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Contos do Insólito

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Não lia Maupassant há décadas - julgo que nunca o tinha feito em português, e neste Contos do Insólito a tradução [de João Costa] funciona bem, pelo menos para um conhecedor sofrível de francês, como eu sou. Surpreende-me encontrar-lhe tamanha novidade nos contos, frescos, contundentes, finos, sob uma ironia deliciosa (que ilustro em trecho que abaixo transcrevo). E uma absoluta actualidade: por exemplo, o tema do conto "O Horrível" é a vulgarização da desgraça, a sua banalização quotidiana. Desvendando como da mescla de atrocidades mundiais que nos submerge se constitui, por critérios até desconhecidos, o excepcional que realmente sentimos como "horror", afinal os factos que são até aparentes minudências.

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"O que há sobretudo de encantador para um rapaz solteiro em ter por amante uma mulher casada é que ela lhe dá um interior sereno, amável, em que todos se ocupam de nós e nos apaparicam, desde o marido até aos criados. Encontramos ali reunidos todos os prazeres, o amor, a amizade, até a paternidade, a cama e a mesa, o que constitui enfim a felicidade da vida, com a vantagem incalculável de podermos mudar de família de vez em quando, de nos instalarmos alternadamente em todos os meios, o Verão, no campo, em casa do operário que nos aluga um quarto, e o Inverno em casa do burguês, ou mesmo em casa da nobreza, se tivermos ambição.

Possuo mais uma fraqueza: é gostar dos maridos das minhas amantes. Confesso até que alguns esposos comuns ou grosseiros me fazem repugnar as suas mulheres, por encantadoras que elas sejam. Mas quando o marido possui espírito ou encanto, fico infalivelmente loucamente apaixonado. Tenho o cuidado, se romper com a mulher, de não romper com o esposo. Arranjei assim os meus melhores amigos; e é deste modo que verifiquei, inúmeras vezes, a incontestável superioridade do macho sobre a fêmea, na raça humana. Esta proporciona-nos todos os aborrecimentos possíveis, faz-nos cenas, censuras, etc.; aquele que teria mesmo o direitos de queixar-se, trata-nos pelo contrári como se fôssemos a providência do seu lar."

(Guy de Maupassant, Misti, Recordações de Um Jovem Solteiro [1884], Contos do Insólito, Ulisseia, 2010, 69-70)

 

 

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