessimismo antropológico. Mas não me posso queixar, pois a princesa aqui ao lado, a salvo, acoitados em nicho de amizade e carinho. Com ar livre. Cães e ar livre ... E por enquanto sigo isento (ou assintomático) de maleitas, desta inédita ou das outras recorrentes, tão ou mais devastadoras.

Uma década! De perdas dolorosas. O meu pai. O amado presépio. Alguns amigos muito queridos, desses que são arquivo e mesmo bússolas. Um punhado de conhecidos, verdadeira paisagem reconfortante porque fértil. Até, um pouco, o Sul (ou o norte, como os cosmógrafos disseram). Nada de espantar, isto é o envelhecer, nada mais do que isso.

Uma década! Onde envelheço? Do Brasil amigo pede-me um texto sobre o covid no meu Algures. Tento-o e desisto. Pois, onde é o meu Algures, Omar? Há já dias que Bitches Brew toca, auto-repetindo-se. É um sítio, sim. E não é aquele Lago, de há uma década, isso é óbvio. Mas, e só nas últimas horas, falo com queridos durienses, transtejianos, um bruxellois, maputenses e no Cabo Delgado. Sobre os mesmos assuntos. Então, e neste cruzar, onde é o meu Algures?

Um companheiro atira-me "como estás, velho resmungão?". Sê-lo-ei, "resmungão"?, pois velho é certo que já vou. Ontem li uma amiga, com vínculos afectivos ao poder daqui - isto do "pêésse" que tanto conforto a tantos dá - invectivar um qualquer crítico. Através do antigo anúncio do Johnnie Walker, ao outro apoucando como daqueles que vêem "o copo sempre meio vazio". Ora eu bebo (nunca antes do meio-dia, friso). E, como todos os bebedores, sei que o problema não é se o copo está meio cheio ou meio vazio. Pois bebê-lo-emos da mesma maneira. A angústia real é se há outra garrafa. Estás-me a seguir, Tó-Zé? Teremos outra garrafa? Serei "resmungão" por causa desta angústia? Sede, se a quiseres chamar assim?

Onde é o meu Algures, Omar? Não é, decerto, onde os mais graduados se atrevem a escrever que a economia portuguesa vai melhor do que nunca. Li isso por tua culpa e desembainhei a cimitarra do Salgari, a catana "lá da terra". Mas está romba, cansada, deixei cair, em desânimo. Mas o que é isto?, quem é esta gente, por mais "querida" que (te) surja? O que é que aqui, neste meu Portugal, putativo e desejável Algures, se exporta? Metalomecânica, pequeníssimas empresas, industriais e super-industriosas, logo diz o meu amigo Zé, que é da área. E o nosso Carmona, tão louvado nas suas práticas, que escolhe ele para a pantomina do dia, para a "auto-estima nacional"? Vai propagandear a cultura de tomate, produzir folclore cotovelando campónia. Onde é o meu Algures? À mesa destes louvaminheiros? Não.

Onde é o meu Algures? Neste que me é putativo os bem-pensantes clamam por um Plano Marshall. Eu tenho 55 anos, o meu país está sob um Plano Marshall desde os meus 21. Como o sei? Porque quando ele começou baixaram as taxas sobre o uísque, e as tascas e cafés passaram a estar decoradas com prateleiras de Logan, Cutty, JB, Grants e etc. E parámos de beber bagaço e similares - efeito da secular guerra europeia entre as aguardentes frutícolas e as cerealíferas, como Braudel ensinou. Eu lembro-me disso, desse Marshall que ainda aqui está. Mas se eu (e outros) disser isso serei "resmungão"? Não, pior ainda, dirão que sou ressentido, (extremo)direitista, populista, fascista ou afascistado. Ou, pior do que tudo, liberal, qual agente de Pinochet.

