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Nenhures

Nenhures

As minhas coisas preferidas

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Sobre isto de rever "criticamente" as obras: 

Há algum tempo, num jantar já lisboeta, uma querida amiga, daquelas "dos tempos", perguntou-me, cruel indiscreta: "Zezé, já foste feliz?", teria eu já cumprido a nossa utopia? Decerto que terei chocalhado as pedras do final famous, engolido em seco, mas respondi franco, que sim, claro, que o fui naquela era ali à Avenida do Zimbabwe quando todos os dias diante da tv, e devido ao La Feria, mestre de um fantástica produção teatral, ouvia esta canção, e tantas outras, mas mais esta pois a minha preferida de sempre (sim, também Coltrane ...), nisso ombreando-me com a afinal única razão de nisto continuar, e ela ali sempre esfuziante
 
 (My favorite things, The Sound of Music)
 
Depois disso?, insistiu a então bruxa, malévola pois sabendo que pagaria a conta. Depois?, enfim, ficou o Amber Leaf e o Queen Margot para evitar a mitra, que mais haverá, disparei ?
 
Ou seja, deveremos nós dissecar o encanto a que acedemos? Com toda a certeza que não ...

E Tudo o Vento Levou: expurgar o cinema?

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1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande "As Vinhas da Ira"; uma extraordinária Bette Davis em "Dark Victory", um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E ... Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que "my name is John Ford and I make westerns" e John Wayne nasceu.
 
Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes "vestidos à indio". Todos aqueles que agoram berram o racismo do "E tudo o vento levou" nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da "construção da nação" americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual.
 
Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas "racistas", "colonos", "brancos"? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam "contagiados", como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma "contextualização" não será mais do que isso - ou, pelo menos, os "filtristas" não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêm como "moral" do filme.
 
Nisto há muita gente que protesta com a anunciada "contextualização", como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há .... "prefácios", contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são "posfácios". E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.
 
Mas não se feitas da moralismos viciosos, de "filismos" que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o "west" (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.
 
Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a "Tintin", de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o "Tintin no Congo". O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem - e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.
 
Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus "prefácios". Não as ver. Não "clicar" nelas. Exactamente como fazemos com os livros - e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no "tripadvisor" que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor,  não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso - sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.

Julgar a História, apear monumentos

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Muitos resmungam ou indignam-se com a campanha contra as estátuas e monumentos, devido à sua mácula colonial ou pré-colonial. Espantam-se também com a censura de uma empresa televisiva ao "E Tudo o Vento Levou". Estão enganados. Todas as gerações que foram actuantes fizeram uma avaliação do seu legado cultural e seleccionaram aquilo que deve ser preservado e retransmitido às novas gerações, construindo mundivisões consideradas adequadas. Chama-se a isso educação.

Entretanto, reli há dias este livrinho, afamado, do poeta francês Charles Baudelaire, um oitocentista ainda algo lembrado. O que ele diz das mulheres é totalmente inaceitável, propagandeando a sua inferioridade, naturalizando-as. Exemplo de discriminação negativa, pura e simplesmente.

Urge expurgá-lo, ao poeta, dessa educação. Cercear o acesso à sua obra. Reservá-la, porventura, apenas aos estudiosos dos processos opressivos.

E há, decerto, mais exemplos. Deitemos "mãos às obras".

Vitorino Nemésio por Palmela e cercanias

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"Este passeio a Azeitão, Bacalhoa, Setúbal, Outão, Palmela e Arrábida varre da minha alma todos os miasmas possíveis. Ao arfar do automóvel vou reconquistando a minha equação com a terra portuguesa, com a sua expressão áspera e suave, independente dos homens que, não podendo arrancar de si próprios as mensagens sinceras que deviam, fazem com ar hamlética rabulazinhas triviais.  (...)

Verifico em Palmela, nos carrapitos do castelo, a minha ignorância do mais puro e lavado de toda a paisagem portuguesa. Abro a respiração a todos os ventos. O horizonte perde a função restritiva: é um índice de infinidades desdobradas em água, serra e céu. Mas a esta enorme roda visual prefiro a nesga de lombas cor de sangue que as quinas das muralhas inscrevem (...). Desdenho as edificações espúrias do castelo e reduzo Palmela aos adarves do seu princípio (...)

