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Nenhures

Nenhures

21
Nov23

Eduardo White seria hoje sexagenário

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white.jpeg

O Pedro Pereira Lopes não nos deixou esquecer, e assim lembro que hoje seria o 60º aniversário do Eduardo White. Para o recordar o melhor será ir até aos livros dele...
 
Mas junto outra pequena evocação. O White também foi bloguista - infelizmente o seu blog "Apassarado" desapareceu (estava na plataforma weblog.com.pt que foi apagada).
 
Também por isso aqui deixo ligação a 25 postais com (e sobre) ele, que ao longo do tempo fui deixando no meu velho blog ma-schamba. Alguns são textos que ele me ofereceu, propositadamente para o blog. Outros são excertos dos seus textos, ou minhas referências e memórias sobre ele. E vai tudo com o meu carinho e admiração pelo tão idiossincrático Dino...
 
Espero que possam ser agradáveis.

18
Nov23

Eduardo White seria sexagenário

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White por Bruno Mikahil .jpg

Há alguns dias o escritor moçambicano Pedro Pereira Lopes recordou que o Eduardo White faria 60 anos este mês (no dia 21). O Dino morreu há nove anos, escassos dias antes de eu partir de Moçambique. Uma morte que magoou, amargou. Para eulogia poética havia gente mais capaz. Assim apenas deixei no jornal "Canal de Moçambique" uma minha memória dele... - entre um punhado de outras que poderia ter convocado. Para quem tiver interesse deixo aqui a ligação para o breve texto. E no dia 21 beberei dois ou três uísques à memória do White (ele haveria de gostar deste tipo homenagem), enquanto passearei nos seus livros.

03
Set23

Salif Keita

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keita.jpg

Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época - e hoje seria uma macro-estrela global... - que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se - pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) - para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de "tridente" (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso "Manel" (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão - o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha - tal como Jordão - por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas - ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à "posse de bola" e às "coberturas"?... Era o Maior!

17
Ago23

Amélia Neves de Souto

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É o que eu tenho dela, o trabalho hercúleo "Guia Bibliográfico para o Estudante de História de Moçambique" (UEM, 1996), algo inultrapassável para quem quis (e quer) perceber alguma coisa do país, uma bibliografia compreensiva que comprei logo que cheguei para viver no país. E o "Caetano e o Ocaso do "Império": Administração e Guerra Colonial em Moçambique Durante o Marcelismo (1968-1974)" (Afrontamento, 2007), a sua tese de doutoramento. Um texto cuja leitura é obrigatória para se poder entender o tal ocaso do império - e tantos há, imensos, que se atrevem a "opinar" perorando, sem o ter lido e interpretado.
 
Mas o que dela retenho é muito, imenso, mais. Historiadora sim, mas tão mais! Moçambicana lusodescendente, também membro do destacamento feminino, então quase menina decidindo-se guerrilheira de libertação (e contou-me do quão fisicamente duro isso foi), a Amélia era um paradoxo face aos estereótipos. Pois não só simpática, tão gentil e prestável, armada de um belo sorriso e tão cativante gargalhada - pelo menos diante das minhas diatribes no Centro Social do campus da Universidade Eduardo Mondlane. Mas muito mais do que isso, pois verdadeira epítome da ternura. Nisso talvez a melhor pessoa que conheci na vida (e um "talvez" porque estou a sopesar, e nisso convoco apenas a minha maravilhosa irmã, a qual não posso desmerecer).
 
Há pouco soube que estava bastante doente, aqui perto, em Lisboa. Entre as bolandas em que me deixei seguir atrasei o encontro combinado. Vim agora à capital - e sei hoje que a Amélia morreu, uma sua rota final afinal tão rápida. Espero que em Maputo a queiram e saibam honrar. E nisso honrarem-se!
 
Eu apenas choro, chorarei.

28
Jul23

Marc Augé

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[Marc Augé] L'anthropologie aujourd'hui
 
Por vezes resmungo com a imprensa "de referência" portuguesa, cheia de aparências "cultas", e nisso de obituários do showbizz ou de cortesãos, "aparatchicos" tantos deles. Alguns dirão "lá está o reaccionário". Seja!
 
