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Nenhures

Nenhures

Racismo cultural

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O racismo português muito assenta, como estudos recentes o demonstram, no "racismo cultural", esse preconceito que desvaloriza as culturas alheias, em particular as das raças outras, ideia que se disseminou devido ao colonialismo europeu. O lamentável é que os textos que transpiram essa perspectiva continuam a ser editados sem quaisquer ressalvas (estudos contextualizadores, prefácios ou posfácios elucidativos, meros rodapés que sejam).

Este é um exemplo desse racismo, um trecho de célebre ficcionista ocidental, desprovido de qualquer consciência "decolonial" ou "póscolonial", publicado em Portugal em 1999, sem quaisquer cuidados explicativos por parte da sua editora.

"Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher."

(edição de Livros do Brasil, pp. 95-96).

Alterglobalização

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Moinho Saint-Pierre (o moinho de Alphonse Daudet)

"Antigamente fazia-se aqui um grande comércio de moagens e, tôda a gente das herdades, dez léguas em redor, nos trazia o seu trigo para moer ... Em volta da aldeia, as colinas estavam tôdas cobertas de moinhos de vento. À direita e à esquerda não se viam senão asass que volteavam tocadas pelo mistral, por cima dos pinheiros, récuas de burricos carregados de sacos, subindo e descendo ao longo dos caminhos; e tôda a semana era um prazer ouvir lá nos altos o estalido dos chicotes, o ranger da tela e os gritos à esquerda! à direita! dos moços dos moleiros ... esses moinhos faziam a alegria e a riqueza da nossa região.

Infelizmente, uns Franceses de Paris tiveram a ideia de estabelecer uma fábrica de moagem a vapor na estrada de Tarrascon. Outros tempos, outros ventos. Tôda a gente se habituou a mandar o trigo aos moageiros e os pobres moinhos de ventos ficaram se ter que fazer. Durante algum tempo, tentaram lutar, mas o vapor foi mais forte e um após outro, todos êles, coitadinhos, foram obrigados a fechar ... O mistral bem soprava, mas as asas conservavam-se imóveis. Depois, um certo dia, o conselho municipal mandou deitar abaixo êsses casebres em ruina e no seu lugar plantaram-se vinhas e oliveiras.

Contudo, no meio da derrocada um moinho tinha resistido e continuava a fazer girar corajosamente as suas asas no cimo da colina, nas próprias barbas dos moageiros. Era o moinho do tio Corneille, êste mesmo em que estamos agora a fazer o nosso serão.

O tio Corneille era um velho moleiro, que vivia há sessenta anos no meio da farinha e sempre desesperado com a sua situação. A instalação das moagens tinha-o posto como doido. Durante oito dias viram-no correr para a aldeia, juntado em volta de si muita gente em alvorôço, gritando com tôdas as suas forças que queriam envenenar a Provença com a farinha dos moageiros. "Ninguém vá lá abaixo, dizia ele; aqueles bandidos, para fazerem pão, servem-se do vapor que é uma invenção do diabo, enquanto eu trabalho com o mistral e o vento norte, que são a respiração de Nosso Senhor  ...".

(Alphonse Daudet, "O segrêdo do tio Corneille", Cartas do meu Moinho, Livraria Chardron, c. 1915 [1869], pp. 17-19).

 

Um Portugal

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"A falperra, mal. Àquela altura já se havia de andar a semear o milho nas terras de sequeiro, mas o codo não o permitia. O calendário há muito que não regulava. Noutros tempos, chegado o mês da Páscoa, cantava o cuco e recantava. Quem o ouviria? O solo não produzia, cansadinho, cansadinho a mais não poder! Chamavam a Portugal a nação das sete sementes como ao mundo de Cristo o mundo dos sete pecados. Qual, quando se semeava um alqueire e se colhiam quatro, era um louvar. Também ninguém queria mais amanhar a terra! O solo era negro e sujava as mãos. A gente boa sumia-se na emigração. O que sobrenadava era o rebotalho. Pudera, tanto o lavradorzinho da arada como o cabaneiro viviam frigidos com tributos, mais escravos que os negros. Davam de comer à cáfila toda. Sustentavam o fidalgo, o ministro, o doutor, o escrivão, o padre; sustentavam o pedinte, o citote, o ladrão; desfaziam-se em maná, e ficavam nus e viviam nus que nem castanheiros depois de abanados. Queria saber o que lhes valia a eles e aos casacas? Era não fazerem contas."

(Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, Bertrand Editora, 1995 [1958], 8º edição, p. 29).

É consabido, e se por vezes louvado outras tantas resmungado, que o léxico de Aquilino Ribeiro é amplo, alargado, intenso, extenso. E que muitos de nós, urbanos de gerações televisionadas, com outros usos e costumes e outras palavras para os nomear, algo nos perdemos nessas fragas verbais (olhai eu, como se que a tentar copiá-lo). Então por isso mesmo talvez seja bom referir que "casacas" vem aqui com o significado de "pessoas decentes" ...

