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Nenhures

Nenhures

26
Mai21

EuroBichas e censura no Facebook

jpt

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No zapping do jantar de sábado passei no Eurovisão. A minha filha propôs que víssemos um bocado. Anuí, por amor paternal e porque caíramos naquilo aquando da francesa: uma boa cantora, uma "chanson" competente, coisa deveras surpreendente no meio daquela sempre anunciada mediocridade. Depois seguiu-se o que se espera daquilo: um grupo pop-simpático islandês (de que vi mais no telefone filial), uma bojuda maltesa, umas desgraciosas dançarinas de cabaret cazaque meneando-se a la Bollywood. Pior do que tudo uns italianos pantominaram o heavy - "o heavy não é isto!", clamei irado e ali pedagogo, ainda que os meus Zeppelin fossem hard e não heavy... E a paciência esgotou-se-me com um pós-viking invertido, guinchando-se "anjo caído", algo ainda mais bimbo para quem tenha crescido com o belo e magnífico Sweet Transvestite Tim Curry e então, ali mesmo, apaixonando-se para todo sempre pela Sarandon.

Enfim, nada de novo, mesmo que desse historial festivaleiro só recorde os Abba. E uma Abanibi com que a Europa de então celebrou a "diversidade", para glosar os ditos dos activistas de hoje. E, nossos, a Balão Sobe mais as Doce. Deste XXI? Aquele travesti de barba, artista de feira miseranda. O nosso campeão Sobral, que ressuscitou a Eurovisão para os bem-pensantes. E, claro, o patusco olivalense dito Conan Osíris (que será feito do vizinho?).
 
Nada mais, pois nem vejo, apenas ouço falar, consabida que é a desinteressante mediocridade musical daquilo. E que se tornou, se é que não o era antes, uma "gay parade" festivaleira anual. E as pessoas sabem-nos, dizem-no, vêem ou não consoante os seus gostos e paciências. Isto nada tem de homofóbico. Diz-se que disse Horowitz, ainda que talvez seja apócrifo, que há 3 espécies de pianistas: os judeus, os homossexuais e os maus. Alguma coisa contra Horowitz? Mas esta pantomina anual, de lantejoulas rascas, é apenas isso. A que propósito é que o serviço público entra naquilo é coisa que não percebo.
 
Enfim, Eduardo Cintra Torres escreveu um artigo de opinião (acesso restrito, deixo notícia com citações) e tratou, bem, aquilo como EuroBichas. Ofendeu, ao que parece. João Gonçalves ecoou o texto no seu mural. O postal foi apagado pelo sistema-FB e ele suspenso desta plataforma. Não se trata de uma censura "sistémica", robótica. O que decerto aconteceu foi ter havido uma série de "denúncias" e até "bloqueios", gente que se julga activista e para aqui vem peneirar o que é "aceitável" e "inaceitável". Não são os coronéis da censura a la Estado Novo. São meros cabos arvorados, das brigadas dos "movimentos sociais". E que entenda bem quem não o conheça: João Gonçalves, veterano (ex-)bloguista, não tem pingo de homofobia. Mas é de "direita", essa direita que é preciso atacar... Assim. Como sempre, na história recente e na recuada destes "movimentos sociais" e seus avatares.
 
Já agora, e lateralmente: para quem gosta de gastar o seu tempo a opinar em público, este vil pequeno episódio mostra bem uma coisa. A superioridade dos blogs. Onde a censurazinha desta gentinha não funciona. Pode-se levar algumas porradas, mesmo duras e fundas, até bem piores (e eu sei-o bem). Mas não estas coisas desprezíveis.
 
Enfim, boto isto para dizer que continuarei a ler Eduardo Cintra Torres e João Gonçalves. E quando não gosto - às vezes acontece - do que botam ou resmungo (quando me irritam) ou vou para outra loja. Pois é assim que deve ser. Longe destes gaj@s activistas. Más reses.