Pois é no Facebook - essa malvada "rede social", tão invectivada por ser território de falsidades e futilidades - que vejo a notícia da morte do grande Marc Augé! Há já quatro dias! Googlo e notícias lusas inexistem - e o que o Google não mostra é porque não existe. Incrível, não só pela notoriedade de Augé como pelo facto dele ter sido dos poucos antropólogos publicados em Portugal - já naquela velha colecção de "livros pretos" das Edições 70 (não os tenho aqui mas pelos menos foram editados o "Domínios do Parentesco" e "A Construção do Mundo" - este último por ele organizado). E depois, mais recentemente, foram sendo publicados vários dos seus livros, isto sob o lema que lhe deram, o de "antropólogo do mundo contemporâneo".
 
Enfim, não me vou por a fazer aqui um "obituário" e muito menos uma eulogia - para o fazer a um homem destes faltar-me-ia o "engenho e a arte". Que algum mais graduado o faça, se alguém o entender. Mas já que os "de referência" nada disseram partilho aqui uma sua palestra, "A Antropologia Hoje" - ele começa a falar aos 13'40''. Lamentavelmente o filme não tem legendas e isto fica para francófonos - atenção, Augé tinha uma bela dicção, quem percebe um pouco de francês poderá acompanhar sem problemas o seu pausado e claro falar.

26
Jul23

Eduardo Pitta

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Morreu ontem Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, crítico literário. E também bloguista. Encetado em 2005 o seu Da Literatura era um dos blogs relevantes na época vibrante da "blogosfera" e Pitta manteve-o activo até recentemente - infelizmente retirou dos arquivos a primeira década do blog. Nele compôs uma mescla de atenção a factos culturais com uma intervenção política. Nascido em 1949 na então Lourenço Marques, Pitta tinha interesse pelos processos moçambicanos. Foi isso que o fez conhecer o meu ma-schamba, que fora o primeiro blog em português escrito no país e que quando ele começou a blogar era ainda um dos poucos ali existentes. Foi afável comigo, num companheirismo bloguístico então comum, e estabeleceu até uma correspondência - lembro que teve a gentileza de me enviar por via postal o seu ensaio "Fractura : a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea". E explicou-me também as razões, mais do que curiais e sem qualquer acinte, que o haviam conduzido a recusar a proposta feita por intelectuais moçambicanos para o inserir no cânone do historial da literatura daquele país - não estou a ser indiscreto, desvendando correspondência privada, pois lembro-me de ter lido declarações suas sobre o assunto. Era essa, apesar do prazer havido com a atenção recebida, uma opção que fundava em termos de identidade pessoal e não de postura político-ideológica.

Depois vieram os anos da crescente degenerescência socratista. No seu blog Pitta foi um dos muitos que manteve não só o proselitismo socialista como a defesa arreigada do então primeiro-ministro. O Da Literatura continuava interessante, elegante e informativo - principalmente para quem estava fora do país. Mas, exasperado com o "estado da nação" e com a cumplicidade de um largo sector da intelectualidade portuguesa com aqueles desmandos antidesenvolvimentistas - a qual raiava o absurdo na "blogosfera" -, deixei de acompanhar a sua actividade. Como a de vários outros desse eixo político, habitualmente bem menos interessantes. 

As notícias de ontem e hoje sobre a morte de Pitta sublinham a sua importância no âmbito de uma literatura homossexual portuguesa - estatuto que ele próprio acarinhava, explicitando a necessidade de afirmação literária dessa temática. Eu sou pouco sensível a essa catalogação. E insisto naquilo que lhe disse e escrevi em pequeno postal, em texto que julgo lhe terá agradado, ainda que seja uma leitura arredia dessa peculiar atenção identitária que lhe dão: o seu breve "Persona" é o grande texto literário português sobre o final do regime colonial em Moçambique - e se calhar até mais do que isso (o  meu texto sobre o "Persona" está aqui). E, mais uma vez, proponho a leitura desse belo livro.

