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23
Fev21

“Cesse tudo o que a musa antiga canta…”

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A semana do Império (3): um texto do Miguel Valle de Figueiredo, escrito para este blog. As fotografias também são dele.

 
“Cesse tudo o que a musa antiga canta…”  
 
O Exmo Senhor Dr. Ascenso Simōes sugere, entre outros e variados dislates, a demolição do Padrão das Descobrimentos. O excelso deputado, um socialista socrático - o que diz mais dele que do seu mentor - tem sido confundido com qualquer pessoa medianamente inteligente nos intervalos das suas declarações. Estas, por sua vez, quando chegam ao conhecimento público, mal interpretadas com toda a certeza, não ajudam a cimentar a primeira impressão que o seu silêncio normalmente cria. Há um padrão de inanidades descobertas sempre que esta excelência debita e que deve ser considerado. Corre nos burladeros alfacinhas que o homem não está bem. Se é de um destrambelhamento intelecto-mental, daqui lhe envio os desejos de melhoras mas, enquanto o estado se mantiver, talvez um retiro para lá de onde veio fosse uma opção saudável. Ascenso Luis pensa-se um revolucionário polemista enquanto que quem o lê ou ouve, pensa-o um estulto mal-criadote, um patetista encartado. Façanhudo e voluntarioso, destrata quem o sustenta. Vai tudo a eito com este paladino da modernidade que Portugal precisa e merece. Seja o juiz presidente do tribunal constitucional, seja o parvo comum que se encontra no Povo, nunca esquecendo a velha Teodora que queria as contas à moda dela. Trata os eleitores, que, sem lhe sequer conhecer a existência, permitem que se vá coçando lá nas bancadas traseiras da AR de eventual urticária nas partes baixas que parece afligi-lo. Não se retracta nunca - era o que faltava, seria confissão de fraqueza deste forte e temido tribuno, deste pontiagudo aríete da Democracia... - mas apagou, por exemplo, a conta de “Twitter” que, depois de apanhado com as calças na mão, tentou fazer passar por falsa. Ou diz que o que afirmou não é aquilo que percebemos. Estamos em presença de um erudito dado à figura de estilo e não de um solerte "boy" como parece ser. Porém, e segundo os aleivosos do costume, tudo aquilo é resultado de almoçaradas bem regadas que o hepático não aguenta. Outros, mais cientificamente, entendem que o proeminente político é possuidor de um cérebro de funcionamento intermitente. De qualquer maneira, pelas razões apontadas pelo insigne Ascenso, o monumento fascista ia raso. Considera o conjunto de Cottineli Telmo e Leopoldo de Almeida um mamarracho, para além da leitura simbólica que lhe atribui. Notando-lhe um certo ar patibular, medievo, pode pensar-se que está o Ascenso Luis a falar dele próprio depois de se ver reflectido numa qualquer superfície mais polida, talvez numa lata de solarina. Adiante, uma vez aberto o precedente, poupava-se tempo e o erário público, e corria-se pela vizinhança: rebentava-se com o Mosteiro de Santa Maria dos Jerónimos, obviamente com a Praça do Império e sua fonte brasonada - Império que o protestante afirma ter sido uma construção salazarista visto nunca ter existido essa designação plástica que só aparece primeiramente na Constituição de 33…, de seguida ia a cabra da Torre de Belém, para logo dinamitar os pilares do regime fascista que desde 1966 sustentam a ponte baptizada com o nome do ditador. Isto para começar. Parece que conhece a zona da Reitoria da Universidade de Lisboa, aquele conjunto de arquitectura austera tão querida do regime. Dada a extensão do “ campus”, um bombardeamento cirúrgico e era uma limpeza. Uns passos mais e tratava-se do Hospital de Santa Maria, está bem de ver. Talvez uma implosão fosse uma boa solução para aquela reaccionária construção. É cinematográfico e emulava o seu ex-chefe (a Torralta ali em Tróia). Isto só para começar e em Lisboa, porque o país tão atrasado como rico, tem de se ver livre por uma vez de tudo o que possa lembrar o antigo regime, como escolas, tribunais, barragens, outros hospitais, etc, etc. Apagando esses traços fascizantes, lava-se o passado, acaba-se com os fascistas e o futuro espera-nos radioso. Enquanto isso não acontece, mando respeitosamente Sua Excelência à merda.
 
Enfim, como se sabe, cada um diz aquilo que lhe apetecer. A questão está em saber em que posição se está para que os devaneios do pensamento traduzidos na famosa liberdade de expressão, serem admissíveis ou, pelo contrário, entrarem no rol das estultícias constantes de um futuro Anedotário Nacional. O maçador é sermos nós a pagar os salários, as despesas de representação dos cargos que gente sem préstimo conhecido vai ocupando.
 
Deixo ainda uma imagem de meados dos anos 80 que fiz a bordo de um héli da FAP. Um Aloueite daqueles que andou na Guerra Colonial ou do Ultramar, como se preferir, acompanhada da ideia do supra-citado cidadão Simões. Repare-se que se mantém o aterro porque senão lá iam os barcos à vela para próximo do que foi a doca do Bom Sucesso (será que o Ascenso, culto como é, saberá que todo aquele terreno já foi rio?) e a ferrovia que nos leva até Cascais. Por falta de talento não acrescentei uma sugestão artística à fotografia que talvez fosse do agrado estético do Ascenso: um conjunto escultórico equestre. Depois, aos Domingos à tarde para entreter a populaça entre dois pastéis de Belém, podia a obra contar com elementos vivos. Usar este pândego em substituição de um equídeo, a resfolegar-se de tanto escoicear, um seu hábito, seria uma animação e fonte de receita para os arranjos paisagísticos necessários posteriores à intervenção do caterpillar. Fica a ideia.

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