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Nenhures

Nenhures

As minhas coisas preferidas

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Sobre isto de rever "criticamente" as obras: 

Há algum tempo, num jantar já lisboeta, uma querida amiga, daquelas "dos tempos", perguntou-me, cruel indiscreta: "Zezé, já foste feliz?", teria eu já cumprido a nossa utopia? Decerto que terei chocalhado as pedras do final famous, engolido em seco, mas respondi franco, que sim, claro, que o fui naquela era ali à Avenida do Zimbabwe quando todos os dias diante da tv, e devido ao La Feria, mestre de um fantástica produção teatral, ouvia esta canção, e tantas outras, mas mais esta pois a minha preferida de sempre (sim, também Coltrane ...), nisso ombreando-me com a afinal única razão de nisto continuar, e ela ali sempre esfuziante
 
 (My favorite things, The Sound of Music)
 
Depois disso?, insistiu a então bruxa, malévola pois sabendo que pagaria a conta. Depois?, enfim, ficou o Amber Leaf e o Queen Margot para evitar a mitra, que mais haverá, disparei ?
 
Ou seja, deveremos nós dissecar o encanto a que acedemos? Com toda a certeza que não ...

E Tudo o Vento Levou: expurgar o cinema?

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1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande "As Vinhas da Ira"; uma extraordinária Bette Davis em "Dark Victory", um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E ... Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que "my name is John Ford and I make westerns" e John Wayne nasceu.
 
Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes "vestidos à indio". Todos aqueles que agoram berram o racismo do "E tudo o vento levou" nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da "construção da nação" americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual.
 
Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas "racistas", "colonos", "brancos"? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam "contagiados", como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma "contextualização" não será mais do que isso - ou, pelo menos, os "filtristas" não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêm como "moral" do filme.
 
Nisto há muita gente que protesta com a anunciada "contextualização", como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há .... "prefácios", contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são "posfácios". E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.
 
Mas não se feitas da moralismos viciosos, de "filismos" que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o "west" (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.
 
Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a "Tintin", de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o "Tintin no Congo". O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem - e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.
 
Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus "prefácios". Não as ver. Não "clicar" nelas. Exactamente como fazemos com os livros - e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no "tripadvisor" que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor,  não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso - sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.

Julgar a História, apear monumentos

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Muitos resmungam ou indignam-se com a campanha contra as estátuas e monumentos, devido à sua mácula colonial ou pré-colonial. Espantam-se também com a censura de uma empresa televisiva ao "E Tudo o Vento Levou". Estão enganados. Todas as gerações que foram actuantes fizeram uma avaliação do seu legado cultural e seleccionaram aquilo que deve ser preservado e retransmitido às novas gerações, construindo mundivisões consideradas adequadas. Chama-se a isso educação.

Entretanto, reli há dias este livrinho, afamado, do poeta francês Charles Baudelaire, um oitocentista ainda algo lembrado. O que ele diz das mulheres é totalmente inaceitável, propagandeando a sua inferioridade, naturalizando-as. Exemplo de discriminação negativa, pura e simplesmente.

Urge expurgá-lo, ao poeta, dessa educação. Cercear o acesso à sua obra. Reservá-la, porventura, apenas aos estudiosos dos processos opressivos.

E há, decerto, mais exemplos. Deitemos "mãos às obras".

Voto de pesar

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André Ventura está contra o voto de pesar da AR dedicado ao assassinato no Minnesota. A argumentação dele é errónea, compara aquele crime com qualquer outro assassinato. Mas é errado porque se trata de um assassinato policial num país democrático e aliado.
 
Eu ligo a um postal com dois anos. A minha questão é a pertinência deste tipo de votos de pesar. A minha outra questão é a cedência a agendas externas, por legítimas matérias que abordem, e a colonização mental que isso significa. A minha última questão é a de que esta via tem uma retórica "moralista" mas é, de facto, estratégia de obtenção de recursos estatais, capitaneada por sectores corrompidos da pequena-burguesia.
 
