O ataque em curso ao sítio b-ok e seus múltiplos locais é uma pérfida manobra do capital corporativo. O livre acesso impõe-se. E não me venham falar de direitos autorais... Cobrar dezenas de dólares pelo acesso a artigos científicos com décadas, por exemplo? Exigir filiações institucionais para aceder aos corpos bibliográficos? Explorar os financiamentos estatais às universidades? Inaceitável.
Posto de outra forma: o b-ok é uma preciosa, inestimável, fonte da democratização do saber. Não é "pirata", é corsário!!!!
Há um bom par de anos que chamei a este facebook a "likeland", a terra onde partilhamos aprazíveis "gostares", uma verdadeira "utopia" de bem-estar moral. Não é um defeito, é uma saudável panaceia que nos intervala os males do mundo. Cada vez isso mais me é visível, pelo menos no nicho das interacções que o algoritmo anima entre as minhas milhares de ligações - os "amigos-FB" com os quais interajo, neste "comércio" mais ou menos frequente de "sorrisos", "anuências" e "saudações", os "likes" (e "comentários"), que (n)os vão fazendo verdadeiros vizinhos, pois nomes que se me vão tornando conhecidos mesmo que nos desconheçamos na vida real, essa incómoda "real land", tópica.
Mais percebo isso pois as nossas características, as desta minha "comunidade" de entreajuda moral, a dos envolvidos neste nosso (quase)diário "estamos juntos", que se quer avessa à solidão - mesmo que enfrente apenas o "sozinhismo" -, implica que me acolhem com ruído prazeroso e solidário, e assim basto "gostável", as novas e notas da minha vida: uns dizeres sobre o meu Sporting, ecos de uma patuscada entre amigos reais, um resmungo com a minha ciática que afinal também é gota mas esta, afinal e vá lá, é apenas um entorse, ainda que bastante incomodativo, um sucesso da minha (magnífica) filha, um livrito para o qual me consegui concentrar, uma memória do "meu" Moçambique, uma nota sobre um bom filme visto na TV ou sobre uma tasca que descobri, uma piada menos brejeira que recebi no Whatsapp. E algum, escasso, etc.
Já algo oposta é a reacção se me ponho a opinar, ou a ecoar opiniões alheias, sobre os "males do mundo", os da tal "real land". As quais vou percebendo como uma violação do protocolo que nos une aqui, neste espaço de suspensão das preocupações e querelas, essas que preenchem a vida e, também, os dizeres nas "rádio, tv, disco e cassete pirata" que nos inundam o quotidiano. Que colhem um silêncio que não será exactamente uma discordância comigo ou com a minha forma - pois para isso há o "desamigar", o neologismo daqui - mas muito mais um até mudo "ó amigo/vizinho Teixeira, deixe-se disso, quer falar de coisas sérias, incómodas? Guarde isso para os blogs, homem...". Ou, até, "para si...", num "já viu como está a sua vida? Estivesse estado você calado...!", que é coisa que não é raro dizerem-me os da "vida real".
Enfim, resta-me anuir a este nosso protocolo (numa concordância ao velho mandamento "se está mal mude-se"). Aceitar esta nossa prazerosa "likeland" tal qual ela é - ainda que consciente e convicto de que esta terra não é a Cocanha.
Mas ainda assim deixo, pois renitente, uma citação que Paulo Sousa colocou agora no Delito De Opinião, sobre esta nossa terra Portugal. Um excerto de um texto que não é de um furioso esquerdista nem de um paladino do professor Ventura, nem de um publicista da sempre pérfida "oposição". É de Ricardo Costa, director do tão institucional de alinhado "Expresso" e também irmão do nosso primeiro-ministro desde 2015. Deixo-a aqui, à transcrição, sabendo que poucos "gostarão" dela. E que, pior ainda, poucos nela atentarão. Pois afronta o sossego identitário de tantos dos "vizinhos":
Uma familiar muito próxima está a fazer mudanças em casa. Na sua constante azáfama pediu-me ajuda para se libertar de alguns itens através da célebre OLX (mobiliário, roupas, livros e brinquedos em bom estado, pois as crianças vão para adolescentes).
