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Nenhures

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Faz hoje mesmo 25 anos que fui viver para Moçambique. "Não fique muito tempo, que depois é difícil voltar, não terá para onde..." aconselhou-me aquele que me convidou a ir para lá, para o substituir, ele com décadas do país, então a reformar-se... "Claro, antes dos 40 regressarei", afiancei, apondo aquele sorriso ufano típico dos jovens. Voltei aos 50, e só porque parecia que tinha de ser. Havia passado 18 anos no país.
 
Foi o que foi, fui o que fui, o que consegui ser. Terei compreendido o substancial? Pouco importa. Terei aprendido algo? Sim. Sim, mesmo. Um dia, durante as cheias, numa alagadiça ilhota do Zambeze. Isto. Que importa o resto?

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Apesar de ter uma Bertrand à porta de casa tornou-se-me raro entrar em livrarias. Não compro livros, atafulhadas que me estão as estantes e desatafulhada que está a carteira. E, também, porque perdi o hábito de me demorar a cobiçar capas, coisa até malquista durante aquele doentio período de racionamento de clientes, entradas contabilizadas com gente até impaciente à espera da sua vez. Mas há dias passei por um escaparate e lá vi uma recente edição do "Cristo com Carabina ao Ombro" de Ryszard Kapuscinski, autor muito louvado, do qual li vários livros com algum agrado mas que, ainda assim, sempre me parece um pouco sobrevalorizado (botei mais ou menos isso aqui). Ainda assim folheei o livro - penso que já se pode, terá deixado de ser considerada uma acção voluntária de disseminação viral -, uma colectânea que ecoa andanças do autor repórter por paragens em momentos revolucionários. E notei que o final é um curto capítulo dedicado a Moçambique, notas da época da independência. Li-as ali mesmo, em apressada diagonal. Poderão ter interesse para quem nada saiba daquele período no país mas são, em si mesmas, algo desinteressantes.

Mas ainda a devolver o livro ao escaparate uma qualquer associação de ideias recordou-me um livro de Sebastião Salgado, o qual, na sua tamanha diferença, algo se assemelha com aquele. Trata-se de um opúsculo, quase "de bolso", o Um Fotógrafo de Abril”. Foi uma publicação da Caminho, integrando uma interessante colecção de pequenos livros que a editora realizou em 1999, destinada às comemorações do quarto de século do 25 de Abril. O livro tem exactamente 25 fotografias - algumas algo prejudicadas pelo pequeno suporte, pois apresentadas em dupla página e algo coarctadas pela dobra (como uma magnífica imagem de militares manifestando-se no Porto em Setembro de 1975, que merecia melhor apresentação).

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14 dessas fotografias foram feitas em Portugal, após a revolução de 1974, incidindo sobre manifestações políticas, festas religiosas e a reforma agrária. Deixo aqui duas, excelentes e imensamente significativas da complexidade do país (e muito prejudicadas pela reprodução que delas faço): dois militantes na sede do PCP em Aljustrel, e um casal em peregrinação em Lamego, ambas de Setembro de 1975. 

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Outras quatro foram feitas em Angola entre Julho e Novembro de 1975. E, lá está a razão da tal associação de ideias, tem ainda sete fotografias feitas em Moçambique ainda em 1974, com a retirada de militares portugueses no Cabo Delgado, a chegada de guerrilheiros da Frelimo a Lourenço Marques, e termina com a tomada de posse de Joaquim Chissano como primeiro-ministro do governo de transição, ladeado por Mariano Matsinhe (se não estou errado), à esquerda, e Óscar Monteiro.

Enfim, o livro é uma pequena pérola. Deixo ainda mais uma (pobre) reprodução: "Retornados das colónias no aeroporto de Lisboa, Outubro de 1975". Talvez agora possamos regressar a ela e perceber o seu sub-texto. Salgado é um homem de ideologia arreigada mas é, acima de tudo, um grande olhar de fotógrafo. E foi que este funcionou, encontrando naquela amálgama de refugiados esta imagem que nos poderá denotar não só a pluralidade do universo que então se acoitava na então já não Metrópole, como também a complexidade dos processos históricos que o haviam constituído. Mas a miopia maximalista logo tudo reduziu aos tais "retornados". Nisso alisando-os, descontextualizando-os, desproblematizando-os. Desumanizando-os. Para sossego do Portugal de então. E do actual, no qual ainda reina esse preguiçoso, de culposo pois culpabilizador, olhar "distraído".

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Em 2021 morreram vários amigos e conhecidos, foi mesmo um ano tétrico. Em meados de Dezembro juntei-me às minhas estantes e nos tempos seguintes reli vários livros que alguns deles deixaram, não por saudosismo mas como forma de avivar a memória que deles guardarei. Um deles foi Gerhard Liesegang - que recordei aqui, aquando da sua morte -, historiador alemão com largas décadas de investigação e docência em Moçambique. 

Parte substancial do seu trabalho foi escrito em alemão. E deixou vários artigos em português e inglês publicados em revistas, e ainda alguns inéditos (e até algo formalmente dessarumados) que estão na sua página na rede academia.edu. E nisto o único livro exclusivamente seu que tenho nas minhas estantes é este Vassalagem ou Tratado de Amizade? História do Acto de Vassalagem de Ngungunyane nas Relações Externas de Gaza, publicado pelo Arquivo Histórico de Moçambique em 1986. Trata-se de um opúsculo com 36 páginas, muito provavelmente uma condensação de um excerto do seu trabalho de doutoramento. Apesar da curta dimensão é precioso, e não sei - apesar de  naquela época as tiragens dos livros terem sido muito elevadas - se ainda estará disponível no mercado livreiro.