Onde é o meu Algures, Omar? É o meu pai. Este fim-de-semana fui visitá-lo, ainda que vigore isto do "fica em casa". Entre outras coisas sobre tudo isto d'agora contei-lhe uma, sobre este meu putativo Algures. Uma simpática colega perguntou - nisto das redes sociais - se os seus amigos (de facto rede de antropólogos) "de esquerda" (mas, frisou entre parêntesis, também algum "de direita" que ela possa ter, nunca se sabe ...) estão a pagar às empregadas domésticas. Dúzias deles, repito, dúzias deles apareceram, ufanos, tão "esquerda" eles são, a confirmar que pagam às empregadas, e até que "algumas delas são como família". Eu ri-me ao contar o detalhe, o meu pai fez aquele seu gesto característico, semicerrando os olhos, baixando ligeiramente a cabeça enquanto a meneia e suspirou pelo nariz. Praguejei e escorropichei o copo, nada mais há a dizer sobre esta gente e suas mentes. E, porque o meu pai morreu há já tanto tempo que pouco fala comigo, apenas breves conselhos, vim-me embora.

É este o meu Algures, Omar? Afinal é isto o envelhecer, ficar confinado com esta gente? Uma "maldita gente má"? Nem isso são ... Vão apenas numa abissal inconsciência. Até viciosa. Horrível.

Aqui em Nenhures é quase meio-dia. Está quase na hora, daqui a bocado vou beber um copo. Aparecei.

Os dias do COVID (21): o meu ponto de ruptura

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(Texto meio-desconexo em registo diarístico. Ou seja, blog:)

1. Saio na alvorada, após as 3 ou 4 horas de sono que vou tendo. Aqui na quinta aquém-Tejo as nêsperas estão a despontar, colho laranjas,  uma ou outra tangerina, limões para a limonada. Passeio sobre o orvalho. Fumo em jejum e fujo à introspecção. Depois tento escrever um trabalho que me é infinito e será infindo, leve-me ou não a gripe. Ensaio projectos que nunca farei - nem nunca teriam os parcos financiamentos que exigiriam, pois quem quererá antropologias agora, no futuro que aí vem? Procuro ler, o de tudo um pouco que trouxe. Mas a mente salta, leva horas a estacionar, nada avança. E resmungo o mundo, resmungo-o no tom superficial, esse que é o adequado ao (meu) bloguismo, procurando espantar os temores. Resmungo as delongas havidas nas medidas sanitárias no meu país, esperando estar a exagerar seus efeitos. Resmungo os delírios da "nova direita" internacional, mergulhada num ideário que irá custar imensas vidas e - também - mais desastres económicos. Resmungos apenas blogais pois não sou intelectual comentador - e agora tanto me dariam  jeito uns trocos avulsos para as contas domésticas, e assim desnudo-me na inveja que tenho desse dinheiro fácil da opinação. 

Mas, de súbito, choco com versões, discursos, que me são ponto de ruptura. Pois iro-me, na vontade do abismo abaixo dessa perfídia alheia. Diante desse desrespeito, malévolo. Se desonesto se irracional nem julgo. Nem apupo. Apenas desembesto. Aqui. Minha forma de sobreviver.

2. Desde meados de 1918 a "gripe espanhola" devastou mais do que a hecatombe da Grande Guerra, entre 20 a 30 milhões de mortos. Também em Portugal - uma das minhas bisavós foi vítima. Durante as comemorações do centenário do armistício apanhei este cartoon numa bela exposição sobre a I GM na Bélgica.  É notável a sua legenda: "Podendo viajar porque espanhola, ela não se poupa: é a gripe "globe-trotter!...", caricaturando a sua chegada à fronteira belga neste formato torero. A mensagem era explícita, anunciando o que agora se diz pandemia, a sua origem e o seu modo de disseminação. E denotava o contexto político de então: a "espanhola", e este toureiro que a ilustra, podia viajar pois a Espanha mantivera-se neutral na I GM.

Sabemos hoje que a gripe de 1918-1919 não teve origem em Espanha. Porventura brotou nos Estados Unidos. E ter-se-á disseminado na Europa através dos contingentes militares americanos, devastando uma população exaurida por quatro anos de guerra. Ora na Espanha neutral, sob regime democrático e imprensa livre, as notícias da epidemia espalharam-se, em contraste com o silêncio imposto pela censura militar vigente nos países beligerantes. Daí o epíteto "gripe espanhola", uma "má fama" assim devida à liberdade de informação. E à paz. À democracia, sempre frágil, sempre manipulável, sempre corrompível. Mas democracia.