13
Mai21

Após a festa

jpt
Pode ser uma imagem de 1 pessoa, monumento e ao ar livre
 
Ontem fui ao Marquês, logo após o jogo. Quando a mole começou a aumentar eu e o meu comparsa regressámos a casa, Covid oblige. Pois ainda não vacinados mas já velhotes - e vejo uma fotografia minha de ontem no metro e até me assusto com aquele Matusalém que já vou. Hoje leio muita gente incomodada com as multidões que se congregaram junto ao estádio, nas manifestações subsequentes ao jogo, com a violência ocorrida, com a hipotética indução de infecções (e até quem se queixa com os efeitos no turismo veraneante. A esses replico que melhor seria pensar em produzir algo em vez de vender vinho barato, raios de sol, peixe grelhado, sexo cálido e souvenirs reais e intangíveis aos estrangeiros, mas isso é coisa que não entendem os morcões infectados de estupidez que falam de "indústria hoteleira" e "indústria turística". Infecção estupidifadora que mata menos gerontes mas mais lixa o país do que o Covid-19).
 
Mas enfim aos ofendidos com as massas sportinguistas (com as gentes dos futebóis) convém lembrar duas coisas: nada disto foi surpresa, como não o foram as grandes ondas da Nazaré e as corridas de Portimão, quando também o povo se congregou em massa e sem futebóis, diante do estupor das autoridades. O que ontem aconteceu em Lisboa foi um estrondoso e apatetado exemplo de incapacidade, indecisão, incúria das autoridades: do governo de Cabrita, da câmara das ciclovias. E, acima de tudo, da polícia. Da PSP.
 
Os milhares de putos que se acotovelaram no Lumiar e nas avenidas novas, as dezenas de famílias, as centenas de graúdos? Somos aqueles que estamos há 15 meses (desde 2.2020) a levar com o rosário de incompetências, atrapalhações e desvario da "Super-Marta" e seus colegas. Com o Sousa e seus três jantares de Natal... Pois o campeonato acabou, nós saudámos com júbilo os tipos que foram competentes (e não corruptos, como tantos anteriores) nisto tão estrito do jogo da bola. E, também por isso, convençam-se de uma coisa indiscutível: quem esteve mal, e muito, quem foi javardo foi quem ontem andou aos tiros. Estão há 15 meses para se organizar. E ainda que os assalariados do ISCTE-IUL os digam "super" não o são. São tão maus que acabam em Maio de 2021 aos tiros sobre os putos da cidade.
 
Finalmente, aos meus amigos: vim ontem de madrugada do para-além-do-Tejo. À saída o benfiquista que me acolhe saudou-me sorridente num "porta-te bem". Depois, já na capital, o amigo (neutral de clube) ao volante despediu-se como "diverte-te". Logo abanquei em esplanada bairrista diante de meia-dúzia de vizinhos, onde era o único sportinguista. Bebemos vinho do Porto, qual homenagem aos dignos "vices". Almocei em Marvila - e muito bem - com o meu padrinho benfiquista e meu afilhado belenense, que fizeram questão de pagar a refeição "do título". Também por isso não me mandem mais um texto desse Luís Osório, uma merda vácua e apatetada de óbvia a saudar familiares e amigos que são adeptos do Sporting, que corre por aí como se fosse exemplo de algo peculiar - quando é mera condição normal. Lembrem-se mas é que é tipo do "Causa Nossa", anos a ombrear com socratistas, ministros e candidatos, e que agora faz doces e militantes felações a estes ministros. A este estado das coisas. Acabou a festa. Não a conspurquem com estes tipos.

02
Mai21

Dia da Mãe

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Lá em casa o Dia da Mãe sempre foi o católico, em Dezembro. Este, mais mercantil, era tido como algo menos sentido. Mas foi-se instaurando, aceite muito porque as gerações mais novas foram surgindo e crescendo já com este calendário laico. Enfim, agora a minha mãe já cá não está. Trago-a deste modo, presumo que os meus irmãos tenham memória dela também um pouco assim mas eu, o benjamim, conheci-a mais tarde. E, por isso, faço de hoje um verdadeiro dia de irmãos.