Assim estou a fazer. Acabo de colocar anúncios (na conta dela daquela plataforma, note-se) de dois tapetes (belgas, 2,30X170, em excelente estado, para quem se possa interessar), a preços muito decentes.
Levanto-me, vou fazer um café, enrolo o primeiro cigarro do dia (duas horas e meia depois de acordar, não está mal...). Regresso ao ecrã e abro o Facebook para enquanto fumo. O meu mural está encimado pelo anúncio de uma "Feira de Tapetes" digital...
Não há dúvida, um tipo é vasculhado até ao âmago. Até ir ao tapete, por assim dizer...
Ontem a simpática rubrica da SAPO de Destaques realçou este postal, dedicado aos tão habituais abrasivos comentários anónimos nos blogs, e aventando o seu hipotético efeito inibidor, indutor do abandono blogal - e ainda mais interessante é o texto dado que se trata, explicitamente, de uma reflexão sobre bloguismo não político, o qual aparentaria comportar um registo mais plácido nas opiniões recebidas.
O assunto é velho como o mundo (blogal), e já em 2006 Pacheco Pereira abordou na imprensa o ambiente do comentariado anónimo nos blogs, suscitando críticas que recorriam a uma (pobre) argumentação, a qual se veio mantendo entre o cada vez mais esconso reduto bloguístico. (Então transcrevi artigo e respostas aqui). Blogando há 18 anos muitas vezes me referi a este tema, tanto no meu velho ma-schamba como, mais recentemente, nos colectivos És a Nossa Fé (no qual escrevi) e no Delito de Opinião. E foi neste último que, há poucos meses, deixei uma súmula, nada ensaística, do que penso desse ambiente, o postal "Têm os Anónimos Mães?".
Mas é relevante a grande diferença entre a interlocução nos blogs e na outra rede social escrita verdadeiramente dialogante que uso, o Facebook (sobre o distraído reducionismo de "redes sociais" ao FB - e ao Twitter - escrevi aqui). De facto, e por mais que haja - em particular entre bloguistas - críticas ao Facebook, seja por lhe invectivarem uma superficialidade temática e formal, seja pela denúncia das esconsas práticas da empresa, neste âmbito da interacção dialogante o ambiente daquela rede social é bem mais plácido. A razão é simples: a menor incidência de anonimato, ainda que seja evidente a existência de perfis falsos, associada à possibilidade de "bloquear" interlocutores. Mas é mesmo a menor presença do anonimato que em muito reduz a tendência para a agressividade espúria que se nota em tanto do comentariado blogal, o qual acolhe uma espécie de catarse digital das angústias gerais, como se nós bloguistas tivéssemos funções de "cuidadores" morais dos desapossados psicológicos...
Não é assim no Facebook. Nota-se ali uma tendência plácida. Também esta será um pouco artificial - não sendo um reflexo do estado geral -, assim servindo a plataforma para que cada um componha a sua pose pesssoal, a sua "personagem", como indivíduo atento, simpático e até gracioso, "amável" na sua distribuição de gentilezas ("likes") e saudações ("comentários") - tendo há anos o sistema-FB retirado a função de aceno ("poke").
É notório que há no FB (português e moçambicano - que são os que acompanho) alguns intervenientes, personalidades públicas, que têm murais muito concorridos e com interacções por vezes polémicas - principalmente no domínio da política (o futebol é um "mundo" específico...). Mas na maioria dos casos, a nossa, o conteúdo das interacções é simpático. E essa simpatia é reforçada, balizada, pela atenção que os intervenientes vão dando aos assuntos abordados. Ou seja, se um assunto é hipoteticamente polémico os "amigos-FB" por ele passam, ou não lendo ou não dando sinal disso. Se o tema é "pacífico", na tal placidez convivencial, é acolhido com satisfação.
