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Nenhures

Nenhures

14
Mai24

A Adega do Isaías, 30 anos depois...

jpt

adega do isaías.jpg

É o "A Bola", claro, sempre consabido e fiel órgão oficioso de uma popular agremiação lisboeta, que recorda a efeméride: hoje, aos 14 de Maio de 24, cumprem-se exactamente 30 anos que jantei no "Adega do Isaías", então renomado restaurante em Estremoz.

Regressara há poucos dias a Portugal, depois de ter trabalhado durante 3 meses na África do Sul como observador eleitoral, aquando da ascensão de Nelson Mandela à presidência. Fora uma experiência extraordinária, exaltante, imensamente marcante, e não só por ter sido a minha primeira viagem em África. Tanto que a tentei descrever, e à influência que em mim teve, através de dois postais, distanciados no tempo: o "Now is the time: Nelson Mandela" e o "O Corredor" - e a ambos coloquei na minha selecção de uma centena de crónicas, o "Torna-Viagem" (o qual, repito a tentativa de o impingir, se pode encomendar através desta ligação aposta no título).

Naquela época (e não só então, e não só então...) eu estava muito enlevado - para não dizer de outra forma - pela minha namorada, condição que já não era recente. À chegada, saudoso, logo marcámos para o primeiro fim-de-semana uma incursão a Estremoz, uma bela opção havida por razões que já não recordo. E assim avançámos, ficando albergados numa linda casa em recanto bucólico, até idílico, poiso que decerto veio depois a ser considerado "de turismo rural". 

Ao segundo dia da estada, no sábado, aconteceria o Sporting-Benfica, em plena fase final do campeonato, esse que estava destinado ao nosso Sporting, então possuindo uma magnífica equipa: treinada pelo professor Queirós, que à pátria dera recentemente dois tão entusiasmantes títulos mundiais, blindada por uma excelente parelha de centrais (Valckx e Vujacic), dificilmente repetível, e orlada por um meio-campo luxuoso, esse sim mesmo irrepetível, verdadeiros "Quatro Violinos" (Figo, Capucho, Paulo Sousa, Balakov). E para conclusão, lá na frente impunha-se o codicioso avançado Jorge Cadete, oriundo da antiga Porto Amélia, então já Pemba - terra para onde eu me aprestava a partir para um também entusiasmante semestre de "trabalho de campo".

O jogo teria transmissão televisiva. No nosso refúgio havia uma televisão, algo que à chegada eu havia considerado inútil, até intrusivo, em tal local. Durante a tarde a beldade, sempre completamente alheada das coisas do futebol, disse-me "vês o jogo e depois vamos jantar", ao tal restaurante que nos havia sido basto recomendado, dito como "o" verdadeiro sítio estremocense. Logo refutei a proposta, pois era o que faltava, abstrair-me dela apenas por causa de um mero jogo da bola... Pois o Amor impunha a sua Lei, em regime de "servidão voluntária", como havia dito o La Boétie (falando, é certo, de outras coisas). Assim abdiquei de ver a partida, imunizando-me às vãs paixões futebolísticas, e naquele fim de tarde fomos passear pelas redondezas. Nunca soube se ela percebeu a magnitude daquela minha atitude, o seu significado - mas é certo que depois casou comigo, tivemos uma filha, e aturou-me mais vinte anos, é capaz de ter compreendido...

Pela hora de jantar (jogo da bola completamente esquecido) entrámos em Estremoz e fomos até ao tal "Adega do Isaías". Uma casa aprazível, numa decoração típica, mais que acolhedora, até reconfortante, de cariz etnográfico, na mesa para nos receber foram instalados uns acepipes iniciais consuetudinários, lembro-me que de fino recorte técnico. Mas num dos topos da sala estava uma televisão - ainda nada de ecrãs engrandecidos que vieram depois a vigorar -, e diante dela estavam congregados alguns clientes locais. No recato da disciplina auto-imposta sentei-me de costas para ela, encarando a amada. Nesse entretanto, e através do empregado "...do Isaías". soube - teve de o ser - estar o jogo no intervalo, que o Benfica ganhava por uns (inusitados) 3-2. Acolhi o prometedor cardápio com um sorriso complacente, convicto que aconteceria a reviravolta ("remontada", espanhola-se agora) do nosso Sporting, e divergi a minha atenção. Ainda assim pelo canto do ouvido notei que na reentrada em campo o prof. Queirós havia tirado o lateral-esquerdo Paulo Torres...