... Setúbal (...), apesar de pintada no Verão, parece-me jogar admiravelmente certa com esta cidade híbrida de vila histórica e de população proletária - jogar sobretudo na sua cercadura de águas, planos e serranias. A estrada de Outão dá-lhe um deslumbramento de riviera; a poucas guinadas de automóvel a Arrábida atira-lhe com uma majestada apetecível e pedregosa: Agora que de todo despedido / Nesta serra da Arrábida me vejo / De tudo quanto mal tinha entendido (Frei Agostinho da Cruz) (...)

Volto a Lisboa à noitinha. As minhas companheiras de viagem acham-me mais humano do que quando parti. Andei sòzinho nas fragas e a Arrábida vem comigo."

(13 de Janeiro de 1935)

(Vitorino Nemésio, "Folha de Viagem", Viagens ao Pé da Porta, Editorial Pórtico, 1967, pp. 13-14)

Os mortos de Muidumbe, de Nelson Saúte

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(Guerrilheiros islâmicos em vídeo publicado após o ataque a Muidumbe, a 8 de Abril)

A 8 de Abril os terroristas islâmicos assassinaram 52 jovens no distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado, por terem resistido ao recrutamento por esse movimento. Foi um dos massacres que têm vindo a ocorrer na província. O escritor Nelson Saúte acaba de divulgar este seu poema:

 

Os mortos de Muidumbe

 

Quem de nós não morre quando todos morremos em Muidumbe?

Quem sobrevive incólume diante dos impiedosos algozes

daqueles nossos infaustos concidadãos de Muidumbe?

O sacrifício dos que foram assassinados em Muidumbe

não é bastante para sangrar os jornais além das efémeras notícias

que não abalam a nossa moçambicaníssima complacência?

Quem fica de joelhos pelos mortos de Muidumbe?

A galhardia daqueles que foram metralhados

sem comiseração

em Muidumbe

não sufraga a honra das nossas ruas?

Por que nada exigimos?

Por que razão nenhum clamor fazemos?

Os nossos punhos não se compadecem

por todos os que morreram por nós em Muidumbe?

Os mortos de Muidumbe não concitam a nossa dor?

Os mortos de Muidumbe desmerecem a nossa compaixão?

Os mortos de Muidumbe não tributam o nosso sofrimento?

Somos misericordiosos com os outros mortos

e postergarmos os nossos mortos de Muidumbe.

O sangue vertido em Muidumbe não é nosso sangue?

Onde estão as vigílias

as velas

as praças exaltadas?

As missas

liturgias

eucaristias.

Nenhuma cidade se levanta perante os mortos de Muidumbe.

Porquê?

Os mortos de Muidumbe resistem sem rosto.

Os mortos de Muidumbe são apenas um número

para a estatística

para o cadastro

para o catálogo da nossa humilhação colectiva

para a recensão da desonra

para o arquivo e para o esquecimento.

Os mortos de Muidumbe não cantam.

Os mortos de Muidumbe não falam.

Os mortos de Muidumbe não reclamam.

Os mortos de Muidumbe não sonham.

Os mortos de Muidumbe não gabam a quimera dos seus epitáfios.

Nem esperam o requiem dos outros defuntos.

Os seus gritos não conclamam os deuses

porque os deuses estão ensimesmados com outros mortos.

Os mortos de Muidumbe foram enterrados

mas permanecem insepultos.

Nenhuma necrologia inscreve os seus nomes.

Os jornais não têm letras de sangue

para os que morreram em Muidumbe.

Não há obituários para os mortos de Muidumbe.

Os jornais são omissos quanto ao massacre de Muidumbe

o genocídio de Muidumbe

os fuzilamentos de Muidumbe

o extermínio de Muidumbe

a carnificina de Muidumbe.

Os mortos de Muidumbe perseveram no anonimato

como os decapitados de Mocímboa da Praia

Quissanga 

Mueda

Palma

Metuge

Macomia

a Norte onde se aniquila o futuro do nosso passado.