30
Abr21

Reescrever a História de Portugal

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Uns atrevidos, potenciados pelas tácticas do PS, obscurantistas ditos "interseccionistas", entoam que Portugal não se expurgou - "não se descolonizou" ou "decolonizou" (nesta matéria a doutrina divide-se). Escrevem imensos dislates no jornal "Público" e afins, e querem "intervencionar" a História do país, reescrevendo-a e nisso depurando-a de atrevimentos e recobrindo-a de incúrias e malvadezas. À mercê do autoclismo interseccionista estão os resquícios das navegações (pós-)medievais, ditas causas imediatas das desgraças actuais e das deficiências da FCT.
Nessa senda decerto que se os deixassem exigiriam "intervir" sobre esta garrafa que mãos amigas me entregaram há pouco. Um Royal Brandy Macieira engarrafado em data incerta, dotado de calibre digno de galeão espanhol afundando piratas da Ivy League. Mais exactamente um exemplar pertencente à "Colecção Descobrimentos Portugueses", da espécie "Nau Santa Catarina do Monte Sinai", embarcação do século XVI.
Quem dedicar a atenção devida reparará que o meu trémulo desfraldar promoveu o naufrágio da velha rolha. Não será isso que eliminará as veteranas artes de mareação e impedirá que se cumpra a rota prevista. E se alguma embarcação interseccionista for avistada a sua tripulação seguirá borda-fora, sem quartel, como manda o direito marítimo.

12
Abr21

Portugal às Avessas

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(Fotografia de Pedro Sá da Bandeira)

Blogo desde 2003. Até 2014 escrevi principalmente sobre Moçambique, país onde vivia. Dessa verdadeira mania de perorar resultou uma enorme quantidade de textos, irresponsáveis pois sem objectivos, agendas ou causas que não fosse a minha vontade palradora. A alguns desses ainda lhes encontro sentido. Desses fiz já cinco colecções.*

Agora acabei outra, esta "Portugal às Avessas". São 42 postais do blog ma-schamba, escritos entre 2004 e 2014. Neles fui deixando o meu crescente desconforto diante do que desde lá longe ia assistindo em Portugal. Pois emigrado num país com tantas dificuldades, e no qual o debate desenvolvimentista me era constante – pessoal e profissionalmente -, o que reforçava o espanto, que se foi fazendo ira até à desesperança, face ao desvario do rumo português e ao paupérrimo debate nacional durante o pérfido período socratista e a crise financeira subsequente.

Quem tiver interesse e paciência só precisa de "clicar" no título das colecções, colocadas na minha conta da rede Academia.edu, e gravar os documentos pdf.

* 1) Ao Balcão da Cantina (crónicas sobre vivências e viagens em Moçambique);

2) A Oeste do Canal (textos sobre temas culturais moçambicanos);

3) Torna-Viagem (memórias);

4) Um Imigrante Português em Moçambique (sobre as experiências daquele quotidiano);

5) Leituras Sem Consequências (sobre livros e artistas, na sua maioria moçambicanos).

6) Portugal às Avessas.

05
Abr21

A esplanada

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Ao Postigo (2):
 
Ainda que algo decadente, devido a recente mudança de proprietários e também dado o acentuado envelhecimento da clientela, esta é a "minha" esplanada lisboeta. Tem uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço (uma tradição de décadas que une as quatro gerências que lhe conheci). E onde encontro amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se fala de tudo: de trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebe-se...
 
Porque hoje reabriram as esplanadas vejo neste rossio facebook vários desvalorizando o nosso afã convivencial. Aos que aqui assim leio sei-os afectos a esse constante cerzir da pobre manta de retalhos que associa "direita" a "enfado" com o povoléu, o eunuco blaseísmo "lisboeta". Lembro então que George Steiner, que não era "marxista cultural", definiu a "Europa" como um espaço onde há ... cafés.
 