E logo depois o ulular dos restantes clientes fez-me notar que o Isaías - não o do restaurante mas sim o jogador do Benfica - cavalgara à desfilada pela avenida onde já não estava o tal Paulo Torres e marcara o 4-2. Petisquei mais uma lasca de enchidos locais, entrecortados por azeitonas verídicas, ainda mergulhado na carta dos vinhos. Breves minutos passados, ainda rodando o primeiro copo de um bom tinto, que me acalentava sonhos de futuros comuns, o "Isaías" restaurante tremeu com a gritaria estremocense, pois o outro Isaías -. o de Carnide - tornara a cavalgar, com os sequazes, a tal avenida desprovida do Paulo Torres, fazendo o 5-2. Mantive-me impávido, soberbo, nem olhei para o ecrã. Naquela "Adega do Isaías" indiferente aos feitos do Isaías.

Nunca mais voltei a Estremoz. E ainda hoje estou crente de que a minha vida teria sido diferente se o Paulo Torres não tivesse sido substituído.

(Adenda: agradeço à equipa da SAPO o destaque dado a este postal - também colocado no Delito de Opinião - na simpática rubrica "Palavras de blog", devido à "consuetudinários" que aqui usei.)

11
Mai24

Nada há de novo debaixo do Sol

jpt

filho-de-peixe-sabe-nadar.jpg

Antes de partir para Moçambique vivi quase dois anos em Campo de Ourique, na Tenente Ferreira Durão (a rua do célebre e tão saudoso "Stop do Bairro", então nossa cantina), foi um período muito bonito, o início da vida conjugal. Fiquei com uma costela local, mais atento ao que por lá se vai passando. Nas últimas eleições autárquicas reparei que a vitória foi... "resvés Campo de Ourique": a lista vencedora, do PS, ganhou por apenas 25 votos. Tendo havido alguma resmunguice local, dada a radical excentricidade dos resultados numa urna..., a decidirem o resultado final.

Sorri ao ler o acontecido. Não só por ter a minha experiência de observador eleitoral internacional - actividade onde se vêem (e aprendem) coisas "engraçadas" sobre a matéria - mas porque recordei a minha curtíssima experiência de estudante de Direito, lá na dita "Clássica". Recentíssimo caloiro, na segunda semana, no anfiteatro apinhado de ouvintes ansiosos das maçadoras perorações (um dos Doutos professores debitava, linha a linha, palavra a palavra, a gigantesca sebenta, em dois volumes, de sua autoria que nós éramos obrigados a comprar, e a preço caro...., isto contado nem se acredita, mas era assim mesmo, e ainda se davam e dão mesuras àquilo), no anfiteatro apinhado dizia eu, entraram dois tipos da associação de estudantes, um tal de José Apolinário orador e um coadjuvante de tez indiana, de olhar e pose nada lenta, lesto e ladino mesmo, notei-o. Pediram uma votação de apoio às suas actividades, alguém da nossa gente respondeu que não os conhecíamos, de caloiros que ainda éramos, eles insistiram, fez-se a votação. E perderam... "resvés Campo de Ourique", face à quase total abstenção da caloirada. No dia seguinte, ao entrar naquela átrio "Estado Novo" lá estava um enorme lençol afixando os votos de todas as turmas daquele sofrido (e sofrível) quinquénio. Os da nossa tinham sido invertidos, a favor dos jovens "activistas" (como então não se dizia).