Os mortos de Muidumbe não desconsolam o mundo

o mundo está assoberbado com outros mortos

o mundo urge para os outros mortos

o mundo não tem empatia com os mortos de Muidumbe.

Há um pérfido alheamento pelos mortos de Muidumbe.

Os mortos de Muidumbe não fazem parangonas

não abrem telejornais.

Quem morremos com os mortos de Muidumbe?

Será que não morremos todos com os mortos de Muidumbe?

Ninguém de nós se condói pelos mortos de Muidumbe?

Que país é este que não se enternece com os mortos de Muidumbe?

Os nossos pêsames

a nossa consternação

a nossa comiseração

a nossa humanidade

não são dignos dos mortos de Muidumbe?

Que luto é este que escolhe não velar os mortos de Muidumbe?

Que mortos sufragamos nós para carpir as nossas lágrimas?

Que angústia é essa tão insolente quanto aos mortos de Muidumbe?

Que silêncio é este perante o silêncio dos que foram silenciados em Muidumbe?

Quem de nós não morre quando todos morremos em Muidumbe?

 

Nelson Saúte

Junho de 2020

No hospital d'aquém-Tejo

Nenhuma descrição de foto disponível.

Uma indisposição, felizmente não gravosa, de familiar bem próximo conduziu-me ontem ao hospital distrital deste aquém-Tejo. Na triagem a categoria atribuída foi verde (bela cor, claro). Após 2 horas e tal de espera telefono a médica amiga, "fita verde? aí? Tens para oito horas...", e sosseguei, qual esse outro Flávio, o tio-avoengo Marco Aurélio. Enfim, foram mais de sete horas de espera. À porta, em pé - ali há apenas um pequeno banco, para duas pessoas, alambique de covid-19. O cafézito, pepsi-cola a 1,8 euros? "Posso-me sentar? Sim, durante 20 minutos" diz-me a simpática "colaboradora" (como agora sói dizer-se), imune à decerto ilegalidade da afronta."Porque não foste ao hospital ...!?", o privado, claro, depois, já noite mesmo, e isso neste Junho de ocasos lentos, me barafustaram amigos. Sorrio, não elaboro introspecções, e nunca em público. E muito menos falo deste escândalo do funcionalismo público. Ululantes na verborreia dos "direitos adquiridos" e das nobres causas. Mas na hora doente alheados de nós ali, a obesidade pobre, velhos pouco-validos, os sotaques agudos e ondulantes, ciganos, apatetado eu e talvez algum outro, negros (pós)imigrados. Para quê falar disso se o meu familiar está bem, para quê resmungar?

Simpáticos os "seguranças" como agora se chamam os contínuos, desprovidos da arrogância que os uniformes tanto convocam. "Posso entrar só para ir ver o meu ai-Jesus?", pergunto a um deles. "Sim, mas pouco tempo, sff" anui. E lá está a "carne da minha carne", sentada na cadeirinha de plástico fixada à parede, ombreando com a longa de fila de doentes, todos mais juntinhos do que os passageiros da TAP a olharem em frente, como manda a dra. Graça, a Freitas ("vão visitar os idosos", dizia ela quando os tontos espanhós fecharam os lares e o povo gosta da senhora, "tão competente", e a burguesia e o funcionalismo público ainda mais gosta pois "tão PS"). Repito, ombro a ombro, ali estão os doentes, da fita amarela até à menos urgente.

Falar disto para quê, se o meu familiar está bem, para quê resmungar? No caminho para casa conta o "sangue do meu sangue", na estupefacção de quem tal nunca vira, "ao meu lado um doente velho dizia ao telefone "não via uma coisa destas desde os tempos da Guiné", e eu imagino-lhe a tatuagem "amor de mãe, 70-73", veterano agora transposto para hospital de campanha. "As velhinhas na maca a pedirem água e ninguém lhes dava" e eu a relativizar, coisas da necessária dureza do trabalho hospitalar. "As enfermeiras aos gritos umas com as outras e a não ligarem aos doentes", e eu aduzindo que talvez sejam "auxiliares", que há destrinça nos uniformes, etc. É a era do Covid-19, dirão. Mas talvez não seja. É este aquém-Tejo, célebre pela rudeza das gentes, cultura ríspida. Talvez, ainda que isto aqui seja de povoamento tão recente. Pois, de facto, apenas é.