Sobre votos de pesar parlamentares perguntei há dois anos qual a pertinência de se fazer um voto pesaroso pelo assassinato de uma vereadora de um município do Rio de Janeiro quando nada de similar se fizera aquando do recente assassinato do presidente do conselho municipal (câmara) de Nampula? Porque um, negro, teria sido morto por negros? (Ainda que a acusação inicial tenha incidido sobre asio-descendentes, um dos quais meu amigo). E a outra, "parda", deverá ter sido morta por brancos (ou assim se presumiu)? Ou porque o autarca moçambicano era assumidamente heterossexual e a brasileira era assumidamente homossexual? "Todas as vidas contam"? Mas umas mortes doem mais que outras para o Parlamento português, mesmo quando há homologias óbvias, políticos autarcas de países da CPLP mortos por "desconhecidos" e por razões políticas?
 
A AR entende ter espaço para votar o seu pesar pelo assassinato do americano George Floyd, às mãos de um gang policial, logo pressurosamente proposto pela coligação comunista. Pesar político, não se trata das nossas meras sensibilidades., do pesar pessoal diante do horror. Ora diante desta novidade googlei agora mesmo, mas não encontrei, fico em dúvida: será que esta AR tão pesarosa é, votou o seu pesar pela morte de Anastácio Matavele, moçambicano (negro, já agora), coordenador de ong "A Sala da Paz", envolvido na observação eleitoral, assassinado por um grupo de polícias moçambicanos (sim, negros) nas vésperas das últimas eleições nacionais? Drama que foi amplamente noticiado na imprensa, e lamentado nas redes sociais.
 
Não me parece que tenha votado, pois nem o sítio da AR nem o Google me confirmam isso. Julgo que não é preciso avançar muito mais. É o racismo americano tétrico. "Instituído"? Sim, mas o que também está instituída é a importação de uma visão das coisas, das hierarquizações dos problemas, das causas e soluções das questões. A colonização mental. Serve para intelectuais preguiçosos, e para claro, o pobre parlamento que temos poder parlamentar.
 
Mas serve também, e isso é a minha terceira questão, para suportar a propaganda de "bois de piranha", como se diz no Brasil, a cargo da camada mais corrompida da intelectualidade, mais acerada na demanda de recursos estatais - insistindo em causas e problemas sonantes, que obscureçam as verdadeiras agendas de políticas e económicas dos poderes fácticos (foi assim, lembrem-se, com a questão do casamento homossexual há apenas uma década). De facto, mais interessada nos ganhos com a agit-prop do que com aquilo, essencial, de que "todas as vidas valem". Mesmo as dos negros heterossexuais que não são mortos por brancos lá nos EUA.

Do Minnesota a Portugal

Como João Campos e Maria Dulce Fernandes abordaram o caso do cidadão americano assassinado pela polícia reproduzo aqui um postal sobre o assunto que coloquei no meu mural de FB, num registo mais solto e coloquial do que o blogal, até porque lhe integro nacos do que fui colocando em comentários (dada a porrada que fui levando). Mas junto-lhe a grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da como a pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

Viva Quaresma!

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(postal encontrado no Facebook)

[Postal para o És a Nossa Fé]

Abaixo o Pedro Correia enviou um abraço ao Quaresma (e eu subscrevo-o, tal como o fazem vários dos comentadores desse muito atinado texto).  Outros comentadores resmungam, destilando desapreço pela "ciganada". E outros, num registo totalmente diferente, atirando-se a Quaresma porque se tornou "andrade". Então quero intervir, sobre os dois assuntos. Sobre a coisa clubística é pacífico aqui botar. Mas não me é sobre a política, pois ainda que me farte de blogar politiquices sempre julgo que aqui, num blog de Sporting, não é sítio para elaborar sobre esses assuntos, que nos poderão dividir neste ideal sportingal. Mas, de facto, trata-se de um assunto que, sem tirar nem pôr, é racismo. E um racista é pior do que um árbitro que nos rouba um penálti. Ou seja, o Ventura é pior do que o João Capela que, num jogo contra o Benfica, não marcou um penálti aos 3 minutos, outro aos 7 e um livre directo na meia-lua aos 12. E por isso boto, mesmo que afrontando uns sportinguistas venturescos que possam existir, pois pouca e má gente há-a em todo o lado, dado que, como na tropa se diz, "aqui há filhos de muitas mães":

