13
Ago24
Chamuças et al
jpt

Há dois anos o José Paulo Pinto Lobo - um tipo gentilíssimo, moçambicano de ascendência goesa que há décadas vive em Portugal, e com o qual me vinha a cruzar desde aquela já longínqua era dos blogs - mandou-me uma mensagem urgentíssima: "Zé, sei que gostas de chamuças, esta semana há umas festas populares na Encarnação, estará lá um amigo conterrâneo que é expert na matéria, vai provar, que ele tem lá uma barraca!" (um stand, como se diz no português burguesote de agora).
Arregimentei um comité amigo e avançámos. Em boa hora o fizemos. Chamuças de mestre, inigualáveis. Achares (chutneys, diz-se também) de grande quilate (e uma bebinca de trás da orelha, lembro). E um tipo porreiro ao leme - aliás, estava ali em navegação solitária - o Edgar Bragança.
Os anos passam e eu à míngua... Mas há dias avancei na gula. Ele tem a World Masala - Comida com C.alma, que vende comida para fora. Eu tinha uma almoçarada perto do Sado, uma "velha guarda" rabugenta iria enfrentar umas caras de bacalhau (a gente junta-se sempre para umas comidas esponjosas). Julguei ser boa ideia aparecer com uns agrados mais orientais. E perguntei ao Edgar o que me aconselhava a levar...,
"Nem pensar nisso", impôs ele, com entoação de tutor. "Anda cá buscar" e decidiu o quê, sem que eu opinasse. Apareci e avançou "isto não é a tua comida, não tem o punch que tu mais queres", "é algo mais calmo". E entregou-me duas generosas doses de Korma de Frango (um caril suave com amêndoas e caju). "Mas isto não é para comeres com os teus amigos", mandou. "É para jantares com uma amiga!" - dado ser um sabor mais adamado, mimoso melhor dizendo -, concluiu, notoriamente preocupado com a minha solteirice. Obedeci. Para depois constatar ser uma delícia, e a amiga também assim pensou, e melhor comeu - ainda que um pouco atrapalhada com a picância, mesmo se esta ligeira, e também algo horrorizada com o conviva que lhe cabia ali, a picar a malagueta vermelha fresca, que o Edgar tinha juntado à embalagem, qual bacela, e com ela aspergir a parcela que me coubera. "Consegues?", dizia ela, até afogueada só de ver....
No dia seguinte cruzei o Tejo, integrei a meia dúzia comensal. E antes da bacalhauzada fritámos a meia dúzia de chamuças que também tinham vindo mas que escondera do jantar - pois mimar as senhoras é bom mas também não em demasia. E há que cuidar dos amigos.
As chamuças, essas, estavam gloriosas! Recomendo. O homem é mesmo um Sacerdote do chamucismo.