3. Um século depois enfrentamos ameaça homóloga mas os seus efeitos serão menores pois amenizados pela parafernália industrial e o conhecimento médico - a "biomedicina", como a apoucam os (pós-)marxistas multiculturalistas identitaristas de retórica new age. Mas mesmo assim este é o pior momento das nossas gerações. Um confinamento generalizado que convoca cenários quase-apocalípticos, tantas vezes cine-ficcionados que assim julgados irrealizáveis.

Em cada um vinga a angústia pela saúde da familia e parentela espiritual. E até pela própria. E com a sua comunidade particular, com o que se passa(rá) no nosso Portugal e nos países outros, mais naqueles que nos são próximos em geografia ou sentimento. E, vá lá, em alguns, mesmo com o mundo. Mas também uma outra angústia, sobre o futuro: pois a crise económica que aí vem amarfanha as esperanças para os próximos anos. 

Nisto vou algo egocêntrico, alvitro sobre o que acontecerá connosco, comigo e com o meu grupo alargado, etário, social. Trememos agora, terrores com a sorte dos nossos filhos, angústia com a dos nossos pais, já avoengos. Suspendemo-nos à espera de "alisar curvas", como se um gráfico fosse totem e nos proteja. Talvez, talvez ... Mas depois dessa "curva achatada", daqui a um mês, dois meses, que nos sobrará para os próximos cada-vez-menos anos que nos restam, àqueles de nós que sobreviverem ao vírus? Que nos restará a nós, os pequeno-burgueses ditos "classe média", os que toda a vida viemos remediados, agora desempregados, profissionais liberais desvalidos, ou meros eventuais, já cinquentões ou sexagenários, aqui chegados em casais naufragados, endividados e tão taxados? A nós, que conseguimos boiar no rescaldo da crise financeira da década passada, pois então ainda algo mais jovens, mas nisso também feitos tão trôpegos? Que ocaso teremos?

Pesadelo comigo e com os outros que me ombreiam. Só imagino uma hipótese. Esperaremos neste "confinamento", e na "mitigação", algumas semanas enquanto for isso lei. E logo que esta aligeirar, e será em breve, pois "as coisas" precisam de voltar a funcionar, o show must go on, teremos de ser os primeiros a sair, antes da madrugada, a calcorrear a praça de Grève - que o agora propagandeado "teletrabalho" será para os outros, para os já empregados, a "aristocracia da classe média" como se disse naqueles séculos anteriores. Seremos assim a segunda vaga de convívio consciente e voluntário com o vírus. Agora os profissionais de saúde, da ordem, dos transportes, cidadãos até heróicos. E depois seremos nós, mas surgindo como lumpen, mão-de-obra não-institucional, apenas disponível, alguns ainda podendo arriscar negócios de parcas esperanças, a maioria procurando trabalhos para os quais não estávamos preparados, desqualificados assim. E teremos ainda outros problema: se então andarilhos poderemos voltar a casa, conviver com os filhos e pais, arriscar contaminá-los? Ou precisaremos, burguesotes habituados a sanitário próprio e banho diário, de nos recolher a compounds por razões sanitárias? E estes existem? Talvez, se o Estado (e as câmaras) convocarem esse demencial manancial de "hostais" e "hoteis" que brotaram no portugal disneylandico, na patética west coast que o país quis ser.

4. Neste meu remoer, nem duas semanas confinado, de súbito cheguei ao meu ponto de ruptura. Pensava um texto - de blog, claro - tipo "manifesto". Sobre a necessidade de articularmos com os países africanos (sim, a propósito de Moçambique, minha  paixão) o combate a esta pandemia. Nos quais os défices hospitalares são enormes. Certo é que as suas composições demográficas são diferentes, e outros serão os impactos da gripe. Mas também letais. Pois será agora que instâncias como a CPLP ou, e ainda mais, o acordo de Cotonu deverão funcionar. Mesmo que estejamos agora com a "corda na garganta". Pois se nos escandalizamos com as reticências do ministro holandês, algo alheando-se da situação espanhola, se exigimos comunhão na UE para o enfrentar da gripe e o avivar das economias, como poderemos virar as costas às realidades pauperizadas com os quais temos compromissos políticos e de ombrear humano?