Ilustro com o meu caso: este blog Nenhures é pouco acedido, mas o meu mural de Facebook é algo agitado. Ultimamente tenho escrito vários postais sobre refeições, restaurantes, pequenos passeios, sucessos familiares ou traços mais ou menos patuscos do quotidiano, "la joie de vivre" acantonada no remanso envelhecido. Os quais são acolhidos com simpatia, de modo sonoro e visível. Outros dias, de outros humores, deixo postais algo opinativos, ecoando a minha "visão do mundo" ou do "estado da nação", os meus resmungos. E a mesma gentilíssima rede de amigos-FB flana sobre esses textos... Sem contestação, sem críticas, sem polémicas. E, evidentemente, sem insultos. Apenas flana... Eu assumo a mesma atitude, não contesto em murais alheios as opiniões que possam ser sensíveis - posso propor alternativas musicais, recomendar outro restaurante, apontar temperos diferentes, brincar com resultados futebolísticos, etc. Mas não enfrento algumas opiniões substantivas sobre temáticas delicadas, ideológicas ou políticas, e muito menos religiosas.
Grosso modo, reina no FB um saudável ambiente, que também tem notórias dimensões de solidariedade moral (o acompanhamento das doenças e o sector necrológico são crescentes). E o qual se reflecte, no registo opinativo, na consagração de um "não chateio, não me chateiem", ou seja, não impinjo opiniões polémicas, não me impinjam as vossas... Exemplifico com dois recentes postais meus: emocionado, botei um postal sobre Rushdie, assunto relevante e texto crítico que (digo eu) ficou bem conseguido, o qual passou quase incólume à atenção dos "amigos-FB"; depois, divertido, botei um postal sobre os bilhetes para o espectáculo dos Coldplay, texto escrito de rajada sobre um mero "fait divers", o qual recolheu imensa atenção. É uma boa súmula das simpáticas interacções no Facebook. Tão distante, tão diferente, da destrambelhada malvadez anónima das catacumbas blogais.
E é por isso que concluo com uma proposta: o hino do Facebook deveria ser esta já velha canção dos The Kinks, "Act Nice and Gentle". Pois ali, até implicitamente através destas práticas, tantos entoam "(...) Just show some civility / Act nice, act nice and gentle to me / (...) I'm not difficult to please / Act nice and gentle to me / (...) S'throw away your false eyelashes / Act nice, act nice and gentle me / Holdin' my hand /Understand / Act nice / Act nice, act nice and gentle to me".
E isto, o conteúdo desta cançoneta, ao contrário do que muitos podem querer clamar, é o fundamental. Ainda que às vezes nos possamos (falo por mim) disso esquecer.
Leio o João Gonçalves (agora também João S. Gonçalves) desde os tempos do seu blog Portugal dos Pequeninos. Verve cáustica, mente inquieta e, acima de tudo, imensa verrina. Concordando ou não - até porque ele estará duas ou três braçadas à minha direita -, gostando ou desatinando, o certo é que nestas quase duas décadas o homem tornou-se item da minha paisagem.
Após a "intervenção militar" russa na Ucrânia o João Gonçalves embicou, e com afã, contra as posições europeias e um (aparente, digo eu) unanimismo ucranófilo. No início, uma ou duas vezes lá terei resmungado em comentários - julgo que aquela posição é um erro de compreensão - mas depois desisti. Pois às minhas atoardas guardo-as para o meu mural (e blogs), para quê chatear os outros em sua "casa"? Ora, e até porque o seu mural é muito activo (imensos "gostadores", múltiplos comentários), o "Algoritmo" mostrava-me os seus vários postais diários e a azáfama dialogante que lá sempre acontece. Também por isso um dia irritei-me com aquilo e cortei a ligação, num "quando acabar a guerra pedir-lhe-ei "amizade" outra vez"..." em busca das (outras) caneladas que ele vai distribuindo a eito. Passados uns tempos ele criou um outro perfil (João S. Gonçalves) e reestabeleceu a ligação e eu, que estaria em dia menos zelenskiano, acolhi-a sem mais.
Percebi agora que as suas duas contas foram "canceladas" durante um mês. Não sei exactamente porquê. Talvez por motivos lexicais, não me surpreenderá - um amigo co-bloguista acaba de me avisar que ele próprio está suspenso do Facebook porque utilizou um substantivo abstracto derivado da célebre "Mariquinhas" (!!), e eu já fui informado que, e apenas por ter comentado alhures interrogando se tal substantivo era "ilegal", seria suspenso se repetisse tamanha agressão a uns inditos "valores comunitários". Ou então foi barrado devido às suas posições políticas.