 

(Adenda: estou grato à plataforma SAPO pelo destaque dado a este postal.)

17
Jul23

Jane Birkin

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Morreu a Jane Birkin. Sempre miúda apesar de já tardo-septuagenária. A partir de difusa altura a vida passa a ser isto, o quotidiano desaparecimento das referências, relevantes ou paisagísticas. 
 
A Birkin foi-me mais do que paisagística. Soube-a na era do lendário "Quando o Telefone Toca", quando o mariola lhe cantava "je vais et je viens entre tes reins" sem que eu percebesse bem o que aquilo dizia. Mas nela intuí o fundamental, a beleza das mulheres não habita no par de mamas, muito menos no avantajado da sua apresentação. 
 
Mas para que não me digam lúbrico em momento de luto aponto para outro lado: quando em 2023 um recente Ministro dos Negócios Estrangeiros tem o desplante de ir à sua prelecção semanal televisiva rejubilar com mais um cardeal português (como se fosse o ranking do futebol europeu) enquanto afirmava que a Virgem Maria apareceu em Portugal (Fátima).- nisso opondo-se à própria hierarquia cardinalícia, que já nega a aparição, remetendo o "acontecimento" para uma visão das (esfomeados, analfabetas e manipuláveis) crianças - convirá recordar a estuporada reacção da tropa eclesiástica ao "Je t'aime..." (consta que até se excomungou gente).

09
Jul23

Mattoso

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Na morte de José Mattoso recuei para quando li o seu magnífico "Identificação de Um País", leitura escolar em disciplina de "Etnografia Portuguesa", em meados dos 1980s. Naquela época os professores tinham uma concepção messiânica da docência universitária - era essa, decerto, a razão de impingirem vários trabalhos para serem feitos durante as férias natalícias, assim concorrenciais à quadra (verdadeiramente) festiva. Nesse ano para essa disciplina (entre várias outras, sublinho) o trabalho poderia nem ser desmesurado, uma (espécie) de "recensão" sobre um livro que abordasse a diversidade portuguesa, um guia gastronómico, um roteiro de viagens, um catálogo mais abrangente de arte popular, etc. - seria um treino para os alunos olharem essa nossa diversidade, teoricamente a sua futura matéria-prima quando obtivessem a licença profissional. 

Voluntarista insano decidi conjugar o trepidante ritmo festivo que se avizinhava com a leitura, atenta e produtiva, dos dois volumes da "Identificação de um País" de Mattoso, então celebrizado. O trabalho deveria ser entregue no primeiro dia de aulas. Claro que nesse dia estava eu ainda dactilografando o texto - naquela exaustiva metodologia de escrever e reescrever, amachucar páginas e deitá-los ao lixo, e depois passar a recortar algumas linhas já mais certeiras e colá-las junto a outras anteriores, esperando outras que viriam. De directa em directa. O professor da disciplina, Joaquim Pais de Brito - que depois viria a ser director do Museu de Etnologia durante longa época, e que eu ainda viria a encontrar em Moçambique - tinha a enorme fama e o imenso proveito de ser inflexível com os prazos de entrega dos trabalhos. (Tendo eu depois passado duas décadas a leccionar ainda hoje me pergunto para que serve essa inflexibilidade, típica em imensos professores...). Ou seja, nem fui à aula, a da entrega dos trabalhos, continuando a maratona para completar a tal "recensão", e após umas centenas de cigarros e inúmeros cafés lá o dactilografei, recortei, colei e... fotocopiei, já terminado. Mas ouvira ecos da furibunda reacção do docente aos incautos que haviam incorrido a implorar mais uns dias para o trabalhito... E julguei melhor não tentar entregar o trabalho, desistir da cadeira, fazê-la em ano subsequente, escolhendo rumos menos laboriosos. "Porquê?" perguntaram-me, "depois de tanta trabalheira!", insistiam. "Se o gajo me falar assim não respondo por mim..." ripostava eu.

