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Nenhures

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05
Out20

Ainda a "linguagem inclusiva" na tropa

jpt

G.I._Jane.jpg

Gente do ministério da Defesa quer modificar as falas militares, fazendo vigorar as regras do "bons costumes" adequadas aos salões académicos e aos jogos florais. Ao que consta aqueles funcionários públicos, e presumíveis consultores externos, não querem que a vida militar, nos seus processos de formação e no seu exercício corrente, contenha "linguagem depreciativa" - consta que expressões como "deixa-te de mariquices", "pareces uma menina" e "porta-te como homem" passariam a ser desajustadas à prática militar, quais lesa-república. E estou certo que o documento - Diretiva (sic) sobre a Utilização de Linguagem Não Discriminatória -  elencaria outras, e mais peludas, formulações a vetar, de molde a que a defesa da Pátria (Amada) não fosse conspurcada e até, porventura, traída.

Muito apropriadamente o ministro da Defesa desconsiderou a pertinência dessa proposta. Mas com toda a certeza que esta gente da "linguagem neutra" voltará ao assunto, neste sector ou noutro qualquer, nesta legislatura ou na próxima, neste folclorismo que lhes é essência política. Também por isso deixo o que logo me ocorreu ao ler a notícia sobre este documento ...

A tal directiva bem-falante lembrou-me este filme G.I. Jane, realizado pelo grande artífice Ridley Scott e protagonizado pela então célebre Demi Moore, uma actriz bem apessoada que hoje será mais recordada por ter sido casada com Bruce Willis, actor da engraçada série Modelo e Detective (Moonlighting) e que depois seguiu vasta e lucrativa carreira cinematográfica, especializado como "homem duro".

G.I. Jane é uma peça da prolixa produção de Hollywood de filmes destinados a acalentar o patriotismo militarista americano, coisa de império assente numa economia de guerra - é verdade, o que se há-de dizer? Uma produção bem necessária num país que, após a guerra do Vietname, optou pelo recrutamento voluntário das suas tropas, assim a exigir o inculcar do anseio guerreiro - talvez menos necessário seja estarmos nós, literalmente todos os dias, a ver filmes deste tipo, moldando mancebos. De qualquer modo o tal G.I. Jane é bem mauzito, mesmo se considerado neste eixo de produção fílmica, tralha mesmo. Mas tem o interesse de época, isto de agora se moldarem ... mancebas. 

A história é simples, básica mesmo. A personagem de Demi Moore candidata-se às tropas especiais - os sempre elogiados Navy Seals. Uma rapariga em tais andanças é facto visto como impossível pelo oficialato, másculo e machista, que se opõe com vigor. Mas é apoiada nos seus propósitos por uma sabida política influente - papel desempenhado pela lendária Anne Bancroft. E por pressão desta a sua candidatura é aceite. Para defesa desse reduto masculino todos se conluem para impedir o sucesso da militar na sua extenuante recruta, com sevícias psicológicas e extrema pressão física. 

Mas a manceba é rija, dura de roer, e tudo consegue cumprir, nisso não só indo completar a formação como - e é a fundamental mensagem do filme - acabando com o monopólio masculino naquele escol de combate. Nesse seu arreganho vai enfrentando os destratamentos másculos. E o ponto culminante, nisso simbolizando a sua cooptação pelos seus camaradas, é esta cena, a sua irada reacção: "Faz-me um broche!", responde a mais uma afronta, insultando através da sempre desvalorizada, ainda que tão requerida, felação.

Claro que as leituras disto poderão ser as sempre queixosas, afirmando que nesta imprecação "Suck my dick" se reproduz o linguajar masculino, machista, demonstrando que o sucesso e a aceitação da candidata lhe exigiu a assumpção de uma postura masculina, pois propalando um (nela) inexistente falo, apagando a sua identidade feminina.

Ou então poder-se-á ter uma visão algo mais esclarecida. Sob a qual a linguagem não tem um significado facial. E que se insultos e imprecações são dimensões presentes na vida social têm também significações contextuais. Ou seja, que este "Suck my dick!" / "Faz-me um broche!" ganha múltiplos sentidos consoante ..., e que não implica nenhuma translação identitária da locutora, sendo, pelo contrário,  um corolário dessa identidade própria  ... Pois, como um dia um belga iluminou, "ceci n'est pas une pipe". Expressão, como saberá qualquer francófono, muito adequada a esta questão ... Aliás, que a resolve.

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