Independentemente da razão isto é inaceitável. Há no Facebook um controlo global (robótico, dizia-se) iconográfico, algo atrapalhado - o episódio da censura ao "A Origem do Mundo" de Courbet foi um risonho exemplo, tornado ainda mais anacrónico face à recente pornografia via vídeos "reels" divulgados nesta rede - mas que se poderá justificar, pois avesso à transformação da plataforma num avatar dos porn hubs. Mas o controlo lexical é patético, não só por questões de princípios mas também pela polissemia dos termos que se querem barrar - as "mensagens odiosas" de que a empresa Meta se quer expurgar dependem da sintaxe e não do léxico.
E há, acima de tudo - e este caso deve depender disso -, o controlo censório avulso. Executado pelos pobres avençados da empresa e, muito, pelos inúmeros utilizadores "denunciantes". Que "denunciam" através do "barrar" de outrem, dando sinal ao sistema que essoutro tem más práticas, algo cujo somatório provoca sanções - já me aconteceu um punhado de vezes, até com gente que conheço, antigas visitas de casa, recentemente um antigo aluno a quem cortei a ligação devido ao seu desbragado putinismo e que assim se "vingou", colegas antropólogos por razões que desconheço -, ou mesmo "denunciam" postais com os quais não concordam.
Ou seja, a coberto de uma aparente "cidadania", de uma defesa dos tais "valores comunitários" (quais?, qual "comunidade"?), o que grassa é a vil bufaria, a da maledicência frustrada, ciosa da sua mediocridade. No fundo, bem no fundo, apenas gente dessas "coitadinhas", furiosas diante da "Pretendida, desejada / Altiva como as rainhas / Ri das muitas, coitadinhas / Que a censuram rudemente / Por verem cheia de gente / A casa da Mariquinhas".
Não é por falta de vontade mas não consigo atinar com a Instagram, dita mais “jovem” e, por isso, mais “fina” - pois, como é sabido, "nós" envelhecemos menos que o povoléu. Fui lá há pouco, até para me libertar dos dizeres que aqui abundam, que isto está cheio de gente opinativa… Enfim, nas 30 primeiras publicações a que acedi havia 16 colocações pessoais (duas excelentes fotos gastronómicas, várias más fotos de paisagens veraneantes, ecos de festas com gente que desconheço). E 14 anúncios!!!
Repito-me, esta é a minha canção portuguesa. Sei que há quem desgoste - um querido amigo (esmurrou-me na festa dos meus 10 anos!, a tanto isto vai, tanto nos liga...), músico e produtor, dizia-me há dias que um grande autor português, para sempre embrenhado num até demencial cantoautorismo, há anos vociferava que os Madredeus eram "o Mateus Rosé da música". Belíssima invectiva, se calhar verdadeira. Mas que seja vivida deste modo: se assim é, que saborosa vinhaça! E insisto nisto da tão minha crença, até política, ainda que talvez não de outros - mesmo que agora lendo da reedição dos textos cruciais do MEC, daqueles "dos tempos" -, de ter sido o Ayres, discreto ele, o tipo fundamental da minha geração.
Escrevo este postal numa magnífica noite de Verão, após um jantar - bebericado - sob as árvores deste Algures com maravilhosos amigos, daqueles que escoram. Outros destes têm vindo a morrer, alguns seguem atrapalhados (abraço, camarada[s]), pois a nossa hora vem chegando, e resta-me a imensa amargura disso. E assim um homem, ainda para mais neste celibato pérpetuo que nada esconde, percebe que segue já com os pés para o forno.