O tema é aliciante, uma resenha das relações diplomáticas entre Gaza e Portugal, grosso modo entre 1860 e 1890, mostrando as negociações e as diferentes leituras que aconteceram nos dois lados sobre o conteúdo dos acordos instituídos. O autor recorda o acordo (ténue, direi eu) de 1861 entre a Gaza do recém-empossado Muzila e o reino português na transição entre Pedro V e Luís I, no qual aquele - imerso na guerra sucessória - acolheu apoio do poder de fogo dos caçadores de elefantes portugueses (entre os quais o célebre Diocleciano Fernandes das Neves), em troca de direitos de caça. E ainda da concessão de terra nas cercanias da então Lourenço Marques, a sul do rio Incomati. E Liesengang deixa indícios da dupla interpretação que esse inicial acordo já levantara, com os portugueses a considerarem que esse acordo indicava ter Gaza aceite uma subalternidade (como "régulo tributário"), enquanto os changanas entenderam que essa concessão de direitos de exploração fundiária implicaria uma subalternidade do entreposto de Lourenço Marques. 

Nas duas décadas seguintes as dinâmicas promovidas pelo acordo de 1861 foram-se desvanecendo. E entretanto as relações diplomáticas de Gaza foram-se pluralizando, com delegações enviadas a vários estados africanos, à novel república dos africanderes e até à Grã-Bretanha. E com a ascensão de Ngungunyane em 1884 outro acordo foi feito. O qual, como o autor demonstra, teve não só uma dupla interpretação, em Gaza e em Portugal, como mesmo uma dupla formulação. Ou seja, na corte de Mossurize o acordo estipulava uma aliança, pela qual era aceite um representante residente português, como se um embaixador, encarregue da intermediação dos assuntos com Portugal - que foi de início José Casaleiro Rodrigues, um veterano na região que fora o negociador deste acordo. Enquanto na corte de Lisboa foi consagrado outro texto - e outra percepção do seu conteúdo -, que afirmava ter o reino de Gaza aceite um estatuto de vassalagem.

Ou seja, o livro são 36 páginas interessantíssimas para entender as relações entre Portugal e as entidades políticas locais antes da "ocupação efectiva". E são, evidentemente, matéria-prima mais do que suficiente para enfrentar os mitógrafos, portugueses e moçambicanos, que continuam a propalar a léria dos "quinhentos anos de colonialismo".

(O Gotejar da Luz, realização de Fernando Vendrell, 2001)

Leio que morreu Luís Sarmento, muito amigo de vários dos meus amigos, e sobre quem muitos elogios fui ouvindo, mas ao qual nunca conheci. Recordo este "O Gotejar da Luz" (2001), um bom filme de Fernando Vendrell, com base num conto de Leite de Vasconcelos, no qual Luís Sarmento actuou, com indiscutível mérito.
Aqui fica, em versão completa, para quem quiser (re)ver. Com os meus sentimentos para os seus inúmeros amigos.

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"O artista pode funcionar como um farol, um vidente", muito bem diz o Ídasse. Ele faz-me o enorme favor de ser meu amigo, mesmo amigo! Do qual eu sofro saudades, dos dias no seu bairro do Jardim ou das nossas caminhadas Maputo afora. É o meu artista moçambicano preferido, aquele de quem tenho mais obras, das afinal poucas que acumulei. E é um amigo preferido, "mano" se se quiser, querido como eu prefiro dizer. Talentoso é-o. Mas é também sábio. De uma sageza ponderada, recatada, embrulhada no seu maravilhoso riso, aquele gargalhar tantas vezes irónico e sempre sagaz. E é também, anuncio-o, o único homem que me apazigua - "porra, Idasse, tu dás-me paz", disse-lhe há já tantos anos, num dia que eu em polvorosa me esvaziei diante dele, de uma 2M e de uma mera tosta mista, verdadeiramente espantado com o seu efeito em mim, coisa estranha em homens da minha lavra que, quanto muito, só se apaziguam diante de uma ou (vá lá) outra amada mulher.

Não sei, honestamente, se estas palavras conseguem transmitir o respeito, imenso, que tenho por ele, por aquilo que ele sabe transmitir, grafica, intelectual e sentimentalmente. Para os menos sensíveis, daqueles que precisam de factos, traduzo-me: quem entra em minha casa tem logo uma mulher escarificada e um passo à frente uma curandeira a parir. E diante da minha cama, onde as visitas não entram, está um dançarino flutuante daquela maravilhosa série de 1998. Cá longe, sigo com Idasse.

Que as pessoas em Maputo o procurem. Não o incomodem. Mas tentem fruí-lo, aquilo que possam. E, entretanto, que leiam esta sua recente entrevista ao jornal "O País", onde para além de abordar o seu percurso repisa questões prementes no sector cultural do país. As quais, infelizmente, são sistematicamente esquecidas.

Adenda: como as ligações às páginas informáticas dos jornais são muito perecíveis, e também porque a página de "O País" é de acesso algo irregular, aqui deixo esta edição de "O País.pdf"para consulta desta entrevista, agradecendo à leitora que me enviou o documento.

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