Portanto, uma indisposição, felizmente não gravosa. À qual se segue uma mudança nas vidas. Deslocações. E quarentenas. Não porque não possamos apanhar o tal covid-19 (tão anunciado no tal hospital). Mas porque não posso conviver com os meus circundantes, os tais "grupos de risco". Porque estivemos num hospital, público. Comandado pela simpática ministra. "O barato sai caro", diz o povo, condenado ao barato.

Entretanto, nem eu posso ir à bola nem o tal familiar pode ir às festas, ralhou-lhe Sousa.

Voto de pesar

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André Ventura está contra o voto de pesar da AR dedicado ao assassinato no Minnesota. A argumentação dele é errónea, compara aquele crime com qualquer outro assassinato. Mas é errado porque se trata de um assassinato policial num país democrático e aliado.
 
Eu ligo a um postal com dois anos. A minha questão é a pertinência deste tipo de votos de pesar. A minha outra questão é a cedência a agendas externas, por legítimas matérias que abordem, e a colonização mental que isso significa. A minha última questão é a de que esta via tem uma retórica "moralista" mas é, de facto, estratégia de obtenção de recursos estatais, capitaneada por sectores corrompidos da pequena-burguesia.
 
Sobre votos de pesar parlamentares perguntei há dois anos qual a pertinência de se fazer um voto pesaroso pelo assassinato de uma vereadora de um município do Rio de Janeiro quando nada de similar se fizera aquando do recente assassinato do presidente do conselho municipal (câmara) de Nampula? Porque um, negro, teria sido morto por negros? (Ainda que a acusação inicial tenha incidido sobre asio-descendentes, um dos quais meu amigo). E a outra, "parda", deverá ter sido morta por brancos (ou assim se presumiu)? Ou porque o autarca moçambicano era assumidamente heterossexual e a brasileira era assumidamente homossexual? "Todas as vidas contam"? Mas umas mortes doem mais que outras para o Parlamento português, mesmo quando há homologias óbvias, políticos autarcas de países da CPLP mortos por "desconhecidos" e por razões políticas?
 
A AR entende ter espaço para votar o seu pesar pelo assassinato do americano George Floyd, às mãos de um gang policial, logo pressurosamente proposto pela coligação comunista. Pesar político, não se trata das nossas meras sensibilidades., do pesar pessoal diante do horror. Ora diante desta novidade googlei agora mesmo, mas não encontrei, fico em dúvida: será que esta AR tão pesarosa é, votou o seu pesar pela morte de Anastácio Matavele, moçambicano (negro, já agora), coordenador de ong "A Sala da Paz", envolvido na observação eleitoral, assassinado por um grupo de polícias moçambicanos (sim, negros) nas vésperas das últimas eleições nacionais? Drama que foi amplamente noticiado na imprensa, e lamentado nas redes sociais.
 
Não me parece que tenha votado, pois nem o sítio da AR nem o Google me confirmam isso. Julgo que não é preciso avançar muito mais. É o racismo americano tétrico. "Instituído"? Sim, mas o que também está instituída é a importação de uma visão das coisas, das hierarquizações dos problemas, das causas e soluções das questões. A colonização mental. Serve para intelectuais preguiçosos, e para claro, o pobre parlamento que temos poder parlamentar.
 
Mas serve também, e isso é a minha terceira questão, para suportar a propaganda de "bois de piranha", como se diz no Brasil, a cargo da camada mais corrompida da intelectualidade, mais acerada na demanda de recursos estatais - insistindo em causas e problemas sonantes, que obscureçam as verdadeiras agendas de políticas e económicas dos poderes fácticos (foi assim, lembrem-se, com a questão do casamento homossexual há apenas uma década). De facto, mais interessada nos ganhos com a agit-prop do que com aquilo, essencial, de que "todas as vidas valem". Mesmo as dos negros heterossexuais que não são mortos por brancos lá nos EUA.

Os hostels e o covid-19

Hostel evacuado em Lisboa. 169 estrangeiros já foram transferidos ...