Uns dias depois houve uma RGA - ocupação então muito em voga -, na qual os grupos lá instituídos se digladiavam por questões que, vim a perceber depois, se prendiam fundamentalmente com a impressão que poderiam causar nas colegas, então já numericamente maioritárias mas ainda minoria sociológica. Irritei-me com a prosápia dos sacaninhas empossados (e emproados). E fui falar - sem ser por motivos profissionais (ou similares) foi a única vez na vida que falei em público ... Corado, transpirado decerto, atrapalhado. Mas com a arrogância olivalense face a uns "tipos vindos sabe-se lá de onde" - na semana anterior, no primeiro dia de aulas, eu e o meu querido Tiago, vizinhos de rua onde crescêramos e amigos para o sempre até hoje, havíamos aportado à Alameda Universitária idos no 31, chegámos à porta da faculdade e deparámo-nos com uns atrevidos ali de porteiros, que nos queriam praxar como o fizeram às centenas de neófitos. Fitámo-los mudos nisso dizendo-lhes "vão-se foder" e entreolhámo-nos, também mudos, dizendo-nos "olha-me estes caralhinhos a quererem praxar dois gajos dos Olivais...!". Os patetas não disseram mais nada, e fizeram-nos entrar pela porta lateral, sem mais... Enfim, era esta a atitude diante daquela casa... Avante, também por isto tudo lá fui falar, resmungando que os mariolas haviam falsificado os resultados da nossa votação. Começaram a contestar-me e ripostei-lhes que perguntassem aos meus colegas ali presentes... E toda aquela enxúndia JS se calou. Logo desci do estrado, comigo vieram ter umas moçoilas da tuna, ou lá o que era, de preto vestidas e em cima de sapatos de salto alto, apetecíveis - como o são quase todas quando se tem 18 anos -, louvando-me. Mas logo regressaram para junto das auréolas dos quartanistas ou finalistas que acolitavam. Mas, no fundo, deixando-me o reconfortante sinal do "cresce e aparece...". Um mês depois fui crescer para outro lado, diga-se...

Enfim, quase 40 anos depois, ao ler sobre a urna complicada de Campo de Ourique, lembrei-me desta historieta. Ri-me, num "filho de peixe sabe nadar". Há poucas semanas, na televisão do café "Tosta" dos Olivais, notei que o peixe júnior ali aparecia como "comentador político", e deixei cair para o lado um "olha este a fazer-se cabecilha de cardume". Há dias li que se demitia de presidente da Junta de Campo de Ourique (a tal ganha "resvés", devido à tal urna...), queixando-se de maus tratos recebidos pelo presidente da Câmara - que exerce o cargo assente numa minoria, convém que os crentes nas suas aleivosias não o esqueçam -, tamanhos que impediam este peixe júnior de exercer o cargo com a competência que clama ter. Dias depois, afinal, o jovem peixe vai para director-geral de um grupo de comunicação. Muito mais do que mero "comentador"... Não terá sido Carlos Moedas a obrigá-lo a tal mudança...

Tenho quase, quase, 60 anos. O meu corpo é um templo. Mas desde há décadas que tenho sido um ateu iconoclasta. Ou, pior, um Átila de mim-mesmo. E estou alquebrado pela tétrica razia que ultimamente tem acontecido entre os meus amigos e conhecidos. Nisso sigo avisado, não terei muito tempo pela frente. Ou seja, já não sofrerei este ainda jovem "filho de peixe". Mas - sublinhem e guardem as minhas palavras - ele virá à tona. Pois "sabe nadar". E como nada há de novo debaixo do Sol, ensina a Bíblia, assombrará as vossas reformas, as vossas estadas nos "lares de repouso", os vossos ocasos profissionais. E os destinos dos vossos filhos. E consegui-lo-á, nem que seja... "resvés", por uma unha ou urna que seja.

10
Mai24

A era dos caracóis

jpt

caracois.jpg

 
"Onde estás?", "onde andas?", alguns (poucos) me perguntam, percebendo que não estou em nenhum dos meus poisos habituais, nem naqueles menos habituais, os meus segredos de polichinelo...
 
Estou bem, não em "exílio interior" como ademanam alguns intelectuais, mas em verdadeiro asilo interior, refugiado (mas não "ilegal"), "mergulhado" na clandestinidade do sozinhismo. Escapei-me pois percebi que a época dos caracóis, a demoníaca era da molhanga odorífera e dos frenéticos sorvedores "activistas", já começou...