Vem-me tudo isto à pele, às teclas - e se calhar em registo exagerado -, ao ler um texto, um tipo acerado e clarividente a dissecar - mesmo até ao osso - um já velho romance, sobrevalorizado, sobre a "descolonização", o "Retorno" de Dulce Cardoso. Um livro em registo algo "pitoresco", como pensei ao lê-lo há pouco tempo, en passant, sem qualquer canga biográfica - não sou "retornado", pouco conheço de Angola, pouco aquilo tudo me diz, e disse, de facto nada mais do que um argumento para um filme. Mas o cabrãozinho, assente no seu bem esgalhado texto, a este propósito decide alçar-se a uma qualquer peanha, e nisso pontapear a tralha dos seus 79 (eu um deles) "amigos-FB", que vitupera por falarem de "sentimentos e de experiências", nisso desprovidos de "pensamento próprio" - um universo que lhe serve de amostra para desmerecer o rincão, a Pátria Desamada.
Acontece que eu, um dos 79s, tenho um "pensamento próprio". Que não é "original", coisa dos da champions league. Mas é o meu, com tudo o que se limitado, trôpego, tem. O qual vai sob a tenaz do que a Senhora minha mãe me anunciou, ainda eu adolescente seguia: "o mais difícil da vida é aceitarmos a nossa mediocridade". Chame-se-lhe "mediania", se em dia de boa disposição. O que em nada me obriga ao silêncio, nem (me) estrafega o perorar. É condição, apenas isso. E não é um amigo do rebotalho socratista - como o é este atrevido - que me vem desvalorizar, condenar ao silêncio, ou mesmo avaliar...
Dito isto, assim neste meu mau humor ainda que no melhor dos meus ambientes: se me der o treco nos próximos tempos, inopinado? Façam tocar este "Haja o que houver" antes do forno, sinal de que este eu, apesar de tudo, tinha algum amor que queria dar, coisa dos "sentimentos e histórias vividas". Mas, para não ficarem com imperfeita memória minha, delicodoce até, se encontrarem o (julgo que) antropólogo Carlos Sousa Almeida digam-lhe: o Zé Teixeira foi-se! Mas antes disso mandou-o para o caralho. E também disse umas coisas sobre a sua mãe, mas não vale a pena lembrá-las.
É comum ler "doutores" - académicos e jornalistas, ciosos ciumentos saudosistas do seu estatuto de intermediários do Saber, como se Sábios pedagogos pairando sobre nós-plebe - criticarem os perigos da internet, aterro de lixo (e nisso quantas vezes citam Eco). E apupando as "redes sociais" - as quais reduzem ao FB e ao Twitter -, quais pântanos da nossa popular malévola ignorância.
São nisso broncos - como alguém que refute bibliotecas porque (também) têm maus livros. São broncos e não têm vergonha de o ser pois ninguém lhes diz isso, dado que infelizmente continuamos naquilo do "respeitinho é muito bonito", chapéu na mão diante do "sô dôtor".
Boto isto nesta nebulosa manhã dominical não porque tenha acordado possuído por uma réstia de Michel Serres (esse que reduziu esses filisteus à tralha que são). Mas apenas para louvar, em cúmulo de gratidão, o que estes meios me dão, por malvados capitalistas que os detenham... Pois foi numa "rede social", em murais dos populares que por lá pululam, que soube da transmissão na RTP2 da "Akhnaten" de Glass. A qual está disponível na RTP Play (na tal internet dos miasmas intelectuais) - versão aparentemente majestosa, pelo pouco que já vi. E que verei completa após o jogo da selecção de hoje.
Mas muito mais, foi ali noutra "rede social" musical que ontem voltei ao "Live in Athens 1987" - um Peter Gabriel soberbo, já liberto da pirosa tralha Genesis, no pico da voz, no cume da sua inovação no rock. E com um lendário grupo de músicos fabulosos (David Sancious, David Rhodes, Manu Katché, Tony Levin).
Sim, o som do meu computador não é grande coisa, eu vou um bocado mouco. E perro, tanto que já nem sozinho ao espelho danço... Mas ainda assim estou há horas, desde a alvorada, a ouvir em loop esta Shock the Monkey - que o autor diz ser sobre o ciúme mas que sempre imaginei como uma canção sobre como o amor nos fez evoluir. E que aqui vem numa versão sublime.
E neste longo e intenso loop rejuvenesço décadas, cada vez mais... com a má contrapartida de que assim, de súbito tão jovem, percebo o quão irrelevante, sem sentido e mesmo incompetente é o texto word que tento culminar. Mas que importa isso quando se é jovem?