Por isso, porque sou europeu - e, matizadamente, europeísta - hoje ao fim da tarde, cruzado o Tejo irei até ao "Arcadas". Para uma ou outra imperial. E, talvez, uma abaladiça em formato uísque. Espero que estejas lá.

05
Abr21

Fim da vaga

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Ao Postigo (1)
 
Finda a quarentena filial e a clausura concelhia deixaremos hoje esta enseada atlântica, norteando-nos rumo às cercanias das águas do Trancão...
 
Desde os tempos universitários que aqui não pernoitava. Velho vou mas então a vilória já não era este pitoresco feito da miséria da faina a remos e da "natureza" amanhada a enxada. Noto agora que se veio a tornar viçoso bairro social, de kebabarias e pizarias, alumínios e marquises. Antes assim!, direi realista. Porquê assim?, respondo crente, neste meu diálogo de hoje, vendo chegar a neblina matinal, enregelando a até entusiástica reabertura da esplanada fronteira ao mar, nisto da bica ainda obtida ao postigo mais o jornal "Record" para me legitimar o assento.
 
Agora? Camioneta rumo à urbe. Pois nova era, fim de vaga. E cinquentão decidido a recomeçar vida, que mo permita o Covid! Que nos permita o Covid!

20
Mar21

A gata Flávia

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(15.3) A Flávia terá cerca de 6 meses e não será silvestre, pois é nada arisca, mas chegou aqui algo errante. No 13.3, aniversário do meu confinamento. E logo se aboletou. Vai ter que partir pois na vizinhança há sete monstros com consabidas tendências felicidas. 
 
Velho céptico que vou não quero ser brejeiro, mas já há muito que não acordava com alguém aninhado em mim, até ronronando (se é que alguma vez...). Não é uma paixão - que a minha idade já não é para essas coisas. Mas está a ser um belo flirt de inverno tardio. Espero que encontre um bom lar, com uma boa biblioteca e gente jovem e de boas maneiras.
 
(19.3) Chegou e insinuou-se, a Flávia, dengosa ronronante, uma toda semana abandonando-se horas a fio, credora dos seus mimos, até olhos nos olhos como se almas gémeas, enfim sós, mascarando-se qual light of my live, fire of my loins, e durante isso, distraído estive, pavoneou-se naquele Tinder FB,
 
e logo, nem dias depois, surgiram vizinhos, insinuantes, como só solidários, amáveis, uma bela moça, mesmo muito notei-o, que logo lhe sussurrou, "deixou-te com parasitas", como se fossem esses importantes neste nós que ia sendo mas ela escutou-a e às promessas de vida boa que isso trazia, e mais ainda ao pérfido "estás doentita, cuidaremos de ti", e por isso logo ronronando saltou para o colo dele, Quilty melífluo, óbvio kittenizer, repetindo, só para ele, requebros e trinados que antes me oferecera,
 
veio depois até mim, como se mostrando piedade, e nem miou, apenas melíflua, fica-te por este tugúrio, húmido e escasso, e logo seguiu, oferecida. Velhaca ainda se virou, "depois telefono-te a dar notícias" e eu que nem nada disso, que fosse ela à vida, que me interessa agora. É só uma gata, foi só uma gata.
 
Um mau vodka, este, que nem arde no gorgomilo.

09
Mar21

O centenário do PCP

jpt
 

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O meu pai foi militante comunista até morrer, inabalável nisso. Há nove anos, na cama do hospital, a última coisa que nos disse foi uma resposta a uma das minhas sobrinhas, que ele adorava. Ela, carinhosa, quis animá-lo num "avô, hoje estás com melhor aspecto, mais rosadinho". E ele, ali tão pequeno de mirrado, quase translúcido, murmurou a sua última ironia: "rosa por fora mas vermelho por dentro". Morreu horas depois.
 
