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Nenhures

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A propósito do meu postal de ontem sobre os furiosos com a cantora brasileira - essa que agitou bandeira alheia em território pátrio - recebi alguns resmungos, no FB, nos blogs e até em privado. O implícito nestes é que eu vou desatento ao simbolismo da(s) bandeira(s), aos valores que esta(s) encarna(m) - enfim, isto para além de outra coisa que eu desconhecia e que só percebi após ter escrito o postal, a mulher é avessa ao presidente Bolsonaro e para os fascistas (não há outro termo) portugueses isso desmerece-a. Enfim, seja lá como for, isto lembrou-me alguns episódios meus com bandeiras, minudências que servirão para ilustrar como com elas me relaciono. E partilho-os com quem tiver paciência para me aturar.

Há uns anos passeava eu na bela Évora. Ia (muito) enlevado mas ainda assim notei que passava por um edifício militar. E à janela do primeiro andar do quase paço assomou um tropa - entenda-se, alguém pouco graduado. Logo eu, em tom simpático e colaborante, cá de baixo o avisei "ó amigo, desculpe lá, já reparou que a bandeira está toda esgarçada?". Ele sorriu, como se aflito, deu-me uma onomatopeia, grunhiu um obrigado, a senhora que me enlevava olhou-me num franzir do seu belo cenho como quem lamenta "saiu-me um patriota em sortes..." e assim segui todo ufano. Uns tempos depois estava eu na Brasília da Europa e tive de tratar de um assunto na embaixada. Enquanto esperava fui à porta esfumaçar e nisso olhei para cima, em desfastio. E ali estava uma enorme bandeira, já com sinais de alguma veterania. Depois, ao ser recebido pelo (gentil e eficiente) funcionário, avancei da pertinência em mudarem a bandeira, simpática contribuição cidadã acolhida com alguma atrapalhação, naquele "vou transmitir" de alguém já exausto por ter de aturar tantas reclamações destes chatos, nós-todos.

Mas isso são pequenos detalhes. Pois do que mais me lembro é da minha irritação ao vir a Portugal após o Euro-04. O Sargentão Scolari havia transformado o país numa "moldura humana", os campinos haviam escoltado a cavalo a selecção "de todos nós" e toda a gente afixara a bandeira em tudo o que era sítio. Passados meses ainda a carregavam, feita colecção de trapos imundos, devastados pela mansidão dos elementos, nas marquises, nas (agora inexistentes) antenas de autocarros e táxis, nos balcões das tabernas, nas janelas dos carros, sei lá onde mais. E, para cúmulo da imbecilidade patrioteira, uns anos depois, e a propósito de uma outra competição internacional da bola, o jornal "Expresso" distribuiu uma bandeira nacional com o nome de um banco (e que banco!!!) impresso. Ou seja, a rapaziada - entenda-se, os doutores do Facebook - não toma conta da bandeira, a nacional. Não aprendeu a manuseá-la, não a cuida, trata-a como toalha de bidé ou poster de rock. E depois, muito de vez em quando, abespinha-se...

E não é só com os tratos de polé que a nossa sofre, mas também nas formas como outras nos são impingidas. Há uns anos fui jantar a um restaurante italiano, ali às Janelas Verdes, uma casa térrea. Francamente nunca percebi qual a razão do sucesso da comida italiana num país com a nossa gastronomia. Mas, enfim, ia em grupo e outrem tinha proposto o destino. À chegada, esperando à porta pelos convivas, notei que ali estava a bandeira italiana hasteada, num mastro colocado no telhado...! Ainda resmunguei, num "vamos comer noutro sítio" proposta cuja recusa foi acompanhada por muda convicção de estar eu maluco. Pois para todos é normal que uns sacaninhas hasteiem a bandeira pátria na baiúca onde servem pizza e massa em pleno centro de Lisboa. E não só os clientes acorrem a tal despautério como ninguém os repreende, multa ou - como deveria ser - lapida. Mas, claro, depois de arrotarem o pimentão e os maus enchidos abespinham-se com uma outra qualquer bandeira alheia, se agitada por mão-própria.

Finalmente, e para terminar este excurso sobre a minha afectividade pelas bandeiras: há umas décadas estava eu em Cabo Delgado. Fui passar um fim-de-semana a Pemba. Já na alvorada de sábado, num pequeno bar da Feira, um compatriota, em casa de quem eu estava aboletado, zangou-se comigo por razões que ele terá imaginado passionais mas que apenas provinham da sua intoxicação etílica. E decidiu bater-me, o sacana. "À traição", como se dizia na minha juventude: meteu-me os dedos nos olhos, atordoado fiquei, deu-me dois ou três socos de rajada, tudo isso antes de eu ter capacidade de lhe dizer "tem lá juízo!". Face a esta convocatória ficou ele num entroncamento. E nesse mudou de rumo, passando a partir a mobília do bar, mesas e cadeiras de madeira, diante da total estupefacção de donos, empregados e clientes. Após alguns estragos cometidos - que lhe custaram uns centos de dólares pagos umas horas depois, justiça lhe seja feita -, avançou para a decoração, que consistia numa colecção de bandeiras nacionais, tão típica em lugares de convívio de expatriados, como ali era (também) o caso. Mas então, ao perceber-lhe o intuito, gritei-lhe "ó pá, as bandeiras não!!... as bandeiras não!!!". Então ele, o compatriota, estancou. Olhou para mim. E chorou. Pois tudo, muito mais do que aquilo, não lhe estava a correr bem, como era óbvio. De seguida alguém o levou a casa. E eu fui dormir para o hotel, raisparta, que não sendo caro era bem puxado para a minha parca bolsa. Passadas algumas, poucas, horas lá fui comer o matabicho ao Viking, com menos mesas e cadeiras. Mas com as bandeiras nas paredes.

(Companheiro, se algum dia leres isto, repara que vai o texto acompanhado de um enorme abraço saudoso).

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