Aqui deixo a canção (retirada de uma outra rede social). Ouvi em loop, comprovai o rejuvenescimento.... Ou então ide ler os "doutores":
Peter Gabriel - Shock The Monkey (Live in Athens 1987)
Desde ontem o 4 de Outubro passará a ser o Dia Mundial Sem Redes Sociais, leio num risonho postal de facebook. O apagão universal durante horas da teia do Facebook (FB, Instagram, Messenger, Whatsapp) - causando seis mil milhões de dólares de prejuízo, (quase) lamenta a imprensa - foi tonitruante. Claro que outras redes sociais continuaram, desde logo o gutural Twitter ou a "alt-network" Telegram, ou as laborais Linkedin, Academia.edu e ResearchGate, pelas quais passei brevemente. E visitei as minhas contas na Goodreads e na Babelio, e enquanto fumava perdi mais 2 ou 3 jogos na Chess.com (estou com o pior ranking de sempre, num ciclo catastrófico que insisti em pensar momentâneo mas que deverá ser já a degenerescência intelectual). Como neste nenhures não tenho televisão nenhum filme vi nem qualquer opção fílmica se me impôs e assim não visitei a IMDB. E como não tenho tido grande actividade nas minhas contas do DailyMotion e do Youtube também por lá não passei, tendo apenas deixado a tocar a Spotify. Nesse quase remanso também não fui à adorável Pinterest, pois é sítio mesmo de passatempo relaxado, nem à Geni, pois nesta precisarei de muito trabalho dedicado, e não é o momento de a isso me abalançar.
Enfim, mesmo se embrenhado neste redemoinho segui como tantos outros, algo desamparado com a inacessibilidade da minha conta do Facebook e com o silêncio do WhatsApp. É certo que uso estas macro-redes fundamentalmente para divulgar os postais de blog (tal como o Twitter, no qual não tujo nem mujo para além das ligações aos postais). Mas, ainda assim, e apesar desta profusão de outras contas noutras redes, fiquei-me algo combalido.
Valeu-me, vá lá, uma outra rede social, a blogal. Tal como quase todos os dias entrei na minha conta do Feedly, um excelente agregador de blogs. Onde, desde há muito, sigo um largo punhado de blogs - muitos dos quais entretanto encerraram enquanto outros seguem veteranos já algo relapsos, apenas balbuciando em raros postais. Mas há os que continuam viçosos, constituindo uma verdadeira rede social de gente que tem algo a dizer. E que para isso usa palavras, associando-as em formatos sintácticos aceitáveis. Algo óptimo, refrescante, neste mundo das redes sociais. E como tal, no meu caso, digo que o 4 de Outubro é o Dia Mundial das Redes Sociais.
Há algum tempo - talvez nas vésperas de um dos meus imensos aniversários - aqui [no FB] clamei contra a irritante mania do "parabenizar", palavra que há alguns anos ninguém com dois dedos de testa se atrevia a usar. Irrita-me porque é feia. E muito mais porque só mostra que as pessoas nem percebem o que quer dizer "parabéns", desejar todo o Bem possível. Já agora, temos uma bela palavra para isso, "abençoar" - e para aqueles que dirão que esse é termo reservado às entidades metafísicas, e aos membros do clero, lembro que era costume os mais-velhos abençoarem (darem os parabéns, na linguagem de hoje) os descendentes, directos e indirectos. E sublinho que quando damos "parabéns" estamos a convocar o Bem alheio, a afirmar a possibilidade própria de influenciarmos o destino, como se micro-entidades divinas fossemos (sim, dar os "parabéns" é, para cristãos, um pecadilho de soberba teológica). Enfim, daqui a cerca de um mês mais uma vez cruzarei um aniversário. Peço um favor aos que me dedicam alguma simpatia: abençoai-me, não me parabenizem...
E sobre a questão deixo este delicioso texto de Rita Ferro., até pasmada com o "ofendidismo global" que a invectiva devido ao seu desgosto com essa horrível "parabenizar". Texto esse que tem tem um belo corolário: "Só vos digo isto: viver, hoje, é uma longa história de paciência."
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