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Nenhures

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18
Fev21

Ainda os arranjos florais da Praça do Império

jpt

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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.
 
Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece - tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.
 
Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.
 
1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório - e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.
 
Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.
 
Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como "ofensivos". Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente...
 
2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na "Praça do Império". Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero "show-off". Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?
 
Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito "bairro colonial", e no mesmo eixo de conteúdos - nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a "ofensa" com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores - e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal "show-off".
 
A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao "turístico" vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona "nobre", "histórica" e assim "patrimonial" e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do "épater le bourgeois" com o "para inglês [de facto "americano" de campus] ver".
 
(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular "Bairro das Colónias" - como ainda patente nas placas camarárias - e partam da Praça das "Novas Nações", sempre dita das "Colónias", e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, "contra os bretões marchar, marchar").
 
3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta "Praça do Império", símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma "Praça da Amizade", decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.
 
Ora esta "amizade" é o eco, até inconsciente, do ideário da "Lusofonia", essa proclamação acrítica da amizade/"comunhão de sentimentos" que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.
 
4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por "Praça da Diplomacia", simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente "iluminista".
 
5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as "relações raciais" (velho epíteto, a la Boxer) entre "negros" e "brancos" (e até "latinos") advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas "relações raciais" ("negros"/"brancos") foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.
 
Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de "intervenções" progagandísticas sobre o "património"? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é "intervencionar" os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.
 
Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.
 
Mas isso, "intervencionar" os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os "pais fundadores" deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

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