Todos estes processos, internos, europeus, globais, exigem congregação. Entender o que se passa, e algo concordar com o que fazer - agora mesmo, amanhã. E depois de amanhã. O socorro sem pressupostos é uma obrigação humanitária. Mas a reconstrução, a reabilitação pós-covídeo, exige acordos. Lisura, mesmo que discordante. Em suma, temos que perceber como isto nos aconteceu, como o combater, e como o ultrapassar.

5. A pandemia tem razões naturais. Mas também tem causas políticas, complexas. A gripe foi potenciada pelos mecanismos ditatoriais do comunismo chinês, que protelou a divulgação da informação e as estratégias de combate à então epidemia. E que permitiu a disseminação da população residente na zona da inicial infecção. Foi uma típica reacção de uma burocracia totalitária, como várias que a história de XX tanto comportou. E para isso contou também com a fragilidade das Nações Unidas, e da sua OMS, que foi cúmplice desse protelar, timorata face ao poderio chinês. Assim assassino e devastador.

Há alguma similitude com 1918: então os países sob censura militar calaram a situação, a democracia pacífica anunciou-a e ficou com o ónus da sua origem, cujos custos não terão sido apenas simbólicos. Agora as democracias, na pluralidade das suas reacções e nas delongas habituais nos seus processos de tomada de decisão, estão sob uma enorme pressão. Um desastre. Com temíveis repercussões futuras, económicas, políticas. E culturais. É tempo para nos congregarmos frente ao vírus mas também em defesa da democracia. Adiar um pouco as querelas entre os mais liberais e mais estatistas, mais "politicamente correctos" e mais conservadores, mais do género mais da nação, mais laicos ou mais soberanistas, etc. Conciliar diferentes perspectivas em defesa do que é fundamental. Ou seja, ceder excepto no que é fundamental. Como meter isto num postal de blog, como meter o Rossio na Betesga?

6. Estava nisto, neste blogar, quando fui abalroado, causando o tal meu ponto de ruptura. Ao deparar-me com um postal de Facebook de uma colega minha, moçambicana. Algo soez, vil, abjecto. E, para minha dor, logo subscrito por meus amigos e antigos alunos. A tese propalada, mas não original, pois já por aí grassa, é simples: fomos nós, europeus (entenda-se, a UE) que contaminámos África. Portanto teremos (com os EUA) de pagar aos países africanos por essa praga que lhes enviámos. Não os chineses, frisa ela (e tantos outros), pois esses "respeitaram a quarentena", ao contrário dos indisciplinados europeus, ao contrário dos americanos (e antes dos britânicos) com suas diferentes políticas de absorção viral. 

Locutora e seus subscritores são pessoas com estatuto reconhecido, não meros "populares" prenhes de atoardas. Estou diante de "intelectuais orgânicos" a quem Estados e algumas fundações pagam para pensar e ensinar. Mas doutrinam estas falsidades. Ímpias. Por mais que sempre alardeando a sua refutação dos preconceitos, das discriminações, logo agora surgem reproduzindo, de facto ipsis verbis, o antigo cartoon que encima este postal. Para eles somos nós o torero de então, o agente disseminador, poluidor. Não porque somos um toureiro espanhol mas porque somos o branco "ocidental" - mesmo que tantos destes locutores sejam brancos, até "ocidentais".

Pois o que os move, o que os conduz na produção desta falsificação da história (hiper-contemporânea), é o ódio à democracia, aquela a que repudiam, com desprezo, como "democracia formal". O seu ódio ao mundo "pan-ocidental" (como disse Wallerstein, para o apartar do leste europeu e lhe agregar as antigas colónias de povoamento britânicas). Por isso, por esse efectivo amor ao comunismo e aversão aos países europeus, e ao mundo  democrático, vêm agora - neste catastrófico momento - reclamar que paguemos a África uma infecção que consideram termos causado. Elidem, como agentes do conto do vigário, as práticas chinesas que nos conduziram a este estado das coisas. Louvam a sua "disciplina" - construída, sabe-se, por formas de controlo totalitário com tecnologia intrusiva das liberdades individuais que resistimos a aceitar como desejáveis na democracia liberal [veja-se o breve filme]. E toda e qualquer informação que lhes questione as malvadas teses, o entoar do seu odioso comunismo, consideram falsidades dos americanos, aquilo da invectiva à "voice of America" como nos tempos soviéticos tanto se ouvia ...