O cidadão Quaresma esteve muito bem, à campeão. Quanto à temática que ele abordou, o malévolo disparate do comentador futeboleiro Ventura, esteve o primeiro-ministro Costa, do qual não sou apoiante, muito bem. Se há problemas legais, nisto da reserva provocada pelo Covid-19 ou com outras coisas, é com os cidadãos, não com grupos pré-determinados. Coisa que alguns, esses do tal Chega, ainda que poucos (65 mil votantes, 1,4% de eleitores, um estádio da Luz não cheio) não percebem. A lei é suficiente? Aplique-se. Não é? Mude-se. E aplique-se. Aos cidadãos, não a "grupos" pré-determinados ("comunidades", dizem os mal-falantes). E adianto que o que Costa disse dará para elaborar sobre outras coisas - o radicalismo comunista racista que andou nas bocas do país até ao Covid, acima de tudo - mas isso é assunto para outros blogs.

Mas - e falando de coisas mais nossas, estas do clubismo - há gente que abomina os profissionais que saem do clube e que ganham apreço a clubes onde prosseguiram a carreira, como se fossem apoucáveis por isso. Ora isso é como não gostar de Jordão, tão emotivamente celebrado há bem pouco, que veio do Benfica. Ou de Livramento, etc. Os atletas não são o mero adepto, como nós, que nunca mudamos de clube (muda-se de tudo, de igreja, partido, emprego, terra, mulher, e até - consta - de "orientação sexual", mas não de clube, é o dito de todos nós). São profissionais. E se vão para outro clube e lá são muito bem tratados, e por lá vivem com grande intensidade e sob grande carinho, é normal que se afeiçoem. As pessoas não conseguem perceber isso? Não conseguem perceber uma mudança dessas mas percebem mudanças ainda maiores, como as de nacionalidade, atletas do nosso clube ou de outros, que cresceram com outras nacionalidades e depois foram efusivamente representantes e até campeões por Portugal, usando as nossas cores? Isto é uma cegueira um bocado estranha. Amarão o clube, identificar-se-ão com o clube, mais do que com o próprio país?

Pois nunca ouvi Quaresma invectivar o Sporting. Foi formado no clube, seguiu a sua carreira, e foi muito bem tratado no Porto. Gosta daquele clube. A gente lamenta - quem me dera que ele tivesse jogado anos no Sporting, com grande sucesso. Mas foi o nosso clube que vendeu a sua licença desportiva ao Barcelona. E que não o recontratou quando ele saiu daquele clube. A gente lamenta, mas não há dolo aqui, nem culpas. Nem desrespeito.

Francamente, e ainda que possa estar em engano desmemoriado - e sim, nada gostei de ver Figo comemorar efusivamente um golo do seu Inter em Alvalade, mas compreendo-lhe o humano arreganho explodindo no momento -, de todos os futebolistas formados no clube e que saíram para outros clubes, o único que me desgosta francamente é Simão Sabrosa. Não por ter ido para o Barcelona, porque seria irrecusável. Não por ter ido para o Benfica, pois o Sporting não quis recuperá-lo, talvez porque não pudesse. Não por ter sido capitão do Benfica, porque isso foi corolário da sua carreira no clube. Mas porque, ele sim, teve declarações nada abonatórias, desrespeitosas, do clube que o formou. A mostrar uma muito pobre personalidade. E é essa a diferença que os mais empedernidos não conseguem ver.

 

O caso Marega

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Muitos falam sobre o "caso Marega". Quem melhor falou foi o seu treinador, Sérgio Conceição, ao exclamar "isto é uma vergonha, c....!". Quem também escreveu bem foi o meu amigo (e ex-bloguista no ma-schamba) Miguel Valle de Figueiredo no seu mural de Facebook: "Ena! Descobriu-se ontem que há selvagens nas claques de futebol!!!" - e disserta, infelizmente em publicação apenas acessível para as suas ligações, sobre a extensa rede de cumplicidades com este fenómeno de "claquismo", esse lumpen congregado e excitado pelos interesses mancomunados em torno do futebol. Interesses económicos, políticos e da corporação jornalística.

