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Nenhures

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Leio que o novo deputado Pacheco de Amorim foi à tv reafirmar a pertinência da categoria "raça" (vá lá, ao menos não lhe chamou "etnia" como tantos dos bem-pensantes de hoje em dia). E proclamar, como se salvaguardando-a, a originária "branquitude" lusitana, à qual atribui significado politicamente relevante. Consta que o seu líder, o prof. Ventura, já saiu a terreiro atribuindo-lhe boa nota no exame oral.
 
Sei, por experiência própria, que é algo espúrio tentar convencer adultos racialistas (crentes nas "raças") da inadequação de tal crença. Pois as pessoas mais limitadas (o que é muito diferente de "incultas") vêm, à vista desarmada, que as populações têm cores de pele diferente e disso sentem como necessário corolário a existência de diferenças, em termos de lhes graduar habilidades físicas e/ou intelectuais. E mesmo morais (ou contextuais, no caso dos actuais missionários esquerdistas), do "malandros" ao "coitadinhos". Já para não falar de que julgam que tais cores, "rácicas", lhes atribui habitats apropriados, qual "cada macaco no seu galho". Ou seja, a operação intelectual - aparentemente simples - de retirar qualquer importância - biológica, cultural, política, intelectual - à cor da pele dos indivíduos é, afinal, coisa demasiada para as capacidades dos morcões.
 
Quanto à nossa - abençoada, é sempre bom lembrá-lo - branquitude lembro este episódio (memória que vai dedicada aos morcões racialistas a la CHEGA e aos outros morcões que não são CHEGA).
 
Tinha a minha filha Carolina apenas 7 anos e fotografou-me assim, decerto uma experiência que lhe foi traumática. Dizia-me eu, aquando nestes propósitos capilares (que foram breves), que estava "fazendo jus aos antepassados". Vendo a fotografia poder-se-ão retirar algumas conclusões individuais: um idiota em modo carnavalesco, um idiota tout court, um promíscuo homossexual dos anos 80s, um treinador de futebol das "distritais". Ou em termos colectivos, "raciais", um mero semita, qual "seu Nacib" da TV Globo, ou mesmo até um degenerado half-breed (melhor dizer assim, pois linguajar com pedigree de Ivy League, precioso para os esquerdalhos anti-americanos actuais).
 
Enfim, era eu mais ou menos assim (mas decerto que sem bigode), e um dia fui com dois colegas amigos, mais-novos antropólogos, petiscar almoço à "barraca" da Lenine onde o Eduardo White tinha então poiso certo. Quando entrámos ele ainda não chegara mas quem estava era um outro antropólogo, um ainda jovem norte-americano que fizera doutoramento sobre Moçambique. Juntámo-nos e lá vieram as moelas e as 2M, que se acumularam dada a boa conversa que foi decorrendo.
 
Aquele nosso competente colega é um louro (e talvez bem apessoado, ainda que as mulheres tendam a não concordar com os meus raros juízos nessa matéria). Mas não exactamente WASP, que o apelido lhe anuncia ancestrais mais euro-orientais. Porventura acalentado pelo incessante fluxo das garrafas, deixou-se contar a história da sua formação. Nesse rumo botou uma interessantíssima consideração - que eu logo fixei, pois similar ao que ouvira várias vezes de vários mais-velhos moçambicanos, como ao Monstro Sagrado Mário Coluna, ao Zé Craveirinha ou (talvez, não posso afiançar) ao Kalungano, como exemplos. Haviam-me estes contado do seu espanto quando conheceram Lisboa - ou Luanda, onde o paquete fazia escala - e viram pela primeira vez brancos a fazerem trabalhos braçais, como "almeidas" ou engraxadores...
 
Pois, para meu gáudio, o nosso colega narrou o mesmo. Californiano do sul, licenciara-se numa universidade dali mesmo. Depois, ainda muito jovem, partira para Londres para o seu mestrado. E naquela urbe espantara-se porque.... pela primeira vez via brancos na recolha do lixo e outros trabalhos braçais. E ao tal ouvir espantei-me eu também, num imediato "então? mas na tua terra quem é que faz tudo isso?". Ao que ele me disse "os latinos". E logo o interroguei "bem, então eu não sou branco!". Ao que ele, de súbito num ricto deveras atrapalhado mas... já não tinha volta a dar-lhe, sussurrou "não."
 
E todos nós-outros à mesa, que não ele, pois ali a sentir-se com as mãos pelos pés, nos rimos, eu num até desalentado "porra, que já nem branco sou". E os meus amigos num gargalhado "mais-velho, por esta não estavas tu à espera...".
 
E meter o que isto significa nas cabeças das pessoas é muito difícil. Quando as cabeças são fracas. E as pessoas estúpidas.

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