Cresci a discutir política com ele. Um dia, ainda na minha adolescência, o debate terá aquecido em demasia. Logo a minha avó materna - que tinha memória adolescente do 6 de Outubro de 1910 em Bragança, e que detestava Mário Soares pois considerava-o igualzinho a Afonso Costa, recordo-o para a enquadrar ideologicamente - chamou-me de parte para me dizer "Zé, o teu pai é comunista. Mas é muito bom homem". E tinha ela toda a razão. De facto, o camarada Pimentel foi um bom homem. Tanto que um dia, bem mais tarde, lhe perguntei porque tinha ele chegado até ali: "Esqueces-te que cresci na guerra de Espanha! E depois veio a segunda guerra mundial", na qual a URSS foi determinante e Estaline "pai dos povos" foi símbolo. Mas mais do que isso, mais do que o crescer, foi o viver depois décadas no medíocre e tétrico Portugal salazarento. Vi-o chorar apenas uma vez na vida: no 25 de Abril. Só aos 51 anos se viu livre daquela abjecção! E se me irrito eu, e de que maneira, com estes Sócrates e seus bajuladores - dos Galambas do Jugular aos Fernandes da "Super-Marta" de agora mesmo - bem que posso imaginar o desesperante daquela época, tão pior que era.
 
Mas sobre os comunistas há algo mais do que esta compreensão contextual, tornada simpatia, alargando-a do meu pai até aos seus correligionários contemporâneos. E nisso também podendo entender a adesão comunista entre operários rurais e urbanos explorados de modo indecoroso no Portugal dos Pequenitos CUF, Champallimaud e belas herdades - e continuo a pensar que o episódio mais belo do pós-25 de Abril foi quando comeram o cavalo de João Núncio, uma equideofagia ritual bem apropriada ao fim de uma malvada era.
 
Pois o relevante é que essas gerações de comunistas acreditavam mesmo na bondade da URSS e seus aliados (protectorados, de facto), assumindo-a irrefutável. Até um homem viajado e lido como o meu pai cria, genuinamente, que as críticas e denúncias daqueles regimes eram mera propaganda americana. No caso dele, um verdadeiro "ortodoxo" como então se dizia, não era falta de informação: bem antes de 1974 estudara e viajava no estrangeiro, de onde vinha com revistas e livros - para a minha formação foi interessante crescer entre estantes com os Basil Davidson, Mondlane, Cabral, etc. em livros de bolso ingleses, e é um carinho tê-los herdado. E também Marx, Engels, Lenine e o resto do panteão - agora encaixados em segundas filas atrás das canónicas "Obras Escolhidas" da Avante -, até mesmo Mao, a maioria em versões francesas, bem como os (algo dúbios) franceses, desde o primeiro Garaudy e tantos outros até já Hue. Mas sempre notei que, ainda que bem vasculhadas essas prateleiras, nada ali estava do que desde há décadas na Europa Ocidental se ia desvendando do terror comunista.
 