Como estou no blog sportinguista És a Nossa Fé tenho escrito sobre claques - por exemplo, alguns meses antes do "caso Alcochete" botei este "O governo está a dormir" (E continua a dormir), sobre a inactividade governamental face a este fenómeno induzido das claques futebolísticas, e sobre o que disto se pode esperar. E mesmo na última semana tornei a abordar a matéria, premente no Sporting Clube de Portugal. Quem não lê esse blog não compreende a intensidade do que digo: o ambiente dessa gente, e que chega à internet, é abrasivo, de uma violência verbal, intelectual, insuportável. Cada vez que escrevo sobre claques (ou algum dos co-bloguistas o faz) o fel alheio respinga, irracional, odioso, chega-nos em doses até dolorosas. É incomparável com outras áreas temáticas no país. Garanto, é quase inacreditável o conteúdo e o tom dos comentários que recebo quando abordo a necessidade de extirpar isto da organização dos espectáculos desportivos.

Entenda-se muito bem, esta escumalha, sita em várias terras e inúmeros clubes (esta de Guimarães tem fama de ser a mais aguerrida, mas em Braga pedem-lhe meças. A do Porto é horrível, a benfiquista cultua o assassinato de adeptos de outros clubes, a do Sporting é asquerosa e bem sabida a sua tendência para os atentados contra atletas, etc.) está aí, activada. E à mão de semear.

Alguns escrevem mal: o mariola Ventura desvalorizou o caso. E umas horas depois, ao ver os ventos levarem a bola para o outro campo, titubeou um pouco. Ventura é um problema que temos, todos. Ou quase todos, pois há um punhado que o apoia. A nossa vantagem é exactamente esta, ele titubeia, é fraca gente. Viu-se quando, como ele próprio disse, não soube o que fazer diante da saudação fascista do seu apoiante. Vê-se agora no recuo tuiterístico diante da indignação geral. E temos um problema colectivo, nas nossas diferenças, porque o que Ventura e estes amorais que o apoiam - alguns deles tão activos nas redes sociais, outros apenas no blaseísmo lisboeta de apoucarem os opositores desse tralha - querem é este claquismo disseminado na opinião pública, e instalado nos poderes. Talvez mesmo, num dia mais distante, tendo o poder.

E está também muito mal a igreja católica. Quando o padre José Antunes, presidente da AG do vitória de guimarães (em minúsculas, claro), diz que o jogador tem que ir para o psiquiatra, seria importante que a hierarquia da igreja dissesse algo, se demarcasse desse seu membro energúmeno. Mas as horas passam e, fiel à lentidão eclesiástica, o clero mantém-se mudo. Talvez, creio, daqui a umas décadas algum sucessor do cardeal Manuel Clemente, o ilustre Prémio Pessoa crente no exorcismo, se pronuncie. Mas, então, ainda que venha pio tarde piará.

Os decoloniais e os nomes

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O meu nome? José Flávio. "Flávio" por nome de avô paterno. Para meu desgosto juvenil. E fui "Flávio" até à universidade, só já doutor disso me libertei. Para os amigos? "Zezé". Não "Zezé" porque "bem", "queque" ou "beto" (na velha tipologia que o MEC celebrizou). Mas "Zezé" porque Zés muitos havia e fiquei, aos 10 anos, no Maracangalha dos Olivais, "Zezé Moreira", então célebre treinador brasileiro em breve comissão no Boavista ... E, muito raramente, ainda há quem, olivalense está claro, me chame "Zezé Moreira", assim logo a desfazer-me em serôdio carinho.

O meu nome? Taveira (amputado do seguinte Pereira, por motivos de espúria economia no registo), o lado matrilinear transmontano. Trisavô capitão-mor de Mogadouro, ao que consta, bisavô "centurião de África", morto em Angola pelas sezões na ocupação de um qualquer Uíge, avô oficial do 28 de Maio. E o devido, pois patrilinear, Pimentel Teixeira, também apelido compósito. Origem? Maçãs de Dona Maria, ali para o centro do país, concelho de Alvaiázere. Nome de séculos, parece que um qualquer rústico daquela colina comprou uma carta de armas em meados de XVIII - cacique local, está visto, acontece nas melhores famílias.