10
Mai24

A Rússia e África

jpt

Putin espera "maior coordenação" com Moçambique no Conselho de Segurança da  ONU - SIC Notícias

Desde os meus tempos de petiz que foi evidente a minha inabilidade para as artes plásticas. A falta de talento terá também convocado a amargurada desmotivação. E tudo descambou, a ponto de no 8º ano ter chegado ao ponto - inusitado - de reprovar na disciplina de "Educação  Visual", notícia recebida pelos meus pais com notório desencanto. E devido a esse meu défice sempre me ficou vedada a opção de rematar debates com o sacrossanto posfácio "percebeste, ou queres que te faça um desenho?", tantas vezes necessário, principalmente quando se trata de explicar o óbvio, este para alguns tão difícil de apreender.

Sinto-o, recordo-o, agora, quando vários amigos - prenhes de verrina, até sádica (como já aqui lamentei) - me cutucam com a notícia de que a Iniciativa Liberal convocou o ministro dos Negócios Estrangeiros para que se apresente na Assembleia da República, explicando o que vai fazer face às negociações aproximadoras entre a Rússia e países africanos membros da CPLP. Enviam-me a notícia com comentários e invectivas, tipo "olha os teus amigos da IL", e imagino-lhes os sorrisos sarcásticos enquanto teclam. Sabem eles, e por isso me gozam, que louvei - enfaticamente - a intervenção parlamentar que há meses a IL fez relativamente às problemáticas eleições autárquicas em Moçambique (em 26.10.23 e em 30.10.23). Tal como, e já agora recordo-o porque  vem a propósito, muito louvei a intervenção no Parlamento Europeu que o agora ministro Paulo Rangel fez, relativamente aos conflitos no norte de Moçambique (18.9.20 e 3.10.20). 

Acontece que também sabem eles, esses meus amigos - e até eu o sei, caramba - que é pertinente uma intervenção parlamentar (em cenário nacional ou internacional), sonora, apelando à conjugação de esforços para obstar a situações de facto gravosas em contextos alheios, servindo isso para reforçar nossas iniciativas nacionais e tentando induzir posições alheias. E que é completamente diferente - impertinente, entenda-se - uma intervenção parlamentar, sonora (e querendo-se até tonitruante), para afrontar as legítimas relações bilaterais e multilaterais de Estados soberanos, nossos aliados. (E permito-me recordar que sobre esta questão escrevi "A CPLP e a Ucrânia" em 4.3.22). 

Ou seja, face à crescente interacção entre a ditadura russa e os nossos aliados PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa) é desejável que a diplomacia portuguesa acompanhe o processo, tente contrabalançar um pouco a situação. Na surdina que lhe é virtuosa essência. Mas é descabido, pois até contraproducente, que isso sirva para a agit-prop cá no burgo.

Mas mais ainda: são consabidas as fortes relações, económicas e políticas, entre a Rússia e o nosso aliado PALOP (país americano de língua oficial portuguesa), traduzidas num relativo apoio do Brasil à investida de Moscovo na Ucrânia, tanto durante a presidência de Bolsonaro como na de Lula da Silva. Vai a IL chamar o MNE Rangel ao parlamento para que este avance o que irá fazer diante dessa situação? Não, como é óbvio.

Enfim, o que mostra isto? Que se pode tirar a criança do Império, mas não se tira o Império da criança. É certo, pode-se ser optimista, ansiar que a criança cresça, amadureça, se ilumine. E é por isso, por essa minha episódica vontade de optimismo (antropológico), que faço este pedido: dado o meu acima referido défice gráfico será que alguém dotado o suficiente poderá desenhar uma ilustração deste óbvio e enviá-la à sede da IL? A ver se amadurecem?

(Post-scriptum: nas próximas eleições europeias votarei na IL).

10
Mai24

Misericórdia(s)

jpt

jmtavares.jpg

Vários amigos sabem que a minha alergia ao jornal "de referência" Público me impede de o ler diariamente (vejo apenas o que me enviam sob recomendação, às vezes com vero sadismo). Agora recebi este texto de João Miguel Tavares. O colunista - insuspeito de cumplicidade com o amplexo PS - zurze em bons termos o nóvel governo por causa da atrapalhada demissão da chefia da Santa Casa de Misericórdia, entregue à antiga ministra socratista Ana Jorge. Logo de seguida, em jantar com gente que me é imensamente (para não dizer mais...) querida, também o assunto foi abordado, criticando-se "a pés juntos" (e com pitons) o malvado governo.