 

(This is How China Beat the Corona Virus - should we copy?, por George Thompson)

Mas não é só a apologia do capitalismo de Estado chinês, através da falsificação consciente da realidade (ou seja, da violação grosseira das regras deontológicas que presidem a expressão pública de funcionários públicos académicos).  É a mistificação, doutrinária, de um "Sul" ("abissal" no jargão): por isso seríamos nós condenados a pagar pela pandemia que espalhámos em África. Não a China, que tem enormes contingentes de nacionais nos países africanos, que atrasou o reconhecimento e o combate à epidemia e que permitiu a fuga de milhões de pessoas da zona original do vírus. E não o Brasil, que segue uma política epidemológica ainda mais liberal - e desconexa - do que a dos EUA (ou da Suécia, ou as que a Grã-Bretanha e Holanda ensaiaram). Ou seja, essa apologia do "Sul" conduz a que nem "amarelos" chineses, nem "pardos" brasileiros sejam imputáveis. Apenas nós, "brancos" euro/norte-americanos. Ainda que tendo sido os nossos contextos abalroados e estejamos, repito, com "a corda na garganta". E para esta via intelectual nada importa o fenotipo do "intelectual", apenas o seu can-can de "orgânico" ...

E, para cúmulo da impudicícia destes locutores (e subscritores), tudo isto assenta na total desresponsabilização dos Estados africanos e das suas sociedades, de facto uma forma elíptica de (auto-)racismo. A epidemia é conhecida há já meses (ainda que tendo sido elidida pelo poder chinês, delenda est Carthago ...), e a sua travessia intercontinental acontece há algum tempo. Que fizeram os Estados africanos para se fecharem? Mesmo para barrarem estes horrorosos "diabos brancos", nós-mesmos, que transportamos malévola ou "indisciplinadamente" a temível maleita? Nem isso é questionado. E se nós o perguntarmos decerto que serão invocados, como explicação causal das ausências administrativas, o perene impacto estruturante, assim inibidor, do comércio de escravaturas, do colonialismo, do neocolonialismo, da discriminação dos afrodescendentes. E mais alguns detalhes, mais ou menos avulsos. 

7. Meu ponto de ruptura? O vírus não é um inimigo, é agente de patologia. O inimigo é este tipo de gente. Falsária. Interlocutora. Interna. Melíflua quando precisa (de subsídios, de investimento, de emprego). Abjecta, como agora. Na crise que aí vem é preciso defender a democracia. Não apenas dos soberanistas xenófobos, a crescente extrema-direita. Mas também destes racistas comunistas. Um democrata não defende caças às bruxas ou saneamentos ou limites à liberdade de expressão. Mas temos a obrigação de os apontar, aos falsários, de os refutar. Desprezar. De os combater, sim. Mas também de escarrar para o chão à sua passagem.

As estantes dos livros na televisão

20200326_160322[1].jpg

(Postal para o meu mural de facebook)

Meus queridos amigos,

de súbito brotou um "même" nas redes sociais, o gozo aos comentadores televisivos que, pois agora confinados em casa, surgem na tv via seus computadores tendo atrás estantes apinhadas de livros. Ou seja, é ridículo ter livros e fatela mostrá-los.