O meu nome? Tal como o meu avô o fora Pimentel foi o meu pai, "engenheiro Pimentel" nos serviços, "camarada Pimentel" em tanto do resto. Porque mais raro do que Teixeira, e porque não fez a tropa naqueles seus anos 40s. Mas eu? Teixeira, desde a primeira tarde no Calhau, o alferes de Mafra a vociferar um "Sô Teixeira" isto ou aquilo, pois até aí fora o tal "Flávio" para os que não me "Zezéavam". E desde aí o meu nome? Zé Teixeira, em quase todo o lado.

Mas depois, já em Maputo, tive um chefe, delicioso, que me chamou, quando colérico ou entusiasmado, "jpt". Assim bloguei anos, o Zé Teixeira em Maputo a blogar "jpt". Um dia apareceu-me o facebook, em 2008/9. Criei uma conta para divulgar o blog em nome de "José Pimentel Teixeira" (o FB não aceita iniciais). Pouco se lembrarão disso, mas houve então uma polémica lisboeta, uns ciosos (até bloguistas, e gauchistes, claro está ...) a vociferarem contra os nomes compósitos, "cagança" ululavam ... E eu deixei cair o Pimentel, pois de facto não o uso na vida, só no tal blogal "jpt". E nos seus sucedâneos, nas coisas de teclas. Porquê? Pela tal coisa blogal, um tipo habitua-se a assinar assim ... Mas, aqui entre nós, que ninguém me ouve, também um pouco por cagança, pois de facto o uso da maioria dos compósitos é mesmo isso. Não sempre, mas muitas vezes ...

 

Porquê este longo arrazoado, quase intimista? Li ontem este artigo, "O Padre António Vieira no país dos cordiais", publicado no "Público", vero manifesto da esquerda actual. Contra muita coisa e, nisso, contra a recente estátua lisboeta do Padre António Vieira, coisa do presidente Medina, ao que julgo entender. E concordo, aquela estátua -se fosse importante - não tem ponta por onde se lhe pegue, estetica e conceptualmente, bloguei-o aquando da festarola inaugural.

Mas o artigo tem muito mais coisas, as atoardas contra o nosso passado malvado, como se esse estivesse a acontecer e fosse necessário sustê-lo. Os apelos à destruição das tralhas a que chamamos monumentos, pois demoniacamente colonialistas, como se tudo fosse Palmira, a Idolátrica. E os tão necessários elogios a Katar Moreira e a Ba, como se estes arautos do vento que passa. Opiniões, a cada um as suas ...

Mas o que adorei foi o ditirambo contra uma gente que é o "comentariado tradicional, grisalho e conservador - predominantemente masculino, branco, lisboeta e de uma certa classe social". Depreendo que falem de gente que vai à TV e aos jornais e que não aprecia o dr. Ba e a dra. Katar Moreira. E que não pugna por derrubar estátuas, bustos, igrejas, menires e sucedâneos que por aí abundam, pais afora.

O douto artigo é escrito a oito mãos. Googlei-os, aos donos das mãos: 2 brancos de sexo masculino, 2 brancas de sexo feminino (quanto ao género só eles poderão responder, julgo que esse é o paradigma agora respeitável). Ainda não grisalhos, ao que surgem. Tratam-se de quatro pessoas daqui idas para universidades americanas, nas áreas de ciências sociais e humanas [vamos ser "neo-liberais" e crer naquele vil mito liberal da "meritocracia"?]. E os quatro assinando com ... nomes compósitos.

Mas muito indignados com .... "uma certa classe social".

Isto é patético.