Pouco sei do assunto, a instituição ter-se-á metido em jogatanas no Brasil e perdido uma fortuna. Por isso o anterior governo mudou a sua direcção. Agora este quer mudar de novo. E está uma trapalhada. "Deselegante", para não dizer pior, é o que atiram aos governantes, que destrataram a actual (e inocente) chefia. O próprio João Miguel Tavares - de quem os socialistas sempre dizem pior do que Maomé disse do toucinho - se indigna.

Ora eu leio o texto e interpreto-o ao contrário. Não sou eleitor do partido do governo (nem das ficções com que está "coligado"). E já há anos escrevi que o seu actual presidente é um Jorge Silas (os sportinguistas campeões compreender-me-ão...). E até julgo que o PSD é "farinha do mesmo saco" que o PS (ainda que talvez as últimas remessas tenham menos "bicho" - ainda que tal não seja difícil, tão putrefactos estão os tipos do "Rato").

Ainda assim, ocorre-me uma ideia acerca do fundamental disto tudo. O governo contactou a chefia das Misericórdias e pediu-lhe que se demitisse. A senhora recusou-se. Acontece que a sua nomeação fora política, é um cargo de "confiança política", não adveio de qualquer concurso. Ou seja, o que é curial (moral) - independentemente de contratos vigentes - é que o cargo esteja sempre "à disposição", e muito em especial se muda o governo. E quando se pede a alguém que se demita - muito em particular uma profissional sénior de estatuto elevado -, é para evitar que seja demitida, sempre um acto ríspido. Pode ser injusto, as pessoas em causa podem sentir-se injustiçadas, os postos podem ser muito apetecíveis, as funções até exaltantes... Mas é o curial: sair quando se lhes é pedido. Até porque ninguém as obrigou a aceitar os postos. E porque não se tratam - os elevados a estes postos de "confiança política" - de desvalidos em busca do "leite para as crianças", assim passíveis de cairem nas ruas da amargura, nas filas do Banco Alimentar.

Lembro-me de há anos ter encontrado um amigo - o tipo não conta a história em público portanto não o identifico - que, já noite longa, me confidenciou o que lhe acontecera. Anos antes fora convidado para um belíssimo cargo de óbvia "confiança política" (desses exaltantes - e bem pagos -, e que ainda para mais são trampolim para um futuro aconchegado). Recusou, pois não queria estar sujeito à tal "confiança política" de gente daquela cor partidária - e daquela estirpe, o que lhe era mais importante. Insistiram. E recusou de novo, "disse-lhes que os meus avós se levantariam da tumba para me perseguirem no caso de eu trabalhar para eles...". Ri-me com o desplante do homem e brotou-me, apesar de com ele fazer alguma cerimónia, "estúpido do c....!". Ele riu-se num "pois!". E pediu mais 2 duplos (Dimple, lembro bem). No fim da noite, alvorada já, paguei eu a conta, claro! Que era robusta...

Ou seja, deixemo-nos de coisas, a septuagenária socratista é que esteve muito mal. Tal como estarão todos os outros apparatchicos que não sairem pelo seu pé! O resto são amendoins...

08
Mai24

Ouvidos livres

jpt

motels.jpeg

 

Guiar à noite na estrada é bom. Não tanto pelo carregar no acelerador, coisa que já não faço (bons velhos tempos...) - e não só por causa dos radares, é mesmo a consciência de que já me faltam os reflexos para o que der e vier... Mas dado que não se está tão dependente dos ruídos alheios, coisa do trânsito citadino, nisto de no estrada afora noctívago ser suficiente atentar nos faróis. E assim pode aumentar-se o som da música, até mesmo à demasia. Ontem fiz dezenas de regrados quilómetros, tendo para isso apanhado na 2 o final da 9ª de Beethoven, uma actuação em Berlim de 2023. Há quem a diga o supra-sumo, até ideológico, mas também quem a diga um "significante vazio" (Steiner?, Ricoeur?, estou longe dos meus livros, não os posso consultar, e já sigo desmemoriado...), pois "serve para tudo", de tudo é símbolo. Mas é imponente, "enche" (e por isso vem "servindo para todos").
 