Ou seja, formalmente ler o "Identificação de um País" foi-me, afinal, não só inútil mas também me lesou..., tivesse eu escrito sobre um qualquer "açordas do Minho ao Algarve". Mas foi das coisas mais importantes da minha vida, ali aos 21 anos a mergulhar no monumental tratado sobre o que é a história e sobre o que é escrever a História, um "paradigma da História democrática" botei eu então, pomposo de juvenil, aquilo de como as diferenças são constitutivas sem vir (como então quase sempre vinha) embrulhado na bacoca dialéctica marxizante, legitimada por rodapés (ou introduções) (pós-)hegelianas. Ninguém pode ter o "Identificação de um País" como livro de cabeceira. Mas imagina-se (sonha-se) diferente depois de o ter lido.

(Uns meses depois o Pais de Brito apanhou-me num corredor, "Então, homem, que lhe aconteceu? Desistiu?" e eu expliquei-me que me atrasara, aquilo da intensidade, densidade, magnitude, "maravilhosidade" do Mattoso... "Entregue lá isso. E depois no fim vá fazer um exame, que é para não parecer que fez em avaliação contínua". Que a tal inflexibilidade, afinal, era mais resmungona do que real...).

A partir daí fiquei sempre atento ao que o Historiador produzia. Muitos anos depois o meu amigo Paulo Dentinho, que havia conhecido em Moçambique, partiu para Timor-Leste como correspondente da RTP. Passado uns tempos fez uma reportagem, que me encantou: lá tinha ele ido para as montanhas, vasculhar os velhos esconderijos dos líderes da guerrilha, em busca dos arquivos. E nessas duras andanças acompanhado pelo já septuagenário Mattoso. Incrível! A reportagem (meros 6, 28 minutos) está aqui. Imperdível. Uma excêntrica memória de um gigante intelectual.

24
Mai23

Tina Turner

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 Tina Turner durante apresentação na O2 Arena, em Londres, em março de 2009 — Foto:  REUTERS/Stefan Wermuth/Arquivo

 

Vi a Tina Turner em 1991, talvez, depois dos Stones e do Bowie, antes do Santana, lá no José de Alvalade, então sede lisboeta do rock... - aquilo dava-nos cabo do relvado mas valia bem a pena, pelas receitas para dissipar pelo clube e pelos grandes espectáculos. Lá cheguei um bom bocado antes do concerto, como sempre dirigi-me ao nosso "ponto de encontro" - "onde nos encontramos?", perguntavam os neófitos mais ansiosos. "No sítio onde o Oceano joga", respondia, veterano, para desnorte alheio, logo acabrunhados num "isso é onde?" para acolherem um ríspido e rústico "em qualquer lugar do lugar do relvado!!", tão omnipresente era o nosso grande Oceano, que eles decerto desconheciam.

Ou seja, ia lá para o rock e não para o convívio - sim, isto foi um pouco antes de conhecer a Inês, que me mudou (e bastante) a "abordagem" às coisas. E não estou a romancear o passado - a Carolina faz 21 anos amanhã, e tudo começou algum tempo antes, estou apenas a ecoar a empiria de então. Enfim, lá aportei, aproximei-me da velha Bancada Central. Estava apinhada. A Tina original, a Turner, havia ressurgido há anos, estava no topo dos topos, o grande Mad Max também ajudara.

Lembro bem que ao lusco-fusco do crepúsculo, ainda ao som de música gravada, o público já dançava exultante. Mas mais do que isso, estava pejado de Tinas - negras, mulatas, até brancas. E de Tinos também, que não Ikes. Tudo dançando. Depois encheu o relvado. Sim, ela reaparecera anos antes neste pop-rock até manso, mais do que tudo sexy, um embrulho abrangente que a tantos agradava - será que os miúdos de hoje poderão perceber o impacto daquilo? E nisso a quantidade de noites bamboleando nestas cançãozinhas que ela tornava um "must"? Um caldo comum?

Não tenho qualquer vinil ou cd dela. Mas ficou a memória dessas imensas danças. E de um grande concerto, esfuziante. E de como - perceba quem quiser - este embrulho amalgamado, produtor de amálgamas, era virtuoso. Por isso aqui deixo esta versão ao vivo. Com ela cantando e dançando de calças - porque era muito mais do que umas "hot legs".