Elísio Macamo sobre Portugal

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(À esquerda Joacine Katar Moreira, então deputada do partido Livre; ao centro de óculos e calças o seu assessor; à direita, com identificação ao peito, o GNR que a escoltou na Assembleia da República, a primeira vez que um deputado português requereu protecção policial nas instalações do parlamento)

O sociólogo moçambicano publicou um texto sobre Portugal, "Ser apenas negra, feminista radical e gaga", incidindo sobre a questão do racismo, seu legado e presente. Isto a propósito do "caso Livre". Infelizmente Macamo escolhe uma via mais fácil (bem diversa daquela que usa habitualmente para analisar com rara profundidade a situação moçambicana - será algo normal, pois a atenção sobre o nosso país ser-lhe-á um pouco secundária). A via fácil? Pega num texto de Sousa Tavares e zurze-o. E daí conclui sobre algumas características do presente português e, acima de tudo, sobre as potencialidades meritórias do movimento agora ex-Livre. Alguns dirão que MST é criticável pois exemplar, por representativo de um pulsar luso agora acometido por Katar Moreira ("Eu sou o incómodo", exclamou ela, biblicamente, há algum tempo). E nisso não deixarão de ter razão, o "Miguel" (MST é um dos "miguéis" que alguma classe média urbana portuguesa da minha geração reclamava como "seus" locutores naqueles 80/90s da CEE) fala e escreve há tantos anos que acaba por representar um médio denominador comum. Mesmo que sinuoso, aparentemente a la carte consoante a semana. Ou melhor, talvez por isso mesmo.

Mas o pontapear, ainda que com a sua usual elegância, do luso-articulista tem alguns custos, por mais abrangente que seja a finta com que Macamo antecede o remate. Assim de repente custa-lhe dois desperdícios, inabituais nas suas reflexões: em primeiro lugar, desconsidera dinâmicas da sociedade portuguesa. Ou, como diziam os antigos (desculpar-me-ão o eurocentrismo etnocêntrico desta in/evocação), arrisca-se a "tomar a nuvem por Juno". E, o que é muito pior, quer inibir o debate, ao reificar os agentes. Que mais pode significar uma tirada destas: "... aquele fosso pós-colonial entre ideias e a prática, um fosso que leva o articulista a esperar que uma deputada afro-descendente tenha que ser perfeita em tudo para ter legitimidade para se fazer ouvir."? Ou seja, porque Portugal foi um país colono, porque vivemos uma situação pós-colonial, estamos vedados a criticar uma política negra pelas suas propostas, seus diagnósticos ou metodologias? A negar a sua demagogia? A assobiar para o lado diante dos dislates? Porque é mulher, negra e gaga (características que ela própria invoca como capital político) as críticas que lhe são feitas derivam de uma exigência à perfeição da "afrodescendente" (parece que agora nós, "latinos", temos que falar e escrever à americana, por isso uso o termo)?

É certo que o texto de Macamo é basto saudado, por intelectuais lusos ou residentes. Pelos que se consideram lúcidos resistentes. É, para eles, um texto bem-vindo a este país, ditatorial. Pois, como dizem, reproduzem ou, pelo menos, anuem, Portugal vive num apartheid. Que nós, portugueses, brancos, pelos vistos cultivamos, reproduzimos, defendemos. Cônscia e/ou inconscientemente.

E se não concordamos com esta aberração demagógica? Com este agit-prop? Com este "fraccionismo", o identitarismo comunitarista, o "velho" "tribalismo" se falando em terminologia mais usual na discussão política moçambicana? O qual é, a um nível mais imediato, apenas uma visão estratégica estadocentrada, sequiosa e mesmo esfaimada de subsídios, a serem geridos in vitro, nas modalidades patrimoniais típicas destes núcleos sociológicos, tão pejados de veterania socratista. E, num nível mais profundo, essencial mesmo, um aggionarmento maoísta e guevarista, na ânsia de produção de raças(e quejandas)-para-si, como se estas motores de uma história à medida dos anseios destes intelectuais oníricos, presos a pulsões de heroicidade.

Macamo, de longe e elegantemente, alheio à sociedade portuguesa, dir-nos-á oriundos de um magma "póscolonial", disso frutos. E, quiçá, vítimas, pois seguindo numa bruma, algemados ao "inconsciente histórico" colonial. E não perceberá, por desinteresse, porque está feito o seu ombrear, o seu "número" entre "pares", quão diferente é o seu rumo analítico sobre o seu país, provocatório pois complexificador, problematizador, inquietador, e verdadeiramente inquieto, do que estas simplificações a la carte, interesseiras e espaventosas, a que agora decidiu associar-se.