Sorte, disse eu. Só depois, já em casa, percebi - via o sempre interessante blog "Herdeiro de Aécio" - que ontem se comemoravam os 200 anos da estreia da sinfonia. Então por isso ouço-a até quase de madrugada (dirigida por Solti, com a Sinfónica de Chicago, que muito miúdo ofereci ao meu pai em LP duplo) - e eu, que há décadas não ouvia as sinfonias do génio nada surdo, desse registo afastado, enfastiado até, ouço agora duas, a 3ª na Gulbenkian há dias, a 9ª agora para cá do Trancão entre árvores.
 
E hoje ligo o Spotify, deixo-me a ouvir canções tão diferentes, uma selecção feita colectivamente, por amigos, canções "dos nossos tempos", uma celebração de facto de todos nós, amigos de geração em comunhão. Coisas tão diferentes, algumas belas, outras divertidas, outras apenas nostálgicas. Prazerosas, todas, a mostrarem que os ouvidos (pelo menos os ouvidos) não têm donos.
 
De repente aparece-me esta "Only the Lonely", que já quase esquecera apesar do quanto dela ter gostado. "Gostas disto?, mas é uma cançãozinha, de uma bandazinha", lembro-me tão bem de um amigo melómano me ter invectivado há 30 e tal anos. Mas é-me, sempre o foi, uma delícia, e deixo-a em "loop". Depois procuro uma versão "ao vivo" no youtube, para partilhar. Da época há esta, com som e imagem decentes - apesar da introdução televisiva. E há outras, destes últimos anos, com a Martha Davis, desgastada como eu, curvada quase como eu, até com ar de velhinha vizinha nos Olivais, mas a cantar com a voz de então...
 
Mas prefiro partilhar o "tudo" de então. Mesmo para frisar aquilo de que os ouvidos não têm dono. E muito menos... agenda.

 

05
Mai24

A "Nwahulwana", de Wazimbo

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makweru.jpg

Gastei parte da noite insone a ver na televisão o "A Promessa" ("The Pledge"), um sofrível filme policial realizado por Sean Penn em 2001. Vale sobretudo pela galeria de notáveis actores que vão desfilando, alguns em curtas aparições: o grande Harry Dean Stanton, Vanessa Redgrave numa breve e magnífica actuação. E também dada a presença da sempre perturbante Robin Wright (então casada com Penn). E, mais do que tudo, por Jack Nicholson, ainda por cima porque ali um pouco menos actor histriónico do que tornou hábito nas suas últimas décadas profissionais.
 
Enfim, dito tudo isto, o relevante é bem diferente. A meio do filme, noite longa, até já eu cabeçeando - apesar da referida Robin Wright -, despertei-me, verdadeiramente surpreendido, pois a "banda sonora" do filme integra esta "Nwahulwana" do grande Wazimbo.
 
Fiquei mesmo estupefacto pois nunca soubera que Wazimbo tinha sido cooptado pela indústria de Hollywood, essa grande montra. Escapara-se-me o facto. E, honestamente, até acredito que tal não tenha sido muito divulgado em Moçambique - ou então andava eu muito distraído. Aliás, basta lembrar o escarcéu festivo, impossível de não acompanhar, que foi por cá naquela época quando a "Canção do Mar" de Dulce Pontes surgiu num filme insuficiente, com o Richard Gere...
 
Enfim, o que isto me lembra é que conheci Wazimbo quando ele gravou o disco "Makwêru" em 1997, e nos espectáculos subsequentes, tudo mesmo muito bem produzido pela Conga (do Luís Moreira et al). E de logo me ocorrer, e dizer, entusiasmado, que "se este tipo fosse da África Ocidental seria uma "estrela" internacional", dado que aquela região era então muito vasculhada pela indústria musical.
 