Depois do 25 de Abril nenhuma dúvida sobre a justeza comunista era aceite, tudo isso era convictamente reduzido a manobras do capitalismo. Portugueses antigos militantes como Silva Marques, Chico da CUF, Cândida Ventura eram ditos traidores, "comprados". E, com óbvias diferenças, também grassava o desconforto com gente como Berlinguer e Carrillo, e até mesmo com Marchais. Internamente também assim era, sopro de suspeição de mero "eurocomunismo" que fosse em qualquer "camarada ou amigo" era razão para imediata desconfiança. E já bem dentro dos anos 1980s era muito mal visto que algum comunista escrevesse na "imprensa burguesa" - mesmo que fosse para apresentar as posições oficiais do PCP de Cunhal. A URSS era o bem, o caminho correcto, o socialismo virtuoso - pois bondoso mas, acima de tudo, com as potencialidades (aquilo da "aretê") devidas à construção do comunismo. O socialismo era já uma realidade histórica benéfica e o comunismo, a tal "sociedade de lazer" - concepção pouco apelativa para o meu pai, frugal e industrialista que era, e que a remetia para uma mera retórica "filosófica" do teórico - viria como normal continuidade do rumo soviético. O XX Congresso apenas enunciara desmandos causados pelos efeitos internos das agressões imperialistas, na Guerra Civil pós-1918 e na II Guerra Mundial. Dores de parto, por assim dizer. E tudo isso era realçado através de inúmeras publicações, desde a patusca (e deliciosa, afianço) "Vida Soviética" - assinada por deveres de militância mas que lá em casa só eu é que (entre)lia, para recortes iconoclastas -, até aos livros de intelectuais "do partido", Urbano Rodrigues, Tavares Rodrigues, Alexandre Babo (nomeio-os de memória, pois longe das estantes), etc. que narravam, em reportagens e livros, os esplendores do mundo socialista. Nisso denunciando as mentiras da "Voice of America" e quejandos.
 
Com o descalabro da URSS vingou, em particular nas páginas do "Diário" da "verdade a que temos direito", a peculiar teoria explicativa daquele processo, a dos "erros e desvios". E nisso nenhuma autocrítica sistémica nem, muito menos, sombra de dúvida sobre a correcção do ideário. Nessa altura, já adulto e com o "meu Marx", resmungava-lhe que convocar "erros e desvios" não era uma leitura marxista do processo histórico. Mas pouco interessou isso. Foi uma estrondosa derrota histórica, e alguma coisa tinha que ser dita às "massas" para explicar o acontecido. E restou a crença num reinício a breve prazo, algo muito segurado pela espantosa robustez da personalidade de Cunhal. 

Nas duas décadas seguintes decerto que houve alguma reconfiguração do PCP, e também dos seus imãs simbólicos. Mas isso pouco acompanhei. Nem em leituras. E as conversas com o meu pai foram muito mudando de temas, dada a vida, a minha emigração, e as tantas coisas que iam acontecendo. Mas também o não querer eu "mexer na ferida". Mas nunca o ouvi, nem disso registo bibliográfico restou em casa, professar qualquer apagamento da cisão advinda do velho conflito sino-soviético. Como tal algo me surpreendi quando, já neste milénio, lá de Moçambique ia percebendo a junção da retórica do "Partido" aos interesses chineses. Quando o Dalai Lama veio a Portugal o PCP botou um texto violentíssimo, com uma verve qual anos 1930s ou similar, nisso sufragando a ocupação colonial do Tibete. Foi o último texto do velho dirigente Aboim Inglez, que morreria pouco depois. Eu viria a resmungar com o meu pai sobre isso e ele encolheu os ombros, num indito "é o que nos resta", mas não secundou a vil arenga. E quando o então jovem Bernardino Soares meteu os pés pelas mãos por causa da Coreia do Norte, nem sequer me respondeu ao remoque. A adesão, por algo distante que pareça, do PCP às ditaduras orientais - avatares modernos do velho "modo de produção asiático", atirava-lhe eu há 30 e tal anos - era-lhe desconfortável. Intelectualmente desconfortável. Mesmo para um "ortodoxo", pois nunca o deixou de ser.
 
O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico. Em 2014 votou contra uma condenação dos crimes do inenarrável regime norte-coreano. Em 2019 o seu secretário-geral tornou a negar uma denúncia da Coreia do Norte, explicitando a sua diferente concepção do que é "democracia" - em termos que seriam escandalosos se tudo aquilo não tivesse decorrido no medíocre, de culturalmente atávico, Portugal geringôncico. Nestes vinte anos de acelerada extroversão do imperalismo chinês nem uma vez o PCP expressou distâncias. Enfim, durante décadas, desde o 25 de Abril, nunca o PCP sinalizou qualquer afastamento às concepções e práticas que comandaram o regime soviético. E persegue agora num patético seguidismo às remanescentes ditaduras do antigo espectro comunista - ainda que a China tenha uma organização económica capitalista o PCP atrai-se pela aparente "superestrutura" política. 
 