24
Mai23

Jorge Forjaz

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(Jorge Forjaz, Ilha de Moçambique, 2017)

Ao longo da vida vão-se fazendo amigos, mais quando se é novo como é consabido. Na meninice, na escola e universidade, às vezes na tropa, na boémia. Nos empregos. Passos biográficos conjuntos, convívios, projectos ou obrigações comuns. Depois a gente cresce, vai envelhecendo, enquista, escasseiam as novas amizades pois rareia a disponibilidade, a abertura. Conhecimentos sim, até simpatias, mas afecto?

Jorge Forjaz é um desses meus raríssimos últimos amigos. Conheci-o já no início dos meus 40s, ele acabado da ancorar na Ilha de Moçambique - imerso no seu projecto de reabilitar uma feitoria para fazer um hotel, num interessante projecto de turismo comunitário que nunca veio a terminar. E, um pouco depois, como gerente do célebre "Relíquias", o restaurante do bom do Jorge Simões. E também nos seus trabalhos de reabilitação das casas da cidade. E por aí afora, nas minhas inúmeras estadas ou visitas à Ilha.

Não tenho projectos ou interesses comuns com ele, nem as nossas biografias são muito próximas. A minha amizade com ele veio mesmo só da minha empatia, a promover-me carinho e um grande prazer em estar com ele. E mesmo saudades, quando demorava em regressar a Muipiti... Talvez por isso aquele meu hábito de então, de lhe entrar feitoria adentro com uma Famous Grouse e de irmos bebê-la (apesar da sua consabida frugalidade) para diante do continente, com o mar a bater-nos quase nos pés, em risonhas - o tipo tem uma calma risada deliciosa - conversas.

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(A feitoria, fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, 2011)

E depois há isto, que a muitos será até imperceptível, a suave elegância do Jorge: ainda hoje lembro a primeira vez que ele foi jantar à nossa casa em Maputo, todos naquela informalidade que nos caracteriza mas mesmo assim a forma como ele tratou a Inês (que conheceu nesse dia) num tão discreto trato fino. E que, à sua saída, eu comentei entre-casal "(não desfazendo...) o Jorge é o único cavalheiro a Sul do Rovuma"... - e isto num país carregado de proto-oligarcas, administradores arvorados e doutorados do Equador.

Há cinco anos fui à Ilha para proferir uma conferência, para aí a minha 30ª visita. Fiquei 4 dias. Não me deu para as poesias que tantos sentem quando lá chegam, não invoquei antepassados nem me deu para reescrever a história, não me encantei com o mussiro das mulheres, não calcorreei o macuti nem me espantei com a pedra-e-cal, não fui mergulhar alhures. Pois para mim, e desde há muito, a Ilha é um punhado de amigos. Com o Jorge na cabeceira (que não na Cabaceira...). Ou seja, passei a maioria desses dias sentado no restaurante que então ele tinha, o Karibu, onde se comia muito bem, bebericando e palrando na sua companhia. Assim deliciado. É desses dias esta fotografia.

Há três meses fui passar uns dias junto ao Sousa, tomar conta da quinta de uma amiga. O Jorge - que entretanto voltou a Portugal - apareceu por lá, almoçámos frugalmente com o casal Bacelar, também já regressados de Maputo e que também me visitavam nesse dia. Foi um dia óptimo, de conversa animada, risadas. Um bocado na sequência de umas visitas que antes me fez em Lisboa, mesmo aos Olivais. O outro dia enviou-me uma mensagem gravada, sabendo que eu estava na Colômbia, a dizer-me que continuava no espírito de "avante...".

Há uma hora uma querida amiga telefonou-me de Maputo. O Jorge morreu ontem, em Braga. A gente, ele e nós, sabia que ele estava muito mal. Ainda assim se fosse eu um tipo diferente, talvez melhor, estaria ali a chorar. Mas como não sou, sou apenas isto, escrevo.

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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