(testes de despistagem do covid-19 em albergue lisboeta, Abril de 2020)

No final da era confinada li várias notícias sobre testes de despistagem de covid-19 em "hostels" lisboetas com estrangeiros. Sempre desconfio quando vejo usar termos em língua estrangeiras em vez do português, não por nacionalismo bacoco mas porque é sempre forma de enganar o cidadão, forma-mor de aldrabismo (exemplo extremo será a generalização de "spread", cujos efeitos ainda estamos a pagar, e muito ...).

Na altura não compreendi bem o fenómeno. Ainda que tenha aflorado a assunto num texto longo sobre esta era, P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19", uma inutilidade pois não lido, mas que me serviu como catarse. 

Não os percebi pois julguei-os albergues (que é como se diz "hostels" quando não se é tonto) privados e dedicados a uma clientela de imigrantes pobres (legais ou não é indiferente). Assim uma versão "moderna", pois desligada dos empregadores, dos "compoundes", como se diz em Moçambique, celebrizados pelo tétrico alojamento de mineiros migrantes ali na vizinha África do Sul. Ou versão urbana dos contentores que as herdades alentejanas agora usam para alojar os nepaleses que ali aportam como mão-de-obra barata e ... calada. E também os presumi merecedores de visita de alguma ASAE da hotelaria ...

Mas afinal os tais "compoundes" não são exactamente (só) isso. Pois neles vivem, em condições pérfidas, imigrantes que requereram asilo e lá são colocados pelo Estado.

Este texto publicado no Público é muito interessante. Até pela linguagem, de relatório ("nós vimos que ...."), rara na imprensa portuguesa onde vigora a retórica "opinativa" ("eu acho que ..."). E é letal para os serviços estatais e autárquicos. Não apontando os seus mandantes, governantes e autarcas (viés típico do tal nosso "eu acho que ..."). Mas desnudando os sectores intermédios e baixos do funcionalismo público (pois ... "nós vimos que").

O que se passa no feixe dos organismos estatais envolvidos nesta questão é uma total vergonha - até contrária às intenções superiores. E é um problema dos serviços. Como dizem as autoras: "as diferentes instituições responsáveis pelo “sistema de asilo” continuaram a adotar hábitos endémicos de inoperância e sobranceria".

Será conveniente lembrar que essa "cultura" do funcionalismo público é transversal. Não universal. Mas recorrente. E é uma inimiga, vil. Não só dos desprotegidos estrangeiros. Mas de todos nós, do nosso desenvolvimento.

Sousa e o 10 de Junho

Declara o presidente Sousa que o "10 de Junho será como achei que deveria ser o 25 de Abril e o 1º de Maio", e que a cerimónia do Dia de Portugal contará apenas com oito presenças. Isto ultrapassa tudo, em termos de aleivosia hipócrita. O desplante deste nosso presidente é mesmo ofensivo. O presidente goza com o povo, connosco. E o povo julga que ele está a brincar, com simpatia. Mas está a desprezar ...

Não sou jurista mas julgo saber que não se pode dizer do PR o que se pensa, há limites legais específicos, julgo por ter a função uma dimensão simbólica. Ficam assim reticências (...) para que cada um imagine o que penso destas declarações presidenciais.

O homem tem uma agenda política que não está totalmente cumprida, terá que ser continuada. Palmadas nos ombros, abraços e beijos às turbas, servem para a cumprir. Enquanto isso: preservar o Regime, impedir a "república de juízes". E nisso protelar os processos instaurados à elite financeira e ao antigo poder socialista, e trancar o viés investigador sobre o grão-crime político-económico. Nisso é o aliado natural do actual governo.

Novas investigações não existem, isso está cumprido. Mas o resto é comprido pois ainda há gente a preservar. Entretanto vai gozando connosco. E as pessoas gostam ...

 
 

Do Minnesota a Portugal

Como João Campos e Maria Dulce Fernandes abordaram o caso do cidadão americano assassinado pela polícia reproduzo aqui um postal sobre o assunto que coloquei no meu mural de FB, num registo mais solto e coloquial do que o blogal, até porque lhe integro nacos do que fui colocando em comentários (dada a porrada que fui levando). Mas junto-lhe a grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da como a pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

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