Católico não crente?

Sou ateu desde o berço - literalmente falando, pois o meu pai proibiu que me baptizassem. Disso não faço proselitismo (nem junto da minha filha o fiz, quanto mais com outros). Nem uma dessas estapafúrdias "identidades" com que os neo-commies querem animar as barricadas. Disso faço, e é muito, razão.
Dito isto, raras vezes me comovi tanto como quando, aos 24 anos, visitei o Tintoretto na Scuola Grande di San Rocco. Até às lágrimas, confesso envergonhado (homem que é homem não chora, muito menos diante de umas pinturas velhas). Certo, o ambiente soturno e, acima de tudo, a fome endémica de quem está em inter-rail terão ajudado a tal desvergonha. Ou seja, se dúvidas tivesse desvanecia-as ali: sou um cristão. Cultural.
Por isso percebo perfeitamente o que o desajeitado dr. Rui Rio quis dizer ontem, naquela disparatada declaração "sou católico, não praticante, não crente", ao querer remeter a sua posição para um conjunto de princípios "civilizacionais". Mas é um erro crasso, uma ignorância tétrica (ainda para mais num homem daquela idade). Para além de ser uma patética, de desesperada, piscadela de olho ao Portugal mariano. Pois os incréus (como eu, como ele) não são católicos. E há até quem defenda que os não praticantes não são católicos - mas essa será uma posição algo radical, que a igreja trata de modo algo abrangente.
Enfim, lembremo-nos de algumas gaffes de políticos: a (injusta) de Guterres com as contas da inflacção (ou do défice); a de Santana com os violinos de Chopin; a de Cavaco com Mann por Morus; a de Costa com vírus e bactérias. Etc. Podemos brincar com elas (com a de Guterres é imoral, dado o terrível momento que vivia). Mas não eram denotativas de algo particular, mas apenas uma distracção ou uma ignorância sectorial. Mas esta de Rio é bem diferente, denota uma irreflexão estrutural, sobre si mesmo e sobre a sua sociedade. E o seu Estado, ancorado numa laicidade.
Leio algumas pessoas (que não conheço) a defenderem as actuações de Rio nos debates, dizendo-o alvo de desinterpretações, de malévolas manipulações. Anunciando-o, até, como político superior a estes diálogos curtos. Estão enganados, e estas declarações mostram-no bem. É um trapalhão, cheio de si - condição que apela à irreflexão. O que nada augura de bom vendo-o como responsável político. Diz este ateu, cristão cultural, daquele ateu que se quer católico. (E não, isto não é uma mera questão de palavras).