Eu percebo as irritações por princípio, os "preconceitos" como agora se diz. Ou, melhor, os "ódios de estimação", como o magnífico MEC lhes chamou um dia, aqui há atrasado. Eu, apesar de mim-mesmo, também os pratico. E enuncio-os: detesto o presidente da Assembleia-Geral do Sporting, o dr. Rogério Alves, apenas e exclusivamente porque trata toda a gente por "querido amigo" (ver acima, neste postal). E abomino, até ao desejo de extermínio, todos os patetas que se (auto)representam com a queixada sob a palma da mão, como se sinalizando o peso do intelecto, tamanho que assim necessita de suporte (ver foto avulsa). Por isso percebo, humano que sou, que detestem só por detestar os tipos que têm livros em casa, amontoados num estrado a que chamam estante e guardados (para hipotética consulta, em alguns casos) numa divisão - recordo que os livros acumulam pó, nisso ácaros, e que não convém tê-los nos quartos de dormir. Por questões sanitárias, mais que não seja.

Há pessoas que têm livros. Eu próprio os tenho. Aqui me selfizei (como vós, "meus queridos amigos", agora falam) na sala da pequena casa aquém-Tejo na qual me aboletei. Um T1, rústico e maravilhoso, no qual está a estante. Duas prateleiras (correspondentes a uma mala de viagem e uns sacos) de livros meus, vindos para este pré-apocalipse, três outras com livros residentes. Faz parte ... Desde há uns tempos, séculos até (consta que pelo menos desde D. Quixote), os remediados têm prazer em comprar livros e vêem utilidade em lê-los. E nas casas (térreas ou apartamentos) congregam-nos numa divisão na qual alguns, segundo a profissão, até trabalham. Ou estudam. Chamam-lhes escritórios, por vezes. Os meus avós tinham-no (magnífico o do meu avô materno, até com mesa de fumo, belíssima, oferta de um regimento que comandou. Vem essa passando de mão em mão, por linha masculina [mas não varonil]. Chegou-me e depois de a viver dei-a, há uns dois anos, a um sobrinho que um dia a virá a passar a seu filho, presumo). Os meus pais também tinham escritórios, carregados de livros. E era o meu pai pessoa bem-educada, tal como o é a minha mãe. Mesmo assim tinham escritórios. Eu tenho-o - ainda que os livros estejam também noutras divisões da casa (no corredor, na sala de refeições, burguesmente dita "de jantar" - a gente já não pode almoçar em casa -, nos quartos e até, para minha vergonha, na cave).

Ou seja, é normal que um tipo que tem que aparecer na tv emitindo a partir de casa o faça desde o seu local doméstico de trabalho. No qual tem livros, já que é um burguês e - sendo opinador - presumivelmente trabalhador intelectual. Sei que muitos de vós usam os telefones na sanita [já agora é "sanita" que se diz e não "retraite", ó seus bimbos armados em finórios]. Mas, de facto, o mais normal é que quem tem que falar em público desde casa não o faça sentado na sanita. Nem em locais com usos estritamente domésticos (ex. o tanque de lavar roupa). Ainda para mais quando, muito provavelmente, lá estão os outros membros da família.

É óbvio que há excepções. Temáticas. Ontem passei pelo canal 11, da bola. E nele estava um friso de 6 comentadores em simultâneo, a falarem (sei-lá-do-quê). Todos tinham as traseiras lisas, nem um livro à mostra. Acredito que os tenham em casa, a alguns exemplares. Mas para aquele público - os compatriotas mais morcões que assistem a painéis futeboleiros - parece mal mostrar livros, descredibiliza os locutores. Não sei se os "meus queridos amigos" me estão a seguir no silogismo ... são os que comungam sensibilidade e gosto com estes espectadores da bola, os tais compatriotas mais morcões, que agora andam a gozar com os literatos que falam na tv.

Enfim: não há qualquer razão para gozar com os tipos que têm livros e que falam desde casa para a tv com as estantes atrás. Repito, é normal tê-los (até eu os tenho), e é normal que se fale para fora numa pequena sala com as paredes algo cobertas de livros.

O que os meus queridos amigos poderiam analisar, e até gozar, é o que esses comentadeiros dizem. E, se tiverem paciência para tal, especularem sobre as agendas, pessoais e colectivas, que transportam no perorar. Muito mais à frente, talvez apenas em era pós-covidiana, poderiam até questionar este tipo de fazer informação televisiva, sem reportagens substantivas e com uma série infinda de charlas inócuas e/ou interesseiras.

Entretanto, e porque confinado, eu vou gozando com os tais morcões. Os que julgam que têm piadola.

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