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Nenhures

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22
Fev21

A semana do Império (1)

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(Metangula)

A semana do Império (1): vou deixar neste grupo algumas ligações a textos sobre este assunto.
 
A morte de Marcelino da Mata reanimou, na semana passada, a discussão sobre a memória imperial e seus efeitos actuais. Muita coisa oca foi escrita. O assunto serve para o jogo político. Nesta matéria desde 2019 que eram notórias as tácticas do PS, utilizando-a para minar a influência do BE na esquerda urbana. Algo que agora se tornou explícito, nas patacoadas de deputados socialistas (derrube do Padrão dos Descobrimentos, lamento pela relativa placidez do 25 de Abril, apagamento ou elisão de pinturas alusivas às navegações portuguesas) cavalgando a agenda dos activistas identitaristas. Ou seja, à promoção socialista do Livre e à posterior cooptação da sua ex-deputada, sucede-se o rapto do radicalismo discursivo desta "causa". Em futebolês dir-se-ia que o PS adoptou agora a "pressão alta". Não tanto sobre os resquícios materiais e intelectuais do colonialismo mas sim sobre os codiciosos arietes identaristas ainda sitos no plantel do BE.
 
Para muitos académicos e afins é agora necessário, meio século depois do fim do Portugal colonial, afrontar os resquícios do Estado Novo, materiais e intelectuais. E nisso refutar o "lusotropicalismo", essa síntese enviesada feita após 1950 por Gilberto Freyre e intelectuais portugueses, justificativa do colonialismo, e a memória das navegações de XV-XVI, dos "Descobrimentos".
 
Ora nós podemos perfeitamente viver com parcelas do legado cultural (e propagandístico) do Estado Novo. Como muito bem acaba de lembrar Helena Ferro de Gouveia o Castelo de São Jorge (e tantos outros castelos) que conhecemos são reconstruções - propagandísticas, construtoras de "identidade nacional" - do Estado Novo. Vamos (re)arruiná-los, para nos purgarmos da mundivisão salazarista? E podemos perfeitamente louvar os extraordinários feitos quatrocentistas e quinhentistas, e considerá-los parte fundamental da construção do país - todos os países têm um discurso mais ou menos dominante sobre si mesmos. Não uso qualquer sarcasmo, mas que diríamos se a Ordem dos Dentistas viesse questionar a celebração das navegações devido ao escorbuto que grassava entre as equipagens? Afirmando que tal é um atentado à higiene bucal, de efeitos perniciosos à actual saúde pública? Não se pode respeitar os espantosos feitos científicos e técnicos e a fibra dos participantes enquanto se lavam os dentes e se tem alimentação apropriada?
 
A grande questão é outra, não é afrontar os discursos de até há meio século, o tal "lusotropicalismo" do Estado Novo. Mas sim reflectir nos discursos que esta II República promoveu sobre o país, sua realidade e seu futuro. Ou seja, que discurso sobre si-mesmo produz o país, para além do corolário europeu e do gemido lusófono? Estruturante foi a produção da visão da "Lusofonia" como enquadradora do país. A qual reflecte e refracta o tal "lusotropicalismo" mas a isso não se restringe. É um produção dos intelectuais actuais, em particular dos ligados ao Partido Socialista finissecular, herdeiros do republicanismo. Na ânsia de se proclamarem "antifascistas" os intelectuais de hoje elidem isso, e fogem à crítica radical da produção actual. E os políticos ainda mais: tem algum sentido um mariola deputado propôr o derrube do Padrão dos Descobrimentos e esquecer-se de propor a renomeação da Ponte Vasco da Gama? Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.
 
Acabo de reler um pequeno livro, "Este País Não Existe", colectânea de textos de jornal, com autores insuspeitos de lusotropicalices, com Bethencourt, Ramada Curto, Castro Henriques, entre outros. E no qual está um artigo de 2007 de Alfredo Margarido (do qual ainda tenho o recorte do original), devastador do discurso da lusofonia. E é significativo dos limites da análise crítica (re)ver que um dos organizadores, Nuno Domingos (que trabalhou sobre Moçambique), reduz as críticas ao Acordo Ortográfico a um irredentismo saudosista da "gesta" pátria. E que nessa colectânea, que abrange textos sobre variadíssimos temas ligados às representações sobre o país e sobre a memória colonial, ninguém tenha abordado esse AO 90. O que denota a incapacidade (ou a falta de vontade) de olhar para como a II República, em particular os intelectuais de extracção republicana e sediados no PS, pegaram no projecto explícito de Salazar de compor um comunidade de língua e sentimentos - a reforçar e perpetuar por uma homografia. E continuaram-no.
 
Ou seja, a questão não é discutir o tal Estado Novo, findo em 1974. Mas sim a II República, vigente. Não é discutir o "lusotropicalismo". Mas sim a "Lusofonia". E nisso não só debater os seus conteúdos programáticos. Mas também as suas práticas. E os arranjos estatais em seu torno: e nisso perceber que muita gente se afixa avessa ao "lusotropicalismo" mas produz, reproduz e recebe (d)a lusofonia.
 
Enfim, vou buscar a minha memória. Contactei com ("levei com", no jargão) o arrivismo ignaro e a pesporrência da administração cultural socialista lusófona. Antes ainda dos textos de fins de XX de Margarido ou Lourenço, devastadores da ideologia lusófona. Quando Castelo publicou o seu estudo tornado canónico sobre o lusotropicalismo. Bloguei no ma-schamba durante 12 anos: tenho aí 167 postais com a etiqueta "lusofonia", quase uma monomonia. Sobre a ignorância, a patetice, o atrevimento da administração estatal, da imprensa, da academia. Lusófonas.
 
Não me venham assim criticar o defunto Estado Novo. Mas sim ser verdadeiramente analíticos: do presente. Da chamada intelectualidade de esquerda - há três décadas a viver de lusofonices. (E não me chamem "ressentido": fui eu que saí desse gravy train. Apeando-me de uma carruagem de primeira classe).
 
Para ilustrar tudo isso, deixo ligação a dois textos antigos do ma-schamba, neste postal e num seguinte. Sobre as lusofonices. De 2002. Forma palavrosa de mandar à merda estes deputadozecos socialistas. Mais as professorazinhas que vão à TVI dar-me e dar-nos lições de literacia, para cobrir de elogios "o Mamadu". O primeiro escrevi-o em Mandimba, na primeira vez que fui ao Niassa.
 
 

"On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l'aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (...) car [on] supposait qu'un homme qui n'était pas né en France n'avait pas le sens commun

                                                                                                                                              (VoltaireL´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.

Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.

Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!

E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.

Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.

Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.

Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.

Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.

Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…

Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?

Mandimba, 2002

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