Pois, e é o sumo, Wazimbo é um enorme cantor.
 
 

(Nwahulwana, de Wazimbo)

04
Mai24

Jubilação

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Um dos sinais da tão crescente idade é assistir-se à jubilação dos professores que nos fizeram. É bom sabê-los ainda intelectualmente viçosos e embrenhados em pesquisas e na escrita. E que estes términos apenas advêm dos ditames administrativos, isso da classe etária dos "mais-velhos" ser arredada da docência. Ainda assim estas "jubilações" não me trazem "júbilo".
 
Há meses retirou-se (nestes moldes, repito para sublinhar que ele continua activíssimo) João Leal, o professor que mais me marcou na vida, intelectual e pragmaticamente. Pois quando eu leccionava quantas vezes, e durante tantos anos, me interrogava eu "como é que o João Leal abordaria isto?", os conteúdos que me cabiam (re)transmitir...
 
E agora, nesta próxima semana, jubila-se João Pina-Cabral, o antropólogo português que mais li - ele é (e continuará a ser) prolífico, e nisso substantivo, conjugação que nem sempre acontece a outros. Também ele foi meu professor naqueles jovens anos da antropologia lisboeta nos 1980s, depois dele fui colega na UEM noutros jovens anos da antropologia, os do início de XXI em Moçambique.
 
E, a latere, o "Pina" (como a "velha guarda" se lhe refere) publicou o ano passado um livro de reflexões ancoradas em Moçambique, o "Transcolonial", que muito debate intelectual poderia ter alimentado, não fosse o ambiente intelectual nacional estar condenado a mimetizar as nada patuscas páginas do "Público".
 
Enfim, dia 9, quinta-feira, às 17 horas, os que estão em Lisboa poderão ir assistir à sua "última aula". Nós-outros, os do além-Trancão, poderemos assistir no computador.

03
Mai24

O meu "Torna-Viagem"

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Como os meus amigos e "amigos-facebook" saberão, há cerca de mês e meio avisei que (auto)publiquei um livro de crónicas, o meu "Torna-Viagem" - o qual SÓ pode ser comprado na plataforma editorial, via esta ligação (a qual também encima a barra lateral deste blog). Divulguei isso nas redes sociais e através dos contactos pessoais. E organizei uma apresentação do livro - no Restaurante Moçambicano Roda Viva - que decorreu de modo muito aprazível, uma festarola entre as 17.30 e a 1.30 ("Zé, isto é que é um lançamento de livro livro", pude ouvir), cheio de amigos oriundos de diferentes eras e locais, o que muito, imenso, animou este meu estado deprimido.

Entretanto as vendas têm sido um sucesso. Eu perspectivara que conseguiria impingir 100 exemplares. E impusera-me como fito utópico alcançar as 150 vendas. 

Fui agora consultar o percurso comercial do livro. Foi muito impulsionado por um amigo vizinho, o qual durante recente almoçarada aqui nos Olivais tomou a iniciativa de invectivar os convivas com o temido "Ouve lá!, já compraste o livro do Zezé?!!!", ao que as pobres almas tartamudeavam o aflito "Ainda não.. o site é muito difícil..." e/ou "eu não ponho os meus dados bancários na internet!!!", ao que ele respondia, veemente, "dá cá o dinheiro que eu te compro já isso", ao que eles, aterrorizados, anuíam enquanto ele teclava lesto no seu telemóvel, comprando e endereçando a obra aos incautos...

E ontem, apenas três dias úteis passados, lá me apareceram eles na esplanada olivalense, até cabisbaixos, com o seu livro na mão, para que lhes pusesse o meu gatafunho - e depois gabando-me a beleza caligráfica e louvando-me a profusão da sentimental prosa então e ali dispendida.

Enfim, nisto alcancei, vejo-o agora, os 130 exemplares vendidos. E assim, qual Serguei Bubka dos livros, levanto a fasquia utópica. E avento que se chegar às 175 vendas do meu "Torna-Viagem" ainda me farei fotografar nestes exactos propósitos, ornamentado com o livro, o tal meu 'Torna-Viagem".

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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