E não notará, porventura, que entre estes demagogos histriónicos alguns são mulheres mas outros não, quase nenhum é negro, pelo menos com visibilidade pública (há apenas um, Ba, que defende a instauração de "policiamento comunitário") e não se conhece outro gago para além de JKM (a qual defende a instauração de "comissários políticos" nos serviços do Estado). Ou seja, Macamo desencontrar-se-á com o facto de que aqui não se está a exigir perfeição à preta (e gaga) para que ela possa falar, como ele atrevidamente reduz. Onde "mulher, negra e gaga" são argumentos próprios desta tropa, e não invectivas alheias. Que o que se passou e passa com esta mulher é uma vilania rasteira. Por iniciativa própria. E que estamos num debate político onde Katar Moreira é a cara de perspectivas peculiares, anti-democráticas, secundada por um conjunto de "intelectuais orgânicos" radicalmente demagogos. E estamos num debate poluído pois quem grita demagogias colhe demagogias. E é esse lixo demagógico adverso que procuram incentivar, crendo-o estrume da sua luta.

De quando em vez, um determinado autor francês, veterano investigador sobre Moçambique, publica algo  na imprensa moçambicana. E é usual  Elísio Macamo surgir a refutá-lo. Assim como se lhe criticando um "atrevimento", ou um "simplismo", sorrio eu. É mesmo recorrente que entre nós, alguns leitores, comentemos "haverá algo de pessoal naquilo?", mas é provável que não haja, será mesmo apenas o crivo crítico particularmente acerado. Percebo-o agora melhor, a Macamo. Naquela sua irritação. Que agora é a minha. Nesta exigência, irritada, patriótica (coisa que Macamo compreende e respeita, mas que estes agit-propeiros  portugueses tanto desprezam, idólatras que são de todas as "identidades" excepto da nacional, da qual são iconoclastas), de que quem escreva sobre o meu país seja tão profundo e analítico como quando escreve sobre o seu próprio. Ou então que fale de pataniscas de bacalhau e de vinho verde. E do nosso Sporting.

 

Pluto e o racismo

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Nas últimas eleições legislativas foram eleitas as duas primeiras deputadas negras em Portugal – o caso muito propalado de uma deputada negra “assimilada” nomeada durante o Estado Novo tardio, o do lusotropicalismo nas “províncias ultramarinas”, não tem nada a ver com isto, como qualquer pessoa com um pingo de intelecto pode entender.

Entretanto na última legislatura (e nesta também) foi escolhida uma mulher negra para o importantíssimo ministério da Justiça. Uso o superlativo pois a relevância do cargo foi potenciada – para a opinião pública – dado o caso “Sócrates”. Relevância que convocou a polémica, pois foi essa ministra (mulher negra, repito-o) a primeira locutora da substituição da Procuradora-Geral da República, por muitos vista (se bem ou se mal, é outra conversa) como um passo para o controlo das investigações judiciais sobre casos de corrupção no sistema político. E que, como tal, provocou acalorado debate no país. E, nesse, múltiplas invectivas à ministra.

Acontece que as críticas – o tal “escrutínio” –, seus conteúdos ou particulares intensidades, à ministra Francisca Van Dunem e os olhares sobre as recentes duas primeiras deputadas negras do país, Beatriz Gomes Dias e Romualda Fernandes, não têm convocado particulares indícios de racismo, nem a elas dirigidos nem aos partidos que as integraram.

Entretanto foi também eleita outra deputada negra, a terceira na história da Assembleia da República. A sua postura, pessoal e política, convocou atenções. Bem como a da sua “entourage”. Antes e em especial após as eleições. Por essa postura, pessoal e política, vem sendo bastante criticada.

Leio agora no Facebook duas pessoas, que normalmente botam com tino, reclamar com o racismo português, a este atribuindo o exarcebado “escrutínio” sofrido pela deputada Katar Moreira. Não reparam, pelos vistos. São imunes, talvez, ao comparativismo. Ou, se calhar, apenas ao que não lhes dá jeito aos pressupostos arreigados. São mesmo epígonas do deus Pluto, o cego e coxo bem-intencionado. Entenda-se, são manipuláveis.

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