Adenda: por mera curiosidade, encontro via google o "relatório da censura sobre o Quando os Lobos Uivam". Outros tempos, outras visões. Hoje em dia olhares tão acerados como este não são "censurados". Mas apenas censurados como "ressabiados", "ressentidos". Até "populistas".

 

Moralismo hoje em dia

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"... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

Necrofagia

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"- Vou dizer a Cornoiller que mate alguns corvos. Estas aves dão o melhor caldo que há.

- Mas não é verdade que os corvos comem os mortos?

- És tola, Nanon! Comem, como tôda a gente, o que encontram. Não vivemos nós dos mortos? Que são então as heranças?"

(Balzac, Eugénia Grandet, Livraria Chardron, c. 1930, p. 71)

 

 

Antes da globalização

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"Via-se lutando também para manter a quinta, calculava os prejuízos daquele ano desastroso. As dificuldades batiam à porta de toda a gente. Iam longe os tempos em que a agricultura fazia fortunas. Agora, o milho e o vinho chegavam doutras regiões, de terrenos férteis, onde a produção era menos dispendiosa. Os armazenistas, a concorrência de preços, obrigavam Mariano Paulo a vender com lucros mínimos e às vezes sem lucro. O velho Paulo deixara ainda a quinta a produzir um rendimento apreciável. Porém, os últimos anos tinham modificado certas coisas. As novas estradas traziam às feiras de Corgos produtos de toda a parte. Pelas estradas, pelo caminho de ferro, no vagões, nas camionetes, o comércio das cidades, das vilas, das aldeias, acelerava-s, levava daqui para ali, fazia permutas, entrechocava-se, explorava todos os mercados. O isolamento dos pequenos meios desaparecia. O velho Paulo não sentira, em toda a plenitude, o torvelinho deste choque de interesses. Mas a quinta esbarrondava-se agora ..."

(Carlos de Oliveira, Casa na Duna, Sá da Costa, 1983 [1943], p. 60-61)

 

Magnetismo

MagnetismoMagnetismo de F. Scott Fitzgerald


No conto "Magnetismo" o actor George Hannaford personifica o encanto, qual magnete dos sentimentos das mulheres, seguindo ele com alguma desatenção, até fastio, e nisso sofre um breve desarranjo da harmonia familiar que surge aos outros como exemplar. Tem o interesse de ser uma mostra de laivos do mundo da "gente bonita" do cinema mudo, explorando a diferença de estatuto "lendário" entre os iniciais (os de Griffith) e a geração seguinte, sendo Hannaford uma feliz transição dado personificar o rosto "realista" que vinha sendo adoptado. Ler isso agora implica recordar que o impacto sofrido por esse núcleo de actores (o conto é de 1928, na véspera do advento do cinema sonoro).

No breve "A Festa de Crianças" surge uma rixa de duas famílias vizinhas, suburbanas, amparada pela relativa amizade dos dois maridos. O interessante é a aparente inversão que Fitzgerald imprime, pois a rixa das crianças (bebés, de facto - o título original é "The Baby Party") é assumida pelas mães e, depois, pelos pais, com os adultos a mimetizarem o comportamento infantil. A preservação da "criança que há no adulto" sem qualquer tom idílico.

Trecho (sobre o casamento de George Hannaford e de Kay, p. 14): "As vidas de muitas pessoas (pessoas que gozavam de uma segurança por procuração ao contemplarem o casamento deles) teriam ficado privadas de algo se não tivessem permanecido unidos, e o seu amor era fortificado por um certo esforço de correspondência a essas expectativas".


Outras leituras

Raduan Nassar e o bloguismo

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"Três rapazolas turbulentos entram no bar trazendo Zé-das-palhas, que vive fazendo discursos contra o governo. Coitado do seu Zé, ele pensa que o rádio que toca-e-fala serve também pra levar de volta a voz da gente. No fim, todo mundo dá risada. (...)

Desengonçado, o seu Zé sobe na cadeira com os bolsos estufados de palha, ficando de costas pra rua e o nariz no Philips, instalado ali na prateleira num nicho grande entre as bebidas. (...)

Zé-das-palhas gira para trás o botão da rádio, apaga o bolero mexicano que tocava, arruma o brim do terno e a palheta na cabeça, e fica c'um jeito de quem faz pose enquanto se concentra. (...) Não se ouve um pio, até que o seu Zé sapeca a voz rachada no rário, como se falasse num microfone, martelando ao mesmo tempo o dedo no ar, como se passasse um pito: 

"Doutor Getúlio Vargas, o povo brasileiro tá cansado, cansado, cansado: não aguenta mais apertar o cinto, não aguenta mais passar com farinha de mandioca, não aguenta mais o senhor mandar as pessoas pra cadeia ..."

(Raduan Nassar, Menina a Caminho, Companhia das Letras, 1994, pp. 37-39)

Botar Abaixo o Hemingway?

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

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