Não se trata de acreditar eu que os militantes comunistas actuais queiram tornar Lisboa numa Pyongyang atlântica. Ou de exterminar pela fome as famílias dos bloguistas menos "amigos" e nada "camaradas". Trata-se sim de ter consciência de duas coisas: a primeira é relativa aos comunistas, que seguem neste magma simbólico e ideológico. A sua visão do mundo é, acima de tudo, meramente anti-americana (no que não vão sozinhos... basta ir até à universidade do Mondego para lhes encontrar congéneres). E ainda que se afirmem defensores dos "direitos" e "liberdades" não têm vínculo, moral ou de ideário, e acima de tudo afectivo, com a liberdade, individual e colectiva. Dela são inimigos, porque a entendem avessa ao futuro que almejam. E ao exercício político do presente. E comprazem-se na memória, e no sonho projectivo, de contextos históricos de atroz esmagamento dessas liberdades. 
 
A segunda questão é-lhes externa. Pois a forma como se entende o PCP é demonstrativa da forma como se entende e actua face ao social. Que muitos locutores auto-percepcionados como de "esquerda" (e até "centristas") surjam agora louvando o PCP será mais do domínio do tacticismo de Costa, que anima este ambiente. Mas há algo de mais profundo, de sociológico. E que melhor exemplo disso do que o do jornalismo de "referência"? Nos últimos anos o jornal "Público" desencadeou uma campanha pelo revisionismo da história portuguesa, muito decalcada de correntes norte-americanas, contando para isso com apoio de alguns académicos portugueses (e, ocasionalmente, de "lusófonos" bem integrados). O "Público" de Manuel Carvalho, e o feixe de académicos e jornalistas que isso vai animando, dizem-nos constantemente que temos de abjurar do respeito por personagens como Diogo Cão ou Duarte Barbosa, devido às formas como pensavam e actuavam. Que temos de nos expurgar desses legados, os quais serão mitos poluentes, factores da construção de uma errónea "identidade" nacional. Da admiração por esses vultos dever-nos-emos autocriticar, desculpabilizar, pois o que os de antanho fizeram - ou escreveram, como António Vieira e Eça de Queirós - moldam-nos as injustas formas de pensar e actuar. E devido a estarmos impregnados de tanto preconceito anterior estamos atreitos a reproduzir, ou a refractar, as injustiças quinhentistas, setecentistas, oitocentistas...
 
E depois, no intervalo desses paleios de activistas missionárias e de intelectuais esfuziantes, o mesmo "Público" faz um número quase-dedicado ao centenário comunista. E dizendo-os - aos nossos compatriotas contemporâneos, agentes políticos empenhados, produtores de textos actuais, influenciadores das práticas e concepções -, como se cândidos utópicos fossem, "em busca de uma sociedade que ainda não existiu". Ou seja, estes comunistas não têm categorias intelectuais ou preconceitos herdados de que se precisem depurar. Apenas procuram o bem. Trata-se do Padroado, por assim dizer. 
 
Se o meu pai fosse vivo no passado domingo eu teria atravessado as fronteiras concelhias para o ir saudar no centenário do "Partido". Teríamos bebido rum - cubano, claro -, ele ter-me-ia dito "calma, bebe mais devagar". Provavelmente teria resmungado mais uma vez "está na altura de deixares de fumar" - ainda que o tenha deixado de fazer apenas aos 77 anos. E eu ter-me-ia defendido agitando o "Público" do dia e resmungando-lhe isto que acabei de botar. E ele ter-me-ia sumarizado: "esses tipos são uns pantomineiros". E eu servir-me-ia de mais um rum.

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